Castelos de gelo
15 Eufemismo, super ninjas e novelas mexicanas.
Notas iniciais
—Amy, você tá me ouvindo?
Mari, minha melhor amiga, gritou pela terceira vez em meus, ouvindo enquanto sapateava pelo quarto.
—Hum, sim- remexi a cabeça.
—Então me explica, como minha “melhor” amiga- sim, ela fez aspas no ar- encontra o pai dela, e não me conta nada!?
Depois que Marielly bateu na janela do meu quarto às 2 da manhã, porque segundo ela "não conseguiria dormir se eu ficasse com o couro quente", eu venho tentando explicar pra ela sobre ter um homem na cozinha que por acaso é meu pai, mas meus amigos, não está sendo fácil.
Elly abriu os braços, não como se dissesse “Ow, você deve estar em choque, toma um abraço”, mas sim como se dissesse “Vem brigar se tiver coragem”, sim, ela parecia uma barraqueira, só faltava levantar a blusa e mostrar a área do umbigo.
—Eu acabei de descobrir, e se você deixasse eu te explicar você entenderia. Além de que, o que você queria que eu fizesse? Pegasse meu celular invisivel e te ligasse falando "Olá, eu tenho um pai"?
Eu havia falado tudo muito rápido, mas sabia pelo seu olhar que ela havia entendido.
Dei batidinhas ao meu lado na cama, pedindo visualmente para ela sentar, o que ela fez de mau gosto.
Qualquer pessoa no lugar dela, ao saber que a melhor amiga reencontrou o pai dela ofereceria um abraço apertado e um cafuné. E bem, no começo ela foi bem afetuosa, mas quando ela percebeu que eu não havia movido uma palha para avisar ela, bem, ela virou um bicho.
—Então...Charles, o meu pai, explicou porque ele sumiu por tanto tempo e sobre quem ele era.
—E como você está reagindo com tudo isso?- bipolaridade meus amigos, bipolaridade.
—Bem, estou sentindo várias coisas, — olhei para meus pés- também meio ansiosa, ainda mais agora que descobri que sou uma princesa e...
Ela esbugalhou os olhos e colocou a mão na boca, tentando disfarçar o choque, me fazendo perceber que eu havia falado mais do que deveria.
Uma das únicas coisas que Charles me pediu foi sigilo, pelo menos até a imprensa acabar de alguma forma descobrindo.
Quando Marielly se esgueirou de alguma forma pelo janela do meu quarto -AFINAL COMO ELA CONSEGUIU ENTRAR NO MEU QUARTO — , que é no segundo andar da casa, já que ela não podia entrar pela frente por causa das regras de mamãe de não trazer ninguém aqui em casa, me perguntou o que havia acontecido e eu disse que tinha reencontrado meu pai, eu ainda estava em dúvida se contava a ela da minha linhagem real, já que estava com um pouco de medo da sua reação, mas agora vendo a cara dela, eu não fazia ideia do que esperar.
—Você o que?!- ela se aproximou como se procurasse meu rosto.
Olhei para ela.
—Eu sou uma princesa- disse o mais calmamente que pude.
Mas então uma risada alta surgiu, e percebi que ela estava rindo do que eu disse.
—Ok Amy, você deve ter com certeza batido a cabeça em algum lugar quando caímos na floresta.
Naquele momento eu já havia decidido que contaria a ela, que a convenceria, não para me gabar nem nada disso, mas porque seria legal que ela soubesse.
—Não Mari, eu não bati a cabeça- sorri um pouco com sua reação, é claro que ela não acreditaria em mim de primeira, não quando ela não viu os soldados com roupas pretas no andar de baixo e o Rei da Inglaterra na cozinha.
—É que você ainda não sabe quem meu pai é.
Ela deitou na cama ainda rindo, como se eu fosse uma estrela de stand-up, enquanto colocava as mãos na barriga.
—Quem ele é?- ela perguntou ainda entre risos- o Rei da Inglaterra?
—É, ele mesmo- respondi casualmente como se estivesse respondendo se queria café com ou sem leite.
Depois de seis anos de amizade, Mari sabia identificar muitas das minhas reações, como por exemplo como quando eu mentia ou não.
Mas embora ela não tenha acreditado quando eu disse que era princesa, algo na seriedade das minhas palavras anteriores e com o fato de saber que eu não brincaria com esse assunto a fez sentar-se ereta, agora me olhando com seriedade.
