Catenae

8 Capítulo VIII: Renatus


Notas iniciais
As falas estarão entre aspas, e os pensamentos em itálico. "Renatus" significa renascido.

My home is far but the rest it lies so close
With my long lost love under the black rose
You told I had the eyes of a wolf
Search them and find the beauty of the beast
All of my songs can only be composed
Of the greatest of pains
Every single verse can only be born
Of the greatest of wishes*

Ryan não se sentia confiante a respeito do que estava por acontecer. Quando sua mãe desaparecera durante uma tarde inteira após uma ligação de seu pai, ele desconfiara que algo mudara. Quando ele chegara em casa e encontrara os pais juntos na cozinha, Belle falando animadamente enquanto Gold cozinhava — algo muito incomum —, ele teve certeza absoluta. Ultimamente, seu pai não tinha tempo para passar a tarde com a sua mãe, ocupado em encontrar uma maneira de atravessar a fronteira de Storybrooke sem que perdesse a memória.

Ele pigarreou para chamar a atenção dos pais. Sua mãe se levantou e adiantou para abraçá-lo, apresentando uma felicidade que ele não se lembrava de jamais ter visto no rosto dela. Ryan retribuiu o abraço, um pouco confuso, enquanto ouvia o seu pai falando que finalmente conseguira e que partiriam para se encontrar Neal em dois dias.

Naquela noite, quando os três se sentaram à mesa para jantar, Ryan contou novamente tudo o que sabia sobre Neal Cassidy, enfatizando as partes em que o irmão se recusara em ir com ele e retornar à sua família. Ele ainda contou que August mandara um cartão postal para o outro para informar que a maldição fora quebrada, conforme havia prometido tantos anos antes. Era possível, portanto, que seu irmão os estivesse esperando ou que tivesse se mudado.

Gold não se deixou abalar pela informação, disse que, caso não encontrassem Neal, ele entraria em contato com alguém que pudesse achá-lo ou voltaria para Storybrooke e cobraria o favor que Emma lhe devia, pedindo que ela o encontrasse — afinal, esse era o trabalho dela.

Ryan passou o dia seguinte na biblioteca com a sua mãe, a despeito da insistência dela para que o filho preparasse as malas para viajar no dia seguinte — ele podia fazê-lo durante a noite. Por volta do meio do dia, Henry apareceu parecendo muito estranho, embora não estivesse disposto a contar o que havia acontecido. Ele e Belle passaram uma boa parte da tarde lendo juntos o que pareceram ser todos os livros sobre contos de fada que haviam ali. Apenas na hora de fechar da biblioteca, Emma apareceu e levou um Henry estranhamente quieto consigo.

Moe apareceu naquela noite para jantar com eles e, quando Belle se levantou com Gold para levar os pratos sujos para a cozinha, ele prometeu que tomaria conta dela, embora Ryan soubesse que, naquele momento, era mais provável que sua mãe protegesse o seu avô.

Quando seu avô foi embora e sua mãe se retirou para se preparar para dormir, Gold se sentou ao lado de Ryan por um momento, a mão pousando no ombro dele. Os dois se encararam por um momento, e o mais novo percebeu que seu pai estava inseguro a respeito do que diria.

"Gaël," ele começou, lentamente. "Eu e a sua mãe conversamos, e achamos que é necessário que você retome os seus estudos em magia logo que retornarmos dessa viagem."

Ryan engoliu seco. O seu lado responsável e atento sabia que seus poderes começavam a sair de seu controle, o que tornava aquela medida necessária; havia uma parte dele, entretanto, que ainda não gostava da magia que havia dentro de si. Ele sabia perfeitamente que continha dentro de si uma poderosa magia das trevas, que ele não era capaz de não desprezar.

"Pai, você sabe muito bem que eu não quero ser um feiticeiro," falou Ryan, por fim, o seu lado rebelde se sobressaindo dentro de si.

"Nós já tivemos essa conversa," retrucou Gold, e Ryan pôde notar uma pontada de impaciência no tom de voz dele. "Você sabe perfeitamente que não pode fugir do que é. Eu sinto muito que tenha negligenciado os seus estudos nos últimos meses, mas, mais do que importantes, eles são necessários. Posso não ser mais o Senhor das Trevas, mas sou capaz de sentir o seu poder pulsando através de você."

Ryan não pôde argumentar contra aquilo. Ele definitivamente não gostava da sua magia, mas sabia que era uma parte dele que, enquanto negasse, o tornaria perigoso. O retorno da magia àquele mundo fora algo que ele nunca previra e definitivamente desgostava. Por que seu pai fizera aquilo?

A noite se passou lentamente enquanto Ryan se perguntava como terminaria aquela viagem. Ele não acreditava que tudo acabaria bem para Gold, mas tinha esperança de que seu irmão pelo menos conversasse com o seu pai, que houvesse pelo menos uma chance de uma lenta reconciliação. Quando a busca terminasse, entretanto, ele precisaria voltar a estudar magia, a encarar essa parte de si que ele profundamente desprezava — Ryan definitivamente não estava ansioso para isso.

O dia amanheceu apenas algumas horas depois de Ryan finalmente adormecer. Ele não se levantou imediatamente, mas logo foi forçado a fazê-lo quando seu pai bateu na porta de seu quarto, chamando-o. Ele trocou de roupa e desceu até a sala de estar, onde encontrou a sua mãe preparando o café da manhã enquanto Gold colocava a sua pequena mala no carro — estava claro que ele esperava que fosse uma viagem curta.

Ryan percebeu que havia algo de diferente em sua mãe, um brilho diferente que ele tomou por felicidade, quando ela se sentou ao lado dele, entretanto, Ryan percebeu que o sorriso que ela lhe lançava era triste.

