Castelo de Gelo
1 Gelo
Notas iniciais
GELO
No momento em que Sakura saiu do ônibus verde e cinza, logo pensou que morrera no trajeto de duas horas entre Tokyo e Niseko. Após a lindíssima visão durante a viagem, agora, tudo o que sua vista perfeita alcançava perdia-se numa vastidão branca coberta por um infinito lençol azul claro — era neve, muita neve, e um ameno ensolarado. Seus lábios se contraíram lentamente, até sorrirem de uma forma fantástica.
Desde menina, patinar era o que mais amava fazer. Mais do que brincar, mais do que ouvir música, mais do que estudar — e ela nunca foi de dispensar um livro! —, mais do que... Na verdade, mais do que tudo. Recostar-se em algum canto, tão-somente para vasculhar sua mente em busca de alguma paixão maior do que aquela era algo tão nulo quanto o nada. Aliás, era exatamente isso: nada, absolutamente nada, ocupava o lugar em seu coração reservado ao amor eterno.
Pessoas passam. A vida passa. Mas, patinar...
E Niseko era um sonho. Nevava quase todos os dias no inverno, possuía serviço de turismo e esqui, além de ter a culinária ruralizada, tipicamente caseira. As montanhas, vilas caracteristicamente clássicas... E ainda, era muito grande. Ninguém ali podia dizer que Niseko era o fim do mundo, afinal, com a quantidade de ienes que a prefeitura colhia na estação mais fria do ano, graças aos visitantes e estrangeiros, a infraestrutura local era impecável. A Toudai¹ pagara todas as despesas necessárias, apenas para que a Haruno pudesse levar para casa um troféu de ouro e a classificação para a segunda e penúltima fase do Torneio de Patinação Artística, que ocorreria em torno de duas semanas em Vancouver, Canadá.
Não precisava nem perguntar por onde ela gostaria de começar.
— Porcaria! Eu sabia que a universidade tinha que ter nos dado um ônibus melhor. Agora vou ter que ligar para o serviço de transfer²! — Asuma praguejou, chutando o grande pneu atolado em um bolo de neve. Então pareceu notar a rosada parada ao lado de fora do ônibus, deixando os finos flocos de neve se acumular nas palmas de suas mãos. O motorista ficou um pouco desconcertado. — Ahn, Haruno-san?
— Sim?
— Eu acho melhor voltar para o ônibus... Está frio, e se ficar doente, nós teremos problemas... — indicou sem-graça. Ele puramente não poderia falar em seu tom normal. A patinadora toava tão conectada àquele ambiente, que tirar-lhe isso soava como um crime de severas punições.
Sakura riu melodicamente, ao passo que se livrava dos frígidos pontinhos agarrados ao tecido preto de suas luvas.
— Gomenasai. — bateu os cílios longos, em seguida observou divertidamente o desconcerto do homem mais velho. — Eu já estou entrando.
Asuma baixou a cabeça, coçando a bochecha sem motivo algum até estar sozinho. Então soltou um suspiro audível, antes de levar a mão ao bolso do casaco e retirar o celular velho de teclas cinza. É verdade que Sakura era linda, mas ela não servia apenas beleza. Havia algo nela que arranjava nas pessoas um encanto interior. Era como um dom promover esse curioso sentimento em qualquer um, quase como se a sua alma exalasse um perfume gracioso. Ainda era indescritível.
Sasuke conseguia compreender muito bem, essa sensação que tinha perto de sua namorada. E sendo sinceros: ele mal conseguia arrancar os olhos da jovem de cabelos rosados. O estudante de fotografia, embora não acreditasse em nada que os seus olhos não pudessem ver, ele a considerava como um milagre autêntico.
Sakura chegou à vida do Uchiha com um lampião. Explorando as frias e escuras cavernas de seu coração, iluminou cada cantinho obscuro e assustador sem pressa de sair ou com medo de permanecer. Quando finalmente sossegou, parou e olhou ao redor. Estava tudo claro. Ela compartilhou a sua luz com ele.
Moveu as pálpebras devagar, espremendo os olhos negros. Permanecia encarando fotos aleatórias de encontros românticos ou as casuais saídas em grupo, em seu celular, passando cada uma com cuidado e analisando cada detalhe. De uns quinze minutos para cá, entretido o bastante nesse afazer, o estudante de pele pálida pôde constatar que não importa onde Sakura esteja na foto, se ela está ao fundo, desfocada ou em primeiro plano: os olhos do Sasuke foram programados para visualizá-la primeiro. Ele nem se esforçava em procurar — ela simplesmente encontra-se ali, por onde quer que comece a olhar.
Nunca houve nenhuma mulher antes de Sakura, assim como jamais existiria outra após ela. Precisava tê-la em sua vida para sempre e por isso daria o primeiro passo.
O pensamento ardeu nas bochechas. Subiu o cachecol azul-escuro com os longos dedos esguios, ocultando os finos lábios mui apertados, e aguardou silenciosamente que ninguém tivesse o notado corando.
Sakura tomou de volta o seu assento durante a viagem inteira, apoiando a cabeça no ombro do jovem de cachecol.
— Pensando muito? — perguntou ela, com o olhar dócil pousado nas costas da poltrona à frente.
— Hum, hum...
— Ah, pois não? — Sakura se afastou. Olhou com curiosidade para o rosto do Uchiha, que automaticamente negou-se ao contato visual. — O que foi? Está bravo? Aborrecido? Irritado?
— Tudo isso dá no mesmo...
— Sim, — afirmou a rosada, capturando o braço do rapaz entre os seus. — mas eu sei que estar triste é uma coisa pouquíssima provável, já que no fim das contas me ter em sua vida é motivo de muita felicidade! — e exclamou entre risos. Sasuke se remexeu desconfortável com a brincadeira e Sakura bateu os cílios umas quantas vezes, até que sua coloração facial saltou para vermelho. — A-Ah... Sasuke-kun! Por que você não me deu uma patada...?
Subia uma fumaça do rosto do namorado.
— Porque não sou um bicho. — “e tome aí a sua patada, testuda”, Sakura recriminou-se tão logo que começou a roer a manga do próprio agasalho. Mas, por quê? Se Sasuke não havia negado, nem a chamado de irritante como fazia casualmente... Então... Poderia ser que ele...?
