Dom Emanuel trancou o escritório de Dom Villagrán, e se precipitou às masmorras, arrastando consigo Dom Bolaños. Encontrou a cela trancada e esperou impaciente que os carrascos a abrissem para ele. Como era um inquisidor e a prisioneira fosse considerada uma figura importante, até mesmo para o rei, os carrascos não estranharam que o sacerdote em pessoa a levasse consigo em seus braços, para seus aposentos particulares. Um deles, o careca, resolveu procurar Dom Villagrán para comunicar o ocorrido, mas não conseguiu ser atendido pelo inquisidor geral, que supostamente manteve seu escritório trancado por todo aquele dia.

O sacerdote alucinado carregou Catarina desacordada em seus braços, como se ela lhe fosse muito cara e preciosa. Depositou-a em sua cama e pediu ajuda a seu assustado secretário para vesti-la.

- Para que vesti-la, se tudo o que quereis é violá-la? Como se ela já não tivesse sido violada por muitos naquela masmorra. Acabareis por contrair doenças de todos que já a usaram. — Dom Bolaños falou ofendido.

- Cale-se! Não me atormentes Dom Bolaños. Ela ... é especial. Vês como é bela? Parece dormir em um leito de flores. É uma princesa ... Não! É um anjo do Senhor! Nada lhe aconteceu! Está intocada!

O secretário melindrado agarrou a manta que cobria Catarina e a puxou com energia, revelando a jovem nua com feridas em carne viva nos pulsos e tornozelos, manchas de todas as cores ao longo de seu corpo, além de inchaços e deformações.

- Ela está um bagaço. Nem se pode dizer que ainda é uma mulher. Eu vos garanto reverendo, que se ela já não está na agonia da morte, não tem mais motivo algum para viver. — Dom Bolaños falou cético.

O inquisidor a olhava transtornado. Catarina de maneira alguma se parecia com a donzela etérea de que se lembrava. Ele fechou os olhos e sentiu perder seu equilíbrio. Apoiou-se pesadamente no ombro de seu secretário pessoal e tentou resistir ao torpor que o tomava. Abriu os olhos por uns segundos, apenas para ver a cara de nojo do outro, que tentava afastar-se dele. Isso o enfureceu instantaneamente.

- Não me olhes desse jeito. Eu sou teu superior e estás enredado nisso até teu último fio de cabelo. Portanto, não me olhes como se só eu estivesse condenado aos infernos, pois se tiver que ir pra lá, te levarei comigo. Agora limpa as feridas dela e a vista com alguma roupa decente. — Dom Emanuel falou possesso.

Dom Bolaños resolveu obedecer por ora, desejando intimamente que tivesse sido Dom Emanuel o morto trancado no escritório.

Distante dali, Miguel e Javierito cavalgaram em direção ao povoado, onde estava a sede dos trabalhos da inquisição. Eles ficaram escondidos observando o movimento de entradas e saídas, durante todo o dia.

- Eu me pergunto por que não enfrento os soldados de espada em punho. Mato-os e liberto Catarina de sua prisão. — Miguel falou ansioso e angustiado.

- Porquê serias morto em menos de cinco minutos, ou pior, serias aprisionado e torturado, sem chance de defesa e sem poder fazer nada por Catarina. — Respondeu Javierito calmamente.

- Assim como tu, que não fizeste nada por ela, não é mesmo?

- Sim, como eu, que só tenho catorze anos, e que já fui mastigado e escarrado pelas masmorras da inquisição. — Javierito pausou por uns instantes, enquanto a indignação crescia em seu peito. — Nem que eu tivesse trinta anos e fosse grande e forte como uma rocha, nem assim, poderia ter feito alguma coisa para me libertar, ou evitar a morte de Dom Juan Del Valle e Dona Clariana, que eu presenciei. — Calou-se arfante e com o rosto tremendo.

