Catenae
7 Capítulo VII: Libertas
Notas iniciais
No time should ever go to waste
It's not that complicated
You're free to live your life at ease
No more restrain
No heed for shadows on your way
That try to steal your laughter
Your light will drive them all away
Be confident*
Quando chegara àquele mundo sem magia, o então chamado Gwenaël nunca imaginara que encontraria felicidade genuína ali. Ele tivera a esperança de conseguir se adaptar e viver vinte e oito anos em segurança e paz, preparando-se lentamente para o dia em que poderia se encontrar novamente com seu pai e retomar a busca por sua mãe – agora como parte integral dela.
Graças a August, entretanto, ele alcançara alguma felicidade naquele mundo antes que ambos precisassem voltar às suas respectivas missões. Não era uma felicidade plena, pois ele ainda sonhava com a sua família e acordava chorando e se perguntando onde estariam todos. Era alguma coisa, entretanto, e Gwenaël agradecia a qualquer força que o tivesse protegendo por isso.
Eles haviam passado apenas alguns meses no orfanato como amigos antes que Gwenaël tivesse coragem de contar a respeito do ouro que seu pai havia mandado com ele para que o filho vivesse confortavelmente enquanto estivesse sozinho. Ouro este que o menor enterrara próximo à árvore por onde havia chegado naquele mundo antes de começar a explorá-lo. Afinal, ele aprendera com sei pai que não havia um mundo sequer onde não era perigoso andar com uma quantidade significativa de ouro nos bolsos.
Quando a questão do ouro finalmente foi revelada, August e Gwenaël começaram a planejar um modo de viver longe daquele depressivo lugar onde se encontravam as crianças descartadas daquele mundo. Mesmo apenas a experiência de poucos meses vivendo naquele mundo dera aos dois a noção de que não havia muito o que duas crianças podiam fazer sem um adulto sem levantar suspeitas.
Os dois resolveram que a primeira coisa da qual realmente precisavam era de nomes discretos. August optou por manter o que haviam escolhido para ele quando ele chegara àquele mundo e acrescentou o sobrenome Booth, que era algo incomum, mas os ligava a um outro mundo. Gwenaël, por outro lado, optou por um anonimato ainda mais completo, escolhendo um nome que ouvira algumas vezes, Ryan, e o sobrenome Greenley, que também era comum. Ele se sentia um pouco triste em precisar abandonar o nome que sua mãe lhe dera, mas sabia ser algo necessário.
Restava, entretanto, decidir como sobreviveriam sozinhos naquele mundo que olhava crianças desacompanhadas com tanta desconfiança. A solução mais simples era a adoção dos dois, mas essa era uma possibilidade realmente muito remota – até mesmo eles sabiam. A outra, menos cômoda e mais provável, era organizar uma vida nômade, de modo que nunca ficassem em um local por tempo o bastante para que as pessoas começassem a se perguntar onde estariam os pais deles.
Havia ainda uma terceira opção, a qual não sabiam se daria certo. Eles muito bem podiam se refugiar próximo ao lugar onde todos as pessoas amaldiçoadas de seu mundo se encontravam. Não sabiam muito bem como aquilo funcionava, se seriam capaz de achar o lugar, mas Gwenaël – agora Ryan – tinha plena convicção de que ali estariam seguros dos olhos das pessoas do mundo sem magia. Eles, evidentemente, precisariam adquirir suprimentos fora do lugar de tempos em tempos, mas achavam que aquilo não seria um grande problema.
Eles não pensavam em ficar os vinte e oito anos completos ali, é claro; apenas o bastante para que o mundo sem magia parasse de olhá-los com desconfiança por sua tenra idade. Depois, sonhavam em conhecer pelo menos uma pequena parcela daquele mundo antes que tivessem que retornar ao lugar amaldiçoado para cumprir seus respectivos objetivos.
Eles precisavam garantir um segundo plano, entretanto, caso o primeiro falhasse e não conseguissem encontrar o lugar onde estavam todas as pessoas amaldiçoadas do mundo deles. Portanto, escolheram alguns lugares por onde poderiam transitar entre eles caso precisassem recorrer à ideia de uma vida nômade. Essa seleção, entretanto, foi bastante lenta, pois eles não queriam que fossem cidades muito pequenas – onde todas as pessoas provavelmente se conheciam – ou muito grande – onde podiam acabar se perdendo. Portanto, apenas dois anos após chegar àquele mundo Ryan e August finalmente puderam colocar em prática o seu plano.
Eles optaram, então, em uma fuga matutina. Certa manhã de verão, quando os deixaram na escola, em lugar de entrar junto com as outras crianças, August e Ryan se esgueiraram para fora do lugar e, com o dinheiro que haviam acumulado, pagaram uma passagem de ônibus para fora de Boston. Mais ou menos em meados do dia, os dois alcançaram o restaurante próximo ao lugar em que haviam aparecido, dois anos antes, e adentraram a floresta, tomando cuidado para não serem seguidos.
A árvore por onde haviam chegado foi fácil de se localizar. Então, Ryan começou a cavar até encontrar o ouro que havia escondido e um colar prateado, que colocou em volta de seu pescoço.
"O que é isso?" Perguntou um August curioso.
"Disseram-me que é um presente que a Blue Fairy me deu logo que eu nasci," Ryan respondeu, sorrindo. "Meu pai me contou que isso me torna um amigo das fadas, de alguma maneira."
August assentiu, admirado. E os dois começaram a sua jornada em busca do lugar onde os outros estavam, provavelmente uma cidade cercada.
Eles caminharam por algum tempo, seguindo as muitas estradas que saía de Boston. Eles geralmente caminhavam de noite e dormiam em lugares escondidos durante o dia, evitando o olhar das pessoas, guiavam-se usando uma bússola e um mapa desenhado que traçava os caminhos pelos quais já haviam passado.
Então, algumas semanas após a sua fuga, eles finalmente alcançaram a fronteira da cidade onde todos os outros estavam, que, ironicamente, chamava-se Storybrooke. Ryan imediatamente foi capaz de detectar a mágica que circundava o lugar, embora August não tenha sentido absolutamente nada.
Eles entraram nas fronteiras da cidade cuidadosamente, mas não precisaram caminhar por muito tempo antes de descobriram uma cabana de madeira próximo a um poço de desejos, onde Ryan sentiu fracos resquícios de magia. Eles resolveram que a cabana afastada da cidade era a sua melhor opção – longe o bastante de todos as pessoas que moravam tanto fora quanto dentro da cidade – e montaram armadilhas no seu entorno com o objetivo de avisá-los caso alguém se aproximasse.
