Castelos de gelo
10 Alamanda
Notas iniciais
—Briga! Briga! Briga!
Era um escarcéu.
O caos tomou conta daquele espaço e tudo parecia a soma do desastre.
Quer a fórmula do desastre? Eu+detentas barraqueiras+ uma cela de prisão+ outros detentos que gostam de pôr lenha na fogueira- auto defesa= o completo caos.
Ali estava eu, Amanda Lancaster, garota indefesa dos súburbios de Maine, com 16 anos, em uma cela de prisão preventiva, com mais outras três detentas, suja de sangue, ácool, lama e com as roupas rasgadas, arronhões por todo corpo por causa dos galhos da floresta e metida em uma briga com as detentas.
A situação definitivamente não podia piorar.
As garotas da cela me olhavam como se eu fosse a garota que tinha pegado a última maquiagem exclusiva da linha mais famosa de Paris.
E foi aí que eu aprendi uma cara lição. Se você um dia for preso, nunca, nunca, repito, nunca, diga as três palavrinhas proibidas: Não me toque.
Quem diria que apenas essas palavrinhas acarretariam em minha desgraça?
Fui jogada no chão por uma das meninas me sentindo como se estivesse na selva, e eu fosse um coelhinho cercado de leoas famintas e cruéis.
Gritei o suficiente para mim voz não sair de maneira certa e exata.
E quando elas estavam prestes a colocar as mãos em meu lindo corpo, sintam a amarga fragância da ironia, ouvi uma voz, e a frieza naquela voz bastou para calafrios percorrerem meu corpo.
—Amanda Lancaster, pode me explicar oque está acontecendo?
—Mamãe?
As meninas se afastaram e me olharam com um olhar de “você já tá lascada demais” e foram para um canto da cela.
Me levantei e fui a seu encontro, agradecendo mentalmente ao delegado bipolar por terem grades nos separando.
Seus olhos castanhos esverdeados, muito diferentes dos meus, brilhavam em raiva. Seus dentes estavam cerrados, e eu percebi pela maneira como seus ombros estavam tensos que sua preocupação era exorbitante. Seu cabelo negro caiam displicentemente em cachos, modelando seu rosto tenso, preocupado e raivoso.
—Eu chego em casa, ouço a mensagem na secretária- ela começou com o tom de voz aparentemente calmo, porém com uma certa impaciência impresso nele- com você falando que foi presa em uma festa, e eu chego aqui e ainda te encontro nesse estado deplorável?
Sabe quando eu falei que a situação não podia piorar? Pois é...estranho, não?
—Mãe- comecei meio hesitante- há uma situação plausível para tudo is-
—Tudo isso o que Amanda?!- me encolhi quando ela me interrompeu aos gritos. Tinha uma veia na sua testa que pulsava de acordo com seu estresse.- o fato de você ter sido presa?! O fato de ter ido a uma festa e estar fedendo a ácool? Ou o fato de eu chegar e você estar brigando com três detentas?!
—Mas, mãe, não é nada de mais- disse com a voz desesperada, começando a falar mais rápido do que eu deveria falar- eu só estou na cela por prevenção, porque eles tinham que esperar você chegar. Eles só precisaram pegar meu nome inteiro e endereço por precaução...
Minha voz era suplicante e desesperada, e eu ainda tinha várias outras explicações que poderiam amenizar, quem sabe, sua raiva, mas o silêncio se fez presente assim que eu olhei em seus olhos e vi sua reação às minhas últimas palavras.
Seu olhar era perdido em algum ponto atrás de mim, e sua expressão de espanto e letargica compreensão de minhas palavras emboladas, resultou em algo que eu nunca havia visto nos olhos da minha mãe, desespero.
E foi só aí, que eu percebi o que eu havia falado.
Eu disse que citei meu nome. Meu nome inteiro.
Eu havia quebrado a primeira e mais importante das regras: nunca revelar meu nome inteiro.
Pra falar a verdade, eu havia quebrado muitas regras naquela noite, mas apenas isso a preocupou realmente, apenas isso provocou desespero em seus olhos. E eu nem conseguia entender porque.
—Os códigos...- ela sussurrou para si mesma- isso foi há quanto tempo Amanda?
—Não sei, acho que mais ou menos uma hora.
Seus olhos tingiram medo e confusão, como se ela tivesse de olhos vendados tateando no escuro sem saber ao certo o que fazer.
Ela se afastou indo para um guarda proximo a nós, que provavelmente tinha sido mandando abrir minha cela junto a ela, para em seguida eu estar devidamente solta.