- Está bem! Sinto muito! Estou preocupado com Catarina. A cada minuto que passo aqui me escondendo, ela está lá dentro, sofrendo, sabe-se lá que horrores. — Miguel soluçou e virou-se de costas para que Javierito não o visse chorar.

Javierito teve pena do outro mas não se atrevia a tocá-lo, ainda se lembrava do soco que levara mais cedo. Ele ficou cabisbaixo por um pouco, então voltou a observar a entrada da sede. Teve uma idéia.

- Escuta Miguel, padres entram e saem o dia inteiro; e se nós ... nos vestíssemos de padres ... Não, os soldados iriam perceber que não fazemos parte da inquisição. — Javierito pausou mais uma vez enquanto seus olhos brilhavam elucubrando um plano. — E se nós acompanhássemos um padre conhecido, e ele dissesse que estávamos com ele, então poderíamos entrar facilmente e sair com Catarina. O que achas?

- Péssima idéia, mas a única que já tivemos. Seguirei um padre, assim que ele sair e o ameaçarei, para que nos ajude. Veja! Vem um ali.

Javierito e Miguel seguiram um clérigo que saiu do prédio. Após algum tempo, o abordaram e o levaram consigo até um beco, o ameaçando com um punhal.

- Vós sois loucos! Estão assinando sua própria sentença de morte. Ninguém ameaça um inquisidor com uma arma e sai vivo. — O clérigo ameaçou com os olhos arregalados de indignação.

- Estamos desesperados! Nossa amiga foi presa e deve estar sendo torturada, agora nesse momento. Nós só queremos tirá-la de lá e levá-la para um lugar seguro. Por favor nos ajude. — Javierito explicou com a voz suplicante, enquanto Miguel segurava o religioso encostando a arma no flanco dele.

- Se ela foi presa é porquê mereceu. Terá chance de se defender quando for interrogada na qualificação. — O religioso falou secamente.

Miguel apertou mais ainda o braço torcido nas costas do clérigo, tentando controlar a raiva que estava sentindo, e não enfiar todo o punhal na barriga do homem.

Javierito, que estava com as mãos envolvidas em um trapo, e o rosto coberto à moda dos beduínos, passou a retirar os trapos do rosto, e expôs sua face em carne viva ao inquisidor, que não disfarçou sua repugnância ante a visão do rosto queimado. Javierito inspirou profundamente e procurou os olhos do inquisidor para ter certeza de que o outro o estava vendo bem.

- Reverendo, eu tenho 14 anos. Era o pajem de um idoso deficiente e indefeso. Nunca cometi nenhuma maldade na minha vida. Olhe para mim, reverendo. Eu fui tratado como um animal por nada. Quase fui morto por espancamento, sem cometer nenhum crime. O senhor acha isso justo, reverendo? — Javierito interrogou calmamente, tentando não se exasperar com o homem a sua frente, que representava todo o horror que tinha sofrido.

- Não! Não acho justo! Eles cometeram um erro. — O religioso respondeu sem nenhuma emoção.

Javierito ficou avaliando-o por um momento, então afastou-se um pouco e fitou o chão de terra batida, da viela em que se encontravam. Passou a enfaixar o rosto novamente, e se voltou para Miguel.

- Ele não se importa. Ele não se incomoda, nem se envergonha. Não entende do que estamos falando. Não entende o sofrimento. É como se falássemos para uma parede. Na primeira chance que tiver, vai nos delatar e se possível nos tiraria a vida, com as próprias mãos. Não é assim, reverendo?

- Não! Eu me importo. Vós fôstes vítimas de injustiça. Eu vou ... ajudar-vos. — O religioso falou o mais calmo que conseguiu. Até fez uma careta, num simulacro de sorriso.

- O que faremos então? Devemos matá-lo? Não podemos soltá-lo ou... — Miguel começou a falar mas foi interrompido.

