Casamento por obrigação
39 Capítulo 39 - Pensamentos
O motor do jipe de linha roncava com uma vibração pesada, vencendo as curvas sinuosas da estrada de terra batida que deixava o asfalto de Bogotá para trás e se embrenhava novamente no mormaço do Eixo Cafeeiro. A viagem de volta para a Fazenda Laços estava mergulhada em um silêncio sufocante na cabine, quebrado apenas pelos solavancos do veículo contra as valas da pista. No banco da frente, os pensamentos queimavam em alta voltagem na cabeça de Armando (que preferiu voltar dirigindo para espairecer )enquanto o poeirão avermelhado subia pelos vidros, engolindo os horizontes.
Armando Mendoza apertava as mãos calejadas contra o couro do volante com tanta força que os nós dos seus dedos chegavam a ficar brancos. O peito do caubói subia e descia, afogado em um mar de remorso e culpa doentia de homem feito.
"O que você fez naquela cama de hotel, Mendoza? Que fraqueza nojenta de macho foi essa?!", praguejava ele em sua mente torturada, o maxilar travado de puro nervosismo. "Você jurou para si mesmo e perante que ia agir como o santo protetor, que ia segurar as rédeas e manter as mãos nos limites da decência para salvar a pureza da menina... E bastou ela te olhar com aqueles olhos de café e te pedir com aquela boca de amora para você se guiar cegamente pela paixão mais depravada e possessiva! Você tirou o desfrute da inocência dela, Armando!
Abusou da confiança de um caseiro fiel que te ensinou a selar os cavalos desde moleque! E agora... agora como você vai conseguir olhar na cara do velho Hermes no pátio dos fundos sem morrer de vergonha?"
Armando, de rabo de olho, secava o Betty ao seu lado no carona. O corpo dele ainda queimava ao lembrar do perfume de frutas vermelhas e da maciez daquela pele debaixo dos lençóis, mas o freio moral da roça o esmagava. Ele precisava urgentemente dar um gelo, manter a distância e fingir que nada havia acontecido, ou o fogo daquele feitiço ia acabar destruindo os contratos de casamento com os Valência e arrastando a sua família para a ruína total perante os bancos.
No banco do carona, alheia ao martírio de macho do caubói, Beatriz Aurora afundava-se contra o estofado com o semblante gélido de poucos amigos, mantendo os braços rigidamente cruzados sobre o peito. Se os pensamentos do Armando eram pura culpa de carne, a mente analítica de Betty era um labirinto de dúvidas mui sombrias e perigosas.
As palavras do Tio Lázaro e as cópias das escrituras antigas que ela portava mui bem escondidas no fundo de sua mochila de lona continuavam queimando o seu juízo feito brasa. O nome falso de "Davi" registrado nos títulos das terras de café não saía de sua cabeça.
"Será que o Armando me deu esse gelo e esse silêncio repentino porque também sabe de tudo?", questionava-se em pensamento, os olhos fixos na poeira da estrada. "Será que o homem que eu amo me tomou nos braços no hotel por amor verdadeiro... ou por puro remorso de saber que a farsa da família dele está prestes a ruir com a minha maioridade? Ou será que se arrepende de ter ido para casa com uma moleca como eu? No fundo, será que gosta da Marcela? "
-Chegamos!
-Ja não era sem tempo.
-Vou desceisem demora -cantarolava Freddy
-Vá descarregar na volta, Freddy! Tenho que deixar Beatriz em casa.
Os dias que se seguiram ao retorno da Capital foram um verdadeiro inferno de dúvidas e assombro para a cabeça de Beatriz. O jipe mal havia estacionado no pátio dos estábulos e a barreira do gelo desabou sobre os seus sonhos.
Armando Mendoza parecia ter se transformado em uma pedra de gelo completa; evitava cruzar o caminho dela perto da escolinha rústica e mantinha uma distância formal odiosa de patrão arrogante que cortava a alma da moça [🎭].
