Casamento por obrigação

19 Capítulo 21 - O baile e o beijo


—Tia Catalina! Aura Maria! Que felicidade imensa encontrar vocês duas aqui na roça! — exclamou Betty, abraçando as amigas com força assim que a comitiva desembarcou do jipe de carga.

— Viemos correndo para a sua festa, mamita! E claro, para conhecer o tal caubói de quem você fala tanto nas cartas lá em Bogotá! — disparou Aura Maria, ajeitando a jaqueta com um sorriso malicioso.

— De quem você está falando, Aura Maria? Fique quieta! — pediu Betty, sentindo as bochechas queimarem de vergonha. A amiga era indiscreta por demais.

Ao perceber que quase havia falado besteira na frente de todo o mundo no pátio, a recepcionista tentou disfarçar na mesma hora, mudando de assunto e correndo para abraçar a senhora que vinha logo atrás.

— Tia Maria!

— Querida Bettica! Ave maria, eu ainda não me acostumo com este seu novo jeito moderno da cidade! Como tem passado estes meses? Por acaso nos abandonou pela roça? — perguntou a tia, comovida, segurando o rosto da sobrinha.

— Não, imagina, tia, ojojo! Eu estou ajudando no projeto da escolinha dos peões aqui na fazenda.

— O Hermes deve ter ficado mui feliz com a sua ajuda, minha filha.

— Bom, chega de prosa fiada na varanda que o tempo voa! Vamos ajudar essa moça a se colocar ainda mais bonita para o salão! A Camila mandou uma caixa de presentes com um vestido deslumbrante para você — avisou Catalina Angel, com o seu tradicional sorriso elegante.

— Ai, a Mila sempre me deixa vermelha de vergonha com esses mimos — confessou Betty, pegando a caixa com os nós dos dedos trêmulos de expectativa.

Catalina e Aura Maria não perderam tempo e trataram de empurrar Betty direto para o banho quente. Iriam ajudá-la pessoalmente com o penteado, a maquiagem e os preparativos da grande noite. Enquanto o alvoroço tomava conta dos quartos, a Tia Maria guardou o envelope amarelado e lacrado com cera no fundo do xale; decidiu que deixaria para entregar a misteriosa carta do Tio Lázaro mais tarde, quando a festa terminasse e as duas estivessem bem sós e tranquilas na habitação.

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Horas depois, o salão do casarão principal dos Mendoza estava ricamente decorado com flores do campo. Beatriz descia as escadas coloniais usando um salto elegante, por pura insistência de Catalina. Ela não era muito adepta de pinturas pesadas no rosto, por isso preferiu uma maquiagem suave e os fios de cabelo negros cacheados meio-presos, caindo sobre os ombros. Usava um belo colar com uma pedra brilhante que destacava o seu colo. O visual estava tão deslumbrante que até o patriarca Roberto Mendoza ficou impressionado ao vê-la chegar ao pé da escada.

— Você está simplesmente preciosa esta noite, minha filha — elogiou o velho fazendeiro, com os olhos brilhando de orgulho.

— Ah, Don Roberto... ojojo! São os seus olhos que me veem com carinho de tio — agradeceu ela, contendo a timidez.

— Espero de verdade que possa guardar cada segundo deste momento na sua memória, Beatriz.

— Com certeza irei guardar, Don Roberto.

— Então aproveite a sua noite, menina!

"Espero de todo o meu coração que ele me veja assim também...", pensou Betty, olhando de relance para o topo do salão, procurando pela jaqueta de couro do Armando.

Beatriz não estava acostumada a ver tantos homens cercando-a e cortejando-a ao mesmo tempo. Como desconhecia por completo os reais motivos de seu pai com aquela comemoração — o plano secreto de Hermes para arrumar um marido de respeito —, ela estava apenas mui feliz de se sentir rainha por uma noite. No canto da mesa de doces, Aura Maria cutucava o seu braço a cada dois minutos, perguntando quem era o caubói Armando por quem ela babava tanto na Capital.

— Não é nenhum desses marmanjos que estão na pista, Aura Maria! Ele ainda não chegou no salão — explicou Betty, com os olhos de café vagando pelas portas.

