Notas iniciais
Continuando, espero que gostem...

Voltando a história para Augusto, não é que o rapaz conseguiu um trabalho? Sabia ler bem e fazer conta. Foi o bastante para ser aceito no banco. Precisavam de gente nova, e Seu Marciano falou bem de Augusto para Seu Raul, o gerente do banco local. Com um pistolão desses ficou fácil para Augusto, que já começaria na segunda seguinte. Os ventos estavam favoráveis. Se nada tinha corrido como o planejado, agora tudo estava no caminho certo!

Era tudo novo. Tudo colorido. A cidade era outra. Não. Era tudo a mesma coisa, apenas os detalhes do coração fizeram com que os olhos vissem tudo com mais cor, mais emoção, mais calor. São esses pequenos detalhes que nos arrancam pequenos sorrisos, nos fazem acreditar nas coisas desacreditadas, nos dão esperança. Ou era nisso que Augusto acreditava. Queria eu acreditar que ele estava certo!

Tudo novo e colorido também para Anita. A não ser o nó no estômago em lembrar que Augusto descobrira sobre seus encantos com Inácio. Tinha medo de que o irmão pudesse se intrometer e acabar com tudo aquilo. Tirando seus receios, estava encantada com a cidade. Tudo nos seus lugares, tudo arrumadinho, do jeito que ela sempre imaginava enquanto ainda morava na fazenda. Ia na segunda-feira seguinte a escola mais próxima, tentar arrumar algo como professora de reforço. Enquanto esperava pela segunda, Anita ficava a ajudar a pequena Isabela, neta de Seu Marciano, em suas tarefas escolares.

Anita era simples, e modesta, mas de um jeito cativante. Fazia amizade fácil. Gostava de ajudar onde quer que aceitassem sua ajuda. Lavava os pratos de Dona Teresa, ensinava matemática a Isabela, organizava os livros de seu irmão, ajudava Seu Marciano com pequenas tarefas em sua pensão. Chegava à noite, e ela se punha a escrever seus devaneios em seu pequeno diário, companheiro de longa data, presente de sua mãe. Não raro dormia em cima do próprio, e ao acordar via que tinha folhas amassadas. Era uma moça, como se diz, prendada!

A quilômetros e mais alguns de distâncias, se encontrava o bem-apessoado Inácio, deitado no alpendre da casa de seu pai, Antônio, um dos empregados mais fiéis de Dona Joana. Desde que tinha voltado da sua viagem pela América, só se levantava da rede pra comer, ou pra passear pelos arredores da fazenda, com ar de superioridade, engrandecendo suas infinitas histórias, cheias de infortúnios e superações.

Seu pai reclamava.

–Te levanta dessa rede e vêm me ajudar.

–Antônio, deixa de ser indelicado, deixa Inácio recuperar as forças. Era Dona Das Dores, mãe e defensora do filho.

–Isso, continua defendendo! Não é porque veio de outro canto que agora fica de regalia não. Filho meu têm que ser responsável. Passa o dia deitado, e quando sai é só pra contar vantagem no meio dos abestados...

–Homem, deixa de ser turro. Vai fazer tuas coisas, quando meu filhinho tiver bem das forças ele vai te ajudar.

Não raro Seu Antônio e Dona Das Dores voltavam a discutir por causa da folga de Inácio. E parecia que ele nem se importava. Ficava escutando disco dos Beatles, na vitrola que Dona Joana lhe deu no seu 15º aniversário. Ficava se lembrando das aventuras pelas quais tinha se metido, algumas tinham sido por vontade própria, e outras à força.

Quando saiu do Brasil, passou pelo Uruguai, onde ficara três meses, trabalhando como garçom. Decorrido tempo suficiente para entender melhor o idioma, foi ao Paraguai, onde ficou mais três meses, também como garçom. Cansado disso, foi então para a Argentina, onde morou por um ano e seis meses. Arrumou emprego como dançarino de tango. Isso lhe rendeu bem mais do que achou que conseguiria. Lhe deu dinheiro, mulheres, e vez por outra um marido ciumento querendo arrancar seus couros.

