Catch me | Bella Ramsey
2 Find you the right thing
Sometimes, to run is the brave thing
Sometimes, walking out is the one thing
That will find you the right thing
Cheguei ao apartamento onde minha mãe estava hospedada e fui direto para o banho. Depois que saí do chuveiro, me enrolei em um roupão que estava pendurado na porta e fiquei deitada, encarando o teto por um tempo, pensando em absolutamente nada útil. O voo tinha sido bem cansativo, e o jet lag — por mais que eu odeie pessoas que colocam a culpa nisso — realmente influenciava. Afinal, Londres está cinco horas à frente do fuso de Nova York.
Além disso, eu sabia que teria que encarar minha mãe no jantar e, consequentemente, enfrentar todas as perguntas sobre meu chá de sumiço. Ela estava há mais de três meses falando basicamente com minha empresária e minha assessora de imprensa. Embora soubesse o que tinha acontecido, eu sabia que ela não se contentaria em saber pelos outros — ela queria ouvir da minha boca a história toda. E, obviamente, eu teria que contar. É impossível escapar das perguntas de Demetria para sempre; ela é muito persuasiva.
É nesse momento que eu escuto três batidas ritmadas na minha porta, eu sei que é minha mãe, ela é a única que bate na minha porta daquela maneira. Grito para ela entrar.
- Maddie, você não vai descer para comer comigo? Pedi comida mexicana, peguei alguns jogos para nos distrairmos já que estamos sozinhas. — Minha mãe fala suavemente.
- Opaa, pizza é meu ponto fraco. Vou colocar uma roupa, desço em 5 minutos — Me empolgo com o fato de comer pizza nova iorquina depois de tanto tempo.
Coloco o primeiro pijama que encontro na mala, penteio o cabelo e desço. No caminho até a cozinha, abro o celular. No alto do ícone do 450 mensagens não lidas, que terror— ignoro. Entro no Instagram e nem me passa pela cabeça atualizar aquela conta, parada há quatro meses sem uma mísera movimentação, continuará desse jeito. Abro meu Dix (meu pequeno segredinho) e até considero postar uma foto da vista do meu quarto para o Central Park, mas lembro que preciso fazer uma limpa ali antes de qualquer coisa... então isso fica para depois.
Levanto a cabeça no momento exato para evitar a tragédia de passar reto pelo último degrau da escada. Eu não posso, de jeito nenhum, me machucar nessa altura do campeonato. O teste para a série é amanhã, e eu sei que, se passar (e vou passar), preciso estar muito bem fisicamente.
Minha mãe está sentada na ponta da mesa, com aquele olhar atento de quem quer que tudo esteja perfeito. A caixa de pizza está aberta, com a tampa cuidadosamente dobrada para baixo, adaptada ao pouco espaço disponível. As fatias já estão cortadas, dois pratos dispostos com copos e talheres alinhados. Ao lado, algumas caixas de jogos que reconheço de imediato: ela trouxe de casa, lá de Los Angeles. Quando me vê chegando, ela sorri e aponta o lugar vazio ao seu lado, me convidando a sentar.
- Comprei pizza de calabresa, o sabor mais sem graça de todos — ela ri — mas sei que é sei preferido.
- Obrigada mãe, sei o tamanho do esforço que é pra você não pedir uma pizza cheia de coisas que você não consegue identificar o que é o que — devolvo a brincadeira.
Ela pega dois pedaços de pizza e coloca um em cada prato. Eu olho pros talheres na minha frente e só penso: nem ferrando. Pego a pizza com a mão mesmo, porque sinceramente quem é que come pizza de garfo e faca? Olho pro lado e vejo que minha mãe fez a mesma coisa. A gente se encara por meio segundo e pronto: eu começo a rir descontroladamente. Ela ri também, e, do nada, estamos no meio de uma crise de riso absurda, tipo aquelas que você não consegue nem respirar direito.
Depois da crise de riso, nós devoramos a pizza sem dar chance nenhuma de parar e jogar no meio da comilança.
— Quer o último pedaço? Não entra mais nada no meu estômago.
— Sem chance, mais um pedaço de pizza e eu vou daqui direto pro banheiro. Come você, confio no seu potencial — incentivo minha mãe.
— Não dá — ela ri —, infelizmente vou ser obrigada a comer esse último pedaço amanhã de manhã — completa com uma entonação que deixava bem claro que não havia nada de infeliz em comer pizza no café da manhã.