Nas primeiras semanas, eles temeram que o dono do lugar chegasse repentinamente – e o maior medo é que a dona fosse a Rainha Má –, mas, passado algum tempo, eles perceberam que ninguém nunca visitava aquela cabana. Afinal, aquela era uma cidade amaldiçoada, e os moradores nunca faziam nada muito diferente em sua rotina.
Ryan e August apenas esporadicamente atravessavam a fronteira da cidade para comprar suprimentos, mas, fora isso, raramente saíam dos arredores da cabana, onde se sentiam mais seguros. Ocupavam-se lendo livros, vendo filmes na televisão que haviam comprado e colhendo gravetos para a lareira.
Eles apenas se aventuraram dentro da cidade de Storybrooke propriamente dita uma única vez durante à noite, e viram apenas uma velha senhora que August chamou de Granny junto de uma jovem que ele afirmou ser a Red. Viram também, para a surpresa dos dois, um Rumpelstiltskin andando com a ajuda de uma bengala, e enquanto August tentava impedir Ryan de se aproximar, eles avistaram a Rainha se aproximando de Rumpelstiltskin e recuaram, com medo de que ela percebesse que eles não se encontravam amaldiçoados. Após esse quase encontro, os dois resolveram que era melhor não se aproximar da cidade e não mais voltaram, embora a observassem ao longe por entre as árvores em noites mais escuras.
A vida dos dois não era exatamente cheia e atarefada, e não muito tempo demorou antes que os dois se sentissem inúteis e entediados, de modo que passaram a fazer pequenas viagens a Boston para conhecer a cidade.
Seis anos após eles irem morar na cabana, eles fizeram o longo caminho até Nova York com August dirigindo o seu novo carro e portando a carteira de motorista que ele havia mandado falsificar. No futuro, Ryan diria que poucas coisas que fizera o haviam assustado mais do que viajar tão longe com um August de dezessete anos de idade dirigindo.
A partir daquele momento, eles começaram a se aventurar cada vez mais longe de Storybrooke até o momento em que morar na cabana dentro da fronteira da cidade começou a lhes parecer muito pouco prático e eles passaram a cogitar a ideia de morar fora. Então, cerca de dez anos depois deles se mudarem para Storybrooke, os dois compraram um pequeno apartamento em Manhattan, onde passaram a viver.
Eles passaram, então, a usufruir do fato de que se encontravam em uma das capitais daquele mundo para conhecer o que não a televisão e os livros não conseguiam lhes ensinar a respeito dele. Eles passaram bons anos se ocupando basicamente em explorar aquela cidade. Ryan passava muito tempo perambulando pelas bibliotecas e lendo o máximo de informações que conseguisse abstrair dos livros que contavam a História daquele mundo. August, por outro lado, passou a frequentar bares em busca de companhia; e quando o mais novo o olhava com uma expressão de reprimenda no rosto, ele dizia achar que a melhor forma de conhecer o mundo sem magia era conversando com gente que morava ali.
Ryan também começou a praticar hipismo e esgrima em uma tentativa de imitação das artes que teria aprendido se tivesse crescido na corte de seu avô. Ele sabia que as técnicas que estava aprendendo não eram nada parecidas com as do seu mundo de origem, mas sentia que precisava de alguma educação para a nobreza para o caso de um dia retornarem para lá.
Ocorreu apenas cinco anos depois, quando August e Ryan resolveram checar se tudo estava bem com Emma: algo que mudou a forma como Ryan via a sua vida naquele mundo, ele conheceu Neal Cassidy.
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Embora Belle soubesse que Gold queria tê-la tirado do hospital no mesmo dia em que se reencontraram, alguns dias se passaram antes que pudesse fazê-lo, pois ela definitivamente precisava de cuidados médicos que ele não podia oferecer em sua casa. Dias esses em que não ficou um minuto sequer sozinha – o que era algo que a irritava um pouco após mais de trinta anos por conta própria.
Não que ela não apreciasse a companhia de seu pai, seu filho e seu marido ou compreendesse que eles queriam apenas mantê-la protegida enquanto a sua fraqueza física a impedia de se proteger. Belle se acostumara à solidão, entretanto, e hábitos adquiridos durante trinta anos eram difíceis de ser quebrados.
Naqueles dias, além da presença constante de Gold, Ryan e Moe, ela recebeu também a visita de alguns dos que conhecera antes de ser aprisionada.
Sir Cogsworth, que agora era um vendedor de relógios chamado Mr. Cloch, a visitara para dizer que a maldição havia deixado alguns dos livros dela em sua posse e que desejava devolvê-los. Miss Potts, naquele mundo conhecida como Miss Tyes, era a dona de uma casa de chás que ela chamou Belle para visitar e lhe trouxera flores que ela colhera de seu próprio jardim.
O Dr. Archie Hopper, conforme prometido anteriormente, viera lhe fazer uma avaliação e a diagnosticou como completamente saudável. E ela recebeu uma visita do pequeno e inteligente Henry, filho da Salvadora com Baelfire – embora ela tenha tido o cuidado de não mencionar isso a ele –, que parecia muito curioso em conhecer a mulher que se apaixonara por Rumpelstiltskin. Belle, entretanto, não pôde deixar de sorrir ao perceber alguns aspectos físicos que o menino possuía em comum com o seu avô e se perguntou se Gold desconfiara antes.
Apesar da crescente agitação que se formava dentro de si e do anseio por alguns momento sozinha, os dias se passavam rapidamente. Durante a maior parte do dia, Ryan se sentava com ela enquanto a jovem contava ao filho um pouco a respeito de seu primeiro ano de vida, e ele narrava as aventuras que vivera naquele mundo e tentava descrever coisas que ela nunca vira – algumas das quais ela sabia que Rose French possuía memória, mas que os remédios quase haviam apagado no decorrer dos anos.
Era estranho, Belle chegou à conclusão rapidamente, que o filho dela tivesse memória de mais anos de vida do que ela. Graças à magia que herdara da maldição de Rumpelstiltskin, ele não aparentava a idade que tinha, mas Belle já fizera as contas e sabia que ele possuía cerca de trinta e dois anos, cerca de dez anos mais do que ela.
Muitas vezes, quando ele pedia histórias de quando ela vivia no castelo de Rumpelstiltskin, a jovem se esquecia desse fator. Era como se eles estivessem de volta àquele primeiro ano de vida dele, em que ela contava histórias para o pequeno Gwenaël enquanto torcia para que ele enunciasse suas primeiras palavras.
Ela havia mentido para Ryan e para Gold, mas não podia mentir para si mesma: aquele mundo e aquele homem que – não parecia haver mais de três ou quatro anos – fora o bebê que ela lutara tanto para ensinar a falar a deixavam nervosa. Aquilo era novo e assustador demais para que ela se sentisse perfeitamente segura.