Em meio a tudo isso, contava histórias bonitas sobre ali, e sobre si para Anita. Não que ele fosse apaixonado pela menina. E sim por que ele queria um dia chegar aonde Cel. Alberto chegou, dono daquela vastidão no cerrado central. Era ambicioso. E são os ambiciosos que o Coisa-ruim usa para pôr em prática seus planos maldosos.

Quem, por enquanto, não tinha nada haver com isso era Carmelita. Tão alegre estava que seu pai desconfiou.

–Amélia, já notou que Carminha está muito cantante? Vive no mundo da lua agora. Disse Seu Zé Bonifácio à sua esposa.

–Zé, tu nem imagina! Outro dia a vi escrevendo poemas. Acho que já sei do que se trata. E deu uma gargalhada.

–Pois se for assim, que ela tire o cavalinho da chuva.

–Deixa a menina aproveitar um pouco a mocidade!

–Que isso não tire meu sossego. Encerrou Seu Zé Bonifácio.

Enquanto seus pais faziam tempestade em copo d’água, Carmelita estava em seu quarto, totalmente alheia ao que se passava fora de seu recinto. Se punha a escrever poemas horas a fio. Toda menina apaixonada é assim. Podem negar, mas é. E ela não era diferente. Desenhava pequenos corações, flores, cupidos com suas flechas do amor, e tudo que era romântico. Esperava viver algumas aventuras com Augusto, que parecia tão ousado, com seu estilo de garoto perdido de Woodstock. Queria correr perigos, ter momentos excitantes. Como se diz hoje em dia, aproveitar a vida ao máximo!

Tudo a seu tempo, e o tempo a seu curso. Domingo amanhecia. Diferentemente da quinta anterior, fazia um dia glorioso. Céu limpo, Sol de verão. Pessoas tagarelavam nas esquinas, pássaros conversavam nas árvores. Seu Chiquinho passava vendendo pitombas, framboesas, jambos, e tudo que era difícil de encontrar. Os meninos faziam fila para conseguir as especiarias de Seu Chiquinho. Na praça, meia-dúzia de famílias descansavam junto às sombras dos ipês e das mangueiras. Perto dali, no único lago da cidade, velhinhos pescavam com seus netos. Alguns moleques faziam disputas de saltos ornamentais, enquanto outros tentavam ver quem conseguia ficar mais tempo embaixo d’água. Ainda outros competiam na natação. Era um domingo típico daqueles dias dourados!

Enquanto os moradores curtiam o domingo de folga, Augusto passou a manhã entretido na entediante leitura da apostila dos funcionários que trabalhavam no banco. A primeira semana seria de treinamento, mas mesmo assim, ele queria impressionar, afinal, a primeira impressão é a que fica. Tão ocupado estava, que nem tinha se planejado para o encontro noturno com Carmelita.

E agora que se lembrou, ficou mais nervoso do que já estava. Afinal, o que ele, um simplório moço do interior tinha a oferecer a uma Eva do Jardim do Éden? Se fosse eu, não à levaria ao Zoológico, afinal lá se encontrava algumas serpentes.

Coincidentemente comendo uma maçã, Carmelita aproveitava o domingo no sítio de sua avó, a velha Dona Edith. Costumava ir com sua mãe todos os fins de semana até aquele local, cerca de duas léguas da cidade. Funcionava como um refúgio. Podia tomar banho despida no olho d’água da propriedade e nadar nos pequenos riachos, longe da vista de alguém, obviamente. Enchia o estômago com as inúmeras jabuticabas dali provenientes. Apreciava subir em alguma pedra, e se deleitar com a vista. Gostava de ir até um trecho na beirada da chapada que tinha por lá, onde residia há muitas décadas um solitário pé de bôrdo. Ficava sentada, escorada no tronco, admirando a criação e imaginando aventuras, como sempre fazia ao se perder em seu mar de devaneios.

Vez ou outra montava num potro de três anos, manga-larga, selado exclusivamente para ela, por ordem de sua avó, e galopava por todas as extremidades do sítio. Cavalgava até doer às ancas. Todo domingo a diversão era garantida. Mas nesse, seria ainda melhor. Ela mal via à hora de chegar o cair da noite, e rever o moço da loja de discos. Iam ao cinema. Para ela o filme não importava. Afinal, não foi com esse intuito que a própria marcou tal encontro noturno!