Armando realmente havia procurado fazer um monte de trabalhos pesados nos estábulos e na lavoura de café até o último minuto, tudo para se desvencilhar das cobranças de Marcela Valência. Embora o seu peito quisesse muito dar um abraço apertado na sua amiga pelo aniversário, ele não gostava nada, absolutamente nada, de saber da ideia do Seu Hermes de usar o baile para arrumar um noivo para a menina. Para o orgulho do Mendoza, a Betty era mui criança para já se enganchar em casamento com algum peão, e ainda por cima sem ser por amor verdadeiro.

"Como os pais acham que têm o direito de decidir com quem nós vamos passar os nossos dias?", pensava Armando sozinho na penumbra da varanda, ajeitando o colarinho da camisa quadriculada. "O Seu Hermes é uma excelente pessoa, mas assim como o meu pai, ele está redondamente errado. Eu, pelo menos, aproveitei mui bem a minha vida de solteiro e de gandaia pelas biroscas... mas e a Betty? Ela está completando dezoito anos hoje, não é justo que não possa escolher livremente o homem com quem passará o resto de sua vida na cama. Que tremenda injustiça!"

Ele lembrou-se de sua própria situação, sentindo o peso do martírio de ser obrigado a se casar com a Marcela por causa das dívidas. Mas ele, ao menos, era um homem rodado, experiente e continuaria aproveitando as suas liberdades por muito tempo, já que a Marcela concordava com as aparências do casamento corporativo e não pensava em cobrar-lhe fidelidade de alma. Mas a Beatriz era uma menina doce, pura e inocente. Se ela desse o azar de cair nas mãos de um marido que fosse um tarado ou um machista chucro que a proibisse de estudar e trabalhar, a vida dela seria destruída.

Armando cerrou os dentes. Não ia permitir que nenhum canalha a maltratasse. O Seu Hermes havia comentado que já havia um pretendente de olho nela; o caubói precisava urgentemente descobrir quem era o sujeito e o que ele pretendia com o corpo de sua Bettica.

"Será que eu aviso ou não a verdade para a Beatriz?", pensava ele, sentindo uma tristeza estranha e pesada apertar o coração.

Mas logo o orgulho de macho falou mais alto: se os rapazes da região podiam tirar a moça para dançar e cortejá-la com galanteios no salão, ele também ia exercer o seu direito de dançar com a sua melhor amiga e protegê-la de qualquer má intenção dos gaviões da roça.

Após terminar o serviço e dar uns amassos escondidos com alguma camponese disponível atrás do galpão para aliviar o estresse, o patrãozinho tratou de tomar um banho rápido, tirar as botas sujas e vestir-se adequadamente para a festa de gala. Ao adentrar no salão principal, o ar faltou em seus pulmões.

Beatriz estava deslumbrante, trajada em um belo vestido lilás de alcinha de seda que desenhava perfeitamente a sua cintura fina e o quadril de mulher. Ela estava realmente encantadora. Com aquele visual moderno da Capital, com certeza iria chamar a atenção de todos os rapazes da redondeza, sobretudo dos pirralhos e adolescentes da escola que já andavam arrastando o bonde por ela pelos cantos.

No canto oposto do salão, a loira Karina e a noiva Marcela Valência não estavam gostando nem um tiquinho daquela fidalguia toda. Para que os Mendoza tinham que montar uma festa de gala daquelas para a filha dos criados? Marcela bufava de ciúmes a cada vez que via os homens cercarem a mesa dos Pinzón.

Armando tomou coragem, ajeitou a camisa e começou a caminhar firmemente pelo meio do salão, decidido a pedir a primeira dança para a aniversariante.

— Betty! — chamou ele, a voz rouca mudando o semblante dela.

— Armandinho... — o sorriso de Betty se abriu, radiante.

— Ah! Finalmente eu te encontrei, Armando Mendoza! — a voz estridente de Marcela cortou o momento, e ela brotou do nada, agarrando o braço dele com possessividade. — Posso saber por onde você andou enfiado o dia inteiro? Eu passei as últimas duas horas te procurando pelos estábulos!