"Mãe," ele falou, lentamente, enquanto cogitava como perguntaria a ela. "Você parece diferente esta manhã. Aconteceu alguma coisa?"

Belle o encarou com um olhar enigmático. Fosse o que estivesse acontecendo, ela parecia não ter conhecimento do fato, e isso alarmou um pouco. Ele a encarou por um momento e percebeu que o que estava vendo era um brilho concreto: sua mãe emanava um misto de luzes vermelhas e amarelas; normalmente, Belle emanava apenas cores claras, mas o vermelho que ela emanava era quase negro.

"Por que está perguntando, Gaël?" Perguntou a sua mãe, seu olhar apresentando apenas uma leve preocupação.

"As suas cores mudaram drasticamente," ele falou, esperando que Belle compreendesse do que ele estava falando. "As cores costumam mudar quando as pessoas sentem algo diferente, mas nunca vi uma mudança tão drástica em uma pessoa."

Belle pensou por um momento. Ela parecia ter entendido o que ele dissera, portanto, Ryan não sentiu necessidade de explicar com mais detalhes; a jovem parecia, na realidade, estar tentando decidir o que provocara tamanha mudança.

"O que você está vendo?" Ela perguntou, por fim, e Ryan notou através da ligação que compartilhavam que ela tinha alguma ideia que não estava compartilhando, embora não conseguisse identificar qual era. Ele optou, entretanto, por ignorar aquele conhecimento e deixar que ela formulasse o seu raciocínio.

"Há predominância do amarelo que é padrão em você e que geralmente significa que a pessoa está feliz; eu vejo também um brilho vermelho escuro," disse Ryan, parando por um momento para pensar no que significava. "Tons avermelhados podem significar ira ou paixão, mas podem designar magia também; o meu pai costuma emanar uma luz avermelhada quando usa magia, mas a sua magia costuma ser amarelo-avermelhado. Eu nunca vi você cercada por um vermelho tão forte."

"Onde se concentram essas cores?" Perguntou Belle, tocando o rosto do filho com delicadeza.

Então, por um momento, tudo deixou de fazer sentido dentro da cabeça de Ryan, quando uma junção de luzes e cores o cegaram completamente e ele ouviu a risadinha de uma criança. Quando voltou a si, percebeu que fora algo que acontecera por alguns segundos apenas dentro de sua cabeça, pois, embora tivesse parado de tocá-lo e o rosto esboçasse preocupação, ele ainda era capaz de sentir os dedos dela em seu rosto.

"Seu rosto se contorceu por um momento," disse Belle em um sussurro. "O que está acontecendo, Gaël?"

Ryan não respondeu imediatamente, tentando entender o que vira. Ele achava que aquela visão fora fruto da conexão que possuía com a sua mãe, mas não tinha muita certeza. Uma risada, uma risada de criança. Ele observou a sua mãe, o rosto coberto de um manto de luz amarelo-claro que era característico dela; desceu lentamente o olhar e percebeu que a luz avermelhada que a cobria era mais forte em seu ventre.

Uma criança! Ele percebeu repentinamente que sua mãe ouvira aquele pensamento, pois seu rosto se tornou um misto de espanto e prazer.

Não conte ao seu pai. Ryan ouviu ela dizer sem usar palavras, alguns segundos depois. Ele assentiu e segurou as mãos de sua mãe com força entre as suas e as levou aos lábios, em um gesto reverente. Não tinha ideia de como se sentia a respeito dessa novidade, mas sabia que sua mãe se encontrava muito feliz e, naquele momento, aquele conhecimento bastava.

Não muito tempo depois, Gold apareceu dizendo que havia colocado as malas no carro e pedindo que Ryan se apressasse. Se ele estranhou a visão de sua esposa e seu filho se encarando sem trocar sequer uma palavra, não comentou. Ryan trocou um último olhar com a sua mãe, que lhe suplicava novamente que não contasse ao seu pai sobre a descoberta que haviam feito. De novo, ele assentiu.

Então, Ryan se levantou e, lado a lado com a sua mãe, saiu da casa. Naquele momento, ele se permitiu sentir apenas felicidade, pois sua família em breve cresceria.

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Muito cedo, Gwenaël descobriu que a vida nem sempre era justa e que um final feliz nem sempre era algo garantido. Essa percepção começou logo que ele percebeu que, embora sua mãe e seu pai se amassem profundamente, ambos nunca estavam juntos e felizes. Não muito tempo depois, sua mãe foi tirada dele e seu pai, que ele não conhecia, mas amava, abandonou-o em prol de uma busca infrutífera por ela.

Foi naquele momento em que ele resolveu ser um herói como o daquelas histórias que sua mãe lhe contara. Um herói, ele sabia, poderia resgatar Belle e fazer com que seus pais — e ele — tivessem finalmente um final feliz.

Infelizmente, ser um herói demoraria algum tempo, pois, segundo seu o pai e o avô de Gwenaël, ele ainda precisava crescer um pouco antes de começar a sequer aprender o ofício.

Além disso, ele ainda precisava aprender a ser um feiticeiro e controlar os poderes com os quais nascera. Até onde sabia, heróis de verdade não faziam magia; eles costumavam ser nobres cavaleiros que apenas recorriam à magia de um bom mago quando era realmente necessário. Ser um herói e ser um feiticeiro não pareciam coisas compatíveis para o menino, mas ele resolveu que podia ser um herói diferente, desde que pudesse aprender o ofício.

Então, havia o terceiro e mais importante empecilho: a maldição de seu pai. Pois Gwenaël passara longas tardes sentado ao lado de Rumpelstiltskin enquanto ele lhe contava tudo o que sabia a respeito do mundo sem magia. Por tudo o que ouvira, o menino estava ciente de que provavelmente não haviam cavaleiros heroicos ali.

