Casca Temporária
4 Capítulo 4 - Pêsames
Peço-lhe perdão pela demora. Este capítulo demorou mais do que os outros, uma vez que minha frágil casca machucou as mãos. Sim, entenda, caro leitor, assim como você se entediou com a minha demora, entediei-me com a lenta recuperação desse ser.
Não imagina o quão chato é permanecer parada na mente alheia, não podendo se manifestar graças a um temporário defeito físico. Admito que muitas vezes quase a forcei! Entretanto abandonei tal ideia ao notar que os instrumentos não acompanhavam a velocidade de meu pensamento.
É como uma máquina de escrever ou um teclado quebrado em que você digita e só após torturantes minutos vê a tinta a marcar o papel ou a tela.
Não sou uma narradora paciente, porém não queria debilitar ainda mais este organismo que habito.
O irônico é que, agora que minha casca já se recuperou, fugiu-me o assunto de que gostaria lhe falar. Perdão, caro leitor. Quem sabe em outra oportunidade?
Espere! Não se exalte, não estou tecendo essas linhas à toa. Embora meu assunto original tenha-me escapado pelos dedos, desejo falar dessa fragilidade humana.
Não é como se eu entendesse. Não possuo forma física, logo os únicos momentos em que sinto dor é quando estou habitado. Senti sim as mãos doerem, e agora você entende o outro motivo que me levou a não debilitar tal organismo, não é mesmo?
Sinceramente, chego a estranhar a fragilidade humana. Não entendo o jogo entre corpo e mente que se montou aqui. Veja, meu leitor, como pode tamanha inteligência ser protegida por uma camada de carne tão vulnerável?
Não parece certo. A complexidade do cérebro humano, as habilidades que podem desenvolver, o fato de ser o único animal a ter consciência de sua existência, tudo isso deveria ter sido combinado com uma armadura, uma proteção digna de tal maravilha.
Por que então se fez o oposto?
A vista aprimorada é sujeita a doenças, irritações e cansaço; o olfato, assim como o paladar, é obstruído pelas gripes e resfriados; o tato é sensível demais, queima-se com altas e baixas temperaturas; a audição é tão delicada que, quando sob pressão, desencadeia em dores de cabeça.
Sim, leitor, sei que acha que fiquei chocada com muito pouco. Mas pare! Acha isso porque também é humano! Acha isso porque também está sujeito, e porque não dizer acostumado, com tal situação! Fico abismada ao notar o quão simples você é: acostumando-se com tudo, reclamando pouco quando o assunto é sua existência.
Admito que talvez eu esteja errada. Sei que tal possibilidade, pequena e pouco provável, pode existir. A beleza humana pode estar sim nessa fragilidade, nessa contradição de fraqueza física com força intelectual. Contudo não deixo de lamentar tal precária situação.
Meus pêsames, caro leitor.
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