Aura Maria, que assistia a tudo de longe bebendo um ponche, aproximou-se de Betty com um sorriso de canto.

— Antes que você me pergunte no corredor... é ele, não é? O seu caubói?

— Sim... é ele — sussurrou Betty, murchando o olhar ao ver a rival prender o braço dele.

Ave maria, amiga! Realmente o homem é um triplepapito de primeira qualidade! Que porte! Mas... quem é aquela mulher com cara de poucos amigos grudada nele feito carrapato?

— Infelizmente... é a noiva dele, a Senhorita Valência — respondeu Betty entre dentes, sentindo o estômago revirar de ciúme.

— Ai, minha querida... que lástima — lamentou Aura Maria, balançando a cabeça.

Betty tratou de engolir a mágoa, aceitou o convite de outro rapaz e continuou dançando pelo salão, mas os seus olhos de café não saíam por um segundo do casal. A Marcela dava gritos e risadas altas na festa, tentando forçar uma alegria que não sentia, sob os olhares severos e preocupados de Dona Margarida no fundo do salão.

Enquanto a música rolava, muitos fazendeiros e convidados pareciam saber perfeitamente do real propósito oculto daquela festa. O Seu Hermes, orgulhoso perto da mesa de frios, já havia contabilizado dois pedidos formais de corte que lhe pareceram mui sérios. O primeiro era de um jovem peão trabalhador da colheita; mas lógico que, apesar de o rapaz ser honesto, Hermes não queria que sua única filha contraísse bodas com um trabalhador braçal e levasse a mesma vida de sacrifício e privações que a Júlia levou na roça.

O segundo pedido veio de um herdeiro de um fazendeiro bem rico da região vizinha. Hermes nunca imaginou que um moço daquela linhagem pudesse demonstrar algum interesse sério na sua menina. O caseiro admitia para si mesmo que aquele sujeito nunca lhe havia caído mui bem — era um rapaz metido, esnobe, que sempre tirava sarro da Beatriz quando eram crianças pelos estábulos —, mas de todos os marmanjos que dançaram com ela naquela noite, o rapaz rico parecia ser a melhor opção financeira para garantir o futuro da filha. “As pessoas mudam com a idade”, pensava o velho Hermes.

— Eu prometo ao senhor que pensarei mui sério no assunto do cortejo e darei uma resposta na próxima semana — disse Hermes para o herdeiro rico.

O jovem fazendeiro não gostou nem um pouco daquela resposta demorada. Quem aquele velho caseiro de calças simples pensava que era para responder com tanta cerimônia para um homem de posses como ele? O velho devia aceitar a corte na mesma hora e agradecer de joelhos! Afinal, ele era rico, bonito, andava com os melhores cavalos, e a Beatriz nunca arrumaria coisa melhor do que ele naquele vilarejo chucro. O rapaz virou as costas com arrogância, deixando Hermes pensativo.


Mais tarde, já perto da meia-noite, Betty estava exausta de tanto rodopiar no salão com os pretendentes. Seus pés imploravam por descanso. Ela precisava urgentemente tirar aqueles sapatos de salto alto que a Catalina a obrigara a usar, e a cadeira rústica de vime que ficava na varanda dos fundos do casarão, na penumbra do jardim, pareceu o lugar perfeito para se esconder de todos. Ela sentou-se na escuridão, soltando os fechos dos sapatos com um suspiro de alívio.

— Ufa!... Finalmente um minuto de paz! — murmurou para a noite estrelada.

— Boa noite, aniversariante! — a voz grave e familiar de Armando ecoou das sombras das videiras. — Vejo que a minha Bettica está mui requisitada e disputada pelos cavalheiros esta noite.

— Mandinho... — ela levantou os olhos, o coração errando as batidas ao vê-lo de terno, sem o sombrero, com o cabelo úmido do banho.

— Vejo que você aceitou dançar com quase todos os homens de Quindío hoje... menos com o seu melhor amigo da infância. Se é que eu ainda ocupo esse lugar na sua consideração, não é? — perguntou ele, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça.

— Você sabe mui bem que sempre será o meu melhor amigo, caubói!