De modo que, novamente, ele se via forçado à concepção de que finais felizes eram apenas dificilmente conquistados. Se ser um cavaleiro heroico não era possível, ele precisa de um novo plano, um novo tipo de herói.

Então, certo dia, o seu pai o chamou em meio a uma de suas aulas de cavalgada com o seu avô. Foi quando ele lhe contou que, a partir daquele dia, os dois não poderiam se encontrar mais, pois ele precisaria organizar as últimas questões antes que todos fossem tragados pela maldição.

Ele chamou Gwenaël em um canto e pediu que ele lhe fizesse qualquer pergunta, prometendo responder sinceramente. Quando apenas balançou a cabeça negativamente e abraçou o pai, aos prantos, o menino percebeu as lágrimas quentes de seu pai nos seus cabelos e viu que ele estava também sentia a separação.

Talvez, apenas talvez, o meu pai não seja tão egoísta, afinal de contas. Afinal, para que possa trazer a felicidade do meu irmão, ele vai sacrificar tudo, inclusive sua nova família.

"Meu filho, quando a Blue Fairy vier lhe pegar, você deverá ir com ela e ouvir todas as recomendações que ela lhe der," disse Rumpelstiltskin quando eles se afastaram. "Mesmo sendo uma inimiga minha, ela é aliada sua e de sua mãe, e vai ajudá-los sempre que puder. Você deve confiar nas recomendações que ela lhe der, pois ela conhece os sonhos e anseios do mundo para onde você vai."

"Como ela pode ser sua inimiga e, ao mesmo tempo, aliada minha e da minha mãe?" Perguntou Gwenaël, curioso.

"Lealdade é uma questão muito complexa, Gaël, principalmente quando se está lidando com seres mágicos," disse Rumpelstiltskin, sua voz pesada de preocupação. "A fada foi aquela que salvou as vidas sua e de sua mãe durante o seu nascimento e foi quem lhe deu o cordão prateado que você tem no pescoço. Naquele dia, ela deu sua lealdade a você com a condição de que o seu cordão permanecesse eternamente prateado, um símbolo de sua nobreza e seu coração puro. Isso não foi leviano, menino, você pode confiar na fada."

Gweanël assentiu lentamente. Embora não compreendesse muito bem o que o pai estava lhe dizendo, ele sabia que podia confiar nele e, portanto, confiaria naquela tal de Blue Fairy.

Quando Rumpelstiltskin percebeu que o filho concordara, ele lhe entregou uma bolsa de couro e lhe disse que ali havia ouro suficiente para que ele pudesse viver confortavelmente quando alcançasse o mundo sem magia. O feiticeiro deu algumas instruções ao filho a respeito do ouro, dizendo para mantê-lo fora das vistas das pessoas.

Depois disso, passou alguns minutos dando últimas instruções a Gwenaël a respeito dos anos que se seguiriam, abraçou-o uma última vez e partiu.

O menino o observou desaparecendo sabendo que aquela não seria a sua última despedida e que, em breve, estaria sozinho em um mundo que não conhecia. Portanto, não ficou surpreso quando, apenas algumas semanas depois a Blue Fairy apareceu e pediu que ele fosse com ela.

Ele se demorou um pouco, dando um último abraço no avô, que conseguira não chorar e tentava parecer mais forte do que Gwenaël sabia que ele era. Isso porque o meu avô foi um cavaleiro e sabe que não se pode demonstrar fraqueza se quer fazer coisas heroicas!

O menino, então, segurou a mão da fada e os dois apareceram repentinamente diante de um enorme armário, completamente sozinhos. A Blue Fairy olhou para o menino com um misto de satisfação e temor, e Gweanaël ficou se perguntando no que ela estaria pensando, incapaz de acessar os pensamentos daquela mulher.

"Sei o que você está tentando fazer, pequeno, e é uma magia que você precisará saber com maestria antes de conseguir executá-la em uma fada," ela disse, um sorriso gentil em seus lábios. "Você precisa saber que não terá o benefício de sua magia no mundo para onde vai, Gwenaël."

"Eu sei, meu pai me contou," disse Gweanël, um pouco envergonhado por ter sido pego tentando entrar na cabeça de alguém. "Meu pai me disse que você é inimiga dele, mas é aliada minha e da minha mãe. Por que?"

"Eu não sou inimiga de seu pai, criança. Apenas alguém que cometeu o erro de entregar muito poder a uma pessoa jovem demais para saber lidar com ele," disse a Blue Fairy. "Seu pai nunca me perdoou por ter dado o feijão mágico ao seu irmão mais velho, Baelfire. Não creio que possa culpá-lo por isso. Mas sua mãe entende que pessoas cometem erros, e você, menino, é minha forma de apaziguar as coisas entre as fadas e o seu pai. Protegendo você, eu estou fazendo um favor ao mundo dos humanos e ao mundo das fadas."

"Porque vocês não querem que eu fique nas mãos da Rainha Regina," disse Gwenaël. "Não querem que ela tenha um poder sobre o meu pai."

"Um poder sobre o seu pai?" A fada deixou escapar uma risadinha. "Se a Rainha conseguir você, seu pai será o menor de nossos problemas."

"O que quer dizer com isso?" Perguntou Gwenaël, espantado. "Meu pai é o feiticeiro mais poderoso desse mundo."

"Era até você nascer," a Blue Fairy disse. "Hoje, é você o feiticeiro mais poderoso desse mundo, menino. E controlar uma criança é muito mais difícil do que controlar um homem adulto. Por isso, você deve viajar para o outro mundo antes da maldição. A Rainha Regina não pode te alcançar."

