Castle Of Dreams
3 III - Pânico

O burburinho não era por acaso, Betânia, a cozinheira, logo que me viu chegar me abraçou e a única coisa que me falou antes de sair correndo e chorando para a cozinha foi:
– Ela não é disso, nunca foi disso. Só vivia na mata, nunca aqui, sempre enfurnada no canto dela. Na verdade, não é mais, não fique aqui minha menina, não é bom vê-la assim. — Meu coração batia à mil. Um misto de desespero. Agonia. Medo. Desconfiança... Pisquei os olhos de longe no mar e só o que eu vi foi um corpo boiando perto da areia.
Em pânico fico fora de mim, mas não do tipo tímida, paralisada; nunca fiquei assim, e só vou ficar quando apontarem uma arma na minha cabeça, caso contrário o meu "em pânico" me deixa louca, frenética. O castelo sempre me fez mal nessas horas, desde pequena amava esse lugar, mas sempre tinha pesadelos, vozes me induziam até o final da ilha, mas nunca me atrevi. Corro até onde posso, na verdade, até onde o meu bom senso falha. Quando ele volta, vem, contudo e o cansaço já me venceu. Fiquei horas sentadas na cama, até meu ataque de pânico ir á um nível tão alto de me fazer pegar as coisas que estavam mais próximas de mim e sair correndo, nem se quer fechei meu quarto. Nenhuma porta. Nada. No meio do caminho meu pé doeu. O feri. Talvez uma torção, nunca se sabe. (No estado em que eu estava nada podia ser feito, a mochila pesava, assim, a opção A) RASTEJAR FEITO COBRA, estava eliminada. Sempre que uma opção é descartada temos outra, nesse caso, a opção B era: FICAR POR ALI MESMO.
É nessa horas em que mais acredito em forçar maiores, até então eu não tinha olhado o que estava em minhas mãos. A única coisa que percebia era o peso delas me puxando para baixo. O pânico nem se quer me permitiu olhar, que comigo havia minha mochila, com lanterna, máquina, barrinhas de cereal, e meu casaco na outra mão. Agradeço á mim mesma por ter pensado em sair mais cedo. Pena que todo aquele burburinho não me deixou fazer isso, mas logo agora, mais tarde, na verdade de noite, o pânico resolveu tomar conta de mim. Dominar-me, e me fazer correr milhares de metros até o fim do mundo.
Se não fosse a lanterna, nem os barulhos de madeira rangendo eu não perceberia que 'a casa de madeira' estavam tão perto de mim, uns quatro ou cinco metros, talvez. O frio foi tão bom, tão frio, que me fez esquecer a torção no pé, e assim, recortada numa árvore, e infelizmente fracassada na tentativa de me cobrir toda com apenas um casaco, eu dormi. De pouco, em pouco, eu acordava. Talvez eu tenha dormido pouco, mas é incrível, como as horas se passam tão devagar quando as coisas estão piores. É impressionante o que temos que esperar para a tortura finalmente acabar, e o sol chegar, e nos encher de esperanças...
Acordei, finalmente, e o dia mal tinha realmente raiado. Quis chegar o mais rápido possível no castelo, para não preocupar ninguém. Mas com o pé desse jeito, demorei umas boas duas horas para chegar. Pronta para me jogar na cama e viver uma manhã de rainha, no castelo, literalmente; deparei-me com alguém pulando da janela do meu quarto, com uma bolsa cheia de coisas, tão cheia que acabou deixando cair alguma coisa, da qual, com muita prudência peguei. Parecia uma agenda. Não qualquer agenda. Uma bem antiga, de couro, clássica. Ao abri-la foi que percebi o quanto ela não era comum, havia uma lista de afazeres. E uma frase da qual nunca me esquecerei!
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