Dom Emanuel de Aragão estava sentado, escrevendo alguns documentos. Seu secretário particular ficava de pé, próximo a ele, esperando pelas ordens daquele dia. Não havia tanto serviço assim, mas a disciplina e o hábito deveriam ser mantidos. Então bateram a sua porta. O secretário foi até lá e voltou com a informação.

- Prenderam uma garota. Querem trazê-la para a qualificação.

- Uma garota? Como ela é? — Perguntou Dom Emanuel entediado.

- Ah... É loura. Está aí fora. Posso mandar entrar?

- Loura? Sim, sim... Mande entrar.

Subitamente um lampejo de esperança aqueceu o coração de Dom Emanuel. Por um mísero segundo, ele imaginou que a garota poderia ser Catarina, seu objeto de desejo. Os soldados do Santo Ofício adentraram no recinto, trazendo uma garota mirrada, loura e frágil. Seus vestidos estavam manchados e rasgados. Seus cabelos estavam embaraçados e sujos. Percebia-se que ela estava fugindo e se escondendo há bastante tempo, e que por isso estava maltratada.

Dom Emanuel de Aragão levantou-se de sua escrivaninha e aproximou-se da jovem. Suas pernas bambearam um pouco, pois ele pensou reconhecer Catarina na jovem, mas ao se aproximar mais, percebeu que era apena uma garota comum, e não sua fada da aldeia. Ele a avaliou detidamente, sem contudo deixar de transparecer o seu desprezo e asco.

- Abaixe a cabeça infeliz. Você está diante do Inquisidor do Santo Ofício. — O soldado gritou à jovem que fitava Dom Emanuel, tão curiosa quanto ele a princípio estivera.

Ela prontamente obedeceu à ordem dada.

- O que ela fez? — Dom Emanuel perguntou.

- Ela é filha de Margarida de Velásquez. Nos foi dada ordem para prender todos os membros dessa família. — Informou o soldado.

- Você sabe alguma coisa sobre isso Dom Bolaños? — Dom Emanuel perguntou ao seu secretário, apenas virando um pouco a cabeça, sem tirar os olhos da garota a sua frente.

- Consta nos autos que... espere um pouco... aqui está... consta que Dona Margarida de Velásquez tratou-se de... uh... fluxo constante, com dona Lauredana, amiga íntima de Dona Clariana de Navarro. E o senhor expediu ordem de prisão de todos os que tiveram algum contato com filtros, curas mágicas e amuletos, especialmente se estivessem relacionados a dona Clariana de Navarro. — O secretário concluiu seu informe.

- Oh... Agora entendo. — Dom Emanuel aproximou-se da jovem prisioneira. — Quantos anos tem, minha jovem?

- 15, Senhor. — A jovem respondeu com uma voz rouca e anasalada, de quem passara o dia inteiro chorando.

Dom Emanuel tocou em uma mecha de cabelo da jovem. Soltou imediatamente ao perceber parasitas andando nos fios. Ele viu-se tomado de nojo e irritação.

- Alguém por favor dê um banho nesta fedelha. Ela está imunda e é desagradável. Só me tragam novamente, quando estiver limpa e bem vestida. Vamos, agora!

Os soldados obedeceram prontamente. Dom Bolaños observou-os calados, e quando estes se retiraram, virou-se para Dom Emanuel.

- Pensei que quisesse ter a primazia de interrogar esta jovem.

- Porque pensou semelhante coisa? — Perguntou Dom Emanuel enfadado, sem dignar-se a olhar seu secretário na cara.

- Bem, pela descrição minuciosa que fez de Catarina de Navarro, e da ordem irrevogável de entregá-la somente ao Senhor. Pensei que quisesse todas as donzelas bonitas da cidade. — Respondeu o secretário sem nenhum escrúpulo ou embaraço.

Dom Emanuel olhou seu secretário nos olhos. Franziu o cenho e firmou os lábios, como quem quer brigar.

- Desculpe-me se eu o interpretei errado. — O secretário desculpou-se polidamente.

Dom Emanuel ficou avaliando-o e então fez um gesto com a mão, como quem diz “deixa pra lá”. andou em círculos por seu escritório, então, dando-se por vencido, falou novamente ao secretário particular.

- Ela é bonita, não é mesmo? Depois de banhada, vestida, alimentada, e principalmente, depois que lhe tirarem os piolhos, tragam-na para mim. — Dom Emanuel sorriu em deleite.

Distante dali, Miguel estava sentado em seu catre, que ficava próximo a uma viga no sótão da casa em que residia. Ele olhava pela fresta entre a viga e as telhas do teto. Via somente o céu azul escuro, com estrelas brilhantes. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ele as limpou com a manga da ampla camisa de algodão que usava. Lembrou-se do tempo em que ele e Catarina sentavam-se em bancos toscos de madeira, próximo à ribanceira, de mãos entrelaçadas, admirando a lua e as estrelas. Ao longe ouvia-se o canto mourisco de domínio popular, que era ritmado por castanholas. Por vezes um violeiro intrometia-se para apimentar ainda mais aquela música hipnotizante. As pessoas diziam que os hispânicos eram pessoas violentas e passionais, mas ali com Catarina, a única coisa que passava pela cabeça de Miguel era que não havia melhor coisa no mundo, do que ficar sentado apreciando o céu, ao lado de sua namorada.