Não que não amasse o filho. Belle soube desde o momento em que olhou nos olhos dele pela primeira vez – ainda naquela cela escura onde passara os vinte e oito anos da maldição – que a adoração que a jovem sabia que ele sentia por ela era recíproca. Ele era o homem que Belle sempre esperara que a criança amorosa e inteligente se tornasse, alguém nobre, forte e leal.
Durante a noite, entretanto, enquanto Gold cochilava no sofá após um longo dia de trabalho – a jovem sabia que ele usava magia exaustivamente tentando criar uma poção que o fizesse capaz de atravessar as fronteiras da cidade sem perder a memória –, Belle precisava abafar os próprios soluços enterrando sua cabeça no travesseiro enquanto pensava em tudo o que perdera com Ryan, tudo o que ela jamais poderia recuperar. Então, exausta, ela dormia, mas seus sonhos eram ainda mais perturbadores do que a realidade, pois, quando não mostravam ela sendo tirada novamente das pessoas que amava, eram sobre uma criança que chorava e a chamava desesperadamente. Ela acordava, então, ainda se sentindo exausta e se esforçando para não chorar e assustar Gold.
Belle não tinha certeza absoluta do motivo pelo qual nunca contara ao marido a respeito de suas apreensões e seus arrependimentos. Ela queria acreditar que apenas não desejava que ele tivesse mais coisas com as quais se preocupar – afinal, a busca de Baelfire era mais importante naquele momento –, mas uma parte dela sabia que o verdadeiro motivo era o orgulho. Ela sempre fora a pessoa corajosa e destemida naquele relacionamento e não desejava que ele a visse de modo diferente.
A jovem ficou feliz, portanto, quando finalmente pôde sair do hospital e, a pedido dela, caminhar com Gold até a casa dele. A princípio, o prestamista não se encontrara satisfeito com o pedido de que fossem andando por todo o caminho, mas ele cedeu quando Belle comentou que queria ver a cidade e as pessoas que ali habitavam – ela não conhecia aquele mundo a não ser pelas memórias confusas e apagadas de Rose French.
No momento em que pisaram fora do hospital, eles se viram sendo saudados por uma mulher de cabelos curtos que Belle achava que conhecia vagamente e um homem alto de cabelos claros que ela sabia que nunca havia visto na vida. Gold pareceu os cumprimentar com alguma relutância, mas eles mal tomaram conhecimento do fato, olhando para Belle com curiosidade.
"Há muito tempo desde que nos encontramos pela última vez, lady Belle de Avonlea," disse a mulher, com um sorriso simpático. "Talvez não se recorde de mim, mas convivemos por algum tempo quando ainda éramos crianças."
Então, ela se lembrou da menina de olhos tristes e ombros curvados – como se já sentissem o peso das responsabilidades da realeza – com quem passara alguns anos de sua infância. Ela mudara muito, e não apenas porque crescera, mas também pela clara alegria que irradiava.
"Princesa Snow White, do reino de Waldeck**," disse Belle, perguntando-se se devia se curvar e decidindo rapidamente que, por tudo o que Ryan lhe contara, naquele mundo aquilo não fazia muito sentido. "É certamente uma grande surpresa revê-la."
Snow deixou escapar uma pequena risadinha.
"Tenho certeza que não deve ser uma surpresa tão grande assim, já que é por minha causa que estamos todos aqui, nesse mundo," ela disse, perdendo a postura formal que havia tentando manter até aquele momento. "Receio que você não conheça o meu marido, David."
"É um prazer conhecê-lo," ela disse, com um aceno de cabeça, e o príncipe lhe lançou um sorriso.
"Receio que Belle e eu estejamos ocupados no momento, queridos," disse Gold, com certa brusquidão. "Se puderem divulgar o motivo de sua visita, ficaríamos agradecidos."
Por um momento, Snow pareceu um pouco perturbada, mas se recuperou rapidamente.
"Peço desculpas por interrompê-los assim, de repente," ela disse. "Emma nos contou ontem à noite a respeito do pai de Henry e, já que somos parte de uma mesma família agora, resolvemos vir cumprimentá-la e dizer que, se precisar de qualquer coisa, pode vir me procurar. Sei que você tem o seu marido e o seu filho, mas, às vezes, nós precisamos da companhia de outra mulher."
Belle sorriu, genuinamente agradecida pela sugestão. Embora ela e Snow nunca tivessem sido amigas na infância, a jovem conseguia se ver amiga da mulher de espírito alegre que se apresentava diante dela.
"Se nos dão licença, eu realmente preciso levar Belle para casa antes que ela se canse," disse Gold; o seu tom era calmo, mas evidenciava que aquilo não era uma mera sugestão. "Afinal, ela acabou de sair do hospital e ainda não está completamente recuperada."
Snow balançou a cabeça afirmativamente e, com um último sorriso para Belle, ela e seu príncipe se afastavam.
"Venha, Belle," disse Gold, e ela percebeu que os olhos dele – poucos segundos antes, frios e secos – sorriam para ela. "Vamos conhecer a cidade."
Belle se agarrou ao braço que ele lhe estendia, sorrindo com genuína alegria, embora, no fundo de sua mente, um sentimento ruim parecesse estar lentamente despertando. Eles, então, caminharam lentamente juntos sem trocar sequer uma palavra por alguns minutos.
"Então, eis que Snow White em pessoa vem lhe cumprimentar," disse Gold, encarando-a com um sorriso. "O que achou dela?"
"Ela me pareceu uma pessoa muito alegre," disse Belle, com um sorriso. "Eu me lembrava dela como uma menina triste. O que a mudou tanto, Rum?"
"O amor a mudou," disse ele, com um sorriso. "Mas ela continua demasiado frágil para enfrentar a vida a qual foi destinada. Você verá que, no momento em que a primeira dificuldade se apresentar, ela voltará à pessoa que você conheceu quando criança. Ela não é uma pessoa forte como você, minha querida."
Belle engoliu seco. Sabia que Snow havia sofrido o mesmo que ela, que tivera que abandonar Emma ainda bebê à própria sorte para que ela não fosse amaldiçoada. Ainda assim, ela parecia radiante de felicidade.
"Belle, há alguma coisa que você não está me contando?" Perguntou Gold, o seu tom de voz deixava claro que ela não conseguira esconder a sua perturbação.
Belle respirou profundamente, tentando conter as lágrimas que teimavam em inundar os seus olhos. Ela sentiu que eles haviam parado de andar, e Gold caminhou para ficar na frente dela. Ele segurou o rosto dela entre suas mãos e ela foi forçada a encará-lo nos olhos.
"Eu não sou forte," ela disse, sua voz mais firme e calma do que ela esperava que saísse. "Rum, desde que me tiraram daquela cela, eu estou tão apavorada! Houveram algumas vezes em que eu tive que lutar para não implorar para que eles me colocassem ali de novo. É tudo tão novo e tão diferente!"