Quando ela percebeu que eu não desviei o olhar do seu, e que meu olhar se manteve firme no dela, ela percebeu que eu estava mesmo dizendo a verdade, por mais absurda que podia aparecer.
—AH CARAMBA!
Ela levantou da cama num pulo voltando a sapatear no chão do meu quarto.
—Caramba, caramba, caramba!
Ri um pouco da sua situação até lembrar que havia guardas do outro lado da porta, que se ouvissem o estardalhaço que Mari estava fazendo provavelmente achariam que super ninjas invadiram meu quarto querendo me sequestrar.
Levantei tentando segurar seus ombros.
—Silencio Mari, tem guardas aqui vigando meu quarto, você precisa ter calma.
Ela se soltou do aperto em seus ombro e começou a chacoalhar seus braços como se fosse um daqueles bonequinhos infláveis que tem na frente de supermercados ou postos de gasolina.
—Calma?! Como você me pede calma? Eu acabo de descobrir que minha melhor amiga é filha do rei da Inglaterra e você me pede calma?
Fiz “shi”, enquanto coloca o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio, mas mesmo assim não conseguia não rir de seu espanto.
—Ahhh eu estava certa, eu estava certa!- sua expressão agora variava em um misto de surpresa, risadas e contentamento- Eu disse que você deveria ser perseguida da máfia para sua mãe te esconder assim, e você é filha do rei da Inglaterra!
E depois dizem que eu falo rápido.
Seu tom de voz saiu mais alto do que das outras vezes.
Apertei a ponte do meu nariz, só agora percebendo que mesmo depois de ter caído na lama e passado por muita coisa, ainda estou com meus óculos de armações finas, me deixando surpresa por ele não ter caído em algum lugar.
—Ah caramba! O rei da Inglaterra tá aqui?! Ah caramba, ele é seu pai! Nossa, tô hiperventilando...ahh caramba! Como isso aconteceu, o que ele disse, o que você disse, o que sua mãe disse, o que ele fez?
Ela agarrou meus ombros enquanto exigia as respostas.
E nesse momento o previsível aconteceu.
Guardas vestidos de preto entraram no quarto, empunhando armas que o calibre eu desconhecia, com um único alvo em escolha.
Mari.
—Uou, uou, uou!
Eu sussurrei desconfortável com a situação que estava se desenvolvendo e com o fato dos guardas estarem apontando suas armas para ela, enquanto outros olhavam ao redor procurando mais sinais de perigo.
“Há um suspeito no quarto da princesa” um dos guardas falou segurando um dos fones de ouvido.
—Tire as mãos da princesa- William/ vulgo: meu guarda costas/ vulgo: homem-praga/ vulgo: ator de novela mexicana falou com sua voz impotente e ameaçadora, focando seu olhar em Mari letalmente.
—Ah caramba...- Mari sussurrou chocada com a situação e provavelmente com a primeira prova de que sim, eu era da realeza e que sim, os guardas pareciam atores de novela mexicana.
—Já disse para soltar- meu guarda costas sussurrou de maneira firme, alto o bastante para escutarmos, com as palavras rastejando em seus lábios como veneno nas garras de uma serpente.
Mari lentamente soltou os meus ombros, erguendo as mãos em rendição.
—Não gente, calma, ela é só uma amiga minha. Ela não vai me machucar- disse tentando soar calma e falar devagar, enquanto apenas os olhos de William se voltavam para mim, ainda segurando a arma na direção da minha melhor amiga, como se estivesse em dúvida se acreditava ou não.
Okay, mesmo com a situação que se desenvolvia ao meu redor e com os olhos de William focados em mim me fazendo desviar o olhar, não consegui não pensar em como ele era bonito.
Suas veias eram sobressalentes em seus braços rígidos e pele um pouco pálida, seus olhos negros sugavam meu fôlego e me traziam gravidade, como se estivéssemos suspensos nos segredos que eles continham.
Seus lábios avermelhados estavam presos em uma linha tensa e fina e seus cabelos estavam bagunçados de uma maneira amável.
De repente, imaginei flashes de minhas mãos invadindo os fios negros do seu cabelo, a fim de descobrir se eles eram tão macios quanto aparentavam ser.