— Então... a senhorita me concede a honra desta valsa aqui na varanda? — Armando estendeu a mão grande e calejada, com o olhar fixo nela.

— Só se você não se importar com o fato de eu estar completamente descalça, Armando... Eu não aguento mais esses sapatos apertados da Capital por hoje!

— Não me importo de forma alguma, Betty. Venha — ele sorriu, puxando-a para o seu peito com suavidade.

Os corpos se uniram na penumbra da varanda, sob o som abafado da música que vinha lá de dentro do salão. Betty deitou a cabeça de leve no ombro dele, sentindo o perfume de colônia importada misturado com o cheiro másculo dele.

— Você também não pôde passar o dia comigo hoje, caubói... — reclamou ela baixinho.

— Me desculpe, Betty... É que a Marcela me perseguiu feito assombração a noite inteira lá dentro, mal consegui respirar sem ela gritar no meu ouvido.

— E antes da festa? Eu não te vi o dia inteiro pela escolinha.

— Me desculpe de verdade, minha Bettica... Tive muito trabalho pesado na colheita do algodão hoje, mesmo sendo um dia mui especial como o de hoje.

— E você acha o dia de hoje especial, Armando? — ela ergueu os olhos de café para fitá-lo.

— Mas com toda a certeza do mundo! É o seu aniversário de dezoito anos, a sua maioridade!

— É o primeiro aniversário que passo aqui na fazenda depois de tanto tempo longe...

— E você gostou da festa de gala que a minha mãe preparou para você no salão?

— A Dona Margarida é uma mulher maravilhosa para organizar essas coisas de sociedade, Armando. Tudo estava impecável, mui lindo e a comida estava deliciosa... mas estava faltando uma coisa para a minha noite ficar completa.

— Faltando o quê, Betty? — ele perguntou, diminuindo o ritmo dos passos da valsa, a voz sumindo na proximidade dos rostos.

— Faltando você. Estar aqui assim, juntinho contigo.

— Grato pela parte que me toca desse carinho... — Armando sorriu, sentindo um calor estranho subir pelo peito.

— Sabe, Armando... eu realmente não entendo como você aceita passar os seus dias ao lado daquela Marcela Valência. Não entra na minha cabeça.

— Nem eu mesmo entendo às vezes, Betty... — ele confessou com um suspiro pesado, o peso da dívida do pai esmagando os seus ombros.

— O que te une a ela com tanta força?

— Por que a pergunta? Você não consegue acreditar que o que existe entre nós seja amor verdadeiro de noivos? — ele tentou desversar, testando-a.

— Um homem quando ama de verdade, Armando, faz absolutamente tudo pela pessoa amada! — Betty rebateu com firmeza, olhando fixamente nos lábios carnudos dele. — O homem corteja a mulher, dá flores do campo, é fiel ao sentimento... tudo mui diferente do jeito que você vive a sua vida na gandaia com as peoas .

Armando soltou uma risada curta e másculo, balançando a cabeça.

— Você é romântica demais, Betty. Lê muitos livros de romance na Capital. As coisas do mundo real entre um homem e uma mulher não funcionam com essa poesia toda de contos de fada.

— Talvez eu seja romântica sim... mas eu acredito no poder do amor verdadeiro perante a vida.

— É porque você ainda é uma menininha inocente, Beatriz. Acredita em príncipes salvadores, cavalheiros perfeitos e essas histórias de fadas.

— Eu não acredito mais em príncipes, Armando! E não sou mais nenhuma menininha indefesa! Eu sou uma mulher de dezoito anos feita! — ela protestou, empinando o queixo com orgulho.

— Quer dizer que... você já conhece essas coisas da vida prática? — Armando travou os passos, o ciúme de arriero beliscando o seu peito ao lembrar dos rapazes da cidade grande. — Já teve namorados na Capital?

— Não! Deus me livre, nem mais faltava uma audácia dessas da minha parte! — Betty corou instantaneamente. — Mas eu li muitos livros de estudo, tenho amigas que já namoraram e eu sei perfeitamente como as coisas acontecem entre um casal. Você e a Marcela... vocês se dão bem na intimidade?

Armando engoliu em seco, sentindo uma vergonha terrível de debater aquele assunto de cama com a filha do caseiro.