Sasuke nunca se viu sem coragem para encarar alguém antes. Um olhar de canto de olho do Uchiha, um olhar somente sério ou apenas o seu olhar normal fazia com que as pessoas estremecessem na base, se vissem confrontadas ou com vergonha. Isto não valia para toda a população japonesa, tampouco para a mundial; de um modo geral, porém, os olhos do moreno instigavam... Intriga interna? Ele nunca soube responder com certeza. Entretanto, anular o contato visual por que se sentiu alarmado, afrontado ou constrangido, isto nunca aconteceu antes.
Antes. Antes de Sakura.
O rapaz cerrou os olhos; o rosto voltado para o vidro embaçado pelo frio. Tentou disfarçar o nervosismo e o calorão em suas bochechas com uma tosse nada convincente e tal fiasco bagunçando os fios negros. Não iria virar para o lado e ver aqueles grandes olhos verdes.
Sakura estava sinceramente arrependida. O problema era que quando ela tentava falar alguma coisa para quebrar aquele clima, não vinha nada à sua boca além de um vergonhoso silêncio.
— Vem cá, Sakura.
A voz rouca do namorado fez a jovem se arrepiar. Sasuke abraçou os seus ombros e a puxou para mais perto, para afundar o rosto nos cheirosos cabelos cor de rosa. Ela se sentiu aliviada ao ver que o Uchiha relaxou os músculos tensos e deixou de lado a vergonha, mesmo que pudesse jurar que este estivesse ainda mais quieto que o habitual.
E ela sorriu.
↓ GELO ↑
Asuma estava certo: a universidade devia ser mais cuidadosa com os ônibus, ainda mais naquele inverno rigoroso. Bons pneus podem não ser baratos, mas são muito mais seguros. A equipe, composta no total de cinco pessoas, teve de esperar o ônibus do serviço de transfer, que apareceu em torno de vinte minutos após a solicitação. Porém, mal saltaram do ônibus, Asuma se despediu dos estudantes avisando que iria aproveitar a “cortesia” e fazer um passeio turístico no centro de Niseko. Já o treinador de Sakura, Hatake Kakashi, abanou a mão de qualquer jeito, dando mais atenção ao seu livrinho do que o “até logo” dado por Sakura e seus três acompanhantes.
A casa que havia sido alugada para acomodar a todos era grande e rústica, com os traços rurais sobressaindo nas largas tábuas de madeira da fachada. Eram decorativas, afinal nenhuma casa de madeira manteria o frio do lado de fora sozinha. Ino particularmente achou um charme, não fugindo demais do mesmo pensamento do noivo, Sai, que estudava arquitetura.
Três andares, somando com o sótão. As grandes janelas de vidro no térreo e no segundo proporcionavam a iluminação natural perfeita. Os móveis bem trabalhados em mogno, os quadros com fotos da região, a grande televisão com dois pares de sofás macios e médios, incluindo a fogueira acesa ao fundo, fizeram da sala de estar a mais querida de todos.
Sai logo se prontificou a dar uma volta pela casa, conhecer melhor o território. Sasuke foi com ele e sem que Sakura pedisse, pegou suas malas e subiu as escadas. O estudante de arquitetura, por outro lado, já estava quase chegando ao topo quando Ino o chamou batendo o pé e indicando a mala. Ele sorriu amarelo, desceu e beijou o rosto da loira murmurando um dócil pedido de desculpas antes de refazer o trajeto e deixar as meninas a sós.
Ino aproveitou a deixa para cair em um sofá e suspirar.
— Você judia tanto do Sai... — Sakura se permitiu dizer ao se acomodar em outro sofá, com uma expressão de graça.
— Sakura, Sakura... — balançou a cabeça devagar. — Você tem um metro de testa e ainda não percebeu? Homens adoram ser comandados. — a rosada fez um ar incrédulo com a informação. Cruzou as pernas e se inclinou demonstrando interesse.
— É mesmo?
— Claro. Mas você não sabe disso, afinal na sua relação está bem clara que a banana aqui é você. — afirmou sua melhor amiga.
— Ino, como você é má! — exclamou. — Como você pode chamar o seu noivo de banana?
— Como eu não posso chamá-lo de banana, você quis dizer. — os lábios da estudante de turismo formaram um sorriso obscuro. — Mas, vejamos e convenhamos: meu amor está mais para um doce moranguinho.
Sakura caiu na risada quando a outra lambeu os lábios sugestivamente. As duas começaram a conversar sobre vários assuntos e riram pelo resto da manhã inteira, atraindo os olhares dos rapazes que iam e vinham. Sasuke não era obrigado a aturar o jovem que, segundo Ino, o lembra pela ligeira semelhança. Mas também não queria ficar no meio da conversa feminina, visto que Ino tinha o dom de variar a conversa. Eram assuntos sobre cabelos, roupas, piadas de duplo sentido, artistas, lugares onde queria visitar e sexo. Esse último tópico que fez o Uchiha corar irritado ao ouvir a exclamação surpresa da loira: “Como assim, nunca transaram?! Você tem um duende aí em baixo ou ele que tem o documento pequeno?”.
Eram exatamente 12 horas quando Sai decidiu ir para a cozinha. Sasuke se recusou a passar novamente pela sala enquanto a conversa andasse estranha e sem ter muito que fazer, ficou sentado em um banco alto junto à bancada da cozinha estilo americana com um livro em mãos. Não era um entusiasta da leitura, porém o livro foi presente da mãe de Sakura, que trabalhava como recepcionista de uma editora de livros há vinte e quatro anos. O aspirante a fotógrafo não achou que seria muito agradável se o largasse no fundo de algum armário, muito embora agora não conseguisse se focar em nada daquela trama tediosa e extensa.
Também havia aquela outra coisa constrangedora que o deixava particularmente nervoso e mudo, mais do que o de sempre. Sai até estranhou a ausência de comentários secos ou os peculiares suspiros irritadiços, provenientes da impaciência de Sasuke para com pessoas “lentas” demais.