Belle se desvencilhou das mãos de Gold e o abraçou com força, enterrando o rosto contra o peito dele.
"Eu tenho tentado parecer forte por mim mesma, por você e pelo Gaël, mas a verdade é que eu não tenho mais tanta certeza se sou forte," disse Belle, por entre os soluços. "E Snow White; ela passou pelo mesmo que eu, ela também perdeu a filha dela e, mesmo assim, parece ótima. Eu não sei se um dia vou conseguir sorrir da maneira como ela está sorrindo sabendo que eu perdi o crescimento meu filho, sabendo que ele cresceu sem mim."
Eles permaneceram um tempo que ela não pôde determinar abraçados. Para a surpresa de Belle, Gold não se desvencilhou dela ou tentou fazer com que ela parasse de chorar, apenas retornou seu abraço, fazendo carinho nas suas costas enquanto ela desistia lentamente de lutar contra o choro.
Ela se afastou dele lentamente momentos depois, quando as suas lágrimas finalmente se secaram. Muitas pessoas diziam que chorar fazia a pessoa se sentir melhor, mas Belle se sentia ainda pior naquele momento, ela se sentia vazia e seca.
"Belle, sentir medo e angústia não é algo que torna você mais fraca," disse ele, secando o rosto dela delicadamente com a manga de seu terno. "Sentir não é uma fraqueza, como você me ensinou, tantos anos atrás."
Belle assentiu sem muita convicção. Sabia que, se os papeis estivessem invertidos, seria ela a dizer aquilo para Gold, mas não podia deixar de se sentir fraca. A vivência pela qual estava passando a fazia rever seus conceitos iniciais.
"A respeito de Snow. A situação dela não foi como a sua, Belle, ela não teve muito tempo para experimentar a maternidade antes que Emma fosse tirada dela," disse Gold, seus olhos nos dela. "Embora ela ache que sabe, não tem a menor noção do que perdeu, porque Emma foi tirada de seus braços nos segundos após ter sido colocada ali pela primeira vez. Você, Belle, teve um ano para ver a nossa criança crescendo e para criar expectativas e sonhos a partir do que estava assistindo. Tenho certeza que Snow lamenta os anos que perdeu com a filha, mas você, Belle, além disso, está sendo forçada a encarar o conhecimento de que seus sonhos para o crescimento do Gaël nunca serão concretizados."
Belle engoliu seco e o encarou. Era exatamente aquilo que estava sentindo naquele momento. A jovem se perguntou se ele sabia como ela se sentia por meio da sua experiência com Baelfire ou por meio de sua experiência com Ryan.
"Tudo vai ficar bem, minha Belle," ele disse, abraçando-a com força, e, pela primeira vez desde que saíra de sua cela, ela acreditou nele.
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Normalmente, as pessoas encaravam a barba por fazer com preguiça ou irritação; Neal, entretanto, a encarava com orgulho. Após cento e cinquenta anos aprisionado no corpo de um adolescente de quatorze anos de idade, se sentia aliviado por ver seu jovem rosto apresentando os primeiros traços de um envelhecimento que parecia simultaneamente muito rápido e muito lento.
Ele passara os primeiros anos após o seu retorno ao mundo sem magia tentando se acostumar com as inúmeras novidades que haviam surgido nos cento e cinquenta anos em que estivera ausente. Quando ele finalmente conseguiu se encontrar e começar a compreender aquele mundo, Neal conheceu Emma Swan.
É claro que ele não contou tudo a ela, ou a jovem o teria achado louco, falando a respeito de outros mundos, feijões mágicos, sombras que sequestram crianças e pessoas amaldiçoadas. Neal falou, entretanto, da infância pobre que vivera com o seu pai, que de um homem bom e honesto, que o amava profundamente, se tornou alguém cruel e sedento por poder, que acabou o abandonando.
Em retorno, Emma falou a respeito de sua vida, que não fora mais fácil do que a dele: abandonada ainda bebê, ela passara por várias casas adotivas, sendo jogada de uma para a outra até que, por fim, fugiu e começou a viver uma vida a partir de pequenos roubos.
Neal percebeu que eles possuíam muito em comum, a despeito de terem nascido em mundos diferentes. Ele se lembrava de uma frase que ouvira várias vezes na Terra do Nunca, uma criança perdida é uma criança perdida independentemente do lugar onde nasceu.
Ele rapidamente se apaixonou por Emma, muito pela compreensão que ela possuía de sua vida, mas também porque ela era o tipo de garota que ele sempre admirara e com quem sempre brincara quando criança: forte e determinada.
Então, quando eles finalmente decidiram que se amavam e queriam ter uma vida normal e fixa, o passado bateu às portas de Neal e ele foi forçado a adiar os seus planos. Algum tempo antes, ele trabalhara como zelador em uma joalheria, da qual acabara por roubar alguns relógios caros. Seu objetivo inicial fora vendê-los para ganhar dinheiro o bastante para recomeçar a sua vida no topo, mas percebeu que estava sendo perseguido e não poderia vender os relógios sem se denunciar e, por isso, os escondeu.
Aquilo, evidentemente, era algo que ele aprendera ser errado desde muito jovem, com o seu pai. Entre os meninos perdidos, entretanto, ele vira que muitas vezes a desonestidade era necessária para que a pessoa pudesse sobreviver. Mais de uma vez após o roubo dos relógios Neal se perguntou se ser um menino perdido o teria estragado.
Emma insistiu em permanecer ao lado dele, apesar do perigo de que os dois fossem pegos juntos e acabassem ambos na cadeia. Ela se ofereceu para buscar os relógios para que ele pudesse vendê-los e, assim, conseguir dinheiro para que os dois fugissem juntos para o Canadá. Ela o amava e ele a amava também, e o amor verdadeiro estava destinado a triunfar, certo? Com isso em mente, ele deixou que ela entrasse nisso e recuperasse os relógios que ele havia escondido.
Ela acabou por conseguir fazê-lo e se encontrou com ele, conforme haviam combinado, para entregar os relógios. Ele os venderia e os dois se reencontrariam, então, poderiam ir para Tallahassee juntos, construir uma nova vida, esquecendo o passado doloroso e observando apenas o futuro. Assim, ele a deixou e foi-se encontrar com o homem que prometera comprar os relógios dele.
Repentinamente, entretanto, ele percebeu que estava sendo seguido. Neal sabia que não se tratava de policiais, pois estes seriam muito mais silenciosos, e esse conhecimento o alarmou. Afinal, quem o estaria seguindo? Com qual objetivo? Nenhuma resposta possível o agradava.
