Notas iniciais
Tentando manter a história, sigam-me os bons

Por incrível que pareça, Augusto demonstrava um ar de total serenidade, mas era apenas um disfarce. O jovem estava nervoso, e muito!

Mas como a primeira impressão é que dá a sequência, em seu íntimo Seu Zé Bonifácio já tinha contado um ponto positivo para Augusto.

–Então, Seu Raul me contou que você é um moço trabalhador. Inteligente, que tem futuro lá no banco.

–Eu tento dar meu melhor. Augusto respondeu jovialmente.

–Às vezes o melhor ainda é pouco. Seu Zé estava jogando verde pra tentar colher madura.

–O senhor há de convir comigo que se for pouco, não é melhor, é apenas suficiente, e isso nem sempre agrada, pelo menos não a mim!

Augusto sabia jogar, era esperto. Sabia qual seria o próximo movimento, pena que no amor, todas as jogadas são armadilhas.

Seu Zé sorriu, e para a surpresa de Carmelita o convidou para entrar.

–Toma alguma coisa?

–Só água, obrigado.

–Água pra mim também seria bom, mas não encontro na água o que procuro no uísque.

–E o que o senhor procura?

–Apenas as respostas que não encontrei numa vida de trabalho, trabalho e trabalho. Augusto, eu olho no espelho, e tento ver algo além, algo que está lá, em mim.

Carmelita não entendia nada daquilo, e achava que Augusto também não. Mas, para um jovem que amadurecera precocemente, ele entendia plenamente aquilo, afinal, era amigo íntimo do espelho tanto quanto Seu Zé Bonifácio.

–Desculpa estar falando essas coisas, tive um dia complicado, e tô pensando muito na vida. Enfim, vamos então ao assunto principal.

Seu Zé finalmente chegou ao ponto pelo qual aquele casalzinho temia.

Augusto esperou que ele tomasse a iniciativa, afinal, ao findar da noite, seria a palavra de Seu Zé que iria prevalecer.

–Estava eu matutando mais cedo no que se perde e ganha durante a vida. Eu não pretendia ser conivente com qualquer atitude de você e minha filha, minha única filha. Mas pensei que não quero ser o pai que minha filha odeie ou sei lá o que ela pensa de mim.

–Mas...

–Ainda não terminei! Transparência e decência. Se você for o que ouvi falarem, esta conversa acaba aqui, contanto que não faça nenhuma bobagem à minha menina.

–O senhor verá quem sou! Apenas concordou e encerrou Augusto.

Carmelita estava ainda bem nervosa, sem entender o que tinha se passado. Mas quando Augusto sorriu ternamente, ela pôde entender que tudo havia dado certo.

Ê, o Tinhoso ajuda quando tá difícil! E o plano maligno ganhava cada vez mais corpo.

Um leão por dia, e Augusto achava que tinha matado mil e um. Mas é desse jeito. Quando superamos algo, é tão bom! Só o contrário que é devastador.

Na pensão de Seu Marciano, Anita estava deitada, estudando e se treinando para ajudar os novos alunos, de quem esperava dedicação, esforço e compromisso. Sonhadora! O sonho em certo grau alto leva a utopia, que, por sua vez, leva a ilusão, que acaba destruindo qualquer sonho restante.

Simples, não? Não. Complicado é beber o copo amargo a que nos é destinado.

Cachaça do mal a parte, Inácio tinha se decidido. Ia embora o mais cedo possível dali. Já achava que seu pai o estava enchendo muito o saco. Aqueles serviços não eram para ele. Não tinha nada ali para aquele rapaz. Augusto que o aguardasse. Prêmio por antecipação. E todos seriam sorteados. BINGO!!!

Outro dia amanhecia tranquilo, com rouxinóis a embelezar o crepúsculo. Augusto ainda sonhava, com a realidade que tinha sido tudo até ali. Tinha sido surpreendente. Quão sortudo ele era! Sem ironias...

Tinha dado certo, pelo visto o primeiro desafio havia sido ultrapassado. Aquela cidade não era tão ruim. Tinha oportunidades, tinha brilho, tinha um calor agradável. Tinha Carmelita, aquela linda Afrodite em forma humana, com cachos ondulados e dourados, com curvas delicadas e macias num rosto claro. Não havia motivos nem razões para reclamações.

Nunca há nada além do que enxergamos. O pior cego é aquele que não quer ver. A mão que dá é a mão que tira. Bla, bla, bla! Muitos ditados, com doses altas de verdades. Só que verdade ou mentira, no fim tudo é a mesma coisa. Há quem discorde, achando que pode burlar o destino.

E Augusto pensava assim. Achava que era o dono de suas próprias escolhas, que poderia mexer os pauzinhos para no fim tudo sair conforme seus planos. Mas quem é um reles humano inexperiente diante do milenar universo e seus senhores? Apenas outro tijolo numa grande parede.

Não sabemos como será o amanhã, e foi nele que Inácio chegou. Augusto sabia que ele estava por vir, mas não imaginava que seria tão cedo. A surpresa era óbvia, e um certo ar de desconforto também. Onde há fumaça, há fogo. Cedo ou tarde esse ditado seria mais um que se tornaria verdade.

–Quanto tempo, meu amigo!

Inácio abria os braços estendendo-os para receber o fraco abraço de Augusto, que nunca foi dado a tantas demonstrações seja lá como forem.

–Pensei que chegaria no próximo mês!

–Eu não podia esperar!

–Vem, vamos passear. Faz muito tempo mesmo! Disse Augusto relembrando os bons tempos das criancices na fazenda.

Notas finais
Comentem, critiquem, deixem suas opiniões! E obrigado por lerem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.