“Se eu morresse hoje, Catarina, eu morreria feliz, pois passei a melhor noite da minha vida ao teu lado.”

“Deixe de ser bobo, Miguel. Pra que falar em morte, se ainda temos a vida inteira pela frente? Ainda viremos admirar a lua outras vezes. E nós faremos tanto isso, que te irritarás no futuro se alguém te convidar. Eu estou te avisando. “

Miguel ainda podia ouvir a risada de Catarina fazendo pouco caso do enlevo dele. Ele puxou um lenço encardido de um baú e o abriu sobre uma mesa próxima. Tirou alguns objetos do baú e colocou-os no lenço. Saquinhos com comida seca, ervas curadoras, ervas de limpeza, ervas para não dormir. Embrulhou tudo no lenço e ajeitou dentro de sua camisa. Amarrou um saquinho de dinheiro no pescoço, e ajeitou um punhal no cós da calça. Abriu uma pequena janela no sótão e desceu por ela. Seus pais estavam dormindo, não poderia se despedir deles, além do que eles o impediriam de ir. Se Miguel soubesse escrever, ele lhes diria “Pai, Mãe, tomo-lhes a bênção, pois viajo para a morte certa. Sei que lhes parto o coração, mas eu não vivo sem minha prometida, minha pequena, minha esposa no céu, minha Catarina. Desde que nascemos, somos um do outro. Não existe vida para mim, se ela se for desse mundo, pois ela seria sem sentido, incompleta, sem felicidades, sem alegrias. Não tentem me impedir. Apenas aceitem que eu a ela dediquei o melhor de mim, e o que me resta dessa curta vida. Não me guardem mágoa. Adeus. Miguel”

Ele seguiu o mesmo caminho que Catarina fizera. Durante o percurso, a imagem dela ocupou sua mente. Lembrou-se do dia em que seu pai resolveu tornar oficial a ligação entre ambos. Eles achavam que a mãe de Catarina já estava morta, e que ela não tinha mais ninguém no mundo, e que portanto, ela deveria pertencer legalmente à família. Por isso casaram-nos.

“Com este anel, eu te declaro minha noiva, Catarina.”

“Com este anel, eu te declaro meu noivo, Miguel.”

“O que Deus uniu, o homem não pode separar. Eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.”

Miguel sentiu nos lábios o hálito fresco e doce de Catarina. Ao abrir os olhos após o beijo, encontrou os olhos doces e puros de Catarina, a sorrir para ele, prometendo-lhe o paraíso na terra. Um arbusto atingiu-o na face, arranhando seu rosto, enquanto cavalgava um cavalo roubado. Isso o tirou do seu devaneio. A sua frente a floresta era interminável. O vento era gelado, e o ar tinha cheiro de terra molhada e flores. Demoraria muito até que alcançasse sua terra, Espanha. A sua bússola era Catarina e ela o chamava de volta a sua aldeia natal.

Enquanto isso, Catarina estava sentada no galho de uma árvore. Ao lado dela, Javierito, que tentava colocar laranjas na bolsa de pano, que estava atravessada em seu torso. De quando em vez, ele oferecia uma laranja para ela, sem sucesso. Ela parecia alheia e perdida em pensamentos, como se estivesse convalescendo de uma doença. Seus olhos eram tristes, sem brilho.

- Por favor, coma um pouco. Você está muito fraca.

- Ela me pediu que não fosse, Javierito. Ela me agarrou forte, para que eu não a deixasse sozinha naquele horror.

- Eu sei. Você já me contou. Não é culpa sua Catarina. Se você não tivesse ido, Miguel e sua família estariam mortos agora, todos eles.

- Eu devia ter salvado minha mãe. — O rosto de Catarina se contorceu, seus lábios tremeram, e seus olhos se orvalharam em lágrimas.

- Você não pode salvar todo mundo, Catarina. Ninguém pode. — Javierito baixou a cabeça e virou o rosto para outro lado, enquanto seus lábios curvaram-se para baixo.

- Você esteve preso Javierito, e não morreu. Conte-me de novo como conseguiu ser solto.

- Eu fiz o que eles me disseram para fazer. Eu disse a eles que era tudo verdade. Que todos nós éramos bruxos e bruxas. Que toda a cidade fez um pacto com o Diabo e que cuspimos na cruz. Eu menti e blasfemei. Jurei em falso e reneguei meu mestre, meus amigos e minha família. Delatei todo mundo, e incriminei todo mundo. Disse sim a tudo que me perguntaram. Depois disso me soltaram. Você entende não é, Catarina? Eu já estava morto. Nada mais importava.

Catarina olhou amargurada para Javierito e não disse nada. Limitou-se a abraçá-lo. Ela então aceitou a laranja que ele havia lhe oferecido.