Castelos de gelo
12 Guarda costas
Notas iniciais
—Amanda!
Senti os braços de mamãe sobre mim, enquanto vomitava o meu café da manhã que consistia em uma maçã, e o meu lanche flácido e com um gosto repulsivo no chão de madeira farpento da cozinha pequena.
Não é a toa que que chamo aquele lugar de cadeia.
—Isso é culpa sua Charles!- mamãe sussurou para o tal Charles que a propósito também é o meu pai, que se encontrava do meu lado também segurando um dos meus braços enquanto eu inclinava minha coluna e vomitava novamente.
—Mas eu ainda nem a expliquei que ela é uma princesa e que ela é minha única filha— ele sussurrou parecendo confuso.
Princesa?
Única filha?
Isso só podia significar uma única coisa...
Eita desgraça!
—Isso significa que eu sou uma princesa?
Vomitei de novo.
Sabia que eles não deveriam ter ouvido, e se tivessem não entenderam pombas nenhuma, já que o fluxo de vomito interrompeu minhas palavras que deve ter saido como “Igo digna eu ug pincegua?”.
Ai vocês, meus caros ouvintes, devem estar se perguntando porque diabos eu estou vomitando. Acontece que desde que eu tinha 7 anos, toda vez que eu estava muito nervosa ou em situações muito complicadas eu começava a vomitar.
E juntando o fato de eu ter descoberto que o homem a meu lado é meu pai e que eu sou da realeza, tudo no mesmo dia, apenas fez com que minha situação piorasse. Afinal, nada é tão ruim que não possa piorar.
Mas da maneira que está, acho que não tem como ser mais degradante.
Depois do que pareceram anos luz vomitando eu ergui minimamente minha coluna, sentindo meu nariz arder por ter saido tanto liquido dele e da minha boca.
E olha que eu nem havia comido tanto assim.
—Depois conversamos sobre isso- Charles sussurrou respondendo as minhas palavras confusas anteriores. Uau, não sabia que ele entendia vomitês. Comecei a gostar um pouquinho dele.
Afinal, aguém que entende o que estou dizendo enquanto vomito além da minha mãe, com certeza merece um pouquinho do meu respeito...não que ele seja de tão valor assim.
Olhei para o chão a minha frente com mais atenção, percebi que botas pretas me rodeavam à uma distância segura de mim, e do espaço do verde do meu vômito no chão.
Quando olhei para cima percebi que estava rodeada de guardas que mais pareciam artistas galãs de novela bonitões, em suas roupas pretas feitas sob medida e seus sorrisos de comercial de colgate super mega plus white.
Olhei para o chão ainda inclinada e segurada pelos braços por minha mãe e Charles, observando o líquido verde- aquele suco de couve não me fez bem- para em seguida olhar para eles. Alternando o olhar entre um e outro como se estivesse acenando em concordância.
Seria até meio engraçado, pelo fato de olhar para eles e para o chão, contrastando a diferença entre minha misería e um bando de artistas galãs.
Eles meio que pareciam uma miragem.
Amarga ironia.
—Quem são vocês?- perguntei tentando quebrar o transe que se instalara.
Charles se afatou um pouco do meu lado, agora mantendo uma das mãos em minhas costas.
—Amanda- ele começou- esses são alguns dos 20 homens convocados para a missão de encontra-la e designados para a sua proteção a partir de hoje.
E concordando sutilmente com a cabeça, olhou para o tal Marcus, eu acho, como se essa fosse a deixa para o mesmo fazer alguma coisa.
—E esse, Srª Lancaster, é o seu novo guarda costas.
Ele olhou para os vários caras ao meu redor com idades que pareciam variar entre 19 à 25 anos, na verdade, todos olhamos, e com as mãos postas atrás das costas em sinal de respeito igual a todos de preto, deu um passo a frente um dos garotos que me observava.
Ele usava uma blusa preta com mangas até a metade dos antebraços, uma calça militar escura e botas de couro lustrosas, assim como todos que se encaixavam como soldados ali.