Pior do que a distância, era o rastro da gandaia. Betty passara a espreitar os passos dele pela janela do quarto e o coração dela sangrava ao vê-lo saindo a cavalo na calada da noite na direção da vila dos colonos, cercado pelas peoas e camponesas faceiras. O ciúme da consumia por dentro. Antes daquela noite de amor, Betty o sentia wuente e tão perto. Não sabia se era assim que agia com todas quando perdia o interesse ou se era só com ela. Ou queria provocar-lhe para se achar dono e tê-la nas mãos.
O que não conseguia enxergar na sua paranoia é que o caubói agia puramente por desespero.
Armando saía pela tangente justamente porque a virilidade dele queimava de necessidade ao menor perfume de amora dela, e ele usava o trabalho pesado e as andanças para passar o tempo. e tentar afastar o feitiço que o paralisava. Devia estar doente consumido pela culpa. Betty era moça direita, o que seria agora de sua vida? Ele iria se casar, por obrigação ou não, mas iria e ela?
No entanto, no segundo em que Betty cruzou o terreiro dos estábulos, o Daniel Valência a encurralou contra a cerca de madeira com total brutalidade de sociedade [🎭]. Ele descarregou uma enxurrada de cobranças violentas e venenosas, fingindo um ciúme possessivo mui doentio do Armando Mendoza perante os peões da lida.
— Você me deve explicações mui sérias, Beatriz! — Daniel sibilou com o seu tom mais cortante, segurando-a pelo pulso com força. — Que audácia desavergonhada foi essa de pegar as malas de madrugada e viajar colada na cabine do jipe daquele caubói imbecil, cercada pela criadagem dos estábulos?! Você é a minha noiva de contrato perante o Seu Hermes! Deveria guardar o recato de uma moça direita e esperar o meu cortejo!
— Eu já te disse mil vezes que eu não te devo satisfação nenhuma da minha vida, Daniel Valência! — Betty rebateu com total altiveza, sustentando o olhar cinzento dele com uma cara de poucos amigos que deixou o crápula sem ar [🎭].
— Me solte! O meu pai confia plenamente na fidalguia e na proteção do Armando Mendoza, que sempre cuidou de mim desde moleca nesta fazenda como um irmão protetor! O Armando é um homem de bem, e com ele eu ando mui segura contra o veneno de qualquer aproveitador de asfalto! Passe mui bem, "meu querido noivo"!
Betty fez menção de virar as costas com desprezo, mas Daniel a puxou de supetão para mais perto do seu paletó cinza, inclinando o rosto na penumbra da tarde. Ele estreitou as pupilas frias e puxou o ar mui perto do pescoço alva dela, o seu aguçado faro de predador detectando o tranco na mesma hora. Daniel travou os dentes, sentindo que o aroma da moça estava mui diferente, mais farto, mais quente. Não cherava mais a pureza de antes. Mas Daniel engoliu o nó da raiva e soltou uma risada abafada, cínica e cheia de escárnio na penumbra do celeiro.
"Seja o que tenha acontecido e ainda que esta florzinha do campo já tenha dsido despedaçada, pouco importa para os meus negócios por enquanto!", pensava Daniel de dentes cerrados, olhando para o quadril dela se afastando em direção à casinha dos fundos. "O que mais importa para o meu sangue agora é colocar as garras no que QUERO. Armando que aproveite as migalhas da Marcela, porque quando esse casamento forçado acontecer perante o juiz, eu vou ser o rei legítimo de Quindío e farei essa audaciosa se ajoelhar perante as minhas ordens na cama, queira o coração dela ou não!"
Armando observava tudo mui bem escondido do canto das baias, e por mui pouco, por uma faísca de segundo, não correu feito um lobo bravo até o meio do pátio para arrancar a Beatriz Aurora das mãos daquele vilão com um safanão violento! Ele não faria aquilo agindo como o eterno irmão protetor da infância da moça, não senhor... faria com a fúria selvagem de quem age como o dono legítimo daquele terreno. Apesar de estar com a aliança de compromisso com a Marcela no dedo, o caubói não gostava nem um tiquinho de ver outro macho rodeando o seu território, ainda mais porque ele sabia perfeitamente bem o quanto a Betty odiava o Daniel com todas as forças do peito. Ele só não conseguia compreender ou decifrar na contabilidade o que diabo o Daniel Valência queria tanto com aquele casamento arranjado nos fundos.