A este ponto, ele já estava abaixando a arma, e quando procurei seu rosto novamente, ele ainda me olhava atentamente.
Mamãe chegou na porta do quarto, e explicou para Marcus, que também se encontrava no mesmo cômodo que nós, quem Mari era.
Mamãe conhecia Mari da época em que ela ainda insistia em me levar para a escola e eu esperava ela chegar junto com Mari no portão de entrada.
Quando finalmente liberaram Mari de interrogatórios de como ela entrou em meu quarto e avisaram a ela do sigilo que a situação pedia, ela veio até o meu lado com um sorriso no canto dos lábios.
—Cara, me senti em uma cena de Missão Impossível.
—Ah claro, espere só até ver o quartel que Charles falou que eles trabalhavam para me achar. Parece que tem até aqueles telões holográficos.
—Nossa...E Charles, seu pai...
—Sim- a palavra soou desconfortável em meus lábios- quer conhece-lo?
Ela abriu a boca impressionada para depois sorrir travessamente.
—Se eu quero conhecer seu pai, o rei da Inglaterra? Serio que você ainda pergunta?
Sorri para ela meu sorriso cariado, amarelo e com pedrinhas verdes e azuis do aparelho e enlaçou seu braço no meu, enquanto nos dirigíamos até a porta do quarto.
Quando estávamos chegando ao batente, Marielly parou de andar, consequentemente me fazendo parar de andar também, com um expressão de susto, como se tivesse esquecido sua bolsa de compras na loja.
Ela me soltou e deu uma corridinha até o meu guarda roupa antigo, abrindo ele e vasculhando suas roupas como se sua vida dependesse daquilo.
—Porque tá remexendo minhas roupas?- perguntei me achegando nela.
—Você viu os guardas que estão aqui?- ela perguntou impressionada, como se eu fosse cega- eles parecem estrelas de Hollywood e você pretende mesmo descer lá embaixo vestida com esse roupão?
—Sim, eu vi sim- dei um sorriso de canto- são bonitinhos.
Me sentei na ponta da cama, enquanto a observava olhar algumas blusas.
“Bonitinhos” seria eufemismo para descrever a beleza deles, puxada para o rústico, desencadeada na explosão fascinante do azul.
—Bonitos?- ela se virou para mim com uma das minhas blusas na mão-, bonitos? Cara, eles parecem modelos.
Ela se virou de novo para o guarda roupa depois de jogar em mim a blusa que estava em sua mão, querendo que eu a vestisse.
—Eu sei que eles estavam apontando uma arma para mim, mas, sabe, eu ainda acho eles bonitos, você deu uma olhada no loirinho na fileira de trás? E no de cabelos negros? Sim, eu sei que viu, você praticamente tatuou ele com os olhos, mas eu não te culpo, faria a mesma coisa.
—Sim, o William.
—O nome dele é William? Nossa...
—É, William...meu guarda costas particular.
Agora ela se virou totalmente para mim, meio surpresa e meio travessa.
Mas não me surpreendi, era apenas Marielly sendo Marielly.
—Então quer dizer que você terá que passar a maior parte do tempo com ele?- seu sorriso travesso aumentou.
—Sim- respondi só agora me dando conta que de 100% do meu tempo, William estaria em 99, 9% dele.
—E qual o sobrenome dele?- ela perguntou sentando ao meu lado agora me entregando uma calça jens degastada, mas que ainda sim era bem bonita.
Vasculhei minha mente lembrando-me de quando Marcus nos apresentou, era algo com “S”.
—Scott- falei por fim lembrando.
—Eu vi que ele olhou muito para você- e o sorriso travesso continuava lá.
Lembrei de seus olhos firmes em meu rosto com suas orbes escuras me lembrando a gravidade.
—Ele deve tá achando que eu sou uma retardada.
Suspirei pesadamente deitando as costas na cama pesadamente.
—Você está exagerando- ela sorriu se virando para me olhar- mas admita, ele não é apenas bonitinho.
Suspirei pesadamente.
—Ok, ele não é apenas bonitinho.
Mas aquilo não importava, depois das vergonhas que eu passei na frente dele ele deve tá rindo de mim, isso se ele souber rir.
Levantei fugindo do assunto, pegando a calça jens desgastada e uma blusa preta gola V- uma das únicas- e fui para o banheiro, a fim de trocar de roupa.
