Entrei na casa sorrateiramente olhei à olho grosso, quase que me escondendo nas paredes; depois vasculhei os cômodos para ver se tinha alguém, primeiro a sala, depois um quarto de criança ainda remexido, e por fim a suíte de casa, na qual tinham muitos papéis espelhados pelo chão, mas mesmo assim, na sala, só achei uma faquinha de abrir cartas e pequenos pedaços de papéis no chão, como se alguém estivesse abrindo cartas, apenas isso, ninguém estava lá, e para mim, as dúvidas ficam no ar. Quem estava ali? Que papéis são esses? Mesmo com um clima tenso resolvi retornar ao castelo, sei que a ilha não é habitada, mas mesmo assim, sentia algo perto de mim, apressei meus passos, o máximo que pude, mas quando cheguei já estava quase de noite, o frio me fazia tremer e a névoa pairava cada vez mais densa. Por pouco não me perdia, de dia era difícil, de noite muito pior. Minha avó já não estava mais na ilha, e assim não recebia lanchinhos ou lembretes para comer na madrugada. Me remexia na cama, mas eu só pensava naquelas peças do quebra cabeça, e se é que faziam algum sentido todas juntas, separadas... Sempre fui meio petulante, porém educada, mas queria ver o que era aquilo, pena que o medo me consumia.

Logo que acordei, senti-me cheia, talvez por causa do ataque à geladeira de ontem.Minha avó não estava aqui, mas o hábito já fazia parte de mim, me senti cheia e resolvi sair o mais cedo para chegar antes do almoço. Fui 'passear' com meu binóculo e a câmera. Aqui é um paraíso, mas esse paraíso para mim apenas nesses dias já está virando mistério puro. Não estava mais aguentando, sorte que ainda tinha muito para vasculhar.

Ideia de idiota a minha, não comi nada, nem levei nada... como meu avô falava "Que ideia de girico menina..." Morrendo de fome resolvi voltar para o castelo, afinal realmente ficando fraca, se fosse mais longe não sei se conseguiria voltar com rapidez. Já no jardim, pude ver do outro lado a guardiã, e resolvi cumprimentá-la. Ela parece ser um pouco tímida com aqueles olhos fraquinhos e meigos.

Enquanto andávamos conversávamos, e sabe o que só fazia crescer? A FOME!! Mesmo assim, fiquei curiosa de conhece-la. Todos sabiam, mas eu perguntei o que ela realmente fazia. E em um tom frágil, e ao mesmo tempo muito confiante.. ela me respondeu:

– Praticamente sou uma psicologa, amiga, ouvinte e destinatário de todos aqueles que querem desabafar aqui nessa ilha, antes, quando meu pai estava vivo, tinham mais pessoas, agora, somos poucos. Eles me contam decepções, segredos, glórias, de várias formas e eu tento escutar e conciliar. Alguns mais rústicos me mandam cartas, bilhetes pois não tem muito tempo. E prefiro lê-los por aqui mesmo. — Que bom que posso confiar em alguém por aqui; talvez eu conte a ela sobre esses passos escutando.

Fui até a cozinha para comer — Minha avó preferia comer na sala de refeições. E não, era um lugar muito grande para só uma pessoa comer. — mas quando cheguei lá, a comida estava no fogo e nem a Betânia estava lá. Diferente da cozinha, na frente do castelo havia bastante borborinho. Logo que me aproximei estavam todos reunidos, na verdade quase todos. E a única coisa que pude ver foi um corpo boiando na praia.

Notas finais
Que corpo será aquele? Próximo Capítulo talvez você saberá de quem é...