Catarina foi colocada em correntes, sua cabeça coberta com um saco de estopa. Seus pés desnudos e maltratados mal aguentavam andar naqueles longos corredores e escadarias. Enfim foi colocada em uma carroça-prisão, junto com mais seis presos: idosos, mulheres e crianças, todos eles velhos conhecidos de sua cidadezinha. Todos eles tendo sofrido torturas atrozes e inenarráveis. Todos eles mais mortos do que vivos.

A carroça-prisão tinha escolta de cavalariços armados, que a guardavam contra o assalto e acidentes, além de guardarem a vida dos clérigos que acompanhavam aqueles prisioneiros condenados. Estes iam em outro carro, carruagem luxuosa e confortável. Na primeira paragem, ao fim do dia, os soldados do santo ofício foram dormir, após se alimentarem em uma estalagem. Aos prisioneiros foi dado caldo ralo e uma concha d'água. Os clérigos foram acomodados em quartos de hóspedes. Alguns soldados também ficaram em quartos, enquanto dois deles ficaram vigiando a carga humana.

Na manhã seguinte seguiriam viagem para outra sede do Santo Ofício, em cidade próxima. Infelizmente dormiram demais. Perderam o café da manhã, mas o clérigo responsável pela viagem e transferência de presos havia ordenado o almoço da tropa, a ser debitado em nome do Inquisição. Tanto é que os soldados primeiro se alimentaram para depois cuidarem de suas obrigações. Para surpresa de todos, encontraram os dois vigias amarrados dentro da carroça de prisioneiros. Ao tentarem dar o alerta para os religiosos, não os encontraram, tendo os mesmos abandonado as vestes eclesiásticas nos quartos da estalagem.

Passaram a comentar que os religiosos haviam sido arrebatados pelos anjos e ascendido aos céus. Outros comentavam que os monásticos haviam se desiludido das coisas mundanas e haviam optado por uma vida de eremita nas montanhas e desertos. Os mais felizes comentários prediziam que os mesmos haviam se casado com mulheres comuns e agora planejavam viver como reles camponeses. Os mais infelizes, que eles haviam se voltado para satã, tornando-se bruxos. O que ninguém entendia é por que tiveram que levar os condenados consigo em seu plano de fuga. Acaso serviriam de moeda de troca, caso fossem encontrados pela igreja, São Pedro ou o demo?

Os reis da Espanha foram notificados do incidente e pediram discrição sobre o assunto, pois temiam nova onda de superstições envolvendo esta estória. Os superiores dos religiosos em questão procuraram investigar passo a passo tudo o que se sucedeu naquela empreitada e nos dias anteriores àquele desastre.

Não sem alguma comoção, descobriram que Dom Emanuel de Aragão estava amarrado em seu próprio gabinete de trabalho, obcecado com certa prisioneira desaparecida, porventura alucinava. Enquanto Dom Villagran estava morto no gabinete dele. Apoplexia, segundo os médicos da Igreja Católica. Dom Bolaños havia desaparecido no episódio do arrebatamento. Dom Valdés foi encontrado desorientado, devido prolongado período de quase enforcamento, pois havia amarrado trapos em seu pescoço, em uma casa abandonada próxima a sede do Santo Ofício. Não foi mencionada apalavra suicídio, mas era o que se comentava a boca pequena. Frei Vivar foi encontrado em uma casa de permissividades, rodeado de mulheres mal afamadas. Já, Frei Hernandez foi encontrado bêbado na adega, consumindo uma barrica de vinho destinada a Inquisição.

Todos foram levados sob custódia e ouvidos em interrogatório. Todos alegaram serem vítimas de feitiços e armadilhas engendradas pelo próprio demo. Somente dois deles alegaram serem vítimas de camponeses querendo libertar os prisioneiros das masmorras. O que o Santo Ofício entendeu ser plausível, mas de certa forma, oneroso, uma vez que uma busca nacional por presos fugidos da inquisição custaria caro aos cofres da igreja, além de lançar uma mancha à reputação de infalibilidade e inexorabilidade da Inquisição.