Ele tentara enganar o seu perseguidor correndo e virando diversas ruas, mas acabou por se deparar por uma sem saída e percebeu que estava acabado. Estivera tão perto de conseguir uma vida limpa e feliz ao lado da pessoa que amava, e agora tudo estava acabado. Mesmo que fossem apenas assaltantes querendo os relógios, ele sabia que sem o dinheiro que conseguiria com a venda deles não seria capaz de fugir com Emma.
Dois homens se aproximaram lentamente, e Neal se preparou para brigar pela posse dos relógios – ele definitivamente não desistiria sem lutar.
Quando chegaram mais perto, Neal percebeu que não queriam brigar com ele. Um deles, um pouco mais velho do que ele, estava sério e aparentava preocupação; o outro, que não devia passar dos vinte anos, sorria larga e honestamente para ele. Ambos estavam muito bem vestidos, o que significa que tinham dinheiro. Não, aqueles dois não estavam atrás dos relógios.
"Baelfire," disse o mais novo, sua voz tremendo de alegria. "Eu não posso acreditar que nos encontramos! Tem que ser o destino."
E Neal Cassidy percebeu repentinamente que teria preferido os policiais ou mesmo ladrões querendo os relógios. Aqueles homens traziam notícias muito piores do que as que os outros significariam, pois tinham um laço com o passado que ele queria acreditar que tinha deixado para trás.
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Ryan não era burro ou completamente desatento, ele havia percebido que sua mãe não lhe contara tudo o que havia para ser contado. Sabendo que ela provavelmente estava bancando a mãe e o protegendo do que acreditava ser um conhecimento doloroso, ele não a pressionou. E não era apenas porque Ryan queria dar a ela a oportunidade de ser uma mãe para ele, mas porque queria se dar a oportunidade de ser um filho para ela.
De forma que ele deixou que ela mantivesse os motivos de sua inquietude e da tristeza que via no fundo dos olhos dela sem fazer quaisquer comentários, torcendo para que sua mãe comentasse com o seu pai o que estava acontecendo.
Ele não se espantou, portanto, quando Belle anunciou que começaria a fazer terapia com o Dr. Archie Hopper, na primeira noite em que os três jantaram juntos na casa de Gold. Até porque, o próprio psicólogo havia feito aquela sugestão, dizendo que, a despeito da jovem ser mentalmente saudável, esperava que ela apresentasse resquícios psicológicos dos tormentos pelos quais passara, e pediu que, caso isso ocorresse, ela fosse vê-lo.
Belle sorrira e o tranquilizara, dizendo que estava fazendo isso apenas porque andava tendo pesadelos e queria combatê-los, mas ela se esquecera da conexão que os dois possuíam – ou acreditara que, após tantos anos, ela fora rompida. Ryan sabia perfeitamente que havia muito mais do que aquilo que ela estava dizendo e apenas não sabia o que sua mãe não o estava dizendo porque não queria invadir a privacidade dela.
Depois disso, os dias começaram a passar mais rapidamente na medida em que Belle foi se acostumando com a rotina e as novidades do mundo sem magia. Ryan passava o máximo de tempo possível com ela, tentando lhe ensinar como cada pequeno detalhe funcionava naquele mundo. Às vezes, um August novamente humano se encontrava com os dois e ajudava o amigo a explicar a Belle certas coisas.
Certo dia, não muito depois do dia em que Belle saíra do hospital, Ryan encontrou os pais em uma discussão acalorada a respeito da biblioteca. A jovem parecia achar que o emprego como bibliotecária era uma boa opção para ela – e, por um motivo que Ryan desconhecia, estava convicta de que precisava de um emprego. Gold, por outro lado, achava que ela ainda estava muito frágil para cuidar sozinha de uma biblioteca que podia muito bem possuir livros muito perigosos.
O mais novo tentou se esquivar da discussão indo direto para o quarto que Gold havia lhe dado após a maldição ser quebrada, mas não teve tanta sorte. Belle o avistou e sugeriu que ele trabalhasse com ela, como seu assistente – e guarda-costas, embora não tivesse dito isso em voz alta –, o que, embora não tivesse feito com que o prestamista concordasse imediatamente, foi capaz de fazê-lo dizer que pensaria sobre o assunto.
Posteriormente, naquela mesma noite, Belle lhe disse que ele não precisava ficar com ela na biblioteca, desde que Gold não soubesse disso. Segundo a jovem, seu marido estava sendo apenas superprotetor e não havia nada com o que se preocupar. Ryan, entretanto, lembrava-se perfeitamente de que houvera um dragão no subsolo daquele edifício, de modo que estava decidido a ser assistente de Belle caso ela conseguisse convencer Gold de deixá-la administrar a biblioteca.
Além do mais, ele realmente achava que já estava na hora de arrumar um emprego naquela cidade, começar a construir a sua vida ali, e cuidar da biblioteca não parecia ser uma perspectiva ruim. Afinal, durante toda a sua vida, ele se sentira muito bem dentro de uma biblioteca.
Portanto, foi com alegria que recebeu a notícia de que ele e Belle poderiam reabrir a biblioteca e, quando sua mãe se aproximou para dizer que não havia necessidade dele participar do projeto, ele respondeu com sinceridade que era um prazer ajudá-la.
Não seria um trabalho fácil, ele percebeu logo que pisou pela primeira vez no lugar. A biblioteca não apenas estava empoeirada e suja, mas também completamente desorganizada, com livros em pilhas no chão e em cima das mesas. Eles passaram a primeira semana inteira abrindo o lugar e fazendo uma faxina generalizada, e apenas então começaram a catalogar os livros que haviam ali.
Ryan se sentia bem por possuir algo útil para fazer, e podia dizer que sua mãe se sentia da mesma maneira, pois ela se tornou mais alegre e sua aparência cansada começou a se desvanecer lentamente, sendo substituída por uma excitação crescente. Eles não conversavam muito enquanto trabalhavam, mas Ryan se sentia bem observando Belle com o canto do olho enquanto ela trabalhava. Ainda era difícil acreditar que conseguira.
Certo dia, cerca de dois meses após a maldição ser quebrada, Belle repentinamente parou de catalogar os livros da sessão de romance e o olhou com curiosidade. Ryan não demorou muito para perceber que ela o estava encarando e lhe perguntou o que ela estava fazendo.
"Ryan, você nunca me falou como conheceu Baelfire nas nossas conversas sobre esse mundo," disse a jovem, e havia um misto de curiosidade e temor em sua voz. "Por que está evitando esse assunto?"
"Você não compreende," ele disse, sabendo perfeitamente que essa resposta era insuficiente. "Ele não é quem você pensa que é."
"É mesmo? E quem é ele?" Perguntou Belle. "Ajude-me a entender."
Ryan limpou a garganta, incerto do que dizer a ela. Se estivesse falando com seu pai, certamente mentiria e se esquivaria rapidamente do assunto. Ele e Belle, entretanto, ainda possuíam aquela estranha ligação que nenhum dos dois compreendia completamente, e ela saberia se ele mentisse.
