Data desconhecida. Anotação retirada do diário de Lucas.

"Acordei um pouco estranho hoje. Minha irmã cantava uma música da Demi só pra me irritar. Tentei convencê-la de ir comprar um sorvete e me deixar sozinho. Com muita persistência, consegui. Mal esperei sua saída e caminhei até minha gaveta, de onde tirei uma garrafa de vodka. Sei que não é o melhor café da manhã, mas eu não conseguiria beber café sabendo que a bebida estava tão próxima a mim.

Assim se foi uma boa parte da bebida, guardei a outra metade e fiquei esperando Lana chegar da sorveteria. Teria que leva-la até a escola e depois ir para o maldito trabalho. E assim fiz. Só para deixar claro, trabalho numa locadora. E pra falar a verdade, não é tão ruim assim. Eles nem mesmo exigiram que eu cortasse meus cabelos, e isso foi ótimo. O problema é que, pra chegar até a locadora, preciso pegar ônibus. E eu, definitivamente, odeio ônibus. Quando era mais novo, sempre vomitava quando precisava pegar um, e até pouco tempo ainda não me sentia confortável.

Mas, isso mudou um pouco. Tem uma garota que sempre vejo no ônibus, e me sinto estranho em relação a ela. Nunca tentei puxar assunto ou ao menos sentar ao se lado, mas sempre a observo; está com os fones no ouvido, encarando a paisagem da janela e parecendo estar em outro mundo. Ela é dócil, e isso é ruim. Não me envolvo com garotinhas, sei que posso machucá-las.

Bom, sei que pareço uma mariquinha chata fazendo anotações desse tipo, mas estou pouco me fodendo. Ás vezes é preciso desabafar, mesmo que seja com uma folha de caderno."

1 de fevereiro de 2015. Entrevista com Giseli, tia de Lana e Lucas.

"Eu amava meu sobrinho, mesmo ele sendo problemático." Revelou a mulher na entrevista. Ela tinha olheiras fundas e uma expressão de tristeza. "Eu entendia uma parte desse problema, afinal, ele perdera os pais e teve que ser responsável pela irmã de apenas 10 anos. Tentei ajudá-los, mas Lucas era orgulhoso e fazia tudo sozinho. Ele tinha garra." A mulher respirou fundo.

"Conheci Estrela, ela foi a única garota que Lucas apresentou a família." Perguntei a ela se os dois demonstravam dificuldades na relação. "Se eles tinham dificuldades, não deixavam transparecer perto de Lana. Nunca vi os dois discutirem, muito pelo contrário, viviam fazendo brincadeiras. Eu realmente achava que Estrela poderia ajudá-lo." No fim da entrevista, Giseli revelou que agora ela está responsável por Lana. A menina ainda tenta se recuperar da tragédia com os pais e o suicídio do irmão.

5 de Março de 2014. Diário de Lucas.

"Com um pouquinho de vodka — okay, nem tão pouco assim -, consegui tomar coragem de me sentar ao lado da garota do ônibus. Não sei se foi impressão minha, mas ela ficou sem graça. Juntei coragem e perguntei o que ela estava escutando. Sei que fui um pouco invasivo, mas ela pareceu não se importar. Respondeu timidamente o nome de uma banda estranha e assim começamos a conversar. Descobri que seu nome é Estrela, e acho que combina muito bem com ela."

5 de Março de 2014. Mensagens coletadas do WhastApp de Priscila.

[20h31 05/03/2014] Estrela: Ele falou comigo! ELE FALOU COMIGO!

[20h35 05/03/2014] Priscila: O gostosão do ônibus?

[20h37 05/03/2014] Estrela: Ele é bem mais que gostosão, me pareceu inteligente e legal.

[20h40 05/03/2014] Priscila: Já está apaixonada? Cuidado pra não dar em namoro, seu pai teria um infarte.

[20h42 05/03/2014] Estrela: Argh

6 de Fevereiro de 2015. Depoimento de Ronaldo (cobrador do ônibus que Lucas e Estrela pegavam) ao jornal local:

"Sim, eu vi os dois juntos. É verdade que ele sempre sentava perto dela e não se passou muito tempo para os dois estarem no que me parecia, um relacionamento. Achei interessante isso, pois nunca vi um casal se conhecer num ônibus. Ele descia um ponto antes do dela e sempre se despediam com um beijo. Quando o ônibus estava lotado, ela parecia evitar muito contato físico, então ele só depositava um beijo na testa da garota. Era um casal estranho, ela parecia...como posso dizer? Tímida demais pra ele.

E sim, eu presenciei uma briga dos dois. O rapaz estava claramente embriagado naquele dia, e ela ficou irritada com isso. Já era noite, e estavam voltando pra casa, eu acho. Ele tentou beijá-la e acalmá-la; ela o empurrava. Depois de um tempo, ele desistiu do contato e desceu numa parada qualquer. Ela continuou sentada, parecendo mais irritada ainda. Novamente tenho que repetir: era um casal estranho. Os dois pareciam mudar muito de humor. Ás vezes riam, brincavam e pareciam se amar, outras vezes já era o inverso. Fora isso, nunca percebi coisas anormais, por isso fiquei chocado com a notícia."