Notas iniciais
Então, oi de novo! ♥ Aqui temos um capítulo do Matheus onde vemos uma cena de violência doméstica, o pai dele é um homem doentio e abusivo. Espero do fundo do meu coração não ter escrito nada ofensivo ou que passe a ideia errada, como eu já disse, é uma obra de ficção baseada num sonho que tive. Enfim, vou deixar vocês lerem em paz kk ♥

Violeta foi dormir às duas e meia da manhã e eu simplesmente não podia acreditar que o violão tinha sido levado pela garota mais bonita que já vi na vida. Ela possuía uma baixa estatura, longos cabelos pretos encaracolados, lindos olhos cor de mel amendoados e a pele da cor do bronze. Era minha vizinha há três anos e provavelmente nem sabia da minha existência, mas de qualquer forma, como saberia? Eu só saio de casa para vir trabalhar no bar. Não quis ser grosseiro com ela, mas estava com tanta raiva e nervoso por saber que meu pai me puniria por aquilo, que acabei sendo um babaca. Conversar com ela foi a coisa mais legal que me aconteceu nos últimos meses, mas aquela alegria não ia durar muito mais tempo.

Ricardo cochilava no sofá da “sala de descanso” do meu pai enquanto o esperávamos chegar. O lugar era relativamente grande. Já que não tinha janelas, era bem escuro, principalmente por causa das paredes roxas. Tinha também isolamento acústico, chão com pisos de cerâmica preto e branco — agora cinza por causa das manchas de sujeira — e poucos leds coloridos espalhados pelo cômodo numa tentativa de iluminação. Havia também um frigobar com cervejas e outras bebidas alcoólicas ao lado do enorme sofá cama, um armário de madeira cheio de gavetas perto da porta, uma jacuzzi num canto mais isolado com uns jogos de fliperama ao lado e uma TV de tela plana gigantesca na parede em frente ao sofá. A sala era suja, com caixas de pizza, camisinhas — algumas usadas e outras novas — e latas de cerveja espalhadas. Tudo cheirava a mofo e maconha, para mim, era insuportável ficar ali por tanto tempo.

Esse espaço ficava ao lado do bar e era atrás dele que ficava a porta que dava acesso àquele local. Meu pai raramente o visitava, era o menor estabelecimento da sua franquia regional e o mais perto da nossa casa, ou seja, o mais perto de mim. Ele me odiava e me odiava tanto que gostava de me lembrar disso sempre, de forma que eu não possa esquecer nunca. As cicatrizes e a dor espalhadas pelas minhas costas e torso me impedem de esquecer seu ódio, com toda a certeza. Mas apesar disso, eu não o odeio. Minha mãe me ensinara que não vale a pena alimentar esse sentimento, pois foi assim que ele ficou desse jeito.

— Levanta, Luís Ricardo. Mas que merda você pensa que está fazendo, filho? – Disse meu pai entrando na sala silenciosamente. Eu me assustei e me encolhi. Estava sentado no chão encostado na parede, ao lado do sofá, meus braços cruzados sobre os joelhos. Apenas a presença daquele homem me fazia tremer, sempre chegava sem fazer barulho, sempre subia as escadas e parava na porta do meu quarto, muito bêbado ou muito chapado, me xingava e me batia até cansar. Eu não tentava me defender, não mais. O castigo era sempre pior quando eu tentava fazer alguma coisa.

Apesar de tudo, meu pai não era puro ódio, ele amava Ricardo como o filho que sempre quis ter. Ricardo era forte, atlético e inteligente. Fisicamente, Ricardo parecia uma versão mais jovem do meu pai, olhos azuis, cabelo liso, bem escuro, rosto anguloso e masculino. Pareciam realmente pai e filho, mas Ricardo era filho de sua irmã mais nova, Alicia, com seu melhor amigo da escola, Fábio.