"Eu não vou contar ao seu pai, você sabe," ela disse, com um sorriso. "Isso é entre você e ele, e eu não tenho o direito de me meter."
"Na verdade, tudo o que eu tenho feito é tentar não me meter nesse assunto, porque isso não tem nada a ver comigo também. Isso é entre o meu pai e Neal," disse Ryan. "Neal – Baelfire – é um idiota rancoroso, mãe. Antes de virmos para Storybrooke, nós o chamamos para vir conosco, mas ele se recusou a vir. Não há espaço para o perdão no coração dele, existe ódio demais ali."
"Talvez você esteja certo, Gaël," ela disse, deixando escapar um suspiro. "Mas talvez ele o surpreenda, talvez ele encontre esse perdão que você acha que não existe. Talvez, seu pai seja a única pessoa capaz de fazer isso aparecer novamente."
Ryan sorriu tristemente. Ele duvidava, seu pai não era o tipo de pessoa que seria capaz de fazer aparecer qualquer coisa positiva no coração das pessoas – exceto se a pessoa fosse a sua mãe, mas Belle era única.
"De todo modo, ele não descansará até tentar," ela disse. "Tudo o que podemos fazer é torcer por ele e por Baelfire e, caso tudo dê errado, estar aqui para apoiá-lo. De todo modo, isso não responde a minha pergunta. Como você o conheceu?"
"Da maneira mais improvável," ele disse, sorrindo com a lembrança. "Era tarefa do August cuidar da Emma, garantir que ela estivesse bem e saudável. Quando ela tinha cerca de dezessete anos, nós a procuramos e encontramos com Neal Cassidy. No começo, não sabíamos muito bem quem era ele, mas quando eu o vi sorrindo, percebi que era o mesmo sorriso do meu pai, e depois vi mais semelhanças. Eu descobri que era o meu irmão."
Belle assentiu, e Ryan pôde perceber que ela estava surpresa com aquela reviravolta. Era incrível como duas pessoas de um mesmo mundo pudessem ter se encontrado em um planeta que, segundo Ryan dissera, era um lugar de tal tamanho que era quase impossível de se encontrar alguém em particular.
"Você sabe," disse Belle, com um sorriso caloroso. "Talvez fosse bom se você contasse ao seu pai tudo o que sabe sobre Baelfire. Poderia ser útil para ele não se machucar."
Ryan a encarou por um momento, decidindo-se a respeito de como respondê-la. Ele pensara naquilo, é claro, mas também sabia que era uma atitude inútil. Como a própria Belle dissera, Rumpelstiltskin estava determinado a reencontrar o filho mais velho, e não havia nada que qualquer um pudesse fazer para impedi-lo.
"Qualquer coisa que eu disser não fará diferença," ele disse, cabisbaixo. Ryan sabia que seu pai era um homem temido e odiado, e que havia uma razão por trás disso, mas não podia deixar de se lembrar do homem que ele aprendera a amar e não queria vê-lo se machucar.
"Não vai impedi-lo de partir nessa jornada," respondeu Belle lentamente, tocando suavemente o rosto dele. "Mas, talvez, o deixe psicologicamente preparado para o caso de sofrer uma decepção. Não que eu ache que Baelfire não o vá perdoar em algum momento futuro, eu acredito na determinação do seu pai, mas o conhecimento é uma arma e você pode dar essa arma a ele. Por que não?"
Ryan pensou por um momento, cogitando o que sua mãe o estava dizendo. Ele percebeu repentinamente que havia verdade nas palavras de Belle. O conhecimento é uma arma, e eu posso dá-la ao meu pai.
"Tudo bem," ele disse, por fim. "Conversarei com meu pai sobre esse assunto."
~~//~~
Não foi nada fácil rastrear Emma após tomada a decisão de encontrá-la. Ryan e August retornaram ao mesmíssimo orfanato onde a haviam deixado tantos anos antes e, evidentemente, não a encontraram lá. Descobriram que ela fizera dezesseis anos ali e, logo em seguida, fugira; algumas crianças mais velhas lhes contaram que ela previra que nunca seria adotada e resolvera começar a se virar sozinha.
Eles deixaram o orfanato, portanto, sem muito saber o que fazer. Apenas no dia seguinte resolveram que ela não poderia ter ido muito longe em apenas dois anos e decidiram que sua busca começaria naquela mesma cidade.
Após algumas semanas de uma busca frustrante, eles resolveram gastar contratar uma pessoa para procurar Emma por eles, embora não tivessem cessado de buscar nas ruas até tarde da noite todos os dias.
Não demorou muito tempo antes que recebessem uma resposta do homem que contrataram, que lhes disse que Emma e um sujeito chamado Neal Cassidy roubavam lojas de conveniência por toda a cidade. Ele comentou que os dois arrombavam casas e a ocupavam enquanto donos estivessem viajando e lhes deu o endereço do lugar onde estavam vivendo naquele momento.
Ryan e August seguiram até o lugar naquele mesmo dia, perguntando-se como Emma se metera em tamanha confusão, saindo com um ladrão comum enquanto cometia pequenos delitos. Resolveram observar, descobrir qual era a situação, antes de agir, e não precisaram fazê-lo por muito tempo antes que percebessem que Emma e Neal Cassidy estavam apaixonados e eram muito mais do que parceiros no crime.
O mais novo não sabia muito bem como, mas achava que conhecia Neal Cassidy de algum lugar. Sua impressão era tanta que August não conseguiu contê-lo quando, três dias após eles descobrirem Emma, Ryan resolveu caminhar em direção ao casal de modo despretensioso para observar o outro mais de perto. Os olhos dele e de Neal se cruzaram por um momento, e foi quando Ryan percebeu quem era aquele.
"É meu irmão, August," ele falou, sacudindo o amigo pelos ombros. "Como o meu irmão acabou se encontrando com outra pessoa do nosso mundo? Isso tem que ser o destino!"
August estava um pouco cético, mas decidiu aceitar as palavras do amigo. Afinal, ele aprendera a confiar nos instintos de Ryan após dezesseis anos de amizade; ele sabia que era mais preciso do que o normal e, provavelmente, um resquício da magia dele.
Eles resolveram não agir imediatamente, entretanto, precisavam esperar pelo momento certo para conversar com Neal e preparar seus argumentos. Eles reviram a conversa muitas vezes nos dias que se seguiram. Em dado momento, perceberam que algo no clima do relacionamento do casal mudara e foram pegos desprevenidos quando viram Emma carregando uma enorme caixa de joias e levando-a até Neal.