Quando eu sai, Mari estava no espelho atrás da porta penteando seus cabelos cacheados.
Lembrei do que ela havia dito de William, e a fim dela não levar o mesmo coice que eu, decidi alerta-la.
—Ah, só para constar, esse William é verdadeiramente um cavalo- ela se virou para mim meio que não acreditando em minhas palavras.
—É sério- continuei- o garoto parecia de TPM só porque eu chamei ele de Will.
—Nossa- ela falou meio surpresa- que rude.
—E depois ainda me tratou com mais arrogância ainda- prendi meu cabelo em um coque desajeitado, sendo que ele já estava praticamente seco, ou seja, minha mãe talvez peça um pedaço para usar como bombril na cozinha, sério.
Assim que eu abri a porta do meu quarto, William estava do outro lado, parecendo uma estátua, olhando para a frente fixamente.
Congelei.
Eu e Mari não estávamos conversando baixo.
As paredes são finas.
Que. Droga. De. Azar.
Será que ele escutou?
Caramba, será que ele escutou quando eu chamei dele de bonitinho?
Bem, pela sua expressão parecia que não.
Suspirei aliviada.
Bem né, pelo menos isso. Já passei tanta vergonha na frente dele que não duvido se ele me prender no pentágono, com medo que eu cause algum risco à humanidade. Dramática, eu? Magina!
Descemos o degrau da escada rapidamente, nos dirigindo para a cozinha, com os olhares dos guardas que ali se encontravam ainda lançando olhares desconfiados para Mari, que estava do meu lado.
—Charles- o chamei, sendo que ele estava de costas conversando por sussurros com minha mãe. Ele se virou para me olhar, parecendo mais feliz por me ver limpa e mais arrumada e não parecendo que tinha sido atropelada por um jegue.- essa é minha melhor amiga Marielly Mason, Mari, esse é Charles, o rei da Inglaterra e meu...pai também.
—Ah caramba! Você é o rei da Inglaterra e o pai da Amy! Muito prazer te conhecer!- ela ficou animada estilo Marielly Mason, enquanto apertava a mão que ele havia estendido e balançava freneticamente.
Parecia uma criança na Disney conhecendo o Mickey Mouse.
—Me chame de Charles, e você deve ser a “invasora de quartos”, muito prazer em te conhecer também- ele sorriu e a respondeu polidamente.
Ela revezou o olhar entre eu e ele, como se disse “vocês são idênticos” e aumentou ainda mais o sorriso.
Minha mãe começou a perguntar sobre como ela havia conseguido entrar em meu quarto e Charles e Marcus começaram a falar como seria o sistema de segurança a partir daquele dia, já que a partir da nossa iniciativa eu continuaria estudando.
Olhei para o a janela da cozinha, vendo as estrelas brilharem mais do que em qualquer outra madrugada.
Com as aulas de etiqueta e explicações de regimento de um país, sabia que a partir de amanhã nada mais seria o mesmo.
*^*
—Você vomitou nele?!
Dizer que ela tinha gritado seria um eufemismo à parte, um grande eufemismo, já que Marielly Mason gritando parece mais uma bezerra parindo...gemeos, e mesmo eu nunca tendo visto uma bezerra parir antes, imagino que o som seja bem estridente.
Quando acordei mais tarde naquele mesmo dia, eu sabia que as coisas seriam diferentes, eu apenas não sabia o quanto.
Não sabia que seria acordada por Marielly Mason e seu grito, que deve ter sido ouvido do Canadá. A verdade é que meu sono é pesado, muito pesado, tipo pesado muito mesmo, você pode me sequestrar e vender meu fígado no mercado negro que eu vou continuar dormindo.
Quando subi para meu quarto mais cedo naquele mesmo dia acreditava que se caísse uma bomba atômica na esquina da minha casa, eu não escutaria. O cansaço físico, tanto quanto o mental consumiram meu corpo de tal maneira, que não tive a “delicadeza”- sou uma menina culta- de esperar Marielly ir para casa, e sem saber se ela foi embora, coloquei-me embaixo dos cobertores parcialmente dormindo. Eu parecia um zumbi.
Mas pelo que parecia, ela aparentemente havia ficado em minha casa, já que ainda estava com a mesma roupa que tinha vindo e eu não havia contado a ela dos meus micos repugnantes e débeis de algumas horas atrás.