Gwenaël olhou estupefato para a fada, por um segundo sem saber o que dizer. Não. Ele sabia que era um feiticeiro e que tinha nascido com a magia, mas não tinha como ele ser mais poderoso do que o seu pai.

"Evidentemente, seu poder está muito pouco desenvolvido, por enquanto. Afinal, você ainda é uma criança e precisará crescer e aprender muito antes de se tornar uma ameaça ao seu pai."

"E tudo o que eu gostaria de ser era um herói," disse Gwenaël, tristemente. "Quero dizer, feiticeiros não podem fazer coisas heroicas; quando eles não são maus, estão presos às cinco leis fundamentais da magia e não podem fazer grande coisa."

A Blue Fairy o encarou por um momento, confusa e tocada pela confissão infantil daquele menino que ela já vira à distância demonstrar uma inteligência e sensatez muito acima do que se esperava de uma criança sua idade.

"Você está a caminho de um mundo em que a sua magia ficará adormecida dentro de você," falou a fada, lentamente. "O lugar perfeito para você provar que não precisa de mágica para ser herói. E ninguém precisa, Gwenaël, mas a magia não é um impedimento."

"Como vou aprender a ser um herói se tenho que aprender a ser um feiticeiro?" O menino perguntou, confuso. "Eu tento, mas quem pode passar o dia inteiro aprendendo a lutar espadas vai acabar se saindo melhor do que quem só pode aprender durante metade do dia, pois na outra metade tem que aprender magia."

"Mas o que faz um herói não é a capacidade de lutar, menino. O que faz um herói é o que existe dentro do peito dele, um coração puro e despretensioso, capaz de misericórdia, altruísmo e amor."

Gwenaël encarou a mulher diante de seus olhos com uma surpresa crescente, o que fazia com que seu rosto demonstrasse os seus pouquíssimos anos de vida. A Blue Fairy permanecia sorrindo confiante para ele, como quem confiava cegamente nele.

Então, eles ouviram passos se aproximando e a Blue Fairy indicou que ele entrasse rapidamente no armário. O menino se deixou sorrir de maneira confiante e prometeu a si mesmo pela primeira vez que recuperaria a sua mãe e restauraria a sua família. Então, com um último olhar para a fada, ele entrou no armário e tudo ficou repentinamente escuro.

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Desde que a maldição fora quebrada por Emma, muito havia mudado.

Não se esquecendo da maneira como Regina a ajudara a quebrar a maldição apenas para que seu filho vivesse, a loira fez o possível para a prefeita manter uma relação com ele. Para tanto, ela passou por cima do julgamento de seus pais — e Emma deixava escapar uma risada nervosa sempre que era forçada a pensar em David e Mary Margaret daquela maneira — e fez um acordo no qual as duas dividiriam a custódia de Henry.

Desde então, a despeito das dificuldades de adaptação das três partes envolvidas — e muitas discussões com David e Mary Margaret, que se perguntavam se seria uma boa ideia —, eles viviam em paz como uma família.

Então, após quase seis meses muito pacíficos, Mary Margaret resolveu que Emma já escondera de Henry a verdade sobre Neal Cassidy por tempo demasiado. Certo dia, quando os dois voltavam de um passeio até a única sorveteria da cidade, ela pressionou a loira na frente de seu filho e a verdade acabou por ser exposta.

O menino ficou visivelmente chateado com sua mãe por ter escondido a verdade sobre o seu pai dele, estendendo o sentimento para todos que tinham conhecimento do assunto e não haviam contado a ele. Por isso, o garoto passou as duas semanas seguintes com Regina, ignorando todas as tentativas de Emma em se reconciliar com ele.

Então, no dia em que Regina lhe disse que queria que ele voltasse para a casa de Emma e resolvesse as coisas com ela, Henry foi até a biblioteca esfriar a cabeça. Já ciente de que Belle era sua avó e Ryan, o seu tio, ele andava os evitando, mas era o melhor lugar para esquecer um pouco de seus problemas.

Ele não mencionou para os dois que já tinha conhecimento do parentesco, limitando-se a ficar em um canto da biblioteca, lendo. Quando o garoto notou, entretanto, que Belle insistia para Ryan ir para casa fazer as malas, ele não pôde ficar calado.

"Você vai sair da cidade?" Perguntou Henry, em dúvida a respeito de como se sentia a respeito. Afinal, aquele homem era parte de sua família, e ele sequer tivera a oportunidade de conhecê-lo.

Ryan o encarou, um sorriso em seus lábios que faziam com que ele se parecesse com Gold. Foi Belle que o respondeu, entretanto, dizendo que o prestamista finalmente descobrira uma maneira de sair da cidade e que ele e Ryan estavam indo se encontrar com Baelfire.

"Com Neal Cassidy, você quer dizer," o garoto perguntou, e percebeu o olhar ansioso de Belle. Ela assentiu e rapidamente mudou de assunto, perguntando o que ele estava lendo. Depois disso, o dia se passou rapidamente. A biblioteca estando vazia, Belle se sentou ao lado de Henry e leu com ele, mas a mente do garoto não estava ali, já formulando o seu plano.

Quando Emma o buscou, conforme Regina havia dito que aconteceria, Henry fez questão de dizer o que descobrira e prometeu perdoar a mãe se ela o levasse para conhecer seu pai. A loira tentou argumentar, dizendo que não sabia onde se encontrava Neal naquele momento, mas Henry disse que Gold e Ryan sabiam onde ele estava e partiriam no dia seguinte para encontrá-lo.

Emma foi contra, à princípio, dizendo que Gold não esperava ou desejava a companhia deles naquela viagem, mas Henry insistiu, dizendo que deveriam pelo menos conversar com ele. Desesperada por ganhar novamente a amizade de seu filho, Emma assentiu e deixou Henry no restaurante da Granny, fazendo o caminho até a loja de Gold.