Meu pai já tinha cabelos grisalhos e uma pele avermelhada e manchada por causa do sol, mas era alto e atlético também. Gostava de usar camisetas de marca cara, bermudas ou jeans de alta qualidade e tênis igualmente caros, gastava muito dinheiro com isso, dinheiro não lhe faltava. Mas quando voltava para casa, sempre vestia a mesma blusa branca rasgada, uma camisa havaiana verde estampada com palmeiras por cima, bermuda de tecido plástico — dessa vez era uma azul — e chinelos. Parecia um velho metido a garotão de bar. Ricardo, que estava com o rosto um pouco inchado e com marcas do sofá, seus olhos vermelhos de sono, sentou-se e passou a mão no rosto.

— Desculpe, tio Carlos. – Falou com a voz rouca de sono. – Havia um ladrão, muita gente... As coisas saíram totalmente do meu controle.

— Tive que incomodar o parceiro Jeferson, e você sabe que não gosto de incomodar o Jeferson, não sabe? – Meu pai disse com tanta frieza que Ricardo e eu ficamos pálidos. Em seguida, o delegado Jeferson e outros policiais entraram na sala.

— Não se preocupe com isso, meu grande amigo, você sabe que eu gosto muito de te ajudar! – Disse o policial sorrindo malandramente, apertando o ombro do meu pai com falsa cumplicidade. Esse, por sua vez, se soltou da mão do policial e foi em direção ao armário e abriu uma das gavetas. Tirou de dentro uns saquinhos e papel e enrolou um baseado, oferecendo-o para os policiais. O único que aceitou foi o próprio Jeferson, meu pai enrolou um para si e acendeu ambos. O cheiro me deu ânsia de vômito, Ricardo franziu o nariz e alguns policiais saíram da sala. – Já prendemos o casal e os vândalos que quebraram sua propriedade. Não é a primeira vez que aqueles dois tentam furtar algo e vão parar atrás das grades, mas nas outras vezes conseguimos recuperar... Não sabemos o que aconteceu com seu violão garoto.

Meu pai olhou para mim, como se apenas agora notasse minha existência. O cigarro a alguns centímetros da boca. Eu estremeci, seu olhar era de puro ódio.

— A culpa é sua? Claro que é, de quem mais seria?

— Ei, Carlos, não precisa... – O policial Jeferson segurou o ombro do meu pai novamente, mas dessa vez meu pai segurou sua mão com muita força e a empurrou para longe de si.

— Sim, eu preciso. Não te pago para me aconselhar a criar meu... Filho. – Ele me olhou novamente, o desprezo em seu olhar era mortal. Encolhi-me ainda mais. Meu pai largou seu cigarro num cinzeiro e veio em minha direção, os passos fortes, agora barulhentos, eu sabia que algo muito ruim aconteceria. Ao chegar perto de mim, ele me segurou pelo colarinho da jaqueta e puxou me fazendo ficar de pé. — Sabia que não deveria ter deixado aquilo com você, seu mariquinha.

— Eu... Eu sei onde está, pai. Vou pegar amanhã... Não se preocupe, por favor, não...

Ele deu uma forte tapa no meu rosto com as costas da mão. Ricardo levantou, pedindo ao meu pai que parasse, mas todos nós sabíamos que ele não parava até estar satisfeito. Eu já não chorava mais na frente dele, já não tinha mais reação após uma vida inteira passando por isso. Um soco, outro, mais outro, até que eu caísse no chão. Então vinham os chutes. O policial Jeferson desviara o olhar e saíra da sala com sua maconha e os policiais restantes, enquanto Ricardo gritava para meu pai parar e tentava, em vão, puxá-lo para longe de mim. E então, tudo escureceu.

***

Os desmaios estavam mais frequentes quando ele me batia, e as dores depois também tinham aumentado. Acordei no hospital, como sempre o doutor Victor Hugo cuidava dor meus ferimentos. Ele também era pago para ficar de boca fechada sobre o que meu pai fazia.

— Você não quebrou nada Matheus. – Disse, olhando alguns papeis. Eu estava sentado na maca sem camisa, olhava para o nada, não pensava em nada, era sempre assim.