Foi quando eles perceberam que aquele era o momento certo. Se o que ocorrera fizera Emma executar um roubo muito mais arriscado do que os que normalmente fazia, algo definitivamente estava errado e era muito possível que, se esperassem mais um dia, a perderiam de vista.
Eles então, cercaram Neal em uma rua deserta. August lançou um olhar de alerta a Ryan quando ele avançou um passo em direção ao Neal, com um largo sorriso no rosto, mas o mais novo não pareceu notar.
"Baelfire, eu não posso acreditar que nos encontramos! Tem que ser o destino." ele disse, o entusiasmo transbordando em sua voz. E agora todos os nossos planos são jogados no lixo, pensou August, revirando os olhos, maravilha!
Ryan não se importava, entretanto. Quando Neal o olhou com espanto, deixando claro que ele era realmente Baelfire, o mais novo não pôde acreditar em sua sorte; sem sequer procurá-lo, ele encontrara seu irmão mais velho.
"Quem, diabos, são vocês?" Perguntou Neal, e Ryan se sentiu decepcionado com o tom de medo na voz dele.
"Esse aqui é o meu amigo, August. E a mim, você pode chamar de Ryan," ele disse, tentando esconder seus sentimentos. "Mas eu nasci Gwenaël no nosso mundo. Eu sou…"
"Eu não quero saber," Neal interrompeu, fazendo com que Ryan se sentisse ainda mais decepcionado. "Escutem, eu não quero mais nada com vocês e com o seu mundo. Isso faz parte de um passado que não tem mais nada a ver comigo."
"Você pode não querer nada com isso, cara, eu respeito isso," August disse, percebendo que Ryan estava chocado demais para responder o irmão. "Mas esse encontro não é sobre você, é sobre Emma."
"Isso não é verdade," falou Ryan, com um olhar carrancudo para o amigo.
"O que Emma tem a ver com isso?" Perguntou Neal, ignorando o comentário de Ryan.
O mais novo definitivamente não estava gostando dos rumos que estavam tomando aquela conversa e do modo como o irmão o estava tratando, mas entendia que Neal estivesse agindo daquela maneira. Afinal, ele não sabia.
"Será que dá para esquecer Emma por um segundo?" Perguntou Ryan, irritado. "Escute, Baelfire, você tem que ficar conosco. O nosso pai ficará muito feliz quando descobrir que eu o encontrei."
Neal encarou Ryan por um momento, perplexo. Ryan esperara por uma recepção mais calorosa de seu irmão mais velho, mas supunha que também ficaria surpreso caso um desconhecido aparecesse repentinamente em sua vida dizendo ser o seu irmão.
"O nosso pai?" Ele perguntou, após um momento de silêncio. "Como pode ser? O meu pai se tornou Senhor das Trevas, e eu soube que ele matou a minha mãe."
"Bom, nós somos meio irmãos. Sinto muito pela sua mãe," Ryan disse, feliz por seu irmão demonstrar algum interesse naquilo que ele estava dizendo. "Quanto ao nosso pai, ele pode ter sido Senhor das Trevas no passado, mas era bastante humano quando eu o vi pela última vez."
Neal pareceu, por um momento, esperançoso e curioso, e Ryan sentiu com alegria que talvez as coisas acabassem bem. Então, o mais velho balançou a cabeça negativamente, como que para espantar os pensamentos que se formavam dentro dela, e encarou o irmão com uma expressão zangada.
"Onde ele está?" Perguntou, e, pelo seu tom, Ryan teve certeza imediata do motivo para essa pergunta. "Ele não veio com vocês, veio?"
"Ele foi amaldiçoado," disse August rapidamente, retomando as rédeas da conversa antes que Ryan começasse a brigar com Neal. "Uma terrível maldição atingiu todos os habitantes do nosso mundo e os trouxe para cá. Agora, eles estão presos em uma cidade chamada Storybrooke, sem se lembrar de quem são."
"O meu pai foi amaldiçoado e trazido contra a vontade dele para esse mundo?" Perguntou Neal, com um riso nervoso. "Acho difícil acreditar que haveria alguém poderoso o bastante para amaldiçoar o Senhor das Trevas."
"Não alguém, algo. Uma terrível maldição," disse August, franzindo o cenho. "Os pais da Emma estão lá, e foi previsto que ela seria a única capaz de quebrar a maldição, de modo que viemos alertá-lo: Emma tem um destino importante, e você não deve interferir."
"O que te faz pensar que eu vou ouvir o que você está dizendo e fazer o que você pede?" Perguntou Neal, o brilho de rebeldia em seus olhos fazendo com que Ryan se lembrasse dolorosamente de seu pai.
"O destino de milhares de pessoas depende dela, e essa é a única maneira dela se reencontrar com os pais dela dela, que a enviaram para esse mundo antes da maldição os atingir para que, um dia, ela pudesse salvá-los," disse August, com seriedade. "Se você a ama verdadeiramente, deve deixá-la seguir seu próprio destino."
Neal encarou August com certa frieza, e Ryan se perguntou quando e por que o seu mudara tanto. Ele estava seriamente cogitando ficar com Emma de qualquer maneira, mesmo quando isso colocava em jogo a vida de milhares de pessoas que precisavam dela. Não se parecia em nada com o menino valente e nobre que Rumpelstiltskin descrevera para ele.
Então, Neal deixou escapar um suspiro resignado e assentiu, tristemente, sabendo que Emma o odiaria por muito tempo pelo que faria a seguir, mas esperando que ela um dia o perdoasse.
"Quando ela quebrar a maldição, cumprir o seu destino," disse Neal lentamente. "Vocês me avisarão?"
"Você pode ficar conosco. Quando ela for para Storybrooke, vamos encontrá-la," disse Ryan, esperançoso. "Você pode reencontrar a sua família, reconciliar-se com o nosso pai."
"Sinto muito, garoto," disse Neal voltando as costas para os dois. "Eu não tenho interesse em reencontrar o meu pai."
Ryan ficou observando seu irmão desaparecer em meio à escuridão da noite se sentindo desolado. Tudo fora em vão. Ele passara tantos anos longe de sua família – e passaria ainda mais alguns – para que seu pai tivesse a oportunidade de reencontrar um filho que o odiava e se recusava a vê-lo.
"Mandaremos um cartão postal," disse August, e Neal se voltou e assentiu por um momento. Nada daquilo importava para Ryan, naquele momento, pois tudo fora em vão.
~~//~~
Belle notou que, nas noites que se seguiam aos seus dias mais ocupados e cansativos, ela não tinha pesadelos. Por esse motivo, procurou encher seu cotidiano de tarefas, fazendo questão de reorganizar a biblioteca de Storybrooke e, quando possível, catalogando os objetos que Gold possuía em sua casa e em sua loja.
