Catarina de Lurton: Além do tempo.
3 Entre porcos e pássaros.
Elixir...
O pequeno menininho dormia calmamente, Catarina passava os dedos, com cuidado e carinho, pelo rosto da criança, que parecia aprovar o carinho da mãe. Não havia nada e nem ninguém que a rainha de Artena amasse mais que o pequeno ser que dormia. Nada. Nem poder, nem reinos, nem ironias, muito menos estratégias. Ela o amava com todo o seu ser, e lhe daria todo o seu ser.
—Alteza devemos...
—Por favor, não me chame de Alteza, não estamos na Cália. Aqui eu sou só uma duquesa. -Sussurrou.
A mulher abaixou a cabeça.
—Perdão, senhora.
Catarina levantou a cabeça e a olhou.
—Tudo bem. -Ela olhou mais uma vez para sua criança, sorriu, e se afastou. -Ele não acordará tão cedo. Acredito que dará tempo eu ir e voltar. -Informou. -Se ele acordar, lhe dê algo para comer.
—Sim, senhora.
Catarina passou a mão no vestido, ele já estava um pouco amassado, mas ela não se importava. Aquele seria o primeiro baile que iria participar, o duque e a duquesa de Viernes tinham lhe convidado para a pequena comemoração. Ela não queria ir, lhe doía deixar o pequeno Heitor sozinho, mas era o momento. Ela não podia se isolar do mundo, ainda era uma rainha e uma duquesa e precisava honrar com seus títulos.
—Tem alguma informação da nova casa? -Perguntou, na porta.
—Sim, senhora. A moradia está quase preparada.
Catarina sorriu.
—Ótimo.
A tal casa era muito importante para Catarina, seus fieis servos iriam usa-la. Lucíola e Dellano logo estariam com ela.
°
Alguns homens olharam Catarina com malicia. A jovem mulher era muito bela, transbordava sensualidade e inteligência. Isso ficou provado quando sua presença foi requisitada por alguns fazendeiros.
Um pouco distante estava um homem, ele olhava com curiosidade para a mulher. Bom, todos olhavam. Catarina exalava sensualidade a cada passo, contudo, esse homem a olhava diferente, não havia apenas luxuria no seu olhar, mas se podia ver admiração. Catarina caminhou até o local onde estavam algumas mulheres, foi recebida bem e logo embarcou em uma calorosa conversa.
—Como está seu filho, Trila? -Perguntou uma das mulheres a outra.
—Fernandinho está cada dia mais belo. -Disse com um orgulho evidente.
Pelo tão de voz da mulher, Catarina pôde imaginar como era a criança, não era uma imagem boa. Provavelmente não encantaria a mãe que descrevia bom tanto esmero o novo talento do seu bochechudo filho: correr atrás dos porcos. Catarina resistiu até onde pôde a vontade de revirar os olhos.
—Devo imaginar que Trila está falando novamente do Fernando? -Perguntou uma voz feminina.
Catarina se virou e se deparou com uma mulher, com porte refinado e um belo vestido salmão. Seus longos cabelos ruivos, quase fazia com que a rainha se lembra-se de Amália, mas o olhar e as feições da mulher a sua frente logo vez com que todos os pensamentos sumissem.
—Espero que esteja aproveitando a companhia. -Disse, novamente a mulher, dessa vez sua voz carregava um tom de ironia.
—Claro, é um imenso prazer.
A mulher sorriu.
—Vamos sair daqui.
Catarina, curiosa, assentiu. Elas caminharam pelo salão e se sentaram em uma espécie de sofá que estava disponível.
—Sou Eleonora.
—A duquesa de Viernes?
A mulher assentiu.
—É um prazer recebê-la.
—Agradeço o convite, sou Catarina.
—Eu sei, todos estão muito curiosos sobre sua presença em Canoth, a rainha está distante do reino.
Catarina abriu um sorriso irônico.
—Meu reino é onde estou.
A mulher a olhou com curiosidade, ela não queria admitir, mas a resposta da mulher tinha lhe agradado. Muito. Seus olhos passaram pelo salão e captaram olhos verdes, intensos. Eleonora sabia a quem pertencia aqueles olhos desde o seu nascimento. Os olhares se cruzaram, Eleonora levantou a sobrancelha, desafiando-o. Ele apenas virou o rosto.
—Me conto um pouco sobre os costumes e tradições. -Pediu Catarina.
Eleonora passou os minutos seguintes explicando o funcionamento da corte da região. Quem era cada um que estava em sua casa, quem tinha filho com quem e quem eram as crianças, Eleonora lhe contou das plantações e minas. Catarina, em troca, lhe contou alguns detalhes da Cália.