— Ei, Sasuke-san... — chamou Sai, mexendo em algo numa panela alta com uma concha de metal.
Como pensou, ele estava mudo.
— Sasuke-san? — insistiu e baixou o fogo, tampou o seu cozido e se aproximou devagar, parando atrás da bancada. Sai se aventurou em estalar os dedos, próximo ao rosto do outro moreno e até sorriu aliviado quando a única reação que este tivera foi piscar os olhos, e não lhe dar uma voadora.
— Hum? — Sasuke ergueu os olhos um tanto letárgico. Enfim, suspirou: — Já está pronto?
— Faltam alguns minutos. — informou o amigo, inclinando de ceve a cabeça para o lado. E não contendo a curiosidade, lançou: — Você sabe o que eu estou cozinhando?
— Sopa de alguma coisa. — retorquiu sem muito interesse, à mercê de se lançar mais uma vez no estado aéreo. Sai soltou uma risada leve e gostosa de ouvir. Ajeitou o pano de prato branco no ombro direito e cruzou os braços sobre o avental de cozinha azul.
— É de tomate.
O rapaz retesou o corpo. Arregalou levemente os olhos para o cozinheiro de plantão e depois para a panela. Tão logo Sai revelou, o cheiro do tomate fervendo se chocou quase que imediatamente contra o olfato do namorado de Sakura. Nem conseguia acreditar na própria ausência mental no ambiente, tamanha que sequer considerou o cheiro inebriante da sopa favorita!
— Eu estou com o nariz entupido. — tentou argumentar o Uchiha.
— Estou vendo. Para você não tem diferença o nariz estar entupido ou não, já que consegue respirar perfeitamente sem precisar pedir ajuda para a boca.
Que ótimo. Aturar sarcasmos do branquelo do Sai. A que ponto o universo chegou?
“Culpa da Sakura”, grasnou mentalmente.
— Você pode dizer, Sasuke-san. — continuou Sai sem o sarcasmo, em seu costumeiro tom tranquilo. — O que você tem não é natural. Tenho certeza de que se você abrir o seu coração para mim, iremos solucionar o problema juntos. — o Uchiha riu pelo nariz, colocando uma mão no rosto.
— Acho melhor você parar de andar com o Shikamaru. Quem está fazendo doutorado de psicologia aqui é ele.
— Todos nós temos um pouco de tudo. — argumentou.
— E você tem tudo de chato.
— Sasuke-san, seu jeito azedo não irá me afastar de você. — disse convicto. — Não irá conseguir me repelir com essa sua bolha de proteção ridícula nem com esse seu olhar de quem chupou limão e não gostou. Somos amigos desde o primeiro dia na faculdade.
— Você entrou no curso de arquitetura no começo do ano. Nem é tanto tempo assim. — resmungou o Uchiha.
— Sasuke-san!
Não tinha jeito. Sempre olhou para Sai e viu um rapaz reservado e focado, que não se intrometia nos assuntos pessoais de outras pessoas. Tirando a parte em que o estudante de arquitetura levava muito à sério os estudos e seus objetivos de vida, Sasuke estava redondamente enganado quanto à teimosia iminente.
O amigo demonstrando preocupação e interesse em seu comportamento retraído o fez refletir. Guardar para si o turbilhão que acontecia dentro de sua cabeça não parecia ser algo considerado que o deixaria saudável ou são. Sai voltou para o fogão e desligou as chamas quando notou o gesto sutil de que o outro começaria a falar. Tratou de ocupar um banco ao seu lado e de o olhar nos olhos, ainda que o mais velho estivesse fitando a capa do livro chato como se fosse a única coisa existente.
— É um pouco estranho. — Sasuke soltou junto de um suspiro pesadíssimo que fez até Sai se sentir cansado. Este, por outro lado, continuou a transpassar confiança.
— Não deve ser. — encorajou. — E mesmo que isso seja, nada é mais estranho do que eu no ensino médio.
Sasuke apertou os lábios. Suas mãos suavam muito e estavam geladas. O aquecedor da casa tornava tudo muito aconchegante e quentinho. O frio vinha de seu próprio nervosismo.
Sai percebeu que os olhos do amigo estavam o evitando, como tudo à sua volta. Abandonou na bancada à sua frente o utensílio prateado de cozinha que até esquecera estar segurando, e tocou no ombro do outro, que se permitiu ao toque. Sasuke abriu os lábios, porém os fechou sem pronunciar um som sequer.
— Está tudo bem se é vergonhoso. — Sai continuava com o sorriso compreensivo, e admitiu: — Eu sei que estou sendo insistente e irritante... Mas se fosse apenas vergonhoso, eu não iria te incomodar para saber. No entanto, Sasuke-san, como seu amigo eu não posso me permitir ver você sofrendo com alguma coisa dentro de você mesmo. Eu vejo que é um confronto interno e que isso te magoa muito.
Sasuke absorveu aquelas palavras. Porém Sai não parou:
— Te magoa porque você tem medo de machucar a Sakura-chan... — murmurou. — Mas você deve saber como ninguém que ela te ama muito.
— Ela não me ama tanto assim. — Sasuke disparou, deixando seu amigo com um ar surpreso. Os dedos do mais velho apertavam o livro. — Ela... Você sabe. Patinar é o que ela mais ama na vida. E eu, eu não estou dizendo que eu quero ocupar o lugar mais importante no coração dela. Eu não sou idiota... — pausou. Após alguns segundos, retomou o fôlego. — Eu não sou idiota, Sai... E não quero ser egoísta a tal ponto de um dia chegar para ela e mandá-la escolher entre mim e o gelo. Ele esteve com ela durante a vida inteira e eu, apenas cinco anos. Só que...
Sasuke travou. Precisou mais de apenas alguns segundos para continuar a desabafar. Por um momento, Sai se preocupou com que Ino e Sakura pudessem ouvir alguma parte da conversa e interpretarem de forma errônea, como acontecia nas novelas. Para o seu alívio, as meninas não descansaram a língua um só segundo. Teve de agradecer aos céus por ter uma noiva tão comunicativa e pelas duas terem sempre bastante papo para pôr em dia.
