Castelobruxo

5 Capítulo quatro - Poção dos mil sabores


Alex acordou sem se lembrar de como ou quando fora dormir. Mas o sonho que tivera ainda estava vívido em sua mente: corria na floresta como se estivesse fugindo de algo, mas jamais conseguia encontrar o caminho de volta. Estava sem camisa debaixo de um lençol, ainda de meias. Os pés estavam suados e ele percebeu que fazia tanto calor que era capaz de pular em uma piscina sem pensar duas vezes. Levantou-se e percebeu que seus colegas de quarto ainda dormiam. Cada andar da ala masculina do dormitório tinha um banheiro, e foi no do seu andar que Alex tomou banho e vestiu as roupas emprestadas de Mateus. Ele tinha que pensar rápido em como faria para resolver esse problema do uniforme, não podia passar todo o ano usando as roupas do amigo. Estava preparado para descer e tomar café quando seus colegas acordaram.

Nicolás colocou um chiclete na boca assim que abriu os olhos, e Mateus pôs-se a fazer flexões no chão antes mesmo de dar bom dia. Quando os três estavam prontos, desceram juntos. A ala principal do dormitório estava cheio de alunos e não demorou muito para eles perceberem que os alunos não usavam os robes. Amadeus dissera que os robes eram quentes demais e só eram necessários em ocasiões especiais. Nas aulas era completamente aceitável que usassem apenas as blusas verdes e as calças beges. Subiram para deixar os robes no quarto antes de se aventurarem por Castelobruxo atrás do refeitório.

— Ouvi dizer que estas janelas son enfeitiçadas — disse Nicolás. — Esta parte do castillo no tem janelas.

— Bem que reparei quando chegamos — respondeu Mateus.

Mesmo sendo enfeitiçadas, elas pareciam bem convincentes. Deixavam entrar o vento e também a luz do sol. Não fosse isso talvez estivessem mergulhados na escuridão, Castelobruxo era uma construção gigante, facilmente se perderam nos corredores. Se não tivessem acordado cedo, provavelmente teriam se atrasado para a primeira aula. Um aluno do primeiro ano procurou-os no refeitório para entregar seus horários assim que Alex tinha começado a comer os ovos mexidos.

Naquele dia eles teriam o primeiro tempo de Herbologia Simples.

— Mas a gente não devia estudar herbologia, devia? — Alex sentiu-se um tanto esperançoso.

— Provavelmente é só o básico — respondeu Mateus. — Olha o segundo horário: Magizoologia Terrestre. Essa deve ser a principal.

Mateus estava certo na suposição. Os três garotos saíram do castelo juntos, por uma porta diferente da que entraram. Essa dava para a face contrária da que tinha visto primeiro no dia anterior, era a porta leste. Ela dava para as estufas, as construções de vidro e ferro que saltavam de dentro da floresta como grandes bolhas. No papel dizia que tinham a primeira aula da estufa número um, a menor delas e a mais próxima do castelo. Não andaram muito no mato e já perceberam uma porta aberta na construção de vidro. Foram os primeiros a chegar. Escolheram lugares na mesa longa e estreita, e ficaram conversando enquanto os alunos chegavam para a aula.

Enfim uma professora adentrou a estufa; austera e muito magra, parecia que ia se partir ao meio. Passou pela mesa e foi sentar-se na cadeira do professor, onde abriu um livro imenso por sobre o tampo com um gesto de varinha. Os alunos fizeram silêncio, mas ela não começou a aula de imediato. Alex estivera tão interessado naquela aula que esquecera de que não tinha o livro Hervas para iniciantes, material exigido. Quando a mulher começou a falar, no entanto, sua animação se esvaiu feito fumaça.

Seu nome era Lupita, dava aula em espanhol e não se importava em explicar para os alunos brasileiros o que estava dizendo. Mas isso não era necessário para Alex, pois ele descobriu que das coisas que ela falara que abordaria durante o curso, ele já conhecia a fundo a metade. Aquela com certeza seria uma aula básica de herbologia, não aprenderiam nada que valesse a pena. Imaginou o que os alunos pajuantes estariam estudando naquele momento, em uma das estufas maiores ali perto. Ficaram os dois tempos da aula plantando sementes que pareciam bolas de gude em vasos pequenos, regando plantas e lendo parágrafos do livro. O tédio era compartilhado por todos. Quando Lupita disse que chegara o momento de irem, foi com alívio que Alex se levantou.