Lentamente, ela também voltou a praticar magia e percebeu que a ligação que possuía com o filho não desaparecera, como pensara anteriormente. Em pleno uso de seus poderes, ela percebeu que eles podiam se comunicar perfeitamente sem trocar uma única palavra, o que a assustou um pouco no começo, mas depois ela começou a perceber que gostava. Um elo que venceu a distância e o tempo.
Ela se sentia alegre com a presença constante de Ryan, embora soubesse que ele estava ali para protegê-la de algum perigo que Gold e ele achavam que ela corria. Era agradável conhecer o homem no qual havia se transformado o menino que ela ensinou a falar e andar, perceber o quanto ele amadurecera como homem e como feiticeiro. Belle ainda se sentia mal ao pensar nos anos que perdera, mas decidira que não podia perder tempo lamentando aquilo, ou perderia ainda mais.
Após ela convencer Ryan a contar ao pai a respeito de sua experiência com Neal, a jovem percebeu que os dois haviam se aproximado de maneira perceptível, tornando-se mais abertos um ao outro. Quando Belle perguntou a Gold o que ocorrera, ela descobriu que Ryan e o pai haviam feito o acordo de irem juntos buscar o último membro que faltava para aquela família ficar completa.
Belle podia contar nos dedos os momentos em que se sentira mais feliz do que nos dias que se passaram, quando os quatro – o pai dela incluso – começaram a agir como se fossem uma família, sem qualquer barreira.
Os pesadelos ainda assombravam as suas noites, mas Archie, que se tornava um grande amigo para ela, estava otimista que logo eles cessariam. Ele dizia que a jovem fora capaz de fazer um progresso enorme em um período muito curto de tempo, e Belle se encontrava feliz e ansiosa para que tudo aquilo se tornasse apenas uma lembrança.
Ela se encontrava esporadicamente com Snow – ou Mary Margaret –, que aparecia com frequência para conversar com ela enquanto estavam na biblioteca. Belle descobrira durante essas conversas que Gold estivera certo a respeito da outra mulher: ela possuía grande sensibilidade; mas ele se esquecera de mencionar a devoção que Snow sentia pelas pessoas que amava e seu desespero em mostrar-lhes a verdadeira felicidade. Rum sente desprezo por Snow, porque ela lhe lembra o que ele um dia foi: uma alma desesperada por garantir a felicidade de sua família, mas fraca demais para lutar contra o destino cruel.
Henry também era presença constante na biblioteca, e não apenas porque ele estava curioso a respeito dela, mas também por amar ler. Belle tinha que se lembrar constantemente de que ele não sabia que ela era sua avó por casamento para não fazer comentários que denunciassem que Emma estava mentindo para o filho. Ela definitivamente não queria entrar naquela briga, embora desejasse que um dia Henry soubesse a verdade. Belle estava certa de que aquele garoto se daria bem com o avô dele e se encontrava ansiosa para descobrir como seria aquela interação.
A vida transcorreu de modo normal nos seis meses que se seguiram enquanto Belle tentava aprender o máximo possível a respeito daquele mundo. Ela percebeu que os costumes ali eram muito diferentes daqueles do mundo onde nascera, e descobriu que gostava da maior parte deles, em especial, da liberdade que possuía a despeito de ser uma mulher. As pessoas ainda a olhavam de maneira estranha por ela ser a esposa do homem mais temido do lugar, mas, ali, Belle podia ser quem quisesse sem ser abertamente julgada.
Os seis meses se passaram rapidamente, mas ela logo se viu sentindo falta da proximidade que compartilhara com Gold no ano e meio em que haviam ficado juntos antes de que ele lhe contasse a respeito dos seus planos para encontrar o filho. Embora eles compartilhassem duas – às vezes, mesmo três – refeições por dia e deitassem lado a lado toda as noites, ela sentia a distância do marido, que estava focado unicamente em descobrir um meio de atravessar a fronteira da cidade.
Então, finalmente, certo dia, ele ligou para a esposa, pedindo-lhe que fosse encontrá-lo em sua loja. A urgência em sua voz era clara, e Belle pediu que Ryan cuidasse da biblioteca e rapidamente partiu para encontrá-lo.
Gold estava nos fundos de sua loja e saiu apressado ao ouvir o sino que indicava que alguém entrara. Belle o encarou, preocupação e curiosidade em seu olhar, e ele lhe lançou um sorriso genuinamente feliz.
"Eu consegui!" Gold disse, e a alegria e a ansiedade em sua voz foram o bastante para que a jovem soubesse imediatamente do que ele estava falando.
"Você quer dizer que pode cruzar a fronteira da cidade?" Ela perguntou, a excitação crescendo dentro de si.
"Eu posso!" Ele falou, abraçando-a com força. "Belle, eu esperei por isso por tanto tempo!"
"Vai dar tudo certo," ela disse, deitando a cabeça no peito de Gold. "Você vai encontrá-lo, e ele te perdoará!"
Ela ergueu o rosto e o beijou suavemente. Sem que a jovem notasse, o beijo foi se tornando gradativamente mais urgente até que eles se separaram, arfando. Ao sentir o desejo de seu marido contra si, Belle percebeu que ele também sentia falta de estar com ela.
"Rum," ela disse, um sorriso brincando em seus lábios enquanto ela segurava a mão dele e o guiava para os fundos da loja. Gold, entretanto, parou repentinamente de andar quando percebeu quais eram as intenções de sua esposa.
"Eu não tenho proteção aqui, Belle," disse Gold, o tom de sua voz mostrando que aquele fato não lhe agradava.
Belle se aproximou sem permitir que o sorriso morresse em seus lábios. Ela segurou o rosto de Gold entre suas mãos, fazendo com que ele a encarasse. O prestamista percebeu quando uma decisão se formou dentro de sua esposa quando os seus olhos azuis, escurecidos pelo desejo, emitiram um brilho especial e diferente.
"Não há nada contra o que eu queira me proteger," ela disse, o sorrindo crescendo a cada palavra em seus lábios e em seus olhos.
Gold precisou de alguns segundos antes que compreendesse exatamente o que Belle estava lhe revelando, e alguns mais para que chegasse à conclusão de que, se ela não precisava de proteção, ele também não precisava.
Então, pela primeira vez desde que perdera Belle, ele se deixou, então, mergulhar no mar de felicidade e paixão que era estar nos braços do seu verdadeiro amor.
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*Tempo algum deveria ser desperdiçado/Não é tão complicado/Você é livre para viver a sua vida à vontade/Não mais conter/Não prestar atenção nas sombras em seu caminho/Que tentam roubar sua risada/Sua luz vai levá-los todos para longe (Música: Storm The Sorrow – Epica)
Seja confiante
** Eu criei o nome do reino da Snow a partir do nome da mulher que dizem ser a inspiração para a lenda "Branca de Neve", Margarethe von Waldeck.
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