O padre começou a gritar pedindo socorro, mas Javierito pegou um pedaço de pau do chão e bateu com força na fronte do clérigo, fazendo com que o mesmo ficasse zonzo. Miguel pegou uns trapos e empurrou na boca do sacerdote, para que o mesmo não pudesse mais gritar, enquanto o arrastavam para uma das portas das casas do beco, que sabiam estar deserta, pois seu dono havia sido preso.

Amarraram o pescoço do religioso com uns trapos velhos, a uma estaca de sustentação do teto. Retiraram suas vestes e o deixaram de ceroulas. Miguel vestiu a batina, uma vez que Javierito chamaria a atenção com sua face encoberta. Alguns adereços e o chapéu do religioso e estava feita a transformação. Javierito amarrou as mãos e os pés do padre, enquanto isso. Depois, os dois jovens saíram em direção à sede da inquisição. Combinaram uma mentira e resolveram passar pelos soldados de guarda.

O primeiro soldado se perfilou ante a imponente figura de Miguel travestido de padre, mas a aparência de Javierito lhe pareceu suspeita, fazendo com que ele barrasse a passagem deste com sua espada. Miguel estacou e tentou falar como o sacerdote que atacara a pouco.

- Como ousa? Queres ser preso pela inquisição? Ele é meu criado. — Miguel falou forçando um semblante de puro nojo e desprezo.

- Mil perdões reverendo. Pode passar reverendo. — O soldado falou baixando a cabeça e guardando a espada.

Miguel e Javierito rapidamente entraram no casarão sem olhar para trás, enquanto seus corações disparavam acelerados. Um pouco mais adiante eles se encontraram perdidos em meio a quantidade de salas e corredores. Não sabiam que caminho tomar.

- Ela deve estar nas masmorras, Miguel. Se ao menos soubéssemos em que direção seguir.

- Tive uma idéia. Falarei com a sentinela. Pedirei que nos guie até lá. Vamos, Javierito.

Assim fizeram.

- Sentinela, gostaria de interrogar a prisioneira Catarina de Navarro. Leve-nos até ela. — Miguel falou ao primeiro soldado de guarda no corredor. Havia chance de o soldado desconfiar de algo, ele então apelaria para força bruta, mas se tal não ocorresse, esse era o melhor modo de encontrar Catarina.

- Catarina de Navarro? Aquela que vai queimar na estaca? Não entendo senhor. O outro inquisidor já não a está interrogando? Acho que deveria falar com ele, visto que ainda está com a prisioneira.

- E quem a está interrogando? — Miguel perguntou tentando esconder a aflição.

- Dom Emanuel de Aragão. Ele está com ela em seus aposentos particulares.

- Leve-me imediatamente para lá. — Miguel falou altivo, tentando imitar o religioso do beco.

O soldado de sentinela os guiou até uma sala em um dos corredores. Então bateu na porta de modo polido. Alguns segundos depois a porta se abriu. Dom Emanuel apareceu carrancudo na porta.

- O que deseja soldado?

- Este inquisidor quer ver a prisioneira. — O soldado deu um passo para trás para dar passagem a Miguel.

- E quem sois vós? O que quereis com minha prisioneira? — Dom Emanuel falou irritado.

- Desejo vê-la... interrogá-la sobre... Dom Juan Del Valle... e Clariana de Navajo. — Miguel falou tentando conservar o sangue frio.

- Não permito! Ela é minha entendeu? E se ponha daqui para fora! — Dom Emanuel cuspiu as palavras furioso.

Miguel não conseguiu mais se conter. Desferiu um violento soco em Dom Emanuel, fazendo o religioso cair longe da porta, dentro do aposento. O soldado da inquisição apenas comentou a meia-voz com Javierito: "Espero que seu amo saiba com quem está se metendo. Esse inquisidor é poderoso".

- Não se preocupe, meu amo é mais poderoso. Já resolveremos isso. — Javierito falou ao soldado e entrou no aposento onde Miguel rolava no chão desferindo socos em Dom Emanuel. Ele sabiamente fechou a porta atrás de si.

- Como esses padres brigam! — o soldado comentou ao se retirar para seu posto.