— Dá para acreditar? Eu não entendi uma palavra! — reclamou Mateus. — Você deve ter se dado bem, né, argentino?

Nicolás sorriu. Foram direto para uma das salas de aula dentro do castelo. Aquela primeira aula de magizoologia seria interna, pois era teórica, mas a maioria delas eram realizadas na floresta. Tiveram dificuldade em achar a sala, apesar do mapa que ganharam ser enfeitiçado para ficar quente à medida que estivessem se aproximando do X que traçassem no papel. Entraram na sala e dessa vez a aula fora um pouco mais interessante.

— Meu nome é Leonino — disse o professor no instante em que entrou na sala. Estava usando uma pesada capa marrom que descia até os pés. — E hoje eu vou explicar algumas coisas para vocês.

— Pelo menos esse é brasileiro — sussurrou Alex para Mateus.

— Primeiro: eu sou amigo de vocês — ele sorriu, arrancando risos de todos. Não parecia ter mais do que trinta anos e seu cabelo era tão comprido que chegava aos ombros. — Não precisam ter medo. Se ficarem longe do meu caminho, eu não vou atrapalhar o de vocês. Segundo: eu ensino sobre criaturas terrestre. Então, você, — ele apontou para uma garota loira sentada em uma das mesas da frente — eu respondo perguntas sobre aves?

— Não? — ela tentou.

— Isso mesmo, não. O mesmo para peixes. Terceiro e último: nossos encontros desse semestre se darão na face sul do castelo. De lá vamos entrar na floresta, então podem deixar os livros e mochilas nos seus quartos, a não ser quando eu marque um dia de nos reunirmos nessa sala. Só não se esqueçam das varinhas. Nunca.

Após sua breve apresentação ele começara a explicar sobre a diversidade dos animais terrestres da Amazônia e sobre como a maioria deles tinha alguma propriedade mágica que era de suma importância para os bruxos. Ele descreveu serpentes gigantes, feras com dentes afiados e até mesmo um certo tipo de macaco assassino, apenas para dizer que nenhum deles chegaria nem perto dessas criaturas. Como alunos do primeiro ano, os veracostas estudavam os mais dóceis e inofensivos dos animais. Quando seus avisos e discursos chegaram ao fim, ele disse que aquele era um bom momento para eles se conhecerem. Recostou na cadeira, colocou os pés em cima da mesa e começou a dormir.

— Será que tem algum professor normal aqui? — Mateus não parecia nada convencido com as aulas da manhã.

Foram almoçar no refeitório onde encontraram Amadeus e os amigos dele. Alex descobriu rápido que o irmão mais velho de Mateus era o tipo de garoto que ele deveria evitar sempre: sarcástico, ele estava sempre fazendo piadas ou arrumando brigas. Principalmente com os alunos de Pajuante. Mateus parecia concordar, e por isso eles decidiram sentar-se em uma mesa afastada, bem perto do canto. Nicolás os acompanhou. Os três não se deram conta, mas passaram o dia inteiro juntos. Depois do almoço foram para a última aula do dia, dois tempos de Poções.

Essa aula em particular Alex duvidava que seria boa. Tinha ouvido os cochichos dos alunos, nos quais Mateus acreditava veemente, que poções era chato e extremamente desinteressante.

— Você gosta de cozinhar? — perguntou Mateus. — Pois é a mesma coisa.

Essa aula aconteceu na parte superior de castelo bruxo, que se projetava além da pirâmide, onde as janelas eram de verdade e a brisa muito mais refrescante. Aquela área do colégio normalmente era frequentada apenas pelos alunos mais velhos e outros tipos de estudantes. Chegaram à sala circular. Havia poucas mesas, pois essa aula era compartilhada entre as duas designações. Fizeram-se quintetos para ser possível que todos tivessem acesso a um caldeirão. Pablo, o professor de poções, era um boliviano de sotaque carregado e tom ríspido, nem um pouco parecido com os demais professores.