"O que deseja hoje, Swan?" Perguntou Gold quando ela entrou na loja. "Receio estar ocupado no momento, então peço que seja rápida."

"Eu soube que você encontrou uma maneira de cruzar a fronteira da cidade e partirá para encontrar Baelfire amanhã," disse Emma, e o prestamista assentiu.

"Creio que veio aqui para garantir que eu cumprirei a minha parte de nosso acordo e não trarei meu filho até Storybrooke," ele disse, o sorriso ainda em seus lábios, o que fez Emma se perguntar se ele de fato cumpriria o…

O acordo! Aolongo dos meses de paz que se seguiram à quebra da maldição, Emma havia se esquecido dele. A loira repentinamente soube que tinha uma maneira de barganhar com Gold por um lugar para ela e Henry naquela viagem.

"Na verdade, eu vim porque gostaria de modificá-lo," ela tentava fazer parecer como se tivesse pensado naquilo antes de vir falar com Gold, embora soubesse que dificilmente o enganaria. "Acho que será do seu interesse, já que você não será mais impedido por ele de trazer Neal até aqui."

"Prossiga," Gold disse após alguns segundos de silêncio, parecendo interessado.

"Henry descobriu sobre o pai dele; aparentemente, Mary Margaret pensa que guardar um segredo é uma espécie de crime," disse Emma, com impaciência. "Agora, ele quer conhecer o pai dele e o fato é que eu nem sei por onde começar a procurar, mas o seu filho sabe. Quero um lugar para Henry e eu na sua viagem."

O sorriso compreensivo que Gold lançou para Emma quase fez com que ela desistisse de sua proposta.

"Problemas com o seu filho, eu percebo," disse ele, por fim. "Muito bem, como você disse, é do meu interesse fazer essa troca. Portanto, vocês podem ir conosco. Vamos buscá-los às sete horas da manhã de amanhã, estejam prontos."

Com isso, Gold voltou para os fundos de sua loja e, após alguns segundos sem reação, Emma se voltou para a saída e foi se encontrar com o filho, para quem contou as novidades da viagem que fariam no dia seguinte e começou a fazer o planejamento do que seria levado.

Pela primeira vez em duas semanas, Henry e ela conversaram sem nenhum resquício de qualquer animosidade entre si. Emma descobriu, naquele momento de intimidade entre ela e seu filho, que nem a perspectiva de reencontrar um dos grandes fantasmas de seu passado a fazia se arrepender do que fizera.

Mary Margaret e David, entretanto, não viram o acordo que Emma fizera com bons olhos, pois desconfiavam de Gold — e a loira sabia que provavelmente tinham excelentes motivos para fazê-lo. Para o seu alívio, entretanto, eles se abstiveram de fazer comentários na frente de Henry, esperando que o garoto fosse dormir antes de repreendê-la e pedir que tomasse muito cuidado com Gold. A despeito do fato deles serem membros de uma mesma família, o prestamista não conhecia o significado da palavra lealdade.

Embora Emma compreendesse o receio dos pais por Gold — e compartilhasse parte dele —, sabia que aquilo não era verdade, entretanto, pois o prestamista passara mais de dez dezenas de anos procurando o filho que perdera. Tendo ela própria passado pela experiência de abandonar o filho e se ver arrependida de tê-lo feito posteriormente, compreendia que lealdade maior do que a que Gold demonstrara ao longo desse mais de um século atrás de Neal não havia.

A despeito de não se arrepender dos novos arranjos que fizera com Gold a respeito do acordo de meses atrás, Emma passou uma noite muito inquieta. A loira não queria que Henry criasse um laço com Neal Cassidy apenas para que ele o machucasse posteriormente — como fizera com ela própria.

Sabia, entretanto, que devia aquele encontrou ao filho e achava que precisava confiar um pouco mais nele. Afinal, Henry sabia a história toda — pois Mary Margaret a fizera confessar tudo ao filho durante a fatídica noite, duas semanas antes — e, mesmo não passando de uma criança, era perspicaz. Mas Emma sabia que não era apenas a perspectiva de seu filho se machucar que a incomodava, também havia o fato de que não se considerava pronta para encarar o homem que tanto amara e que a traíra tão brutalmente.

Foi uma noite, portanto, muito mal dormida. E, enquanto Henry caminhava animadamente de um lado para o outro no apartamento durante a manhã seguinte, Emma tentava raciocinar como seria capaz de lidar com aquela situação insone. Ela duvidava que conseguiria dormir durante a viagem.

Quando ouviram a batida na porta e se depararam com um Gold visivelmente ansioso e um Ryan um tanto irritadiço, ela percebeu que a viagem seria ainda pior do que imaginar — se é que aquilo era possível. O mais novo ajudou David a carregar as malas até o carro de Gold enquanto Henry fazia incessantes perguntas a respeito do destino deles, que Emma descobriu ser Manhattan.

Quando Henry seguiu Ryan para fazer mais perguntas a ele — no momento em que Gold alegou não saber muito a respeito do homem que seu filho havia se tornado —, Emma e o prestamista trocaram um olhar temeroso, e a loira percebeu que o que sentiam não era tão diferente quanto imaginara. Gold e ela compartilhavam algo, finalmente: o temor pelo que o futuro aguardava.

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Estando preso e, durante a maior parte do tempo, sozinho, Rumpelstiltskin possuía tempo de sobra para pensar sobre o tudo o que passara. Ao contrário do que sugerira o pai de Belle, ele não gostava da maneira como o destino resolvera cobrar o seu preço para que ele pudesse reencontrar o filho, mas também sabia que precisava pagá-lo, caso contrário, seu objetivo jamais seria alcançado.

