Notas iniciais
(O Bilhete do Mamute)

Entrar na sala do rei poderia ser considerado um objetivo de vida. Mas para sr. Ê, esta realização significava apenas mais algum tempo perdido longe de Martenfield, o castelo que amava.

–Você tem que parar com isso, sr. Ê. – Exclamou o rei – Sei que seus feitiços podem corrigir tudo, mas há uma chance de dar errado e meu reino ir por água a baixo – O homem parecia inconsolável.

– Há outra maneira do seu reino ir por água a baixo, meu nobre – O homem, tão superior em espírito e inferior fisicamente, falou com um sorrisinho – E desde quando você me chama por “você”?

– Convenhamos, meu caro, não há posição hierárquica entre nós dois. Hierarquia é feita apenas para a plebe nos respeitar e ter certa ordem dentro do reino. – Após pensar um pouco, completou – Por isso, na frente dos cidadãos, trate-me com respeito. Ou os republicanos vão se aproveitar disso e...

– Posso pensar no seu caso – Era fato que Sr. Ê estava se divertindo – Mas, de qualquer forma, vamos a o que interessa. Estou aqui por causa desse jovem, o Marco. Acompanhei-o desde que era bem pequeno, e a potencialidade de seu poder é fatal, quase maior que a minha.

– Maior que a sua? Isso é possível? – Nunca houvera outro tão forte como este – Isso pode simbolizar o triunfo de Ênio sobre as outras nações!

– Não me interesso com as outras nações, Monstro – O rei se irritava cada vez que sr. Ê o chamava pelo nome – Tampouco sobre o nome que o “Reino de Ênio” impõe sobre elas.

– Porque está aqui, então?

– Alguém tão poderoso quanto ele, em mãos erradas, pode significar a volta daqueles seres do passado, os grandalhões.

– OS GIGANTES?! – O rei parecia incrédulo.

– Isso, os gigantes – Sr. Ê, por sua vez, estava indiferente, quase entediado. – E, obviamente, muito mais fortes, mais poderosos e todo aquele blá blá blá.

– Então irei mandar a execução de Marco imediatamente. Chamarei o ministro do fórum. – O rei estava decidido mas, para sua loucura, sr Ê. retrucou:

– Não é de meu feitio fazer isto – Após notar o desespero da majestade, continuou – Iremos treiná-lo como qualquer um aprendiz na Patente Secreta. É um segredo apenas de nós dois a existência desse poder, nem as pessoas de Martenfield saberão disto.

– E quando o garoto saberá do poder que tem?

– Na hora certa, é claro – Era tudo tão obvio para sr. Ê – Agora, vejo que estou atrasado, logo logo teremos mais um ano em Martenfield, e não quero dar um mau exemplo para meus funcionários!

– Sr. Ê, estou falando de um assunto oficial de Ênio e querendo ou não, o senhor está falando com o rei Monstro, O Indestrutível, dentro do próprio gabinete dele. Um atraso seu no seu castelo não vai custar sua vida!

– Sério? – Perguntou em tom irônico – Que pena.

Dentro de segundos, Sr. Ê foi flagrado agitando um cajado e sumindo dali.

Enquanto isso, nas profundidades de BeautyMontain...

O que eu fazia ali? Não faço à mínima ideia.

As chances de eu sobreviver aqui, no meio de BeautyMontain? Nulas.

A única coisa que sei até agora é que um estranho homem magricelo e fraco me seqüestrou do meu dia da Escolha, levando-me até aqui e me dando a ordem impossível e absurda de subir até o castelo de Martenfield.

Espectral. Era como a noite daquele lugar era vista. A lua, por sua vez, ofuscava um pouco esta beleza e isto causava estranheza. Causava estranheza, também, saber que o próprio Rei Monstro, O Indestrutível, recebeu ordens deste estranho. As árvores eram altas e densas, com pouco espaçamento entre elas. Isto dificultava, de dia, que a luz do sol penetrasse. E, durante a noite, também impedia que esta mesma luz(por meio do reflexo da lua) atingisse-nos. Por isso, era bastante escuro. Sentei-me ao lado de uma árvore, pensando em que lugar Axel, Noel, Padrão e, ah, a linda Nora, estão. Fiquei alguns segundos coçando minhas gigantes orelhas de elfo pensando na vida, aguardando a morte.