— Você quer dizer, meu pai não quebrou nada. – Corrigi sem olhar para ele. O médico se levantou desconfortável com minhas palavras.

— Então... Alguns cortes e hematomas, feridas abertas... Mas nada grave, pode sair daqui ainda hoje. Vou lhe aplicar morfina... Sei que os remédios mais fracos já não lhe fazem efeito, mas vou ver se eu posso receitar alguma coisa para você não sentir tanta dor em casa...

— Eu não vou tomar, poupe seu tempo.

— Bem... Matheus, você precisa...

— Eu estou bem, não estou? – Interrompi bruscamente, irritado com o médico. Ainda não conseguia levantar o olhar para ele, não ousava me mexer. Tudo doía. – Me dá logo a droga da morfina e me deixe em paz.

Senti o olhar triste do doutor Victor Hugo sobre mim. Olhar de pena, eu não suportava aquilo, o Ricardo me olhava do mesmo jeito. Deu uma última verificada nos papeis, deixou-os sobre uma mesinha perto da janela e foi em direção à porta. Parou por um segundo para me encarar novamente.

— Sabe, Matheus... Em suas condições físicas, com a anemia, se fosse outra pessoa, já teria morrido há muito tempo. Você é um garoto forte, não duvide disso. – O encarei, finalmente. Era algum tipo de brincadeira? Eu queria gritar com o médico, mas sabia que não resolveria meus problemas, não tinha forças para isto.

— Por favor, me deixe em paz. Me dê o remédio e me deixe em paz. – O homem saiu com um aceno de cabeça. Olhei para baixo. Meu peito estava coberto de hematomas roxos, cortes limpos recentemente e machucados pequenos. Suspirei pesadamente e me arrependi de imediato, a dor tomou conta do meu corpo e eu gemi. Meu pai sempre me acertava no torso e nas costas, nunca em outro lugar. Assim os de fora não suspeitariam de nada e ele sabia que eu não ia contar, pois senão as consequências seriam piores.

Apesar dessa vida, eu não tinha vontade de morrer. Não tinha vontade de desistir, queria continuar em frente. No fim de cada dia ruim com meu pai, minha mãe costumava dizer que algo bom poderia acontecer amanhã, mas não tem como saber se não estivermos aqui. Ela se foi, mas me pediu para continuar, por nós dois, e eu estava determinado a isso. Algo me incomodava nas costas, cometi mais um erro ao mover meu braço, dessa vez quase desmaiei de dor. Tateei a área incômoda até encontrar os pontos. Levei pontos nas costas. Suprimi o suspiro ao mesmo tempo em que alguém entrou no quarto.

— Ei. – Ricardo cumprimentou-me, sentando-se na ponta da cama e me observando cautelosamente. Parecia exausto. O cenho franzido dele me incomodava tanto quanto os pontos, eu sabia que Ricardo estava a me analisar.

— Ei. – Respondi, olhando para a janela a poucos metros da cama. Já era dia.

— O doutor Victor Hugo disse que você já pode ir para casa, mas acho que ele deve ter cometido algum engano.

— Meu pai o mandou não me manter aqui mais que o necessário. Se o doutor disse que já posso ir e que não tenho nada grave, significa que se eu ficar mais tempo, ele é quem se ferra. – Expliquei emburrado. Ricardo me encarou novamente.

— Eu quero compensar você. – Confessou depois de um longo silêncio. Suspirei, ignorando a dor. Ricardo gostava de agir como se fosse meu irmão mais velho, tentava cuidar de mim, me comprava roupas e presentes, sempre com a desculpa de que estavam na promoção, vinha me visitar com frequência e às vezes até me poupava de certos trabalhos no bar. Na verdade, não seria estranho descobrir que foi ele quem me trouxe para o hospital. Não sei se era por culpa por meu pai gostar tanto dele, se era só pena, ou qualquer outro motivo no universo, mas todos esses cuidados excessivos de “irmão mais velho” deixavam meu pai furioso comigo.