Quando voltou o olhar que antes dirigia à porta, se certificando de que a conversa morreria apenas entre os dois, Sai viu na bancada uma caixinha preta aveludada. As engrenagens do seu cérebro precisaram de um pouco de óleo para fazê-lo processar aquela informação nada insignificante.
Sasuke afundava o rosto nas mãos. Sai conseguia ver a coloração vermelha através dos dedos pálidos, porém conseguia facilmente captar o terror que o amigo transpirava.
— Eu quero pedi-la em casamento... — confirmou Sasuke o que já estava óbvio, no entanto apenas com tal afirmativa que a ficha de Sai caiu. O estudante de arquitetura conteve seu espanto e entusiasmo, afinal não queria arruinar o momento em que o mais velho finalmente lhe dera alguma chance de exercer a função de amigo. — Só que... Tch, e se ela disser que não, o que eu vou fazer? Se ela preferir a patinação artística...
— Sasuke-san...
— Porque é o que ela mais ama no mundo... — e largou o livro.
— Sasuke-san, para de falar agora. — Sasuke caiu em silêncio, com vergonha do próprio tom de voz amedrontado. O mais novo segurou em seus pulsos o obrigando a parar de ocultar a face corada. Em resposta, o Uchiha tapeou suas mãos e virou o rosto, retornando à estaca zero. Por outro lado, não desanimou em nada o amigo, que começou a rir do outro. — Você fala da Sakura-chan como se ela fosse se casar com um boneco de neve...
— Tch, você é apenas um moleque... Nem sei por que eu te ouvi. — reclamou irritado enquanto recolhia a caixinha de alianças e a devolvia para o bolso mais fundo de seu casaco, se levantando para sair daquele ambiente o mais rápido possível.
No entanto, Sai segurou tão forte em seu braço que o Uchiha não reagiu de imediato, e por isso ouviu:
— O gelo é o maior amor da vida de Sakura-chan. — sorriu gentilmente. — Mas, diga Sasuke-san... Você é feito de quê, mesmo?
Sasuke ficou surpreso com a comparação. Esperou que Sai o soltasse devagar, se levantasse e fosse reaver a sopa de tomates. Observou o amigo acender outra vez o fogo e dizer para si, ou para ele, que sopas são melhores bem quentinhas. O Uchiha colocou as mãos nos bolsos e sentou outra vez em seu banco. Apertou a caixinha entre seus dedos, no calor do bolso mesmo, e se sentiu mais leve com aquela estranha verdade.
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A tarde avançou muito depressa.
Por volta das 17 horas, Sakura acordou do que achou ser uma soneca após almoço. Para Ino, a rosada havia mesmo era entrado em coma no próprio sofá. A culpa não foi dela. Os treinos estavam puxados, chegando à carga semanal de cem horas. Não que o homem de cabelos grisalhos e espetados fosse o grande vilão da história — era a própria determinação da Haruno que a obrigava a se dedicar cada vez mais e mais.
Acordou em um quarto com uma cama de casal, lâmpadas de meia-luz amarelada e amena, estante com prateleiras cheias de livros e lembrancinhas aleatórias, armário para as roupas, uma porta fechada que supostamente seria o banheiro e uma lareira modesta, se comparada com a da sala de estar.
Sem falar na vista por trás dos vidros das janelas. E que vista!
Sakura jogou os cobertores para o lado e levantou, calçando as botas de neve alinhadas ao lado da cama. Só que antes de se levantar, um clique veio à sua mente.
Sasuke a carregou no colo. Foi ele quem a colocou na cama e retirou seus sapatos pesados, e foi ele quem a cobriu com tanto cuidado.
Seu rosto ardeu em chamas.
Sakura o amava, isso era inquestionável e irredutível. Ele era o rapaz antipático e solitário do último ano do ensino médio, também o único além dela que comparecia ao cursinho preparatório gratuito da escola. Ele, que ficava fitando o caderno sem entender nada daqueles números embaralhados com letras e ela, que também tinha dificuldades, porém um esforço sobre-humano em querer aprender para passar para a universidade mais conceitual da cidade.
Depois de seis meses de cursinho, ela não conseguiu se controlar ao ver que o Uchiha andava faltoso. Definitivamente, não queria ficar sozinha, não depois de tanto se habituar ao rosto sério que assumia um ar irritado que chegava a ser engraçado. Descobriu seu endereço na secretaria e foi pessoalmente até sua casa, com o contexto de entregar as matérias do cursinho que o mesmo perdera. Surpreendeu-se quando quem atendeu foi seu irmão mais velho, Itachi, e ainda mais quando este disse que Sasuke se encontrava internado no hospital após ter caído da janela do apartamento de seu pai, no quinto andar de um prédio, e que estava indo para lá no exato momento.
Sakura foi junto. Recusou-se a aceitar que o moreno, aquele garoto quieto que só encontrava no cursinho, tentara retirar a própria vida. Chegando ao hospital, chocou o Uchiha mais novo quando jogou o material no chão e correu para abraçá-lo, ignorando seu braço quebrado e suas dores no corpo. Sakura nunca conseguiu se lembrar de um momento em que tenha chorado tanto em sua vida, ainda mais por alguém que, do ponto de vista externo, era apenas um colega com o qual nunca trocara uma só palavra. Praticamente um desconhecido.
Ela apertou os lábios, limpando as gotas salgadas que desceram sem que a sua percepção.
Sua sensibilidade o alcançou de alguma maneira. Até ter sua alta, Sasuke via o rosto de Sakura todos os dias após o horário escolar, e lá a adolescente ficava até as enfermeiras rabugentas implicarem e a mandarem ir para casa. Geralmente, a rosada discutia com as velhas todos os dias, sem se importar se o local era impróprio para elevar o tom de voz. Sakura sempre foi uma garota forte com uma alma delicada e dócil.
“Ou é o contrário?”, pensou ela, rindo enquanto se punha de pé e saía do cômodo.
A rosada se esgueirou pelo corredor rústico e simples, alcançou as escadas e tão logo alcançou o térreo, sentiu o cheiro de torradas rodopiarem o ar. A rosada seguiu o estômago para a cozinha, onde Ino e seu noivo conversavam distraidamente até tomarem nota da presença da competidora.