O fato é que, a despeito de ter mais de quinze décadas de idade, Rumpelstiltskin nunca havia se permitido parar para fazer uma reflexão a respeito de suas atitude e seus erros, com medo de que, caso o fizesse, enlouqueceria de dor e frustração. Ele agora pensando a respeito, achava que estivera certo ao ter medo, pois mesmo ele começava a perceber a loucura se espalhando lentamente por sua mente.

O feiticeiro sabia que seu primeiro grande erro fora tomar as palavras de uma Vidente como algo absoluto e concreto, achando que poderia enganar o destino. Tudo o que fizera fora adiar o inevitável, criando um destino ainda pior do que o que achara que evitara ao se machucar nos campos de batalha. Quantas pessoas sofreram por causa daquela decisão que lhe parecera tão simples no momento?

Não que ele se arrependesse totalmente. O fato de ter feito aquela escolha possibilitara Rumpelstiltskin de conhecer o seu corajoso e inteligente filho com Milah. Depois, ele se tornara Senhor das Trevas e, embora uma parte de si odiasse as trevas que apenas cresciam controlável ou incontrolavelmente dentro de si, outra se regozijava por esse ser o meio pelo qual ele salvara Baelfire e, depois, que o possibilitara de se encontrar com Belle e ter um segundo maravilhoso filho.

O fato é que ele não sabia como se sentia a respeito de tudo pelo qual passara. Evidentemente, o ser humano que Belle despertara dentro de si se entristecia por todo o mal que causara e todo o sofrimento que provocara, mas mesmo essa parte de Rumpelstiltskin sabia que não era capaz de se arrepender completamente tendo em vista que aquilo o guiara para Belle. Uma vez egoísta, sempre egoísta, eu suponho!

Mesmo quando seu eu interior chegou à conclusão de que jamais seria capaz de determinar se ele se regozijava ou não por sua condição de mais de dez décadas como Senhor das Trevas, não conseguia deixar de se sentir mal pela distância criara entre si mesmo e seus dois únicos filhos.

Rumpelstiltskin sabia que Baelfire fora a primeira oportunidade que o destino lhe dera para provar que não era como o seu pai, e que ele a jogara fora. Quase cento e cinquenta anos depois, ele lhe enviara outra oportunidade na forma de Gwenaël, e novamente Rumpelstiltskin estava deixando o filho partir muito cedo de sua vida.

A partir do momento em que Gwenaël finalmente começou a perdoá-lo, Rumpelstiltskin percebeu que a magia do garoto passou a se desenvolver de modo mais harmonioso e que seu aprendizado ocorreu de maneira muito mais veloz. A raiva não funcionava no menino, ele rapidamente notou, a magia dele estava ligada ao equilíbrio de emoções.

Gwenaël possuía um tipo muito especial de magia, embora o feiticeiro não fosse capaz de defini-la com algum nome que conhecesse. Talvez, fosse algo único.

Aquela criança, evidentemente, não era a primeira de um Senhor das Trevas. A própria tataravó da Rainha Regina fora fruto de um estupro cometido por Zoso, o Senhor das Trevas que Rumpelstiltskin matara para adquirir o seu poder. Essas crianças costumavam ter forte aptidão para a magia das trevas, mas raramente eram sãs — mesmo Regina, que possuía apenas um pequeno resquício do dom de sua antepassada, também tinha um traço da loucura característica dos descendentes dos Senhores das Trevas.

Seu filho, entretanto, não era como os demais. Primeiramente, ele não havia sido gerado de uma relação de estupro, mas sim do amor verdadeiro, a mágica mais poderosa existente em qualquer mundo. Em segundo lugar, Rumpelstiltskin não mais era Senhor das Trevas quando o menino foi concebido, embora possuísse alguns traços da sua antiga maldição. Não, como o feiticeiro soubera mesmo antes do nascimento do menino, Gwenaël era diferente.

A magia do amor verdadeiro, o feiticeiro não tardou a descobrir, era o que mais predominava dentro dele. Havia trevas, e Rumpelstiltskin as vira com clareza nos muitos momentos de raiva do filho durante as primeiras aulas que ministrara para ele. Ele sabia, entretanto, que só percebera aquilo por estar acostumado às trevas, pois a magia do amor verdadeiro quase erradicava o pouco que havia de trevas dentro de Gweanël.

Embora aliviado por seu menino ser capaz de erradicar as trevas que haviam dentro dele usando a magia do amor verdadeiro da qual ele nascera, Rumpelstiltskin sabia que aquilo também gerava alguns problemas sérios. O feiticeiro não saber determinar o tipo de magia que Gwenaël possuía também tornava o ensino de magia algo ainda mais complexo do que ele previra anteriormente.

Havia mais do que os resquícios da magia das trevas dele e a magia do amor verdadeiro dentro do menino, e Rumpelstiltskin várias vezes se perguntou a respeito daquilo que a Blue Fairy mencionou quando haviam se encontrado pela última vez: o menino possuía uma bisavó fada.

Se havia um tipo de magia que o feiticeiro pouco compreendia era a magia das fadas. Ele sabia como utilizar pó de fada e a magia da varinha mágica, mas tinha conhecimento de que aquilo era só um modo de poupar as fadas do preço da magia e que elas não necessitavam realmente daquilo para fazer mágica. A magia, ele sabia, estava mais ligada às asas da fada do que à varinha, mas a natureza dela era desconhecida a Rumpelstiltskin.

O feiticeiro se perguntava constantemente — mesmo antes de ser forçado dentro daquela cela infernal — qual seria o papel de seu filho mais jovem no futuro. Uma coisa era certa, entretanto, Gwenaël estava destinado a se tornar uma das pessoas mais poderosas daquele mundo. Um grande feiticeiro, irmão gêmeo de sua própria magia, e um poderoso e inteligente mago. Aquilo assustava Rumpelstiltskin, pois ele sabia que qualquer um, mesmo a mais nobre das fadas, podia ser corrompido por magia.