Ele achava que eu comprava os presentes com o cartão dele, que eu incomodava o Ricardo com bobagens e que eu era preguiçoso demais para trabalhar no bar, e tudo isso resultava em agressão a mim. Eu devia ser grato ao meu primo, mas só sentia raiva. Era injusto? Talvez. Mas não conseguia me sentir de outra forma.

— Não tem necessidade, ok? Você não tem culpa. Na verdade, quase ficou encrencado por minha falta de cuidado. Esquece isso. – Lembrei-me das palavras de Violeta, só então me liguei. – Ei, que horas são? Eu tenho que ir buscar meu violão.

— Ah, não. Deixa que eu faço isso, estava com vontade de ligar para a baixinha, de qualquer forma. Ela é muito bonita. Vou falar com o médico para não deixar você sair daqui até que esteja cem por cento melhor. – Ele se levantou. Por algum motivo, um leve pânico cresceu dentro de mim, eu não gostava da ideia de Ricardo indo até a casa da Violeta. Acho que eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele não se contentaria em apenas ir buscar meu violão e voltar, além do mais, sua fama de partir corações das garotas o prescindia.

— Você disse que queria me compensar, certo? – Queria levantar e segurá-lo, mas estava com muita dor para sequer esticar o braço. – Me leve até a casa dela no seu carro.

— Mas você não está bem. – Ricardo parecia surpreso. Discordei e fiz um grande esforço para parecer bem, mas foi em vão, a dor me venceu. Ele franziu o cenho novamente, aquela expressão o fazia parecer com meu pai. – Por que quer tanto ir, se está tão mal?

— Eu... Eu tenho meus motivos. – Desviei o olhar. Senti meu rosto esquentar quando pensei em Violeta. Ricardo sorrira descaradamente.

— Ok, já entendi, não vou me meter então! – Rira. – Não sabia que conhecia a baixinha, muito menos que...

— Eu não conheço, pare de fazer essa expressão idiota! – Sabia que meu rosto estava muito vermelho agora, tanto de vergonha, quanto de raiva. – Ela é minha vizinha, mas nunca falei com ela, ok? Eu não a conheço, não pense bobagens. Quero ir até lá por outros motivos.

— Tudo bem, senhor esquentadinho! Eu só estava brincando, por que essa raiva toda? Ultimamente você tem perdido a paciência com muita facilidade.

— Você me tira do sério, Luís Ricardo. – Revirei os olhos. – Você vai me levar na casa dela? Eu não estou em condições de dirigir... Nem de andar, na verdade.

— Eu não deixaria você dirigir meu carro, você não tem carteira.

— Dirijo melhor que você. – Provoquei. Ele me encarou aborrecido.

— Esse é seu argumento? É assim que você quer que eu te leve na casa da garota? – Abri a boca para responder, mas não tive tempo. – Me convenceu, seu mané. Ainda são seis e meia da manhã, mais tarde eu te levo, ok? Tenta descansar um pouco nesse tempo, quando forem umas dez horas, saímos daqui. Mas você não vai dirigir meu carro.

— Ok. Obrigado, Ricardo. – Corei de novo. Não costumava usar essa palavra, ainda mais com ele. Meu primo saiu do quarto assim que o médico chegou com a morfina.

Enquanto o remédio fazia efeito, me perguntei até quando seria assim. Até quando duraria aquele inferno com meu pai, minha implicância com meu primo e minha raiva de mim mesmo por me sentir tão incapaz de sair daquela situação. No fim, cheguei à conclusão que eu teria que fazer algo antes que a morfina parasse de funcionar, e nada mais pudesse aliviar toda essa dor.

Notas finais
Então, é isso! O Matheus é um personagem que eu amo muito, ele me lembra muito alguém extremamente importante pra mim, é uma dor enorme escrever essas coisas sobre ele kkk E também me inspirei nesse personagem para criar o Yan, protagonista de outra história minha. Mas ok, por favor, me diz o que achou do capítulo! ♥♥ Agradeço muito a você que leu até aqui!