Reza a lenda que, além da escassez de comida, há gigantescos monstros que ficam nesta floresta que faz o perímetro da montanha. O que este cajado deve significar? Provavelmente algum trote dizendo que o espírito do próprio Ênio iria vir até mim. Mas eu não tinha medo, não mesmo. O que eu tinha era tristeza, saber que a morte estava próxima.

Também caracterizava a floresta a escassez de comida e água. Diziam que não havia absolutamente nenhum rio ou animal que não pudesse me matar facilmente

E meus segundos de pensamento também estavam acabando: repentinamente, um grande monstro, com o décuplo do meu tamanho, andava sobre quatro gigantescas patas e continha dois pares de chifres, um de cada lado de uma gigante tromba. Este grande mamute veio na minha direção. A minha única arma, o cajado. Como não sou de morrer sem lutar (agora não é um ditado, apenas a verdade literal) talvez ferisse o animal. O animal me circundava, formava círculos me encurralando cada vez mais, até que fui barrado por uma árvore com tronco gigantesco. Ele cheirava a marfim.

Ergui o cajado.

E fechei os olhos.

–Corum! – Havia no chifre direito do animal, uma palavra escrita num pedaço de pergaminho. A li e, num segundo, uma rajada de vento me tirou dali: primeiro, o próprio mamute foi arremessado longe, provavelmente morto. Depois, como um grande redemoinho, fui levitado e levado na direção do castelo, por vezes esbarrando em uma árvore ou outra. Vi, neste caminho, todos os porquês da montanha ser impenetrável. Havia diversos monstros: hipogrifos, cobras gigantes, galinhas gigantes, orcs selvagens, poderia jurar até que vi um humano gigante deitado.

Mas nada, absolutamente nada se comparava a visão que se tinha agora. Aquele velho castelo visto e sonhado de longe por tanto tempo, estava diante do meu nariz. Havia dezenas de torres que o circundavam, além de um vasto campo que terminava sempre na floresta de BeautyMontain. A decoração, sem dúvida gótica e rústica. Dava-se para ver pendurados no teto grandes estalactites que, de certa forma, apontavam para o próprio teto. E não eram todas de gelo: algumas eram de trovão, fogo (congelado?) e de algum elemento preto que não identifiquei. Fui levado pelo vento até um pavilhão com bastantes pessoas. Elas eram majoritariamente baixas, magras e fracas. Falavam muito alto, por isso me senti um pouco perdido. Elas eram das mais diversas raças, só não encontrava muitos orcs. Foi quando uma voz muitíssimo elevada me chamou.

– Boa noite – No meio da multidão, um elfo negro falou rispidamente, calando a todos e chamando a atenção. Ele era baixo, um tanto magricelo como todos ali e não externava uma boa aura – Alguns de vocês já devem ter ouvido falar de mim, outros não. Meu nome é Marvolo e sou o diretor de Martenfield. –Notei que o homem ficou me encarando mais do que deveria – Sei que alguns de vocês nem sabem por que estão aqui, mas existem regras. – E então, o homem pegou um pedaço de pergaminho do bolso e o esticou – O Castelo de Martenfield é um lugar bonitinho, blá blá blá, vocês o amam, blá blá blá, vocês podem ser punidos caso errem! – Fez uma pausa assustadora – Na verdade, vocês não são magricelos excluídos pela sociedade como pensam. Na verdade, são grandes magos que estão aqui para aprimorar suas habilidades mágicas. Este castelo reúne magos de todo o mundo. Cada um, entretanto, tem sua natureza. A minha, por exemplo, é trevas – Para exemplificar, o homem esticou a mão e murmurou uma palavra ininteligível em latim. Uma sombra negra saiu de si e foi até o outro lado do pavilhão. Em alguns segundos, a sombra tomou a forma de homem e, aonde estava outrora o elfo, não estava mais. O homem se teletransportou. — Existem também ar, terra e água. Com o devido treinamento conseguirão realizar todos os feitiços. Vamos à sala de seleção com o professor Ging e depois para o salão de jantar. Hoje o sr. Ê nos visitará – O que foi de grande euforia para todos, parecia algo tedioso para Marvolo. Obviamente, o homem fazia esta visita com freqüência – Vou chamar o nome para seu teste. Dúvidas?