Sendo assim, as autoridades optaram pelo que parecia menos vergonhoso e humilhante. Registraram nos livros oficiais daquela investigação eclesiástica, que os religiosos daquela sede haviam sido escolhidos por satanás para lançarem dúvida no coração da igreja. Haviam sido tentados com o pecado da gula, luxúria, ira, avareza, soberba, inveja, e preguiça. Por causa disso, fornicaram, beberam e comeram até perderem os sentidos na saciedade e ociosidade; e alguns até se deixaram envolver pelos maus humores das paixões humanas, tendo sucumbido à ira extrema, chegando a assassinar seus irmãos da congregação.

Diante da incredulidade do povo ante tão fantástica estória, alguns superiores eclesiásticos, e leia-se o próprio papa, exigiram provas de tão graves acusações, tendo sido recomendado que os religiosos fossem torturados nas masmorras da inquisição, para que se obtivesse a verdade, ante sofrimento extremo e santificante. As confissões foram devidamente obtidas, registradas e apresentadas ao sumo pontífice da igreja, que excomungou e expulsou da igreja católica, todos os envolvidos que foram tocados e influenciados pelo capeta.

Apenas um deles, Dom Emanuel de Aragão foi sentenciado à galé, pelo assassinato confesso de Dom Villagrán, sendo esta condenação em si semelhante à pena de morte, uma vez que o trabalho escravo excruciante, em condições desumanas, dava cabo do mais resistente dos homens em questão de meses. O que não tardou a acontecer.

...

Após a fuga durante a noite, em que roubaram uma carroça de camponês que estava num estábulo, todos seguiram caminho em direção a uma cidade portuária. Dom Bolaños pagou pelas passagens de todos, menos de Miguel e Catarina, que optaram por continuar em solo espanhol, enquanto o resto dos condenados seguiu em nau de passageiros, rumo às colônias além-mar, onde tentariam recomeçar suas vidas, longe dos olhos da igreja.

Dom Bolaños resolveu seguir o caminho de eremita, onde tentaria se encontrar com Deus e o destino a ele reservado. Ficou sabendo dos acontecimentos no Santo Ofício, e embora tenha ficado tentado a retornar para junto de seus irmãos de fé, temia por destino semelhante, pois finalmente entendia que aqueles que zelavam pela fé humana eram os maiores seguidores de superstições, acontecimentos fantásticos e ideias mirabolantes. Passou o resto de sua vida temendo ser reconhecido e recolhido às masmorras da inquisição. Em seus últimos dias foi visto mendigando nas ruas e dando de comer a cachorros vadios. Alguns comentavam devido esse ato, que ele deveria ter parte com São Lázaro, e outros com os cães do inferno.

Catarina e Miguel seguiram a cavalo em direção a outro país. Durante a noite os dois descansavam e quando pressentiam a presença de cavalaria de soldados, escondiam-se no matagal adjacente até o caminho ficar livre para continuar sua fuga. Bebiam a água de riachos e alimentavam-se de frutas ocasionais, apanhadas a esmo. Tinham fé na providência divina e em si mesmos.

– Catarina, luz da minha vida, tu estás bem?

– Miguel meu salvador, estou bem na medida do possível. Minha fé e esperança alimentam meu corpo, e minha mãezinha querida ampara o meu espírito.

– Querida, por favor, não te prendas a coisas dos espíritos, pois estes não pertencem a este mundo, e podem querer levá-la para junto deles.

– Não tenhas medo, Miguel. Se eu tivesse que seguir para junto da minha mãe, há muito já teria partido para o outro mundo. O que me prende a este local de sofrimentos és justamente tu. E também tua família, meus amigos queridos, o amado Javierito, meus vizinhos e conhecidos... — Catarina começou a chorar.

– Shi... não chores minha querida. Já passou! Já estamos livres. Eles nunca mais te porão as mãos novamente. Não chores mais, fiques alegre porque obtivemos liberação. Não tivemos que matar para conseguir te libertar, e em breve estaremos junto de amigos, verás. Amanhã estaremos mais perto do nosso destino, e seremos muito felizes com muitos filhos.

Catarina abraçou Miguel com força enquanto tentava estancar a torrente de lágrimas.

Seguiram a cavalo por mais três semanas, cruzando países vizinhos, encontrando pessoas estranhas que falavam línguas diferentes e de quem dependiam da caridade para poder se alimentar e descansar. Por fim atingiram as terras em que estavam seus familiares. Estavam muito cansados e esfarrapados, mas sentiam-se afortunados e ditosos pela alegria da libertação e o reencontro de parentes queridos.

...e viveram felizes até o fim de suas vidas.

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