— Finalmente, testuda! — disse Ino. — Todos nós achamos que você havia morrido.
— Eu não morri. — murmurou. E corou: — Aliás, eu estava procurando pelo Sasuke-kun. Vocês o viram?
Sai ficou mudo. Ino olhou para o seu moreno, e assentiu de leve, o incentivando a contar.
— Sasuke-san saiu tem algumas horas... — confessou o estudante de arquitetura, com os olhos negros fitos nos pedaços de marshmellow flutuando no chocolate. — Ele disse que precisava tomar um ar.
Sakura notou que havia certa omissão de informações ali, mas não quis perguntar nada. Sai era muito sincero — sempre dizendo o que pensava. Porém, seus olhos escuros, apesar de não estarem nela enquanto falou, não transmitiam sinais de mentira. Poderia existir algum detalhe não dito. Isso não seria necessariamente ruim, mas...
Ela começou a achar que o Uchiha não estava gostando da viagem.
— Há algo que te deixa feliz?
Sua pergunta surpreendeu o mais alto. Olhando os pássaros vindo buscar as pequenas migalhas do pão que uma velhinha atirava, Sasuke não se movia um centímetro naquilo que Sakura o chamou para uma volta no parque. A alta do hospital era recente, e ele estava um pouco abaixo do peso por causa da comida hospitalar que recusara comer. Embora não trocasse muitas palavras com a rosada, Sakura sentia que era alguém que estava atravessando as barreiras ao redor de Sasuke. Mesmo que ele não dissesse muitas palavras, conseguiam se comunicar perfeitamente bem, e por isso ela já sabia que eram amigos.
No entanto, Sasuke sequer conseguiu esconder o espanto. Olhou para o lado e viu aquele par de olhos esmeraldinos o observando com muito brilho. Um frio na barriga se fez e o deixou sem nenhuma outra reação, a não ser desviar os olhos de ônix.
— E você? — perguntou por cima. Sakura sorriu.
— Patinar. Não há nada que eu amarei mais do que isso.
Quando ele começou a perceber que o gelo era mais importante do que si? Sakura sentiu a garganta arder, encarando o chão abaixo de seus pés. Talvez ele pensasse que não teria lugar em seu coração. Ela, sempre pondo a patinação em primeiro lugar, sempre aclamando o seu amor pelo gelo... Enquanto que ele ouvia todas essas coisas, por anos...
Sentiu-se um lixo.
— Ah... — Sakura piscou algumas vezes, tentando desfazer a água que se formou em seus olhos. Sorriu sem nenhuma alegria. Cortou Ino antes que a loira intervisse com sua preocupação: — Eu irei procurá-lo.
Sakura girou os tornozelos e correu em direção à porta da sala, com a cabeça cheia. Iria procurá-lo por toda Niseko, se fosse necessário; ele tinha que saber o quanto era importante para si. Mais ainda do que o gelo o era.
Asuma abriu a porta antes que sua mão tocasse na maçaneta. O mais velho assustou-se levemente pela porta ter acertado a testa da Haruno. Ele amparou-a segurando em seus ombros delicadamente.
— M-Me perdoa, Haruno-san! — e implorou, afastando os fios róseos do rosto da jovem para averiguar o estrago que fez. — Meu Kamisama... Está doendo? Ficou um galo e...
— Estou bem, Asuma-san... — na verdade, ficou um pouco tonta. O mais velho afastou as mãos da patinadora, vermelho de vergonha por ter feito burrada. Ela, no entanto, assim que se recompôs, sorriu sem graça. — Eu que fui correndo, e...
— Ah, não, não! — riu ele, negando com a cabeça e as mãos. — Bem, de qualquer jeito, eu estava vindo para poder te trazer um recado do treinador Kakashi-san.
Sakura franziu a testa vermelha, contrariada. Deixou de massagea-la e permitiu que os braços caíssem ao lado do corpo.
— Hai?
— Bem... — ele coçou a ponta do nariz, tipicamente constrangido com a expressão nada amigável da rosada. — O seu treinador me pediu para dizer que é para você treinar um pouco.
— Treinar?! — exclamou ela, boquiaberta. Kakashi, no dia anterior, dissera que não seria necessário realizar nenhum exercício na pista em Niseko, pois era semelhante da de Tokyo. Sakura deveria ter suspeitado naquela furada. Suspirou.
— Ah, mas... Mas a pista é perto, você sabe. — Asuma tentou animá-la. Pobrezinha... — É um lago congelado que tem perto daqui, cerca de cem metros à esquerda. A ornamentação será trazida por caminhões nessa madrugada e as arquibancadas móveis chegarão antes do amanhecer. — Sakura estranhou.
— Mas não seria no centro de patinação da cidade? — inquiriu.
— Houve um acidente por lá. A pista foi fechada para perícia. Não há muitos detalhes.
Sakura sentiu a espinha se congelar. O tom sério de Asuma assomado a acidentes em pistas de patinação a deixou levemente nervosa. Também soou como uma espécie de mau presságio.
Torceu o canto dos lábios. E se nada nesse tal lago estivesse pronto até a sua hora? Ela não queria nem pensar nisso, já não bastava as más ideias lhe afligindo. Voltar para Tokyo com a classificação era o mínimo que queria.
Claro, além de ainda estar com o seu namorado. Outro arrepio sinistro a envolveu.
— Ah... Certo. — foi o que conseguiu dizer. Asuma se sentiu mal por ela. Tentou sorrir para amenizar a pressão no ar.
— Você quer que eu a leve, Haruno-san?
Ela olhou para fora. Estava tão deliciosamente frio — a neve dominando além de sua visão e as montanhas pintadas de branco ao fundo. Sobre elas, os chalés de esqui soltavam a fumaça de suas lareiras. Ela quase pôde sentir o sabor da fondue de queijo com frutas e o cheiro do chocolate quente com marshmellows picados flutuando preguiçosamente.
— Não, tudo bem! — riu ela. Encarou o mais velho com os olhos divertidos. — Sabe, devia aproveitar o aconchego e telefonar para a sua esposa. Tenho certeza que você está ansioso para saber como o seu filhinho está se comportando, não é mesmo?
