Castelos de gelo

4 Medíocres finais felizes


Notas iniciais
Bem, é isso... Eu agradeço imensamente à Mia por seu belíssimo comentário. Obrigada flor! Porém admito que fiquei um pouco triste aos constatar que apenas uma pessoa comentou, enquanto eu tive umas vinte à trinta visualizações. É decepcionante. Eu me esforcei par escrever esse capítulo e ficaria feliz se voces demonstassem que gostaram.

Capítulo 2: Medíocres finais felizes

—Vamos, as diga mais uma vez. Quais são as regras?

Minha mãe, Clear, tem uma maneira esquisita de tentar me proteger. A começar pelas regras.

— Não arrumar problemas a ponto de ir para a diretoria.

Falei uma delas enquanto descia as escadas velhas e comidas por cupins com uma jaqueta preta velha jeans, que Mari havia me dado de presente- pois eu nunca me permitiria esse luxo- enquanto ia em direção à minha mãe, que se encontrava no fim da escada. Parei no último degrau.

—Não roubar- fui falando as regras sem me importar que não as estivesse dizendo na ordem, mas sim que minha barriga estava doendo de tanta fome. Minha mente viajou para ontem, quando peguei as pulseiras da festa da Melanie com Marcos, o drogado. Se minha mãe descobrisse do meu feito, provavelmente teria que começar a estudar em casa, e não quque gastemos s pouco dinheiro que temos com futilidades. Mas de qualquer jeito eu teria quebrado uma das suas preciosas regras, ou seja, eu não sairia impune.

—Amy! Preste atenção quando eu falo com você!- minha mãe falou erguendo o tom da voz e apertando ainda mais os braços em volta do corpo. Embora ela fosse alta, eu quase a ultrapassava, já que estava com um degrau me favorecendo altura. Estávamos com os olhares nivelados, e percebi que suas orbes castanhas esverdeadas estavam manchadas de preocupação. Foi ai que eu percebi que seu cabelo negro estava desarrumado, e seu tom de voz estava mais duro do que em muitos dias. Ela estava realmente preocupada.

—Okay, okay- disse enquanto erguia minhas mãos em rendição e descia o resto dos degraus da escada de mogno escuro. Minhas botas velhas ressoavam no chão de piso branco com detalhes azuis, um dos poucos luxos que nós tínhamos.

Nunca entendi realmente porque mamãe não tinha tanto dinheiro, levando em conta seu emprego na área de corretora e com a renda que um tio distante nos mandava de seis em seis meses.

—Não chegar em casa depois das oito- falei atravessando a sala e indo até a cozinha, aonde peguei uma maça da fruteira. Me apoiei na bancada que estava a fruteira e comecei a pensar nesse última regra.

Sim, eu tenho toque de recolher. Acho que sou uma das poucas adolescentes na terra com dezessete anos com toque de recolher e ainda de oito horas. Eu nunca ia a festas, eu nunca ia a passeios escolares, eu nunca viajava. Se eu acho ruim viver assim? É claro. Nunca entendi realmente porque que tenho todas essas regras. Tudo que eu ouço é que é para minha segurança, e que talvez, um dia, não seja assim. Mas e a faculdade? Um dia eu vou ter que ir para uma né?

Talvez eu seja como a Rapunzel, presa em uma torre, enclausurada em sua própria solidão. A única diferença é que essa maldita Rapunzel tem um lindo cabelo loiro, longo e macio, que parece ser feito de aço- só pode, para ela aguentar subirem por ele- enquanto o meu é castanho claro, com um tom levemente ruivo quando na luz do sol. A Rapunzel tem dentes perfeitos, ela nasceu assim, enquanto eu tenho esse aparelho. A maldita da Rapunzel tem uma pele perfeita, enquanto a minha é incrustada de espinhas. Acho que a única diferença entre mim e a Rapunzel é que ela é idiota o suficiente para esperar pelo seu príncipe encantado, enquanto eu esqueci do meu final feliz faz tempo.

Não sou uma catalisadora de sonho, apenas realista, e sim, existe uma diferença entre os dois. Um linha tênue e fraca, mas ainda assim, uma diferença.

Tipo, vamos analisar, quem em sã consciência beijaria uma mulher em um caixão de vidro no meio da floresta? A branca de neve estava morta! Mas não, o príncipe, aquele filho da mãe, foi lá e a beijou. E a maldita, mesmo morta, encontrou seu final feliz!