— Você quer dizer se nós... se faço amor com Marcela, essas coisas?

— Sim. Exatamente isso.

— Sim, nós temos a nossa vida íntima, Betty... Mas, para ser sincero com você... no sentido romântico da palavra, não há poesia nenhuma entre nós. É algo mecânico, contratual. Coisa de pele e de costume, nada mais.

— Então quer dizer que você também não gosta de verdade daquela professorinha nova, a Karina? — disparou ela, o ciúme faiscando nos olhos.

— Não! Deus me livre, a Karina foi apenas um erro, um desejo de carne momentâneo! — admitiu ele, com o rosto vermelho, amaldiçoando a própria língua solta perto dela.

— E as outras camponesas e filhas de fazendeiros com quem eu te via se beijando nos estábulos desde que eu era adolescente? Tampouco gostava delas?

— Quem? As moças da Vila? As meninas da vizinhança?

— Sim! Desde pequena eu vivo te flagrando beijando as moças pelos cantos da plantação de café!

— Tampouco sentia nada por elas, Betty! A verdade nua e crua é que aquelas moças ricas queriam namorar o herdeiro do fazendeiro rico por interesse de sobrenome... e eu queria apenas desestressar o corpo após o trabalho pesado. Eu não amava nenhuma daquelas mulheres, e elas tampouco me amavam. Se você quer saber a real... eu nunca, jamais amei ninguém nesta vida, Beatriz. Nunca senti esse amor de livro. Mas... creio que este não é o tipo de assunto adequado para eu estar conversando contigo na varanda. Apesar de estar completando dezoito anos hoje, você ainda é mui criança para essas conversas picantes de marmanjo!

— Eu já te disse que não sou nenhuma criança, Armando Mendoza! E eu te acho um tremendo de um idiota por fazer essas coisas íntimas na cama com mulheres de quem você não gosta nem um tiquinho! — esbravejou ela, irritada com a pose de santo dele.

— Pois é exatamente por pensar dessa forma pura que você prova que ainda é uma criança, Betty! — riu ele.

— Eu só me entregaria por inteiro na cama para o homem que eu amasse de verdade, Armando! E para o homem com quem eu fosse passar o resto dos meus dias perante o altar!

— Pois eu fico mui feliz e orgulhoso que você pense dessa forma mui direita, Betty... — Armando suavizou o olhar, a voz descendo um tom. — E espero do fundo da minha alma que você encontre esse homem de bem no seu futuro, e que ele realmente mereça a joia preciosa que você é.

— Eu já encontrei esse homem, Armando... O problema real é que ele é um tremendo de um idiota que não enxerga um palmo diante do nariz — sussurrou ela, dando um passo à frente, os corpos quase se colando na escuridão.

— Ah, é? Então o sujeito deve ser um idiota completo mesmo, Betty... Porque você é uma moça totalmente diferente de todas as outras, mui especial. Não fabricam mais mulheres puras e inteligentes como você no mundo.

— Eu tenho as minhas regras, caubói... Eu só daria um beijo de verdade no homem que eu amasse com toda a minha alma.

— E... e você ama alguém de verdade nesta fazenda, Betty? — perguntou Armando, com um receio terrível no peito, o coração batendo compassado na garganta de medo da resposta.

— Sim. Eu amo.

— Que bom... Quer dizer, eu não sei se isso é bom para o seu pai — gaguejou o caubói, sentindo um aperto violento no estômago. — E... quem é o felizardo da região, Beatriz? Por acaso... por acaso é o idiota do Daniel Valência? Aquele esnobe esteve te cercando no pátio!

— Jamais na minha vida eu gostaria de um monstro cínico como o Senhor Valência, Armando! Tire essa bobeira da cabeça! O homem que eu amo é mui diferente... Ele é um bom moço por dentro, um verdadeiro cavalheiro protetor, doce... — Betty deu mais um passo e jogou os braços macios ao redor do pescoço dele, abraçando-o com força, sentindo o calor do terno contra a sua pele. — ...Um homem cujo carinho contrasta perfeitamente com esse jeito rústico de arriero, com esse corpo másculo e forte que ele tem.