No meio da multidão, um garoto nord com aparentemente 19 anos levantou o braço e perguntou:

– Em que reino estamos? — Era possível haver bárbaros com tanta liberdade dentro de Ênio? Não sabia que o Fórum permitia isso.

– Em Ênio, seu anta. O reino em que o sr.Ê fez toda aquela história que vocês ouvem desde crianças. — Respondeu irritado o elfo negro — Não é possível que os novatos não saibam nada sobre Winterfield!

– O senhor não tem o direito de me chamar assim! — O garoto estava realmente ofendido — Meu pai é um dos grandes magos e saberá disso!

– Você tem certeza que quer passar o primeiro dia como uma minhoca? — O garoto o encarou desafiador — Transfiguratus lumbricus — Com o cajado levantado, um lampejo negro foi até o rosto do garoto e, em uma rápida transfiguração, fê-lo virar um anelídeo. Todo o pavilhão se calou, exceto pelos que riram.

Eu, entretanto, fiquei maravilhado. Com as armas da época tão restritas, resumindo-se à espadas e escudos, eu estava dentro de um lugar em que as pessoas faziam mágica! Era como se estivesse dentro de um dos livros que Axel insistia em ler para nós, as lendas eram verdadeiras! Ao mesmo tempo, sentia medo. Medo de que aquilo me consumisse e me transfigurasse em algo pior que uma minhoca.

– Vamos começar — Voltou a falar o diretor — Antônio Valfret.

Cada um que ia, voltava com um aspecto diferente. E este aspecto se encontrava em um cajado que carregavam na mão, ele poderia ter uma das quatro formas diferentes na ponta: uma boca de um tubarão aberta prestes a engolir a presa, uma grande águia com as asas abertas, a boca de um grande tigre ou, o mais raro, uma coruja negra igual ao resto do cajado. Nenhum deles, entretanto, tinha a boca de leão.

– Marco Marisque – O elfo negro ficou um bom tempo pensando antes de pronunciar o nome – Acompanhe-me – Sem pensar duas vezes, fui atrás dele.

O corredor era incomparável. Até o próprio Castelo Monárquico era inferior a isto, as estalactites no teto eram cada vez maiores e faziam perfeita sincronia. Pareciam dançar mesmo paradas. O elfo ficou em silêncio por todo o caminho, fui o único que ele me levou em pessoa até a sala. Olhei para as placas:

Primeiro andar:

Educação Física, professor Ging

Torre Principal

Jardins

Não me atrevi a perguntar por que não viramos na sala de Educação Física, mas o elfo seguiu até a Torre Principal. Era semelhante a um elevador, algo que só existe nas histórias de ficção científica, mas lá de fato existia. Desta vez, as estalactites se resumiam à uma, só que com todas os quatro animais. Internamente, também havia muitas pinturas perimetrando pelas paredes das mais diversas cores. Na parte direita, entretanto, elas se misturavam e não dava para afirmar se mexiam-se ou ficavam paradas. Por dentro, havia diversos botões, numerados de zero a doze e, cada um, com seus subitens. Marvolo esticou seu cajado negro e tocou na seção “doze”, a única que não continha subitens. Pela primeira vez, falou:

– Esta é a Torre Principal, o nome que damos para um elevador que te levará para onde quiser aqui dentro de Martenfield. O número doze é o meu escritório e não há mais nada lá. – Ele fez uma pausa – Nunca pense em entrar sem autorização – Recolheu o cajado – É chamada de Torre Principal pois antigamente era uma escadaria.