Os olhos de Catarina focaram em um senhor que ria escandalosamente. Eleonora seguiu o olhar da rainha.
—Este é o marques Willisom, possui uma propriedade mais ao sul. Sua esposa é aquela ali, de amarelo claro.
A mulher indicada parecia envergonhada das histórias que Trila ainda deveria está contando. Era pequena e demonstrava receio até em seus movimentos.
—Ele é um homem muito conservador. -Disse Eleonora. -Creio que acredita, como alguns marqueses, que, por ter uma pequena propriedade pode ter algum poder na politica.
—Interessante... Um conservador...
—Sim, ele detesta qualquer presença feminina em seus negócios,
Catarina abriu um sorriso maldoso.
—É mesmo? Pois, me digam duquesa o que o marques comercializa?
—Ele possui uma granja, comercializa animais e os vende para alimentação.
—Já visitou alguma de suas fazendas?
—Não, apenas o senhor Ashton já foi lá. Ele diz que é uma bela propriedade e que os animais são bem cuidados.
Catarina se levantou.
—Me acompanha?
Eleonora a olhou em duvida.
—Até onde?
—Vamos descobrir algo sobre esse marques e seus porcos.
Eleonora se levantou e, junto a Catarina, se aproximou do homem. Este conversava com uma senhora e seu marido, ele falava justamente do assunto no qual Catarina tinha muito interesse: As tais fazendas.
—Ontem mesmo saiu uma carga com cerca de mil porcos. -Catarina levantou a sobrancelha.—Foram para as terras da Cália, onde se localiza um reino chamado Montemor. -Catarina engoliu em seco, falar daquele lugar ainda lhe causava estranheza.
—Foi uma grande venda! -Disse o homem impressionado.
Como um pavão, o marques Willisom levantou a cabeça e estufou a barriga.
—Amostrado. -Disse Eleonora, baixinho.
Catarina a olhou, Eleonora voltou seu olhar para a rainha. Catarina piscou e se aproximou com o maior e mais falso sorriso.
Suspirou teatralmente, atraindo a atenção deles.
—O senhor deve ser um grande comerciante! -Exclamou com uma falsa animação.
O homem a olhou, a rainha sentia que cada parte do seu corpo foi analisado e, por um momento, se sentiu uma das mercadorias.
—Não quero me gabar, mas posso afirmar que sim.
—O senhor disse que comercializou com um reino da Cália? -perguntou interessada. -Meu ex-marido morava lá.
O homem engoliu em seco.
—Em qual parte?
—Oh, em um reino um pouco afastado, Alcaluz.
Ele respirou, aliviado.
—Nunca ouvi falar, mas acredito que tamanha doçura tenha saído de um lugar fantástico. -A cantada foi direta e obvia.
Catarina abaixou a cabeça, fingindo vergonha, se virou para Eleonora e revirou os olhos. A mulher fez força para não rir.
—Vamos ver... -Sussurrou, quase sem som.
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—Me diga, Marques, a muito tempo faz acordos com Montemor? -Questionou após alguns segundos.
—Sim! -Disse orgulhoso.
Alguns homens estavam a volta e se aproximaram.
Catarina riu. Eleonora acompanhou, até mesmo alguns homens riram. O marques sorriu amarelo, sem saber o que fazer ou o porque de tantos risos.
—O senhor repete isso com frequência?
—Como?-Perguntou confuso. -Do que está falando, senhorita? -perguntou duro.
—Bom, senhor, Montemor é autossuficiente na pecuária e criação de animais, mesmo que não fosse, o que é, o reino possui vários acordos com os demais reinos da Cália. Mas, mais que isso, a Cália não costuma fazer acordos com Elixir. Sendo assim, podemos assumir que o senhor se gaba de um sonho. -Disse maldosa.
As feições dele foram de curiosidade a raiva rapidamente.
—Oras, a senhorita é muito ousada, quem acha que é para se meter nos meus negócios? -Perguntou com nojo.
Catarina sorriu, marota.
—Eu? Acredito que seus conhecimentos a respeito da Cália estão muito... Insatisfatórios. Eu sou rainha de Artena e mãe do futuro rei de Montemor. Eu sou Catarina de Lurton, perdão, me esqueci do seu nome, como se chama? -perguntou irônica e maldosa.
Alguns sorriram com a humilhação, outros apenas se mantiveram calados, Eleonora foi uma das que riram. Catarina começava a apreciar os novos ares.
Cália, Montemor, em algum local da floresta...
Augusto andava ao lado de um homem, este, obvio, não sabia do status do ex-rei e nem deveria. Augusto queria noticias de sua filha, durante varias semanas tinha ido ao local que outrora Catarina fora, e nada. Semanas se passaram e a sua preocupação só aumentava, até que, em um dos seus passeios ele avistou uma cabana, um pouco afastada, de lá saiu Lucíola.
