Caso Estrela
7 Capitulo 7
14 de Janeiro de 2015. Texto retirado do diário de Lucas.
Manhã estranha. Estrela falou que tinha algo para me contar, pelo seu tom de voz, sabia que não era algo bom. Oh, será que ela me machucaria novamente? Ou eu terei de machucá-la?
Levei ela para um motel. Sei que não é o lugar apropriado para ter conversas sérias, mas eu queria tocá-la antes de qualquer coisa. Acho que não mencionei, mas estou levando um champanhe com um elemento surpresa. Consegui o elemento com um amiga. E levo rosas.
Sabe o que Estrela fez ao chegar no quarto? Ela começou a tirar o vestido. Deslizou ele bem devagar pelo corpo. Não sei o que significava aquilo, mas gostei. Me deliciei com suas curvas, seus seios pequenos e sua cintura fina. Tão frágil! Eu a peguei no colo, levando-a até o banheiro. Ela ligou o chuveiro, senti a água molhar meu corpo. Retirei minha roupa e comecei a beijá-la, um beijo sincero e forte. Não demorou muito para sermos apenas uma mistura de água morna, calor humano, corpos e cabelos. Eu a completava; ela me arranhava. Meu cabelo colava em seu corpo.
No fim, cansados, nos deitamos no tapete do quarto. Foi aí que ela passou as mãos pela barriga.
– Estou grávida.- Apenas duas palavras, mas me causaram um atordoamento. Levantei a cabeça, lágrimas desciam por seu rosto. E então, ela sussurrou, como nunca fez antes:
– Eu não quero uma criança...quero descanso de você. Estou...perdida.- Ela gaguejava.
– É porque não me ama mais? — Perguntei.
– É porque amo demais.- Mais lágrimas. Coloquei minhas mãos em sua barriga. Um filho...
– Essa criança não vai viver.- Anunciou ela.- Nem que eu precise morrer. E sabe de uma coisa? Eu quero morrer, quero morrer junto com ela. Não vou deixá-la sozinha.
Seu tom depressivo era quase assustador. Não me deixei abalar: caminhei até o champanhe e coloquei na taça. Estrela aceitou, com as mãos trêmulas. Ela tinha razão, também quero descanso desse sentimento. Não entendo porque ela tem tanta raiva no nosso serzinho, mas vou salvá-lo. Seremos felizes depois do descanso. Ela bebeu o conteúdo da taça com ferocidade. Foi a vez dela se levantar. Voltou com uma navalha em mãos. Não mexi quando ela começou a se cortar na minha frente. Sangue começou a escorrer por seus pulsos, molhando seu corpo nu. Muito sangue quente. Sangue quente de cortes fundos. Mas logo o veneno faria efeito. Você não precisa sofrer tanto, meu amor.
Estrela começou a ficar branca, sua respiração falhou. Olhou em direção a taça e depois sorriu para mim, um sorriso dócil. Sei que nunca o esquecerei.
– Eu sabia que seu amor seria um veneno, mas não imaginei que seria no sentido literal. Obrigada...por tudo.
Seu corpo tombou. Continuei deitado.
14 de Janeiro de 2015. Carta escrita por Lucas, encontrada no local do crime.
"Tenho sangue em minhas mãos. O sangue dela. Ainda está quente e cheira forte. A frágil Estrela tinha um sangue com cheiro tão forte! Mas ela era tão frágil... só os cortes seria capaz de matá-la. Mas a envenenei também. Eu matei Estrela. Olha que clichê, o brilho dela se apagou. Meus Deus, nunca mais vai existir alguém como Estrela. Nunca mais vai existir alguém como eu, ou como você que está lendo este bilhete. Estrela, eu e você, somos únicos.
Tenho que lavar minhas mãos, mas antes, vou caminhar até o corpo dela. Vou beijá-la pela última vez, vou observar suas curvas e acariciá-las. Ah...quando tocar seus pulsos, mais sangue vai molhar minhas mãos. Não ligo, vou continuar beijando-a. Continuar beijando e lamentando porque o mundo perdera mais uma estrela. A minha estrela.
Então, depois de saborear meus últimos momentos com ela, vou pegar as rosas que trouxe e colocar por todo seu corpo nu. Ela merece rosas. Caminharei até o banheiro, lavarei as mãos e pegarei o primeiro ônibus que ver. Sentarei no banco em que sentamos quando nos conhecemos, vou chorar e imaginar seu sangue quente e sua pele fria. Aquele rosto sem vida não combina com seus vestidos coloridos.
Quando chegar em casa, abrirei a gaveta em que guardo as bebidas. Guardo mais coisas perigosas ali...Vou beber um pouco e segurar a arma em minhas mãos. Meus olhos vão fechar e eu vou segurar a arma bem próximo a minha cabeça. Vai ser um único disparo. Também vou sangrar e minhas últimas memórias antes de ter meus miolos estourados, vai ser o sorriso de Estrela. Vai ser o nosso primeiro beijo no parque. Vai ser do dia em a carreguei no colo e a rodei, escutando suas gargalhadas que funcionavam como músicas para meus ouvidos. Vai ser do nosso primeiro almoço junto com minha irmã, e de como parecíamos uma família naquela época. Vai ser de quando "ensinamos" Lana a tocar violão, mesmo sem Estrela saber nenhuma nota ( e fingindo saber só para incentivar Lana). Vai ser da nossa primeira dança, onde pisei em seus pés milhares de vezes. E por último, vai ser da sua voz, falando meu nome com carinho; falando "Lucas" de uma forma que ninguém nunca falou.
Depois, a encontrarei em outro lugar. Ela e o pequeno serzinho que ela carregava consigo. Não falei que seria o único homem na vida dela? Tenho certeza que seremos felizes, pois não teremos meus amigos, a bebida, nem a família dela para atrapalhar. Seremos felizes, meu amor. A morte é apenas um recomeço."
Caso encerrado, 05 de Março de 2015, às 19h.
Folheto entregue no Dias dos Namorados, aos moradores da cidade por uma clinica de psicologia.
"Evite outros Casos Estrela: se você é, ou conhece alguém com as características abaixo, procure ajuda terapêutica.
– Querer manter controle total da vida do parceiro;
– Tudo ser motivo de suspeita e traição;
– Perseguições;
– Não aceita rejeição;
– O parceiro é o centro de tudo;
– Ciúmes anormal"
Notícia divulgada 20 anos depois:
"Provavelmente você deve lembrar do Caso Estrela, se não lembra, é por ser jovem demais (leia mais sobre a história nesse link). O que vem ao caso é que, ontem à noite foi a inauguração da organização Estrelas, fundada por Lana Sampaio. A organização promete ajudar jovens que sofrem com dependência alcoólica. Ela nos contou que daqui alguns anos também pretende ajudar pessoas com depressão. E pra comoção geral, Lana terminou falando que ainda sente falta do irmão."
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