Ele sorriu encantado. Mesmo que fosse o que queria fazer, levá-la não seria incômodo algum. Pelo contrário: a companhia da moça era muito agradável. Asuma fez uma leve reverência.
— Muito obrigado, Haruno-san. — endireitou o corpo e continuou em um tom meio paternal: — Vá com cuidado e não se preocupe se vir pessoas desconhecidas na pista. Kakashi também mencionou que, com a pista do centro bloqueada, outros treinadores estariam mandando suas patinadoras para esse mesmo lago.
— Obrigada pelo aviso. — agradeceu. Asuma deu passagem à rosada, que pareceu se lembrar de algo e voltou o corpo para o mais velho. — Ah... e se o Sasuke-kun aparecer antes de eu voltar, por favor... Diga à ele que eu preciso conversar urgentemente...
Asuma assentiu, sorrindo de um jeito tão tranquilizador que Sakura soltou um suspiro de gratidão antes de se retirar da casa. Ajeitou suas luvas pretas e seguiu a direção que Asuma lhe orientara: cem metros à esquerda da casa.
Ele estava certo. Cerca de sete ou oito patinadoras pululavam o lago congelado — deslizando para lá e para cá com suas lâminas de patinação. E elas eram boas. Técnicas e saltos meticulosamente trabalhados preenchiam a visão dos treinadores e curiosos que assistiam ao treino coletivo. Sakura estava incerta sobre a audácia de exibir os movimentos que usariam na competição. Kakashi sempre a advertiu para jamais mostrar tudo o que sabia diante de olhos invejosos.
Mas ela precisava esticar os músculos e ter noção do espaço, afinal.
O tempo passou e ela ficou apenas observando as outras moças, aguardando pacientemente que a pista se esvaziasse o suficiente para que ela sentisse segurança o suficiente e se soltar. Quanto aos olhares do lado de fora, ela não pôde fazer nada. Ouviu alguns comentários baixos sobre si. Até o seu próprio nome foi mencionado como representante da Universidade de Tokyo, Toudai.
No entanto, ela havia se esquecido dos patins de patinação.
— Você não está se esquecendo de nada? — os fios médios cor-de-rosa dançaram quando Sakura se virou abruptamente e ergueu o par de esmeraldas surpresas. Os olhos escuros se estreitaram levemente com o ato. Ele sustentava uma bolsa por cima do grosso agasalho.
— Sasuke-kun... — murmurou ela, com as bochechas assumindo um tom no mínimo vermelho. Ele desviou o olhar e ajeitou o cachecol azul em seu pescoço.
— Tch... Por que está tão surpresa? — resmungou. — Ou será que preferia patinar descalça?
Quando Sasuke voltou os olhos para ela, Sakura havia o envolvido com seus braços. Um abraço forte, que fez suas pernas se abalarem.
— Obrigada, Sasuke-kun!
Sasuke soltou o ar de seus pulmões e sorriu minimamente. Apesar de não ser abraçada de volta, a patinadora compreendia sua maneira de demonstrar que sempre estaria por perto. Isso fez com que sua garganta queimasse ainda mais. A luta para conter o choro foi imensa. Ela se afastou para esfregar os olhos.
Então Sasuke fez aquilo com sua testa.
Os dedos de Sasuke, gélidos pela baixa temperatura do ambiente, tocaram sua testa. As lágrimas correram e se conectaram com a neve. Aliás, os flocos começaram a despencar gentilmente do céu escuro.
— Tch... — fingiu irritação, muito embora estivesse com um claro sorriso. — Pare de moleza e trate de se aquecer. — Sakura estremeceu com a suavidade na voz do Uchiha.
Ele se ajoelhou na neve. Desafivelou a bota marrom e a puxou, revelando o pé pequeno contraindo-se de frio dentro de dois pares de meias. Então, retirando com cuidado um patim azul-claro e branco, delicadamente o encaixou no pé da namorada. Repetiu o processo com o outro. Em seguida, antes de se pôr em pé, capturou as mãos da Haruno e buscou por seus olhos.
“(...) Sai segurou tão forte em seu braço que o Uchiha não reagiu de imediato, e por isso ouviu:
— O gelo é o maior amor da vida de Sakura-chan. — sorriu gentilmente. — Mas, diga Sasuke-san... Você é feito de quê, mesmo?”
“Serei seu príncipe de gelo”, ele disse mentalmente.
As meninas presentes suspiraram com a peculiar cena romântica entre a patinadora e o moreno. Sakura, vermelha, porém mais do que determinada, entrou na pista e fez um leve aquecimento. Chegou a fazer um grande salto, em determinada parte, abraçando o próprio corpo enquanto girava velozmente no ar, antes de pousar com leveza no gelo com um joelho flexionado e os braços abertos, inclinada para frente e seguindo com seu pequeno treino ao som de palmas entusiastas e favoritismo aclamado pela pequena nuvem de espectadores.
No entanto, uma patinadora ruiva estreitou os olhos por trás das lentes finas.
A inveja pode matar.
↓ GELO ↑
Sakura estava ansiosa.
As competidoras estavam todas lindas em seus trajes. No início da manhã, cada uma estava recebendo severas instruções de seus treinadores enquanto as arquibancadas móveis eram preenchidas pelo público. Apesar de ter nevado à noite, pela manhã o céu estava muito claro. As árvores nuas foram decoradas com luzinhas, a mesa de jurados estava posta sob uma tenta branca e azul, e a mesa dos comentaristas e mídia ao lado. Era uma competição pequena, por isso não havia muita cobertura além do jornal local e uma estação de rádio. Porém, o que era algo tão simples possuía grandes promessas a muitas sonhadoras no ramo artístico da patinação no gelo.
Daquela vez, Kakashi não chegou atrasado, mas o espanto foi de todos. Tanto Sakura e os amigos não sabiam do paradeiro do homem de máscara, a noite toda. Também não queriam muito saber. Do jeito que ele era, ter se metido em algum “serviço especial” no centro de Niseko era uma suposição muito concreta.
— Está bonita, Sakura. — disse ele, com os olhos imersos no mesmo desinteresse e o tom de voz arrastado.
— Obrigada. — sorriu ela, admirando seu traje de patinação.