Um final falso, finalizado com um ponto final, mas mesmo assim um final feliz.

Eu quero o meu final feliz! Embora não acredite em um, se um dia chegar a ocorrer, não seria digno do meu desprezo.

Mas como posso querer um final feliz, se nem no próprio amor eu acredito?

—Não ter namorados.

Okay, essa não era a mais difícil, pode até se dar como a mais fácil. Quem em sã consciência iria me querer?

—Não se apegar.

Essa talvez fosse a mais difícil...

Já fomos à 12 cidades diferentes desde que eu nasci.

Mamãe nunca me explicou realmente porque, apenas fazemos as malas e nos despedimos de todos, com um aceno e um sorriso fraco.

Eu não sou muito de fazer amigos, mas minha personalidade parece atrair algumas pessoas com personalidades iguais.

Eu nunca entendi realmente porque, pois nem saber quem eu sou eu sei.

—Não aparecer em fotos.

Isso era algo meio que incompreensível para mim, mas não era algo do qual eu fizesse questão. Eu não podia aparecer em nenhuma foto, não havia retratos em minha casa, a única foto que eu tinha era a da minha carteira de identidade. E eu ainda não tinha a de motorista.

Era como se eu sempre tivesse que ficar no anonimato. Com a identidade preservada, e quando começavam os burburinhos, nós sumia-mos, sempre decepcionando ou entristecendo alguém.

—Não ser presa.

—E qual a primeira e mais importante??- Clear perguntou desprezando as seguintes regras ao constatar que eu havia citado as mais importantes e que eu já estava atrasada para a escola. Chegar atrasada resultava em ir para a sala do diretor, ir para a sala do diretor implicava em pegar detenção.

Mordi a maça quase finalizada que estava na minha mão esquerda e com a direita peguei a minha pasta preta, com detalhes e broches do Incrível mundo de Gumball, a pondo em cima do meu ombro esquerdo. Engoli a maça percebendo que ela não seria suficiente para saciar minha fome, e me dirigindo até a porta, recitei a primeira regra, a mais importante.

Nunca revelar meu nome completo.

Eu tinha o sobrenome da minha mãe, mas também tinha o do meu pai, porém este era ocultado em minha carteira de identidade, nem me perguntei como,final, mamãe sempre dava um jeito. Entretanto estava presente em minha certidão de nascimento.

Minha mãe sempre disse que meu pai havia me abandonado quando eu nasci. Ela dizia que ele procurou sua felicidade. Não havia retratos dele, nem meus, nem de ninguém. As únicas fotos eram de quando eu era uma criança, e mesmo assim, eu não podia amostrá-las para ninguém.

Fechei a porta de casa, atravessando a passos largos o mini jardim com folhas mortas e terra infértil que tem na entrada na minha casa, me dirigindo a umas esquinas adiante, onde o ônibus escolar parava para buscar os alunos que moravam longe da escola.

Ele já estava saindo.

—PARA MOTOR!! ME ESPERA! VOLTA AQUI! É SUA MÃE QUE TA NO OUTRO PONTO?!- praguejei enquanto corria atrás do ônibus amarelo da escola, clichê como naqueles filmes de colegiais.

—Volta aqui- sussurrei sem fôlego apoiando minhas mãos em meus joelhos a procura de ar e apoio. Olhei o ônibus sumindo no horizonte, o que me fez constatar uma coisa que eu não havia percebido antes.

Se formavam nuvens cinzas de chuva no céu. Ou seriam apenas meus óculos embaçados?

Olhei para trás pensando em voltar para casa, constatando que já estava longe do ponto de ônibus e que não tinha dinheiro para pagar um táxi. Além do mais, se eu faltasse a escola, ligariam para minha casa, e claro, como sou uma pessoa incrivelmente sortuda- sintam minha ironia- tinha prova de álgebra hoje, ou seja, eu levaria um zero e não teria uma atestado para comprovar minha falta.

Suspirei e sem pensar mais em minhas escolhas limitadas, comecei a caminhar o mesmo percurso que o ônibus tomava, me dirigindo para a escola, enquanto praguejava todas os descendentes e todos os ancestrais daquele motorista tarado e viciado em nicotina, que parece nunca tomar um banho e que tem uma educação tão grotesca quanto seu bafo repugnante.

E sim, meus caros leitores, como vocês já esperavam, começou a chover.