No quinteto de Alex, ficaram ele, Mateus, Nicolás, uma veracosta e uma garota de pajuante. A última tinha o rosto redondo, olhos pequenos e Alex a achou extremamente bonita, de um jeito diferente.

— A poção de hoje — disse Pablo, após sua apresentação — é a Poção dos Mil Sabores. Muitos de vocês já devem ter comprado uma dessas nessas lojinhas por aí, eu mesmo ajudei na fabricação de alguns frascos anos atrás. É ótima para a culinária e tem uma vantagem: é simples e rápida de ser feita.

— Eu te disse que é igual culinária — disse Mateus.

— A receita se encontra na página seis do seu livro de poções multiuso. Os ingredientes estão nas prateleiras ao seu redor. Podem começar.

Mateus abriu seu livro e deixou que Alex visse a receita. Ela parecia realmente simples de ser preparada, caso você soubesse o que os ingredientes eram.

— O que é um rontim? — Alex perguntou. — Não é planta, é? Se fosse eu saberia dizer...

— Não é planta — disse a única pajuante ali, num português meio espanhol. — É pelo de uma raça de cachorro.

Ela se virou e foi até a prateleira, de onde tirou todos os ingredientes de que precisavam. Os quatro observaram ela os dispor por sobre a mesa na ordem certa de cozimento. A outra garota até mesmo abriu a boca, um tanto surpresa.

— Podem encher o caldeirão para mim? — perguntou ela.

— Você não tem varinha? — Mateus respondeu, sem pensar.

— Permita-me: aguamenti — disse Nicolás, batendo a varinha curva na borda do recipiente. O pequeno caldeirão ficou pela metade de água e automaticamente acendeu-se um fogo embaixo dele.

A pajuante trabalhou em silêncio. Tirou os pelos do pacote e os jogou na água, mexendo com uma colher longa várias vezes no sentido horário antes de colocar um pó que Alex também não sabia o que era. Ela continuou colocando os ingredientes enquanto os outros quatro apenas observavam atentos. Em dado momento ela viu que não conseguiria cortar um bulbo usado a faca, então ela pediu para que Nicolás cortasse para ela. Os dois conversaram em espanhol e era inegável que tiveram uma conexão imediata.

Cinco minutos mais tarde e a poção estava pronta e praticamente perfeita. O professor veio conferir e disse que aquele quinteto provavelmente seria os melhores alunos dele. Ninguém se incomodou em dizer que a pajuante tivera todo o trabalho.

— Desculpa — a garota disse quando o professor se afastara. —Não foi a intenção tomar o lugar. Meu nome é Sofia.

— Não tem problema — a outra garota apressou-se a dizer. — Que bom que você está com a gente.

— Nicolás, encantado — ele ofereceu a mão a ela, que aceitou.

— Eu sou o Mateus, e esse aqui é o...

— Alex — disse, interrompendo. Não podia deixar que ele o apresentasse para Sofia, por algum motivo tinha de ser ele a fazer isso. — Prazer.

Ela sorriu e após começou a conversar com a outra garota. No fim da aula o professor deu um frasco para cada aluno que tinha conseguido fazer a poção, para que eles pudessem enchê-lo. Alex e Mateus encheram os seus, mas Nicolás não sentiu necessidade. Disse que ia guardar o frasco para quando tivessem feito uma poção mais interessante, assim ele poderia ter dois frascos. Saíram da sala e foram direto para o refeitório novamente. O jantar era servido cedo e era normalmente lá que a maioria dos alunos jogava conversa fora antes de irem dormir.

— Eu nem acredito que a professora de herbologia passou dever — Mateus ia dizendo enquanto comia. — Como se a gente precisasse saber como que enfia uma semente na terra, francamente.

— O pior é que eu não tenho os materiais — disse Alex.

— Ah, é mesmo. Você pode usar os meus quando quiser.