Minha mãe vai até a geladeira e guarda o pedaço que sobrou. Me distraio — o que, pra ser honesta, não é muito difícil — e começo a fazer um checklist mental das coisas que preciso pegar e resolver amanhã. Acordar. Correr. Tomar banho…
Sinto alguém me encarando. Ela está escorada na porta, claramente travando uma batalha com os próprios pensamentos — quase dá pra ouvir os divertidamente dela debatendo o que fazer.
— Manda, vai. Pode perguntar — digo, sem rodeios. — Sei que você tá se segurando o jantar inteiro pra não tocar nesse assunto.
— Madison... — ela para por um segundo, respirando fundo como se estivesse escolhendo cada palavra com muito cuidado — eu não quero invadir sua privacid…
— Já está invadindo — corto, sem muita paciência. — Não tem mais o que fazer. Você, os outros... você e os outros. Eu não vou conseguir evitar, né? — Dou uma risada irônica, mais amarga do que divertida. — Então pode perguntar. Eu só não prometo contar a história toda.
— O que aconteceu? — ela pergunta de modo curto e acusatório. — Num momento, você decide se afastar, entra na faculdade, vive uma vida feliz… pelo menos era o que me parecia. Era o que seu padrinho me dizia. E do nada... vazam fotos, vídeos, os jornais começam a te perseguir, capas de revista. Você some. Não responde ninguém, entrega seu celular pra Millie, e eu que me contente com isso? — Ela faz uma pausa, a respiração pesada, como se tudo estivesse preso na garganta há tempo demais. — Você só tem 21 anos, Madison…
Eu decido ignorar o desabafo disfarçado de questionamento e faço apenas uma pergunta:
— O que você sabe? — Afinal, de alguma coisa ela sabe.
Não queria entrar em detalhes. Saber o quanto minha mãe já tem de informação me dá vantagem pra escolher o que contar ou omitir. Não é sobre mentir, é sobre sobreviver a isso da melhor forma possível. Só quero acabar logo com essa sessão de tortura e focar minha energia no que realmente me trouxe até aqui. Pra seguir em frente, primeiro preciso atravessar esse campo minado.
- Só sei o que Millie me falou e o que li na internet — ela confessa essa parte baixinho sabendo que nosso combinado e nunca, jamais ler o que falam da gente na internet — Faculdade, relacionamento com uma menina, vazaram coisas de vocês para o The Sun, publicaram, perseguição da mídia.
— Só isso? — instigo, querendo saber até onde ela foi.
— Sim... eu não sei de grandes detalhes. Você não confia em mim, não me conta as coisas, só se afasta — ela responde, finalmente falando o que tanto queria.
— Talvez seja porque, quando tudo desabou, sua agenda tava cheia demais pra perceber que eu precisava de você — rebato. — Você não percebe o quão maluco é eu ter que vir até Nova York pra te contar o que aconteceu?
Interrompo a mim mesma, sabendo que levar a conversa pra esse lado só vai complicar tudo, mas decido terminar:
— A escolha sempre acaba sendo empurrar a responsabilidade pro meu padrinho, afinal, você faz isso desde que eu tinha oito anos. Como se ele fosse o único capaz de lidar com tudo... Agora, com vinte, parece que minhas crises ainda são problema dele — cuspo as últimas sílabas.
Naquele momento, qualquer resquício de leveza que ainda restava do jantar desapareceu. Eu e minha mãe já tínhamos tido tantas discussões que sempre acabavam nesse mesmo assunto. Ela sabe disso... e por isso, como sempre, escolheu ignorar a acusação que fiz.
— Maddie, eu quero saber o que aconteceu — ela abaixa o tom, tentando soar mais calma.
Eu sinto a mágoa aflorar na superfície do meu corpo, trazendo à tona todas as inseguranças e tristezas da Madison de oito anos, que ainda vive aqui dentro. Respiro fundo, empurro tudo isso para o lado e me concentro em contar — só contar — e depois sumir naquela cozinha.
— Certo — digo, enquanto os flashes dos acontecimentos passam pela minha cabeça como cenas de um filme. Finalmente, abro a boca para falar pela primeira vez, em voz alta, tudo o que aconteceu.