—Venha- mamãe disse segurando minha mão com firmeza- temos que sair daqui agora.
Seus olhos atentos olhavam cada perímetro que andavámos. Ela parecia tão...assustada.
O que falar meu nome inteiro poderia acarretar de tão grave?
Seu sobretudo branco, do qual nunca a vi usando, esvoaçava suas margens a cada passo mais rápido que dávamos.
Quando estávamos quase na entrada da delacia e o desespero em seus olhos só aumentava, me soltei dela, puxando minha mão fortemente.
—Chega! O que está acontecendo mãe? Porque estamos correndo?- supliquei com a voz as perguntas que sabia que uma hora seriam ditas, só que nunca pensei que seriam agora.
—Amy, você não entende- ela segurou meu rosto em suas mãos, me pedindo com os olhos que eu ficasse quieta- temos que ir, eles já devem estar aqui.
—Eles quem?- perguntei confusa ainda olhando em seus olhos castanhos esverdeados.
E como se minha pergunta não precisasse de palavras exatas para ser proferida uma resposta, a porta de madeira da delegacia se abriu de supetão, e por elas entraram homens vestidos de preto, com óculos escuros, calças estilo militar e botas de combate que chegavam aos joelhos.
Alguns estavam de ternos e outros aparentavam ser soldados.
A mão da minha mãe se fechou na minha, tão fortemente que eu temi gritar de dor, porém estava absorta demais em toda a situação que estava ocorrendo.
O cheiro de minhas roupas sujas de sangue, de ácool e de lama, com meu cabelo armado e meu vestido rasgado, por um instante, não pareceu mais me incomodar ou me deixar desconfortável pois assim que um homem de cachecol vermelho e sobretudo preto surgiu pelo meios dos homens que deveriam ser soldados, minha mente travou.
Seus cabelos eram negros com incontáveis fios grisalhos, seus traços me lembravam alguém, alguém do qual eu não esbarrei na rua, mas sim alguém que de certa forma é importante para mim.
O aperto da minha mãe em minha mão era forte e insistente. Ela puxou minimamente minha mão, como se quisesse me tirar de lá, mas eu não conseguia me mexer, eu sequer pois falar algo.
Olhei seus olhos, de um tom castanho esverdeado, e embora os olhos da minha mãe sejam assim, é como se eu já tivesse os visto em alguma outra ocasião, em algum outro lugar.
Ele me olhava, olhava meus traços com uma expressão aliviada, como se soubesse de algo que eu não sabia.
—Clear.- ele disse em cumprimento à minha mãe, que por sua vez, se limitou a apertar ainda mais minha mão e imitar o cumprimento.
—Charles. Já faz muito tempo, e eu ainda não fico feliz ao ter ver.- ela respondeu ironica. E embora parecesse firme e segura de si e deu seu humor negro, sua mão gelada denunciava seu nervosismo e sua voz, embora tivesse saido calma, havia tremido.
—Não por minha escolha é claro- ele disse seguro de si.
—A escolha sempre foi sua Charles, mas nem todos escolhemos o certo.
Eu não estava entendendo nada. Que conversa era aquela? Eles se conheciam? Porque tantos guardas? Porque o pai do Gumball era um coelho?
Mamãe deu um passo para trás me puxando com ela.
—Então você escolheu certo quando fugiu com Amanda há 14 anos atrás?
Fugiu comigo?
—Mamãe, do que ele está falando?- sussurrei olhando para ela.
—E você escolheu certo quando a abandonou?- ela me ignorou ainda olhando para o tal de Charles.
Me abandonou?
—-Do que vocês estão falando?- gritei desesperada, alternando o olhar entre Charles e mamãe.
Então, o tal de Charles deu um passo a frente, sendo acompanhado de todo seu “exercito”, enquanto eu dava um passo para trás.
—Você pode não lembrar de muita coisa...- ele começou olhando para mim com olhos suaves- Mas você lembra de mim Alamanda?
Puxei o ar com toda a força que eu pude.
Alamanda.
Porque esse apelido me soa tão familiar? Na verdade, porque tudo nele me soa tão familiar?
—Quem é você?- perguntei já deixando uma lágrima rolar por minha face pelo medo da resposta.
—Amanda, eu sou Charles Lancaster Schreave D’vila, rei da Inglaterra.
E foi aí, que a mais assustadora das epifanias me ocorreu. Agora sei porque ele me soa tão familiar, porque seus traços lembram alguém, porque no final, esse alguém era eu.
—Pai?
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