— Não, isso não tá certo — ele sentia-se incomodado com aquela situação. — Eu devia ter pensado nisso, meus pais deviam ter pensado nisso... mas eles mesmo nunca estudaram num colégio, então...

— Conta de novo como seu pai matou o noiteado? — pediu Nicolás.

Ele contou pela terceira vez como seu pai quase botara fogo na casa para se livrar do chamado, e nunca era demais. Eles adoravam o fato de Alex e sua família poderem fazer magia sem usar a varinha e pediram que Alex fizesse um garfo flutuar no ar. Ele os divertiu o quanto pôde, mas no fundo sabia que isso não seria o bastante. Com apenas um anel ele não era poderoso o bastante para enfrentar alguém bem treinado com uma varinha. E toda vez que pensara que ia ter aulas de feitiços e que deveria usar a sua pela primeira vez, sentia um frio no estômago. Ansiedade era um dos seus piores defeitos.

Mateus tirou o frasco da poção que tinham feito naquela tarde e derramou um pouco por sobre as salsichas que ele tinha colocado no prato. Deu uma garfada e sorriu para os amigos. — Provem! — ele disse, oferecendo o prato. Alex provou e apesar da consistência ser de uma salsicha, o gosto era de sorvete de chocolate. Até podia sentir a temperatura, se se concentrasse bem. Nicolás fez o mesmo, gostando mais do que os outros dois. Ele tinha uma predisposição para amar tudo o que era doce.

— Ela é talentosa — disse Alex.

— Quem, a pajuante?

— Sofia.

— Sim — Mateus comeu tudo do prato em pouquíssimo tempo. — Nem parece que é do primeiro ano, você viu como ela tirou jogava os ingredientes como se já tivesse feito isso? Como se fosse comum?

— Mas é comum, tonto — disse Nicolás. — La chica es peruana.

— E o que isso tem a ver?

— Eles são especialistas em poções — respondeu o argentino.

— Tá explicado! E não acho que isso seja justo, nem você, que pode usar um anel! Eu não tenho especialidade nenhuma — ele acrescentou para Alex.

Derramou mais um pouco da poção no prato e serviu-se com mais salsicha. Pessoas da mesa ao lado olharam intrigados.

— HA! Agora tem gosto de bala de menta!

Nicolás tomou o prato do amigo. Sabor de menta sempre fora o seu favorito.

— Sobre você não ter os materiais, — comentou Mateus quando eles já estavam voltando para o dormitório — o castelo não é completamente incomunicável como as pessoas gostam de falar. Amadeus mesmo enviou muita coisa lá para casa ano passado, e até mesmo recebeu. Se quiser eu pergunto para ele como e você pode conversar com seus pais.

— Eu quero.

Só perceberam como estavam cansados quando tiveram de subir os três lances de escada para chegar ao quarto. Agora entendiam por que os alunos brigavam tanto pelos quartos lá de baixo. Entraram e fecharam a porta. Os três deitaram ao mesmo tempo e a luz apagou-se instantaneamente. Nicolás e Mateus continuaram conversando por um tempo, mas Alex pegou-se dormindo quase que de imediato.

Mais uma vez estava perdido na floresta. Pisava duro, como se não soubesse andar naquele lugar, e na mão ele empunhava uma varinha marrom irregular como um galho. Passou por uma árvore enorme de raízes levantadas e acabou tropeçando. Quando olhou para baixo viu que o brasão bordado em sua camisa era de cor branca e roxa. Não entendia, ele se lembrava de ter sido selecionado para Veracosta, não era um pajuante. Porém, ele também se lembrava de estar no quinto ano de Castelobruxo, o que também era muito estranho. A floresta se tornara escura como se tivesse anoitecido.

Alex acordou no meio da noite. Mateus roncava alto e Nicolás estava ressonando. Alex tirou a varinha que deixara nas vestes ao pé da cama e a posicionou no chão ao seu lado. Não sabia por que, mas sentia-se um tanto inseguro. Dentre todas as teorias que formulou para aquilo, a mais plausível era a de que estava compartilhando os sonhos com outro bruxo.