Ele lembrava-se da criada de sua filha, mas não entendia oque ela fazia ali, será que tinham descoberto algo que Catarina fizera? Ele esperou que todos saíssem da casa e entrou. Não achou Catarina, mas achou diversas cartas que carregavam o nome Lurton.
Lucíola,
Alguma noticia do meu pai? Estou preocupada.
Augusto sentiu seu coração bater mais forte, Catarina se importava com ele.
Li sua carta, lhe felicito pela conquista de Dellano, ele merece um cargo melhor no exercito. Me questiono se ainda irá querer vir para cá, fui informada que a vossa casa logo será terminada. Está contente com a noticia?
Agora, chegou aquele momento tão esperado que lhe dou noticias do meu maior amor.
Augusto franziu a teste, Catarina tinha um novo amante? Por isso deixou Montemor?
Heitor está cada dia mais bonito, como posso ama-ló tanto? As vezes penso que posso machuca-ló, não quero isso. Jamais. Ele é o meu maior bem, chego a sentir pena de Afonso por perder isso. Cada minuto, cada respirar, cada sorriso. Espero que ele esteja feliz com quem está, com suas escolhas, pois eu, eu não posso está mais contente.
Afonso conhecia o homem? Augusto imaginou que ele devia ser alguém muito importante para ambos. Não, não, não, ele não achava que era isso. Sentia que era mais.
Sou grata por todas as informações que tem me passado sobre Montemor, tenho que mantê-ló distante, admito que tenho um pouco de medo de Afonso tentar toma-ló de mim. Heitor é o melhor presente que eu poderia ter ganhado, nem todas as dores do mundo seriam desnecessárias. Heitor é só meu, ninguém o tomará de mim, ele é meu filho!
"Filho".
"Filho".
"Filho".
"Filho".
"Filho".
"Meu filho".
Catarina tinha um filho.
Ele tinha um neto.
—Meu neto. -Sussurrou para si mesmo.
°
Lucíola estava na grande praça, assim como quase toda a população de Montemor. O rei iria fazer um anúncio. Ela poderia imaginar do que se tratava. Quando as portas se abriram e o rei surgiu a população gritou, agitada. Afonso fez um sinal com as mãos e o povo se conteve.
—Povo de Montemor, é com grande alegria que anuncio que a rainha...
—A RAINHA CATARINA VOLTOU? -Gritou alguém em meio a multidão.
—Montemor ganhará uma nova rainha. -Disse.
Por um instante todos ficaram calados. Foi quando Amália apareceu e Afonso a recebeu com carinho.
Até que começou, as flores e bandeiras que seguravam foram jogadas contra o rei e a plebeia, alguns soldados correram para protege-los. Outros apenas fingiram não ver ou saíram dali. Assim que as flores acabaram foram jogados frutas e verduras.
—NOSSA RAINHA É CATARINA! -Gritou um comerciante.
—DEUS SALVE A RAINHA CATARINA! -Disse uma mulher.
—NÃO ACEITAMOS MULHER COMO ELA! -Gritou outra.
—ONDE ESTÁ A RAINHA?
Todos se perguntaram o mesmo.
Os guardas escoltaram o rei e Amália até as portas do castelo.
Lucíola se segurou para não rir. Mas, se permitiu abrir um pequeno sorriso.
—Você. -Disse uma mulher. -Você é a dama de companhia da rainha.
—Sim, sou. -Disse com orgulho.
—Então, a rainha está de volta? -perguntou esperançosa.
—Não, a rainha não está de volta. Vossa majestade teve que sair rapidamente de Montemor.
—Por que? -perguntou triste.
Lucíola se aproximou da mulher.
—Era necessário que o herdeiro nascesse longe de perigos.
A mulher se alarmou. E logo abriu um sorriso.
—O herdeiro vive! -Exclamou com emoção. -A rainha não o perdeu! Agora entendo e posso ver onde está o perigo. -Lucíola se afastou, deixando a mulher. -O PERIGO É O REI! -Todos olharam para ela. -O PERIGO É O REI! -Gritou novamente. -O HERDEIRO VIVE! MONTEMOR TEM UM HERDEIRO! A RAINHA CATARINA NÃO O PERDEU! ELE NOS ENGANOU!
Todos olhavam para ele, um sentimento de ódio tomava de conta de todos.
—O rei seria capaz de por em risco a vida do próprio filho? -perguntavam-se.
—Onde a rainha está?
—Por que ela fugiu?
—Parece que o rei que é o verdadeiro carrasco. -Comentou Saulo.
—DEUS SALVE O HERDEIRO DE MONTEMOR! -Gritaram.
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