Não sabia que teria seguranças em cada ponto da minha casa, imóveis que nem o muro de Jericó, vestidos de preto e olhando para a frente sem piscar.
Um cheiro forte e irritante de água sanitária invadiu meu nariz, fazendo meus olhos castanhos lacrimejarem.
Meu guarda costas se encontrava na entrada da cozinha, em pé, com a mão no pequeno fone profissional do tipo FBI, pressionando-o ainda mais à orelha, enquanto seus lábios sibilavam palavras que eu não conseguia entender por minha breve tentativa de leitura labial.
Seus olhos me seguiram quando passei por ele, fazendo minhas costas queimarem ciente do peso da sua expressão.
Sentei à mesa da cozinha, sem sinal de Charles aonde o olhasse. Precisava conversar com ele sobre o que ele havia me dito. Precisava dizer minha decisão definitiva.
Havia uma mancha escura no chão, parecendo que alguém tinha cometido assassinato e tentado limpar o sangue da madeira, mas não, provavelmente aquele era o centro do cheiro daqueles produtos nocivos à camada de ozônio, e sim, eu posso ser uma garota culta.
Eu simplesmente havia me recusado à olhar no espelho enquanto saia do meu quarto, porque, bem, meu cabelo deveria estar uma juba, como sempre, meu rosto amassado de sono e meu hálito fedendo à mijo de gambá. Mas pensamento positivo é o que importa.
E sim, Marielly Mason obviamente tentou não me fazer sair do quarto assim, mas bem, minhas técnicas de chantagem sempre funcionam.
Minhas delicadas e extremamente fofas técnicas de chantagem.
—Ou você sai da minha frente, ou eu vou cuspir na sua cara.
E acredite meu caro gafonhoto, quando você é ameaçada dessa forma por uma garota que está com os cabelos todo bagunçado, com um hálito que esta uma caatinga, com o rosto todo amassado e com a voz rouca de sono, corra. Mas corra com vontade.
Minha saliva devia estar pior que ácido sulfúrico. Se eu cuspisse na cara dela, provavelmente derreteria...ok, parei.
Com o clima super bipolar da minha cidade, estava um sol que parecia estar carregado com uns 130 °C capaz de romper a camada de ozônio e extinguir toda a vida no planeta, e cara, minha casa ficava cheia daquelas muriçocas que tomam seu sangue e tem aqueles olhinhos do mal.
E eu ainda sou alérgica à elas. Perfeito.
—Você vomita na frente de um monte de caras lindos, vomita em um deles e escorrega no vomito...isso foi épico- já disse que a risada da minha melhor amiga era muito estridente? Pois é, era.
—Pela milésima vez, eu não vomitei nele! E como você soube disso?- respondi com minha voz rouca enquanto pressionava meu dedo indicador e polegar no osso do meu nariz, como se para controlar minha paciência que estava a um passo de ir embora.
—Sabe...tenho meus contados- ela respondeu tentando soar misteriosa.
Vulgo: “Senti cheiro de água sanitária e sua mãe me contou.”
—Bom dia Amanda.
Abri meu olhos, vendo minha mãe enxugar suas mãos no pano de prato e me olhar com certa expectativa.
Nós ainda não tínhamos de fato conversado sobre o fato dela ter mentido para mim por aproximadamente 14 anos, e nunca ter parado um instante para falar “Hey Amanda, seu pai não te abandonou, na verdade eu te afastei dele, e só para constar, ele é o príncipe da Inglaterra”.
—Bom dia- respondi secamente, mandando o melhor olhar intimidador que eu poderia embora ela fosse minha mãe, e eu fosse uma garota patética e nada aterrorizadora dos subúrbios de Maine.
Eu queria que ela soubesse que estava com raiva, mas não queria dizer que estava com raiva.
Julgue-me.
Ela me passou uma xícara de café sobre a mesa, mantendo um olhar cuidadoso, como se eu fosse um animal e estivesse prestes a pular em cima dela como uma selvagem.
E só para constar, por via das dúvidas, não, eu não sou.
Ela abriu a boca para falar algo, ao mesmo tempo que Mari mastigava fervorosamente uma maçã que ela pegou na fruteira em cima da mesa, com os olhos variando de mim para minha mãe, notoriamente notando a tensão se formando no ar, ao mesmo tempo também que William, o homem-praga, entrou na cozinha com seu andar confiante e sem nenhum traço de sorriso em seu rosto severo.