Eu estava morrendo de frio já que estava chovendo, e a minha jaqueta jeans preta não daria conta do recado. Eu já havia a colocado e como já se pode imaginar, ela estava enxarcada.

O clima da minha cidade poderia se dar como bipolar, uma hora chovia e na outra fazia sol. Toda hora.

Sempre foi assim, desde quando eu cheguei na cidade, a seis anos atrás. A cidade que eu durei mais foi essa, e sim, eu quebrei uma das regras, eu me apeguei.

Quando minha blusa branca com gola V, minha calça jeans preta desgastada, minha jaqueta jeans preta e minha mini bota estavam tão encharcados a ponto de estarem totalmente colados em meu corpo e minha bota fazer um barulhinho estranho toda vez que eu andava, é que vi um carro parar ao meu lado na rua deserta.

Apertei o passo, enquanto o carro também continuava ao meu encalço.

—Precisa de ajuda ai?- perguntou uma voz masculina vindo do vidro recém abaixado. Não me permiti olhar para quem estava no volante, o medo não permitia.

—N-não m-moço. Prec-cisa não...- gaguejei sentindo o meu lábio inferior tremer e bater cada vez mais com o frio e com o medo.

Assassino.

Assassino.

Minha mente gritava enquanto eu tentava me convencer de que isso era apenas uma paranóia. Afinal, quem ajudaria pessoas nas chuvas, enquanto tem um carro largo e aconchegante? Isso mesmo, pessoas boas, que querem ajudar outros, humildes, ou...psicopatas.

Psicopata.

Psicopata.

Então quando ele abriu a porta do carro para mim, sem eu pedir a sua ajuda comecei a correr, sabendo que estaria em perigo se aquele carro continuasse tão perto assim de mim. Sabendo que estaria em mais perigo ainda se eu entrasse nele.

Quando corpos devem ter no porta malas?

Quantas mãos ele coleciona??

Com o meu azar infeliz, o mais previsível aconteceu, eu cai. O cara que eu ainda não havia visto o rosto, abriu a porta do seu carro com rapidez, vindo ao meu encontro.

Ele usava uma blusa polo azul-marinho, que contrastava muito bem com sua pele extremamente pálida e com seus olhos azuis límpidos e claros. Seus cabelos loiros como areia, caia em sua face displicentemente, colado em sua testa pela chuva que escorria e traziam a seus lábios um tom extremamente vermelhos, e em sua face, lágrimas imaginárias.

Foi ai que eu o reconheci como o loiro que havia achado que eu era uma mendiga, e disse no dia anterior que não tinha troco para me dar esmolas.

E mesmo sem perceber, eu o perdoei, pois o azul de seus olhos compensava minha raiva.

Acordei do meu transe quando ele posicionou suas mãos em meus ombros, e eu percebi que ele estava apoiado com um joelho no chão, e que me olhava intensamente. Mas só acordei totalmente mesmo, quando ele falou comigo.

—Você está bem?- ele perguntou com sua voz totalmente preocupada. Foi ai que eu lembrei que estávamos na chuva , e que eu estava morrendo de frio.

—Ótima- respondi sorrindo.

Ele me ajudou a levantar e me levou até seu carro, um conversível preto impecável, por dentro e por fora. Com estofado de couro negro e macio, com cheiro de novo. Ele abriu a porta do lado do motorista, sem se importar em abrir a minha.

Oh! Parece que o cavaleiro com armadura prateada, não é tão educado assim.

—Tente na molhar muito o meu carro- falou assim eu entramos. Embora ele também estivesse molhado, ele fez questão de falar para eu não molhar. Cara estranho...

Avistei um casaco preto de couro no banco de trás e me inclinei para pegá-lo. Afinal, ele havia me ajudado né? Isso provavelmente seria o que qualquer um faria.

Mas não, ele não fez.

—Não, não pegue o casaco, ele é meu.- ele falou parecendo um pouco desconfortável em dizer aquelas palavras ter que me repreender. É como se ele estivesse sem paciência, tentando controlar o mau humor, enquanto tenta não ser grosseiro.

É como se ele estivesse se arrependendo de ter me ajudado.

Me surpreendi, mas não falei nada, afinal o casaco é dele. Apenas me recolhi volta em meu assento, o observando aumentar a potência do aquecedor, e responder ao meu tímido obrigada com um de nada.

Passamos o caminho todo em silêncio, e quando cheguei na escola, aconteceu o que eu já sabia que iria acontecer. Detenção.