– Porque você não está me levando para o escritório do Sr. Ging? – Indaguei

– Não me chame, NUNCA, de você. Trate todos os funcionários com o devido respeito – Ele me advertiu. E pare de fazer perguntas excessivas.

– Sim, senhor. – Respondia de imediato. Não demorou muito para o elevador abrir-se na sala mais linda que eu já vi.

Detalhes não sobravam.

Sofás rústicos, com peles de leão e ogros.

Estalactites negras passando por todo o teto.

Janelas com a vista inteira de Ênio.

Várias portas com suítes presidenciais para convidados, além do quarto principal.

Uma cadeira principal, a qual Marvolo era muito apegado.

Um homem sentado nela com ambos os pés na mesa.

–JÁ É DEMAIS! – Gritou o homem – Sr. Ê, esta é a minha cadeira! – Posteriormente, notei que aquele era o homem que me levou até BeautyMontain.

– Pensei que tinha mais respeito pelo seu chefe, Marvolo – O homem ardia à raiva, como aparentemente todos que lidaram com o tom irônico de Sr. Ê arderam. – Estou brincando – Ele se levantou – Hoje o assunto é mais sério – Infelizmente, me encarou. Ainda não tinha entendido em que aquilo tudo se encaixava comigo – Poderia nos deixar a sós, Marvolo?

– Da minha própria sala? Senhor, aqui é minha propriedade.

– Marvolo, todo o Ênio, inclusive BeautyMontain e Martenfield, são minha propriedade. – O homem falou mais seriamente.

– Sim, senhor – Marvolo após murmurar palavras em latim se transformou em uma fumaça negra e sumiu dali.

– Tem ideia de quem sou, Marco? – O homem tornou a se sentar na poltrona de forma bem relaxada e se dirigiu a mim.

– Não, senhor. Só sei que é alguém bem respeitado. Talvez um dono rico deste castelo que tem poderes até maior que o do rei?

– Não, Marco. Quando dizemos poderes, não é apenas dinheiro. São verdadeiros poderes. Observe meu cajado – Ele esticou o cajado igual ao meu, com uma boca de leão na ponta – Isto significa o sangue de leão, tal como os tigres representam sangue de tigre, águias sangue de águia e tubarão sangue de tubarões. E corujas, sangue de gigante.

– Então somos provenientes de animais, senhor? – Aquilo era bem interessante e assustador.

– Não, de forma alguma – Ele deu algumas risadas – Contarei-lhe esta história e depois você irá para a Grande Sala de Jantar, haverá a cerimônia de iniciação. Havia há alguns milênios, raças ancestrais. Eram zoantrópicos, humanos com formas de animais. Semelhantes àqueles cajados que você viu, só que com a cabeça humana. Exceto pelas corujas, é claro, eles são outra história. Precisam de todo um protocolo para nascer, pois têm o sangue dos gigantes, mas não são tão poderosos quantos. — Ele respirou um pouco, cansado — Eles eram muito poderosos, mas havia os humanos também, além dos descendentes. Os leões eram os mais poderosos e representavam todos os quatro poderes. Um dia, entretanto, surgiram os gigantes – Semelhantemente àquela história que Axel leu! – aí, eu, Sr. Ê, fui e o matei. Infelizmente, foi tarde demais. Todos os zoantrópicos morreram e o único descendente de leão vivo era eu.(Apenas os descendentes de leão têm poderes maiores que os gigantes) Até dezessete anos atrás, quando você nasceu.

– E-espere – Gaguejei – Então o senhor é o fundador, honroso e todo poderoso Ênio? – Agachei-me na minha saudação mais poderosa o possível. — E e-eu sou o único ser que tem seu sangue, o de leão?

– Tipo isso – Em voz de total indiferença, Ênio concluiu o assunto.

Notas finais
Previstos atrasos, uma vez que estou em provas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.