Meus olhos desviaram totalmente para ele, enquanto os dele, que já estavam em mim, me olhavam como se tivesse nascido uma segunda cabeça, e um olho de ET na minha testa.
Acho que só agora ele realmente percebeu minha “beleza matinal”.
Sabe aquelas vezes em que você sabe que tem que desviar o olhar daquela pessoa, mas não quer, não quer de maneira alguma?
Pois é, com William era exatamente isso, o que era meio insano, já que eu o conhecia a mais ou menos 10 horas, e olhe lá!
Com muito custo, desviei o olhar dele novamente focando em minha mãe, que me encarava com uma das sobrancelhas arqueadas, como se soubesse todos os meus segredos secretos que iam desde fazer círculos estranhos na areia do jardim e dizer que eram alienígenas à saber que fui para a detenção, e outros pormenores que seria melhor não citar.
Seus olhos estavam implorando para que eu falasse algo, puxasse assunto sobre tudo que havia acontecido, mas não. Eu não quero falar sobre sua proteção materna e como fiquei reclusa durante aproximadamente 14 anos do amor paterno de um homem que para mim sempre foi um estranho e agora se chamava Charles e dizia que eu era sua herdeira.
—Depois falamos sobre isso- mamãe respondeu como se lendo meus pensamentos, assim que Charles entrou pela porta, com uma parte de sua escolta vindo para a cozinha.
*~*
Era uma conversa privada.
Enquanto Mari e todos os guardas estavam na sala, eu, mamãe e Charles estávamos na cozinha, sentados na mesa, a fim de conversar sobre meu futuro.
—Eu sei que você está assustada, mas eu quero que você saiba que sua resposta terá muito peso em milhões de pessoas e que é muito importante para a monarquia da Inglaterra.
Eu deveria estar pensando no meu nome e no peso da coroa que eu talvez fosse carregar, deveria estar pensando em todos os aspectos que poderiam e iriam mudar ainda minha vida, deveria estar pensando nas milhões de pessoas e em todo o parlamento que precisaria do sangue real em linhagem direta, mas negaria uma inexperiente como alguém de real importância, da qual a assinatura no final da folha teria mais peso do que a de muitos deles.
Sim, eu deveria, realmente deveria. Porém, durante todo o discurso breve de Charles sentado na mesa da minha cozinha, eu só conseguia pensar em 9 anos atrás, quando eu tinha 8 anos e mamãe e eu tínhamos nos mudado para o Texas, em uma cidadezinha pacata e esquisita do qual o nome eu não me lembro. De dormirmos no carro algumas noites por provavelmente mamãe estar com medo de ser achada pelos seguranças e Charles me achar e tomar minha guarda.
Mas principalmente, eu só conseguia pensar quando em uma daquelas noite, eu tive meu primeiro ataque de asma, e um vizinho chamado Bill, eu acho, percebeu o que estava acontecendo e deu a bombinha de asma do seu filho para mim. Lembrei do desespero de mamãe, sem saber o que estava acontecendo e o que devia de fato fazer.
Bem, ela não me levou ao hospital.
Eu tomei todas as vacinas em casa, nunca quebrei um osso, nem fraturei. O maximo que eu cheguei a ir foi ao dentista.
Agora eu entendo o porquê.
E nossa, tudo o que eles queriam era insano, e naquele momento mais do que em qualquer outro, foi que eu comecei a perceber o quão incapaz eu seria em comandar um país.
Eu nunca seria um Bill.
—Não.
Soltei sem perceber de fato em que momento eu formulei aquelas palavras, em que momento eu pensei em dize-la, mas não me arrependendo nenhum pouco de solta-la.
—O que você disse?- mamãe, que estava do meu lado direito na mesa, perguntou calmamente.
—Não- repeti agora olhando nos olhos de Charles à minha frente- eu não serei a princesa, nem sua herdeira, nem rainha.
Charles suspirou pesadamente, olhando para a mesa. Eu conseguia até ver as engrenagens rodando em sua mente, pensando em motivos que poderia fazer com que eu não dissesse adeus à coroa.
Mamãe teceu um pequeno sorriso no canto dos seus lábios.