O azul imperava em sua roupa. Sendo a parte de baixo do collant em azul escuro, subindo delicadamente em gradiente para um mais claro, apenas para remarcar seu tom nos finais das mangas cumpridas. A saia acompanhava o tom escuro do collant e era curta, com a marcação da costura na cintura. Tanto a gola alta quanto as barras das mangas ganharam brilho. A área frontal do traje também possuía esse detalhe — porém como a parte superior de um coração.
Os patins seguiam a mesma temática de gradiente, com as duas variações do tom.
Os cabelos de Sakura estavam presos em um coque delicado no topo de sua cabeça. Ino fez questão em usar um prendedor brilhoso de estrela para segurar a franja longe da testa alva da melhor amiga. Sakura sorriu ao sentir o beijo gelado da loira na pele exposta. Os olhos claros sorriram em conjunto.
— Eu adoro essa testa. — admitiu Ino, dando um grande abraço na patinadora.
Sasuke estava uma pilha de nervos. Enquanto Sakura terminava de ser arrumada e paparicada pela amiga, suas mãos apertavam a divisória da pista. Estava mais ansioso do que ela — uma ansiedade além daquela fase de classificação. Era por alguma coisa relacionada a pedido.
Ele escolheu não fazê-lo. Queria que todos vissem a dupla alegria da Haruno ao ter a mão pedida em sua comemoração pela vitória.
Sasuke sabia que ela iria ganhar.
Refletindo sobre essas coisas, Sai se aproximou de si. Do contrário do Uchiha, assistiu à performance de uma jovem de Osaka. As habilidades contorcionistas fizeram suas sobrancelhas se levantarem. O mais novo riu quando Sasuke finalmente focalizou os olhos em alguma coisa daquela terra.
— É um grande dia, né?
— Tch... — o Uchiha subiu o cachecol azul e desviou o olhar. Isso só incentivou o outro a cutucá-lo com o cotovelo.
— Você já pensou em como será sua entrada? — Sai sussurrou. — Dramática, com pombos e uma música melosa? — Sasuke o afastou bruscamente, porém com discrição. Olhou a namorada por cima do ombro. Os olhos de Sakura pareceram encontrá-lo e brilharam junto com um sorriso tímido. Ele corou minimamente e virou o rosto para frente, o amparando com uma mão.
— Cai fora. — grasniu. Sai gargalhou e permaneceu ali. Ficaram assistindo outras candidatas até ser a vez da Haruno.
Quando a voz do locutor soou no microfone anunciando a quarta patinadora, Kakashi pousou a mão no ombro da rosada. Seus olhos escuros continham algo que nem Sakura e Ino conseguiram absorver. Estavam sérios.
— Tome cuidado. — foi tudo o que disse.
Ela apenas assentiu com a preocupação repentina. Kakashi a soltou e andou em direção à Asuma, que estava na arquibancada. O motorista mal viu a expressão do amigo e deixou o sorriso esvanecer. Sakura seguiu o treinador com o olhar um pouco abalado, porém Ino se pôs em sua frente com um sorriso torto nos lábios.
— Ele quis dizer “tome cuidado quando sambar na cara das inimigas”. — ela empurrou Sakura para a área de entrada da pista. — Não fique enrugando essa testona. Se concentre e vá tranquila!
— Shannaro! — gritou ela. Sasuke sorriu de canto. Não era nem necessário olhá-la para saber que apertava os punhos em determinação.
Terminadas as formalidades, a Haruno entrou na pista, onde o atrito gelado fez as lâminas deslizarem livremente. Ela acenou enquanto jogava uma perna após a outra e sorriu quando as mesmas palmas entusiastas da noite anterior soaram outra vez. Riu internamente quando viu uma garotinha erguendo uma cartolina, escrito “Rosa comanda”.
A moça sentiu o coração bater a mil por hora. Teve a impressão de que aquela vez seria histórica, e seu batimento cardíaco acelerava cada vez mais. Parou, no centro do lago, e pôs uma perna flexionada atrás da outra, com a lâmina inclinada contra o gelo. Ela ergueu os braços.
As teclas de piano começaram a sair da caixa de som, iniciando a música Skinny Love, da Birdy.
Sasuke sentiu um frio na barriga.
Vamos, amor frágil, apenas aguente o ano
Derrame um pouco de sal, nós nunca estivemos aqui
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
Os braços da patinadora moviam-se com delicadeza de um lado para o outro. Suas pernas começaram a ditar o movimento lento, deslizando calmamente. Mesmo devagar, o mundo ao seu redor parecia tão rápido. Ela apertou os lábios e os libertou a seguir.
Quando a música acelerou, Sakura se permitiu um ligeiro giro, as lâminas raspando sobre a superfície gelada. Ergueu um pé acima da cabeça com muita leveza. Em seguida, voltou a contornar o lago. Fazendo gestos calmos e tranquilos.
Ino não se aguentava de ver. A forma como a amiga conseguia passar pelo gelo, de um jeito lateral, a fazia ficar tonta. Sabia que Sakura nunca caía ou errada. Nem mesmo quando patinava para trás, sem ter de olhar para nada. A Haruno tinha a habilidade de criar uma atmosfera e se afundar nela.
Era o que Sasuke nomeava de “amor ao gelo”.
Vamos, amor frágil, o que aconteceu aqui?
Alimente-se com a esperança do seu peito
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
Os cílios volumosos e baixos compunham a expressão nostálgica que enfeitava aqueles movimentos.
Kakashi e Asuma assistiam à desenvoltura da aluna da Toudai. Um muitíssimo encantado, segurando a filmadora, e o outro nem tanto. Na verdade Kakashi costumava procurar pelos menores erros possíveis com seus olhos treinados. Afinal, foi com um que quase perdeu um de seus olhos e marcou severamente seu rosto com uma cicatriz.
No entanto, ele estava em alarme. Em sua estadia no centro de Niseko, intrometeu-se na investigação do acidente na pista de patinação. Uma Mitsashi Tenten sofreu uma fratura na perna esquerda. O osso literalmente se partiu em dois quando um dos calçados perdeu a lâmina no ar, enquanto ela realizava um salto após fazer plié. Só de imaginar a cena, uma sensação desagradável de dor imaginária fizera o cenho do Hatake se fechar.