Um de seus últimos pensamentos antes de perder as suas mais de quinze décadas de vida, tornando-se o frio e calculista Mr. Gold, foi que ele faria de sua grande prioridade reencontrar o filho mais novo quando a maldição fosse quebrada e não mais perdê-lo de vista. Estando ao lado de Gwenaël, talvez pudesse garantir que seu coração continuasse para sempre puro como o da mãe dele.

E, por quase três décadas, ele não se lembrou da promessa. A inquietude, entretanto, permaneceu mesmo durante esse período; em especial, quando ele visitava o florista, deparava-se com uma foto da filha dele e, por um segundo, seu coração acelerava de preocupação.

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Ryan não ficou satisfeito ao ouvir que Emma e Henry os acompanhariam até Nova York. Ele sabia que a presença dos dois apenas deixaria o seu irmão mais velho confuso e os atrasaria na cidade, algo que Ryan definitivamente não desejava.

Ele havia prometido a sua mãe que não contaria ao seu pai sobre seu novo irmão ou sua nova irmã para que isso não se tornasse um impedimento para a viagem, mas a perspectiva de deixar Belle sozinha na cidade por muito tempo não o agradava. Ele temia que a vulnerabilidade dela se tornasse evidente e os inimigos de seu pai se aproveitassem disso para tirá-la novamente deles.

O garoto, Henry, passou a primeira metade da viagem tentando extrair informações dele a respeito de seu pai, e Ryan tentou fazê-lo ver Neal como um homem sem lealdade ou amor no coração na esperança de que o garoto desistisse de se encontrar com ele. O plano não funcionou, entretanto, pois o garoto estava decidido.

Por fim, Gold pediu que Ryan parasse de tentar assustar o garoto, o que provocou uma risada de Henry. Ao contrário do filho, entretanto, Emma ficou visivelmente abalada com a descrição, como se os seus piores temores estivessem se concretizando. Ryan não se preocupou em retirar as palavras que dissera, julgando que a loira merecia aquilo depois de traí-lo de maneira tão baixa meses antes.

Após isso, a viagem seguiu com os quatro ocupantes do carro em completo silêncio, enquanto Ryan dirigia lentamente até o aeroporto de Boston. Gold parecia bastante impressionado com o lugar; embora tentasse demonstrar indiferença, seus olhos brilharam de maneira peculiar, o que fez com que seu filho tivesse que conter o sorriso.

Ryan segurou a mão do pai, que estava visivelmente aterrorizado quando o avião decolou. Era interessante, o mais novo pensou, que o poderoso Senhor das Trevas se sentisse tão vulnerável em um mundo que ele sempre julgara inferior ao seu. Ignorância causou o desprezo e agora causa o medo.

Eles chegaram a Nova York cerca quatro horas após deixarem Storybrooke. Passaram apenas brevemente em um hotel para deixar os seus pertences e, logo em seguida, seguiram para o lugar onde Neal morava. Gold e Emma se tornando a cada minuto mais apreensivos, enquanto Henry estava cada vez mais falante e agitado.

No caminho, Ryan sugeriu que Emma fosse a pessoa a se comunicar com Neal a princípio; ele sabia que seu irmão seria mais receptivo à ex-namorada do que ao seu pai. Gold pareceu um pouco decepcionado, mas acabou por concordar com o plano de seu filho, entendendo que era necessário.

Eles seguiram para dentro do prédio indicado por Ryan e Emma tocou o interfone do número que o outro lhe dera.

"Emma Swan," disse Emma para o interfone, com a voz entrecortada. "Se você tem algum resquício de dignidade, abra."

Como Ryan previra, a porta se abriu quase imediatamente e os quatro foram admitidos dentro do apartamento. Percebendo a leve hesitação de seu pai, o mais novo tocou levemente o braço dele para lhe dar forças, guiando-o lentamente para dentro do prédio.

Enquanto o elevador subia, Ryan observou o rosto de seu pai desfigurado em uma expressão de profundos medo e ansiedade. Ele jamais vira uma pessoa tão vulnerável quanto Gold estava naquele momento, e a presença de Emma e de Henry ali apenas fazia aumentar a preocupação de Ryan. Ele está nervoso o bastante para não conseguir esconder o que está sentindo!

A porta se abriu. Henry foi o primeiro a sair do elevador e seguir pelo corredor diante de si, Emma o seguindo rapidamente. Ryan olhou para o pai e os dois saíram lado a lado.

Eles chegaram ao final do corredor, onde um homem alto, sério e de cabelos grisalhos olhava para Emma como se Henry sequer estivesse ali. Demorou alguns segundos antes que ele voltasse os olhos para os outros dois membros do grupo, e sua expressão se fechou ainda mais.

"Você trouxe o meu pai?" Gritou Neal, exasperado, olhando de Ryan para Emma, como se culpasse ambos.

"Você é o Baelfire?" Perguntou Henry, os olhos brilhando de um jeito peculiar. E Neal o encarou como se o visse de fato pela primeira vez, depois assentiu.

"Quem é você, garoto?"

"O meu nome é Henry," o menino disse, um enorme sorriso em seu rosto. "Eu sou seu filho."

Neal perdeu completamente a fala, nem por um segundo pensando que o garoto mentia. Não, ele podia ver claramente traços que se pareciam com os dele, com os de seu pai. Com um suspiro, Neal abriu espaço para que o grupo entrasse no pequeno apartamento onde ele morava.

"Você não me contou," o homem se voltou para Emma assim que todos entraram e ele pôde fechar a porta do apartamento. "Como pôde esconder o meu filho de mim por todos esses anos?"