É claro que ela ficaria feliz com isso. É o que ela sempre quis, porém havia uma centelha de medo em seus olhos, que eu não conseguia entender porque.
—E não- continuei a falar agora olhando para Charles que parecia aflito, estar tentando pensar em alguma desculpa que me fizesse dizer “sim”- eu não vou mudar de ideia. Eu não vou nem ao menos tentar.
—Filha- começou Charles em aflição e medo.
Quando estava prestes a dizer meu 3° não, mamãe interrompeu.
—Charles, poderia nos deixar sozinhas um pouco?- Mamãe se dirigiu à Charles.
Sorri mentalmente. Ela provavelmente me parabenizaria e diria algumas formas de mandar ele sair de nossa casa. Formas essa, que ela possivelmente deveria estar pensando desde que ele entrou na nossa casa à algumas horas atrás.
No entanto, quando ela se virou para mim, assim que Charles passou pelo beiral da cozinha, e eu vi seus olhos um tanto amedrontados e aflitos, percebi que era algo mais sério.
—Porque você disse não?
Masoq...Será que ela havia endoidado?
Eu achando que ela iria me parabenizar por minha resposta e tudo mais, e ela fala isso?
—Você ainda pergunta?
Achava que ela provavelmente iria jogar o café na minha cara por a chamar de “você” e não de “senhora”, porém tudo que ela fez foi levantar a sobrancelha, suspirar de cansaço, e trazer o seu melhor olhar de “sou sua mãe, então é melhor não falar nada”.
—Quero que você apenas me escute, e não fale mais nada até eu acabar- ela começou a falar relaxando mais a postura.- Amanda, enquanto você estava dormindo, eu e Charles tivemos uma conversa séria sobre o seu futuro.
Ai vem merda...
—Ele não se casou novamente, e não teve mais nenhum filho-
—Hum — soltei um pequeno sorriso malicioso — querendo saber se o ex-namorado continua solteiro.
—Amanda!
Ela me repreendeu dando um pequeno tapa na mesa.
Outra coisa sobre mim: quando fico nervosa, além de vomitar de gaguejar muito, é soltar piadinhas ousadas, sem graça e escrotas sobre coisas que não tem graça, ou então, apenas eu vejo a graça. Eu sei, eu sou muito estranha.
—Então, — ela continuou enquanto eu brincava com uma mecha do meu cabelo — ele não tem filhos, e apenas pessoas da família imediata podem assumir legitimamente o trono, sem uma maior burocracia. Ou pelo menos, dar uma...garantia de assumir ou de garantir seu lugar.
Seu olhar era significativo, como que esperando que eu capturasse o que suas palavras queriam dizer e a única direção que elas podiam levar, o que era meio estranho, já que a segundos atrás eu deixei claro a minha negação à coroa inglesa.
—Eu, eu não tô entendendo aonde a senhora quer chegar- disse casualmente, como quem diz que sabe que 2+2 não é igual a 5.
Ela suspirou e de novo me mandou seu olhar significativo enquanto continuava a falar.
—Charles, seu pai, me contou que de outra vez que houve incerteza, ocorreu algumas confusões, e problemas no parlamento.
—Que tipo de confusões?- bebi mais um gole do meu café que estava quase frio.
—Aquele grupo rebelde foi criado.
O café ficou relativamente quente assim que eu engoli.
—Eles aproveitaram o momento em que a monarquia estava mais enfraquecida e usaram seu ponto fraco que estava mais a vista: não havia um sucessor. E agora...isso corre o risco de acontecer de novo, só que bem pior.
Misericórdia, que ela não esteja querendo falar o que eu acho que ela está querendo falar.
Eu fiquei estática olhando para ela, enquanto ela me lançava um olhar do tipo “eu sou sua mãe, mas você é retardada”.
Quando eu disse não, e quando pensei bem antes em dizer não de qualquer forma, eu tinha certeza que eu não seria mais a mesma, mas eu não fazia ideia do quanto o meu “não” poderia pesar.
Ela abriu a boca para falar, porém já a fui interrompendo da maneira mais delicada e doce que eu poderia falar.
—Você ficou bêbada mulher? Não, não, não, não, nem pense nisso- ela fechou os olhos, provavelmente já esperando por minha pequena explosão e falta de modos — Você foi quem mais torcia para eu não aceitar isso, aposto, e agora, tá me dizendo para aceitar.