Depois foi dito que alguém separou a lâmina do calçado à faca, e depois colou propositalmente mal para que se soltasse em algum momento.
E agora sentia algo de errado.
Asuma se parecia com uma criança grande. Sakura realizava mais giros, os braços afastados do tronco, abertos, porém o contornando à distância. O corpo tombado para o lado e a perna direita igualmente dobrada, quase que tocando o coque cor de rosa.
Quem vai te amar?
Quem vai lutar?
E quem vai ficar para trás?
Sasuke estava sem fôlego. Não parou um só segundo de olhar admirado para a patinadora de cabelos róseos. Mesmo com Ino e Sai conversando baixo sobre o desempenho da amiga, o Uchiha os ignorou por completo. Ali, só existia o branco, Sakura e seu doce encanto.
Mas isso rachou.
— Sakura? — balbuciou ele, quando seus olhos viram o pior. Bateu as mãos na barreira. Kakashi se levantou na arquibancada e saiu correndo junto de Asuma.
O gelo rachava conforme a Haruno flutuava sobre ele, absorta em sua aura de amor eterno.
— Sakura!! — o moreno gritou com mais força.
Os olhos de esmeralda se abriram assustados quando sentiu o gelo começar a traí-la. Os jurados e o público se levantaram como se fossem apenas um corpo. Ino arregalou os olhos azuis banhados em lágrimas e tentou pular o que a apartava de salvar sua amiga, porém Sai a agarrou por trás.
No caminho para casa, Ino não parou um só segundo de criar insultos complicadíssimos para lançar contra a professora de língua da pátria, Anko. Mulherzinha insuportável, que sempre parecia acordar com a mesma disposição de um assassino violento. Sakura, sua amiga de infância, era a única pessoa da classe que não a desconsiderasse por seu modo “monárquico” de ser. No entanto, no caminho de volta, quando notou que a amiga havia parado de escutá-la e olhava para um boneco de neve no quintal de alguém, a Yamanaka parou.
— Ei, testuda. — chamou a loira, com uma mão na cintura. — Por que é que você gosta tanto do gelo, afinal?
A Haruno pareceu se constranger com a pergunta.
— É que eu tenho hidrofobia desde que meus pais deixaram de me olhar na piscina pública, uma vez. Eu caí na água e foi muito traumático... — e riu embaraçada. — É um pouco estranho, mas quando eu patino em água sólida, sinto como se eu fosse muito mais forte do que ela. O meu maior medo é a minha maior força.
Ino suspirou e sorriu torto. Abaixou-se e jogou na testa de Sakura a pequena bola de neve que capturou com as mãos.
— Me solte! Sai maldito! — as lágrimas vertiam com desespero e ela se debatia violentamente, esticando as mãos que jamais alcançaram a melhor amiga. — Sakura não sabe nadar! Ela não sabe nadar! Sakura! Sakura!
Tudo aos seus olhos passou devagar. Ver a loira em seu ataque de pânico a obrigou dar um passo cauteloso. Porém a lâmina só fez com que a estria na camada gelada do lago se esticasse mais. Sakura segurou o choro na garganta e se recusou a olhar para baixo.
“Sasuke-kun...”
Vamos, amor frágil
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
Meu, meu, meu, meu, meu, meu
O Uchiha pulou a cerca. Seus pés fizeram o gelo ranger, no entanto ele não se importava. O terror morava em seus olhos e cada célula de seu corpo estaria preparada para se sacrificar, se isso significasse deixá-la a salvo.
Deu um passo.
— Sakura! — berrou ele, estendendo as mãos enquanto se aproximava devagar. — Fique calma! Eu vou te buscar! Tente pegar as minhas mãos!
A vontade dela era de sumir. Bastava olhar para o rosto dele para ver o quanto estava pondo sua vida em prova mais uma vez. Seus lábios entreabertos soltaram um longo suspiro gelado e as lágrimas frias cortavam seu rosto corado aos litros. O medo a consumia. Não o que sentia pela água — mas o que sentia por ele.
Inflou os pulmões e rebateu, apertando os olhos.
— Sasuke-kun! Não venha!
Ele susteve os passos frágeis. Como ela podia lhe dizer uma coisa dessas?! Ela realmente o conhecia para presumir que ele acataria com aquilo? Tomou cuidado junto com o ar inflando seus pulmões, e deu passos mais precisos, abrindo os braços.
Tudo o que ela tinha de fazer era se jogar neles. Se o gelo cedesse, Sasuke a salvaria. Ele nunca a deixaria se afundar. Só que ele parecia cego quanto ao chão estável que se desfigurava debaixo de si.
Sakura apertava as sobrancelhas e não permitiu que suas lágrimas atrapalhassem a seu último ato.
A patinadora fez o que nasceu para fazer: patinou para viver.
Sasuke era a sua vida. Então, patinou por ele.
O Uchiha ficou atônito quando as palmas abertas e pequenas o empurraram com toda a força contra o bote inflável que Kakashi arremessou no lago. Em sua queda, assistiu impotente Sakura atravessar a camada quebrada e submergir rapidamente na água de temperatura negativa.
Seu sorriso foi o que ficou junto do grito desesperador daquele que amava.
O corpo da Haruno afundava nas profundezas escuras. Seus olhos encaravam a superfície e suas lágrimas fizeram parte do lago.
Estava tudo bem, a dor por se juntar ao gelo.
Só queria que o seu amor fosse tudo, menos frágil. Queria que se congelasse e fosse tão perpétuo quanto sempre fora.
***
↓ PREVIEW ↑
(...) Estreitou os olhos perolados analisando aquela alma. Já o estagiário fazia questão de quase encostar o nariz na outra.
— Você patinou muito bem! — Naruto sorriu, erguendo os polegares. — Mas não fica assim, não. Quando a Hina-chan e eu levarmos a sua causa para o Chefe, nós iremos provar que você é digna de uma segunda chance!
(...)— E... o que isso quer dizer? (...)
— Haruno Sakura, você está pronta para um teste?
PRÓXIMO CAPÍTULO: MENINA
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