— Você sabe o começo de tudo. Finalizei as filmagens há três anos. Tentei me reencontrar nesse mundo, fiz testes, até passei em alguns, mas não aceitei. Eu sentia que estava exausta. Amava aquilo, ainda amo, mas precisava de um tempo pra mim. Então entrei na faculdade, você também sabe. Estava decidida a pegar meu diploma, queria ir até o fim e, sinceramente, eu tava adorando. Durante esse tempo, não me envolvi com ninguém. Um beijo aqui, outro ali, todos em homens. Até que ela apareceu. A gente se conheceu no final do ano passado, em uma das aulas do semestre. E as coisas... escalaram muito rápido. Começamos a fazer tudo da faculdade juntas. E eu sentia que aquilo era diferente de todas as amizades femininas que já tive. E realmente era.
— Quando percebi, a gente tinha ficado — parei, tentando captar a reação da minha mãe. Seus olhos só mostravam atenção. Ela fez um leve sinal com a cabeça, me incentivando a continuar.
— Enfim... a gente ficou. E minha cabeça virou de ponta-cabeça. Eu não conseguia parar de pensar. Sobre mim, sobre o que aquilo significava. Se eu gostava dela, se gostava de mulheres. Se era só ela. Ou se era mais do que isso. Até então, eu só tinha ficado com caras — então tudo aquilo me bagunçou por dentro de um jeito que eu não sei explicar direito até agora. E eu me vi apaixonada, mas aí vem a parte complicada... porque, mesmo com tudo isso, eu sabia que tinha uma limitação. Que não dava pra simplesmente sair por aí com ela, como qualquer casal normal. Meu nome podia não estar tão em evidência, mas você sabe como funciona basta um clique, uma foto, e tudo explode. E foi exatamente o que aconteceu. Tava tudo bem, até o dia em que saiu a primeira matéria no The Sun. E depois disso foi uma avalanche — fotos, vídeos, especulações. A imprensa britânica, como sempre muito sutil, decidiu acampar na porta da faculdade, depois no condomínio, esperando que eu desse uma “declaração oficial” sobre a minha vida. Como se eu mesma soubesse o que dizer.
- Eu até teria falado, se tivesse sido só aquela primeira matéria. Mas as coisas começaram a sair do controle. Eu não conseguia entender como continuavam recebendo tanta coisa sobre mim. Sobre a minha vida. Sobre a minha intimidade. Tudo ali, escancarado, enquanto eu mal tinha tido tempo de entender o que se passava na minha própria cabeça. A gente tentou enfrentar isso juntas e, claramente não deu certo... já que eu tô aqui — Solto uma risada seca, e encerro meu monólogo torcendo pra que, dessa vez, minha mãe se dê por satisfeita. Porque, sinceramente, já tá de bom tamanho. Já falei mais do que devia — mais do que queria.
Minha mãe fica em silêncio por alguns segundos, como se precisasse de tempo pra digerir tudo o que acabei de contar.
— Minha filha… — ela começa, num tom mais suave — Sinto muito que você tenha passado por tudo isso. Você chegou a descobrir quem tava por trás de tudo? Quem mandou aquelas informações?
— Não — minto, eu sabia. — E, pra ser sincera, acho que nem importa mais. Já tive que lidar com as consequências... e agora só quero seguir em frente. Tô aqui. É o que importa. — digo, deixando claro que não iria responder mais nada a partir daquele momento.
Ela continua me olhando, mas não insiste. Eu sei que ela sabia. Sabia das fotos, das manchetes, das fofocas. Sabia, mas ficou lá, distante, mandando mensagens mornas
Assim que termino de falar, me viro e vou direto pro quarto, sem olhar pra trás. Não me abri de verdade com a minha mãe — só contei os fatos, crus, sem as nuances, sem as partes que realmente doem. Sinto a cabeça pesar, o maxilar travar... Eu já sei o que vem depois. E eu prometi pra mim mesma que não vou mais chorar por essa história. Nem por ela. Eu vou passar nesse teste. Vou embarcar pro Canadá mais cedo do que todos imaginam. E quando estiver lá, esse momento vai estar distante.
Chego no quarto com as últimas migalhas de energia depois desse dia que foi tipo uma maratona de tortura sério, como consegui me estressar tanto em tão pouco tempo? Acho que é porque “ganhei” cinco horas extras graças ao fuso de Nova York... como se tempo extra não fosse a oficina do Diabo. Pego o script do teste de amanhã e começo a repassar mentalmente, já decorado como a palma da minha mão. Adormeço com uma frase na cabeça: amanhã tem que dar certo.
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