Bati fracamente na mesa, enquanto pensava o que além daquilo Charles tinha dito para ela, a fazendo mudar uma ideia e um medo que fez viajar comigo por varias cidades e países diferentes a fim de fugir.
—Não, não estou dizendo para você aceitar- ela falou como se estivesse falando “calma cachorrinho” e colocou sua mão sobre a minha tentando me acalmar- a decisão de aceitar é sua, totalmente sua, eu apenas disse para...pensar a respeito.
Lancei meu olhar suspeito na sua direção.
—O que ele disse?
—O que quem disse?
Tirei minha mão debaixo da sua.
—O que o meu progenitor disse que tem fez mudar 14 anos de certezas convictas?
Falando assim até parecia que eu era uma menina culta, bem...parecia. Por dentro eu estava meio que pirando e me controlando para fazer as palavras soarem claras e certas.
—O necessário para saber que não dá mais para fugir.
Um silêncio pendurou-se no ar, teceu sua cadeia de respirações audíveis e pesou no meu peito o peso de suas palavras.
—Apenas tente- ela continuou antes de eu dizer qualquer outra coisa.
Dentre varias duvidas que sondavam minha mente, e certezas insondáveis, havia algo que ressaltava.
—A senhora disse que da ultima vez que houve incertezas quanto o herdeiro, teve problemas. 16 anos não é incerteza o suficiente?
Ela se calou, sem saber o que dizer.
—Não quando você sabe que a herdeira está viva durante estes anos- Charles respondeu entrando na cozinha, evidenciando claramente que ouviu a conversa toda, ou pelo menos boa parte dela. Mas também não me surpreendi contando com o volume da nossa voz, que dava para ser ouvida da sala, muito provavelmente, e era justamente onde ele e alguns guardas, Mari e meu guarda costas estavam.
—Então?- ela sussurrou alto o bastante para Charles ouvir, enquanto este também me olhava esperando minha resposta.
É, ele ouviu mesmo boa parte da conversa.
Eu não queria a coroa, o trono, estar cercada de guardas em vários lugares e muito menos o peso do meu mais novo sobrenome, ou melhor, sobrenomes que poderia e iria trazer. Eu nunca seria o Bill, eu provavelmente seria a minha mãe, desesperada, sem saber de fato o que fazer. Só que ao invés de uma criança tendo ataque de asma pela primeira vez, seria um país inteiro e todas as suas pendencias.
E não, eu não queria nem ao menos tentar, mas se até minha mãe, a mulher que me carregou por tantos lugares que eu até nem consigo lembrar todos os nomes, achava que eu deveria tentar, por maior rancor ou raiva que eu pudesse estar sentindo, eu deveria ao menos me dar a chance.
Mas será que eu poderia realmente voltar atrás?
—Há um baile anual de união à monarquia, em alguns meses, e se você ter até lá para decidir?
Charles perguntou cauteloso, com o medo ainda estampado em seus olhos, só que em tons mais claros.
—E se, eu disse se, eu aceitar...o que aconteceria até lá?
Olhei para a mesa, sem conseguir desviar os olhos da mesma, enquanto mamãe mexia delicadamente com minha mão perto da sua.
—Você entenderia um pouco no que estaria entrando se realmente aceitasse. Veria do que se trata a monarquia, e o que envolve reger o trono. Recebendo o tratamento adequado que alguém da realeza deveria receber.
—Com muito calma- mamãe o completou rapidamente, quando viu meu olhar se assustar novamente e ficar claro que minha resposta tinha mudado de “talvez” para “não”.
—Isso, com muita calma,- ele remedou calmamente quando percebeu o erro que estava cometendo em sobrecarregar demais sendo que eu não tinha dito ainda sim. Se eu realmente dissesse.- tudo que eu te peço filha, é que aprenda e se esforce até o baile, e então, teremos sua resposta final.
Olhei para os dois, com o medo à congelar a boca do meu estômago, descendo congelante ao meu ventre.
—Até o baile?- perguntou ele olhando para mim, porém continuei com os olhos ainda focados na mesa.
E eu sabia que minhas palavras, que agora seriam ditas, por mais simples e casuais que podiam soar, iriam dar um rumo diferente à minha vida, um rumo que eu não acreditava que estava deixando fazer parte das minhas bifurcações.
—Não custa nada tentar.
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