Casamento por obrigação
19 19 -Pesadelo e pacto de silêncio
Naquela mesma noite, trancada na casinha dos funcionários, Beatriz mal conseguiu pregar o olho. O remorso a corroía por dentro feito uma praga de café.
"Como eu fui tão burra, meu Deus? Como eu fui tão ingênua e vaidosa ao aceitar aquele convite de passeio do Daniel Valência?", pensava ela, rolando de um lado para o outro na cama, o peito apertado de culpa. Ela se sentia suja, castigando-se por ter dado trela e assunto para aquele urubu. Amaldiçoava a própria curiosidade que a levara até o lago vizinho.
Quando finalmente o cansaço venceu o pranto, o seu sono foi tomado por um pesadelo sufocante. No sonho, ela estava novamente presa no chão de madeira daquele barco, no meio do lago profundo, com as mãos pesadas e nojentas de Daniel apertando o seu pescoço, rindo com deboche enquanto rasgava o seu vestido. O cheiro de asfalto dele a sufocava. Ela tentava gritar, mas a voz não saía da garganta, até que, bem no momento em que a boca dele ia tocar a sua, a figura imensa, máscula e protetora de Armando Mendoza emergia das águas feito um herói de cinema. O seu caubói arriero quebrava a farsa do vilão com um soco violento e a puxava para o calor daquele peito largo e suado, cobrindo-a com o seu poncho e jurando protegê-la de todo o mal do mundo.
Betty acordou em um sobressalto de madrugada, suando frio e com o coração batendo na boca, agarrando-se ao travesseiro de penas. As lágrimas voltaram a queimar o seu rosto de porcelana. A lembrança do salvamento ainda estava mui viva na sua pele.
Lembrança do Lago (Logo após saírem da água):
Na margem do rio, enquanto Armando tentava secá-la com a sua camisa quadriculada, o caubói estava bufando de puro ódio, com o maxilar travado e as mãos grandes tremendo de nervoso.
— Isto não vai ficar guardado no silêncio de jeito nenhum, Beatriz! — esbravejou Armando, o peito subindo e descendo de fúria possessiva [🎭]. — Assim que eu colocar os meus pés no casarão principal, eu vou direto selar o cavalo e vou até a fazenda vizinha confrontar o Velho Júlio Valência! Vou jogar na cara dele a baixeza e a canalhice que o filho dele tentou cometer contra uma moça de bem debaixo do meu teto! E depois... depois eu vou ter uma prosa mui séria e direta com o seu pai, o Seu Hermes! Ele precisa saber tim-tim por tim-tim do perigo que você correu por causa desse desgraçado!
Ao ouvir o nome de seu pai, o pavor de Betty foi maior do que o medo que sentira do próprio Daniel. Ela se atirou nos braços de Armando, segurando o colarinho dele com desesperfado, os olhos de café inundados de pranto.
— Não! Pelo amor de Deus, Armando! Eu te imploro de joelhos... não conte absolutamente nada para o meu pai! — implorou ela, soluçando contra o peito dele.
— Mas por que não, Betty? — Armando esbravejou, ajeitando o lenço vermelho no pescoço com brutalidade. — O Seu Hermes tem o direito e o dever de homem de saber que o Daniel é um monstro aproveitador! Aquele urubu de terno cinza quase te desonrou no meio do lago! Se eu não chego a tempo no nado, o que teria sido de você, mamita?
— Porque você não conhece o temperamento e a cabeça do meu pai como eu conheço, Armando! O Seu Hermes é um homem mui severo, tradicional e machista com as regras de criação! Se você contar que o Daniel tentou me agarrar à força no meio daquele barco deserto... o meu pai não vai culpar o Valência, Armando! Ele vai culpar a mim! Vai achar de verdade que eu provoquei a situação de propósito com esse meu novo jeito moderno da Capital, e que eu mudei o meu caráter! O papai vai dizer com todas as letras da boca dele que eu cometi uma imprudência imperdoável ao aceitar ir passear sozinha em um lago isolado com um homem feito da alta sociedade!
— Mas que caipira teimosa! — Armando bateu com a bota no cascalho, a voz rústica vibrando. — Você foi a vítima, caramba! O Daniel te encurralou de má-fé! O Seu Hermes haveria de entender que o sangue dos Valência não presta!
— Sim, como você quiser, Armando... Mas na cabeça dele as coisas não funcionam assim! Ele poderia proibir que eu saísse sozinha para a lavoura, ou até contigo! Ele ia achar que o perigo anda solto e que eu não tenho o recato de uma Pinzón. Se você abrir o jogo, o Seu Hermes vai duvidar da minha palavra, vai achar que eu dei algum tipo de permissão e, por puro castigo, vai me proibir terminantemente de continuar dando as minhas aulas na escolinha rústica e de andar de prosa perto de você! Ele vai me trancar dentro de casa sob as suas asas e nunca mais vai me deixar ver a luz do sol nesta fazenda! Ele vai dizer que o Daniel é o patrão — e que ele nem é o nosso patrão legítimo, os nossos únicos patrões são os Mendoza! — e que nós não devemos misturar as coisas.
— Ave maria... O Seu Hermes com essa mania de rédea curta vai acabar te trancando numa redoma de vidro, Betty! — Armando resmungou, cruzando os braços musculosos, o peito ainda subindo de raiva. — Mas eu não posso deixar esse Daniel circulando mui faceiro pelo pátio depois de ter tocado na sua pele! Isso me corta o sangue!
— E tem outra coisa mui grave, Armando... — Betty continuou, segurando as mãos calejadas dele com ternura. — A saúde da minha mãe, a Dona Júlia, está mui frágil e delicada nestes últimos meses. O coração dela anda fraco, ela não aguenta fortes emoções ou desgostos na família. Se o meu pai descobre essa sujeira e começa a quebrar os pratos e a gritar dentro da nossa casinha por causa do bom nome dos Pinzón... a minha mãe não vai aguentar o tranco da briga, Armando! Ela pode mui bem ter um ataque pior da doença e morrer de desgosto no leito! Você quer carregar a culpa de piorar a saúde da Dona Júlia por causa do seu orgulho de arriero bravo?
O apelo pela mãe doente desarmou por completo o orgulho e a fúria do caubói. Armando soltou o ar com força pelos dentes, olhando para o horizonte do rio, sentindo o peso daquela responsabilidade. Ele olhou para o rosto alva de Betty, limpando uma lágrima que escorria pelo queixo dela com o polegar grosso.
— Está bem, Beatriz... — cedeu ele, a voz descendo para aquele tom rouco de peão dominado. — Pela consideração mui grande que eu tenho pela vida e pela saúde da tia Júlia, e para não ver você trancada pelo castigo do Seu Hermes sem poder nem andar comigo pelos cafezais... eu aceito guardar esse segredo contigo. Nós faremos um pacto de silêncio absoluto sobre essa agressão no lago. Ninguém nesta fazenda vai saber do que o Daniel tentou fazer.
— Grata, Armando... você salvou a minha vida e a paz da minha família — ela sussurrou, aninhando-se no calor do peito dele.
— Mas escute mui bem o que este peão está te dizendo, Betty: você nunca, jamais vai voltar a aceitar convite ou prosa daquela raça dos Valência, ouviu bem? Se aquele urubu cinzento voltar a rondar o seu caminho na escolinha, você corre direto para os meus braços. Da sua proteção e do seu destino cuido eu! Nenhum canalha vai colocar as mãos na minha menininha!
Betty encostou a cabeça no peito molhado e viril dele, ainda tremia e soluçava.
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