Armando travou no abraço, o corpo inteiro tremendo com a proximidade dela.

— Sabe, Armando... você vive falando de mulheres e de rumba, mas eu... eu nunca beijei nenhum homem na boca na minha vida inteira.

— Nunca, Betty? Nem um namorico de escola na Capital?

— Só uma encostadinha de lábios na infância, um piquito de brincadeira nos fundos, como dizem... Mas digo assim... um beijo de amor verdadeiro, de entrega de alma, nunca dei em homem nenhum.

— Pois nem seja por isso, Beatriz... — sussurrou Armando, o rosto a milímetros do dela, o hálito quente cruzando a penumbra. — Fique sabendo que este caubói que está na sua frente tampouco deu um beijo de amor em mulher nenhuma nesta vida. Eu só conheço o desejo.

Ojojo! — Betty soltou a sua risada tímida.

— Não ria, Betty! Estou falando mui sério! Como é que eu haveria de dar um beijo de amor verdadeiro em alguém, se eu acabei de te confessar que nunca amei nenhuma das mulheres que passaram pela minha cama? — disse Armando, fitando os olhos de café dela com uma intensidade que fez o chão sumir.

— Pois então... você tampouco me deu o meu beijo de aniversário hoje, Don Armando — provocou ela, com a voz sumindo de tanta audácia.

— Ah, mas isso é mui fácil de resolver, minha Bettica! Feliz aniversário, Beatriz! — sorriu ele, rendido à doçura do momento.

Armando a abraçou com carinho pelos ombros e inclinou-se para depositar o tradicional beijo de proteção na testa dela. Mas Betty continuou com os olhos fixos nos dele, imóvel.

— Só isso, caubói? Um beijo na testa é o máximo que a aniversariante merece?

— Bem... — Armando engoliu em seco, o coração martelando feito louco. Ele inclinou-se novamente e deu um beijo terno e demorado na bochecha corada da moça.

Betty não ia desaproveitar aquela oportunidade que o destino estava jogando nos seus braços. Aproveitando que as suas mãos continuavam firmes entrelaçadas no pescoço dele, ela puxou a nuca de Armando para baixo com determinação de mulher feita e colou os seus lábios diretamente nos dele, iniciando um beijo de amor verdadeiro, apertando o corpo de seda lilás contra a virilidade do terno dele.

Havia sido uma audácia perigosa e selvagem. Betty sentiu a mente girar de tanta tontura e emoção pela entrega daqueles lábios carnudos contra os seus. Para não cair desmaiada nos braços dele ali mesmo na varanda, ela soltou o pescoço dele abruptamente, virou as costas e correu desesperada em direção às escadas do casarão, trancando-se no quarto de cima (o antigo de Camila), onde havia voltado a ficar hospedada por causa da reforma.

Ela desabou contra a madeira da porta, tocando a boca com os dedos trêmulos, o peito subindo e descendo de pura euforia:

— Eu o beijei!... Meu Deus, finalmente eu beijei o meu Mandinho! — comemorou sozinha na penumbra do quarto, chorando de felicidade.


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Lá embaixo, na varanda dos fundos, Armando Mendoza havia ficado completamente petrificado no meio do jardim. Uma ternura desconhecida e violenta havia inundado o coração do maior conquistador de Quindío. Nunca, em todas as suas noites de luxúria na Capital ou na roça, nenhuma mulher ou amante o havia beijado daquela maneira tão doce, tão pura e tão cheia de sentimento. Ele passou a ponta da língua lentamente pelos próprios lábios, tentando reter o sabor inconfundível de amora que a boca de Betty havia deixado ali, querendo prolongar aquela sensação mágica para sempre.

A sua pose de gatinho protetor estava desmoronando, quando uma voz estridente vinda do corredor quebrou o feitiço:

— Ah! Você está aí escondido na escuridão, Armando! Eu passei o baile inteiro te procurando! — reclamou Marcela Valência, surgindo na varanda.

Armando virou os olhos na mesma hora, o peito subindo de irritação. Queria com todas as suas forças que aquela mulher o deixasse em paz com os seus pensamentos de amora por um único segundo.

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