Perdida em seus pensamentos, Anita se encontrava na pensão. Seu domingo estava incrivelmente entediante. Teria chamado Augusto para passear, mas o irmão não queria ser incomodado. Pensou em mil e uma opções, mas nem uma lhe agradou o suficiente para fazê-la levantar de sua cama.

Não via hora de amanhecer o dia seguinte, e ir atrás de seu sonhado emprego em uma das duas escolas daquela cidade. Tinha a experiência de ensinar as crianças da fazenda de seu pai. Na certa isso valeria de algo ao tentar conseguir o ofício desejado.

Resolveu descer de seu quarto. Foi procurar Isabela para convidá-la a um passeio. A menininha funcionaria mais como guia turística. No final das contas, ou melhor dizendo, do passeio, Anita iria pagar um sorvete a pequenina. Sucedeu-se assim como ela planejou.

Foram à praça, comeram pipoca, algodão doce, pastéis. Final do passeio, Anita não tinha nem espaço em sua barriga para o sorvete, mas mesmo assim comprou. Era de morango com baunilha e flocos, o favorito de Augusto. Ela sabia que ele ia amar aquela iguaria. Quem sabe tal gracejo não amolecesse o coração de Augusto com respeito ao ‘namorico’ de Anita e Inácio!

Quanto a Inácio, continuava com sua interminável folga. A não ser quando Dona Joana o convocava para algum serviço. Aí então ia, achando bom ou ruim. Pensava que para um rapaz que morou no estrangeiro, voltar a trabalhar ali era um regresso. Se achava importante demais para algo destinado aos serviçais, coisa que ele não era. Ou não se considerava.

Nem ligava para as reclamações de seu pai. Era mais apegado a Dona Das Dores. Talvez pela inocência cega dela. Não sei. Mas gostava da velha. Até separou parte de suas economias de tango e deu para a mãe tão cândida, juntamente com mais alguns mimos. Por ser filho único, tinha todo o carinho e atenção que sua mãe podia lhe proporcionar. E por ser afilhado de Dona Joana, nunca passou necessidade. Teve o que a maioria dos jovens não teve. Educação, saúde, e praticamente todos os subsídios necessários para uma boa vida. Mas alguns sempre querem aquilo que não têm. Querem o inalcançável. E por vezes não medem escrúpulos para atingir seus objetivos!

Talvez pelo fato de começar a trabalhar no dia seguinte, ou por querer impressionar Carmelita, Augusto adotou um novo visual. Guardou as roupas que o faziam parecer um hippie, e se preparou ao melhor estilo Clint Eastwood. Faltou o palito no canto da boca, e um chapéu. Aparou a barba, diminuiu os cabelos altos e ondulados, passando intermináveis camadas de gel. Camisa social bege, calça azul marinho. Se sentiu pronto para fazer um filme. Estava totalmente apresentável.

Tinham combinado de se encontrar as sete, na praça. Seis e meia Augusto já estava esperando Carmelita. Viu alguns lírios, e resolveu pegar um. Talvez para Carmelita colocar em seus lindos cachos de ouro, ou prender na roupa. Ele queria agradar. Não sabia como, então ficava se lembrando dos conselhos que seu pai lhe dera sobre mulheres enquanto vivo.

–Filho, mulher é difícil de entender. Num sei como casei com tua mãe. Matutava Cel. Alberto, quando entendia de aconselhar Augusto.

–Que direi eu, meu pai, que nem sei como falar com uma!

–Ah! Eu num nasci sabendo de nada. Mas a vida me ensinou. Penei pra conseguir atenção de tua mãe. Pense como foi complicado! Mas consegui.

–Ah eu não sei. Vai que eu fico que nem o Seu Chicuto?

–Mudo? Ah, se ficar mudo dá alguma coisa pra moça. Tem coisa que é melhor que palavra!

Ê diacho. Recordar de tais momentos ainda doía. Ele nunca tivera um amigo tão achegado quanto seu pai. Aprendeu tudo que sabia na vida com ele. Mas não podia demonstrar nostalgia. Tinha um encontro. Tinha que sorrir, que se divertir, e divertir a garota.

Notas finais
Obrigado por lerem...