Seu maxilar estava trincado, o deixando mais definido do que já parecia ser sob sua barba por fazer, seus cabelos eram tão negros quanto sombras da noite identicos à seus olhos que renunciavam meus segredos e pareciam tão secretos quanto o mesmo.
Eu olhei em suas orbes negras, obscuras, e notei abobadamente que ele me fitava fixamente.
—Esse é William Scott, seu mais novo guarda costa particular- Marcus repetiu com um certo orgulho quase imerceptivel na voz rude e branda.
Ainda olhando para o cara a minha frente que parecia ter 19 anos, dei um passo a frente já pronunciando uma apresentação.
—Meu n-
Sabe aquela frase de que tudo pode piorar?
Pois é, tudo pode piorar, citando que você acaba de conhecer um cara que vai ser seu guarda costas, e termina por escorregar no seu proprio vômito.
É só um sonho ruim.
Recitei pela terceira vez meu mais novo mantra, fingindo que nada havia acontecido.
Porque, olha, há duas coisas a se ressaltar sobre minha sorte.
1- Ela não existe.
2- Ela não existe.
Olhando para o vômito verde que me rodeava, e para os olhares assustados ao meu redor, percebi o óbvio.
Eu devia ter ficado no ventre.
Fechei os olhos, torcendo para aquilo tudo ser só mais um sonho, para eu acordar no meu pijama de panda e ouvir meu despertador tocar.
Mas sabe como é né...
Mãos fortes me levantaram do chão. Com muita facilidade até.
— Estou começando a perceber que para ficar perto da senhorita precisarei de ombreiras e escudos.
Abri os olhos devagar, observando o garoto que parecia ter sido teletransportado de alguma novela mexicana à minha frente.
O novo termo ao qual teria que chamá-lo: meu guarda costas.
— Talvez de um colete prova de balas e um capacete também — um garoto se pôs ao lado do meu...guarda costas, também vestido com um fardamento militar e sorria para mim, um sorriso sorrateiro do tipo "sim, sei que estou certo", exibindo seus cabelos loiros lutando para permanecer arrumados.
Olhei em seus olhos azuis, me perdendo instantaneamente.
Já disse que olhos verdes e azuis são o meu fraco?
— Pro-pr-provavelmente.
É claro, eu tinha que gaguejar para a merda está completa. Porque se eu não gaguejasse não seria eu. Obviamente não seria.
Meus problemas de dicção tem que com certeza que aparecer nos momentos mais possíveis.
Ele deu uma risadinha, acho que ele achou que eu sou retardada.
Bingo!
Quando ele percebeu que eu não falaria nada, resolveu tomar a voz.
— Prazer, eu sou Bryan Odell.
— Aman-man-da.
E de novo a droga da dicção.
—É, eu sei- ele sorriu brincalhão.
E que droga Amanda, sério que você se apresentou? É óbvio que ele sabe quem você é! Se bobear ele deve saber até qual a cor da calcinha que eu tô usando e quantas cerdas tem minha escova de dentes...exagerada, eu? Magina!
— É...- sorri debilmente exibindo meu charmoso- sintam a ironia em minhas palavras- sorriso amarelo, e coloca amarelo nisso, o aparelho todo a mostra.
— Certo Amanda, agora que já se conheceram, temos que conversar- Charles disse cruzando os braços.
— Posso tomar um banho antes?- perguntei dando as costas à Bryan, puxando a parte do vestido colado à minha barriga, acho que pelo suor e vômito também.
— Mas é claro!- ele sorriu tentando ser gentil e não soltar um "Olha, tu tá fedendo à carniça" e parecer compreensivo.
Mamãe me olha retorcendo os dedos das mãos, repuxando um pouco os lábios em desprezo.
É, eu tava um lixo.
Quando eu estava no terceiro degrau da escada ouvi a voz de Charles vinda da cozinha.
— William, por favor vá com ela.
Mas é claro, o que ele espera, que super ninjas invadissem minha janela e me sequestrassem?
Se ele for tão paranóico quanto eu, então sim.
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