"É sério que você vai me acusar por causa disso?" Perguntou Emma, exasperada. "Você me mandou para a cadeia apenas para se safar e fugir sozinho com o dinheiro dos relógios que roubou, e esperava mesmo que eu te mandasse um cartão postal da prisão informando que teríamos um filho juntos?"

Neal pareceu, por um momento, sem palavras. E Ryan se aproveitou do momento para dar um passo a frente.

"Escutem, essa reunião familiar é ótima, mas eu realmente preciso voltar para Storybrooke, onde minha mãe foi deixada sozinhae desprotegida," disse o mais novo. "Então, se puder tratar com o meu pai primeiro, eu ficaria imensamente grato."

O olhar que Neal direcionou para Ryan foi puro rancor. Estava claro que ele culpava seu irmão mais novo por ter trazido seu pai consigo.

"Bae," disse Gold, pela primeira vez direcionando uma palavra para o seu filho mais velho.

"Não," Neal interrompeu bruscamente. "Escute, eu confiei em você. Apesar de tudo o que você já tinha feito, eu acreditei em você, e você traiu a minha confiança naquele dia. E, por causa disso, eu passei mais de cem anos preso em Neverland por sua culpa. Então, não venha pedir que eu te perdoe ou nada desse tipo, porque não vai acontecer."

O olhar que Gold lançou ao filho ao som da palavra "Neverland" fez com que Ryan se sentisse repentinamente intrigado. Seu pai estivera naquele mundo, e havia algo ali que definitivamente não o agradava. Fez uma nota mental para perguntar ao pai depois a respeito disso.

"Bae, por favor, eu me arrependi de tê-lo deixado ir no momento em que você caiu naquele portal, passei todos esses anos procurando por você," disse Gold, e Emma se sentiu compelida a não encarar o seu mais formidável adversário em Storybrooke naquele momento de fraqueza.

"E quantos sofreram para que você pudesse alcançar o seu objetivo?" Disse Neal, e os ombros de Gold caíram ainda mais. "Está acabado. Volte para a sua cidade e para a sua nova esposa e seu novo filho, eu não quero ter mais nada a ver com você e a sua magia."

Então, antes que Neal tivesse a oportunidade de reagir, um soco o atingiu na bochecha esquerda e ele caiu com força no chão. Foi preciso que Emma segurasse Ryan para que ele não avançasse novamente contra o irmão quando ele começou a se levantar.

"Você é um idiota," falou Ryan, por entre os dentes. "Poderia ser feliz e ter uma família. Minha mãe está muito ansiosa para conhecer você e para te receber, mesmo depois de eu ter contado a ela todas as coisas injustas que você disse."

"Você é apenas um menino mimado que não entende do que está falando," disse Neal, agora visivelmente irado. "Volte para a sua família e…"

"Parem, vocês dois," falou Emma, e os dois a encararam com ódio. "Ryan, pare de ser tão infantil e descontrolado. Neal, sei que você odeia o seu pai, mas talvez devesse dar o benefício da dúvida para a sua madrasta. Ela não é quem você pensa que é."

"E como você acha que eu penso que ela é, Emma?" Perguntou Neal, tentando conter a ira em sua voz, afinal, ele ainda precisava do perdão dela.

"Eu já ouvi muitas histórias do seu pai através do Henry e dos meus pais. Imagino que você pense que ela é o tipo de mulher que ficaria com um homem como o seu pai, alguma interesseira sedenta por poder. Isso não é verdade," falou Emma. "Eu tive a oportunidade de conhecer a esposa de seu pai e, se você se der a mesma oportunidade, verá que ela merece o nome que possui, tanto pelo que tem em seu exterior quanto pelo seu conteúdo."

"E qual nome seria esse?" Perguntou Neal, desconfiado.

"Belle."

E, pelo modo como Neal olhou de Emma para Gold, a loira percebeu instantaneamente que ele entendera o ponto no qual ela queria chegar — embora Gold falhasse em compreender. Ele percebeu instantaneamente a que conto de fadas aquilo remetia e se perguntou o quão verdadeira era a versão que conhecia. A jovem capaz de domar até mesmo o mais cruel e poderoso dos monstros, Belle.

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*Minha casa é longe, mas o resto encontra-se tão perto/Com o meu longo amor perdido sob a rosa negra/Você disse que eu tinha os olhos de um lobo/Procure-os e descubra a beleza da besta/Todas as minhas canções só podem ser compostas/Das maiores dores/Cada verso só pode nascer/Dos maiores desejos (One More Night to Live – Nightwish)

Notas finais
Então, pessoas maravilhosas que leem a minha história. Primeira coisa, desculpem pelo atraso, não sei o que está rolando que estou escrevendo tão devagar, mas estou me esforçando para acelerar. Segunda coisa, eu tinha prometido que esse seria o último capítulo, mas foi muito mais informação do que eu esperava e não consegui fazer em um capítulo, então haverá um epílogo. Ele será curto e terá um único flashback e trará a conclusão dessa história, mas prometo que haverá uma terceira parte, que vou escrever assim que terminar o meu projeto "Wild Child" e, talvez, um outro que estou preparando. Para não me afastar desse universo, estou aceitando sugestões para one-shots nesse universo que eu criei. Se quiserem sugerir temas, só mandar por MP ou Facebook ou o que for. Terceira e última coisa, por enquanto, eu comecei um podcast de Once Upon a Time chamado Story Cast, aqui vai nosso canal no YouTube: (link do youtube)/ channel/ UCvXR3h5D5XSsrEEFnbqQVkQ (tirem os espaços). Valeu a todos por acompanharem, lerem e comentarem!! Até o próximo capítulo!