Na sua cabeça torturada, Armando pensava que aquela pressa toda do cunhado só podia ser um golpe baixo para provocá-lo e testar os seus brios de macho perante os peões. O caubói sentia as mãos tremerem; ele queria fazer tanta coisa contra o rival, mas a razão dos bancos o paralisava na estrada. No entanto, o que mais maltratava a sua alma, o que mais lhe sangrava o peito de homem feito, era ter que agir de forma tão fria, gélida e distante com a mulher que, poucas horas antes no asfalto da Capital, havia lhe entregado absolutamente tudo o que portava na vida: o seu próprio corpo de boneca, a sua pureza prístina e todos os seus sonhos mais doces de amor debaixo das cobertas. A Betty era a sua amiga de infância, a sua Bettica... e tratá-la como uma reles desconhecida no pátio era o seu maior martírio.
Armando sentia, com um desespero doentio, que precisava dar um jeito urgente de romper aquele cabresto. Ele estava completamente desesperado. Desde aquele dia da entrega total no hotel de Bogotá, o Tigre de Quindío não era mais o mesmo nos estábulos; a sua antiga e lendária adição para as fêmeas e saias da rumba agora havia se transformado em um vício cego e perigoso para a bebida. E não adiantava tentar afogar as mágoas nas garrafas de aguardiente pelas biroscas do vilarejo; na hora em que o álcool queimava a garganta, ele fechava os olhos e só conseguia enxergar a silhueta dela na penumbra, deitada nos lençóis, implorando com total doçura para que ele a tivesse nos braços e a fizesse sua mulher. Armando lembrava com lágrimas nos olhos de como a sua menina havia reprimido a própria dor da primeira vez puramente para dar o desfrute e o prazer de macho para ele.
Por causa desse feitiço, as outras mulheres da roça agora serviam puramente como companheiras de copo nas mesas de gandaia. Elas não serviam mais como fêmeas para os seus desejos; o seu corpo recusava qualquer outro toque de carne. Na mente de Armando Mendoza, só existia ela.
Por isso, naquela mesma noite de escuridão, com o sangue fervendo pelo álcool e pela raiva de Daniel que podia chegar perto de sua menina, Armando tomou a resolução mais violenta de sua vida. Caminhou a passos largos e pesados pelos corredores do casarão principal, decidido a ter uma conversa mui séria, e definitiva com o seu pai. Nada sobre o velho Lázaro Pinzón tê-lo expulsado, a essa altura nem lembrava disso, aquela prosa que ia acontecer agora no escritório seria de homem para homem.
Armando empurrou a porta de madeira de carvalho com um estrondo, adentrando o escritório do patriarca com os olhos injetados de determinação e as mãos cerradas. O Seu Roberto Mendoza levantou os olhos do balanço do algodão no susto .
— Pai! — Armando Mendoza decretou com a voz rústica e vibrante de arriero bravo, batendo o sombrero com força contra a mesa— Eu não posso e não vou me casar com a Marcela Valência de jeito nenhum! Acabou-se a farsa!
O Seu Roberto Mendoza largou a caneta sobre os balanços contábeis, encarando o gênio estourado do filho com os olhos semicerrados. O
— Mas que loucura sem rédeas é essa que você está gritando no meu escritório, Armando?! — esbravejou o patriarca— Você ficou maluco de vez perante a colheita? O contrato de compromisso com a família Valência já está mui bem firmado de papel passado pelas nossas palavras de honra!
— Eu nunca estive com o juízo tão limpo e tão firme em toda a minha vida de homem, papai! — Armando rebateu com a voz rouca, dando um passo largo até a mesa de carvalho. — Eu vim aqui bater o martelo e te dizer de homem para homem que eu não posso continuar enganando a Marcela dessa forma e mui menos a mim mesmo!
-Ah é: E a que devemos isso agora?
-Er, er... A Marcela merece casar-se com alguém que a ame e...
-Certeza que este é o motivo?
-Bem... -disse sentando-se, pensando que a honra de assunir sua responsabilidade seria um orgulho para o pai- eu... eu conheci uma moça, na verdade já a conheço há muito tempo...
-Ah já sabia! Com certeza suas andanças!
-Não... Não foi uma andança! Tive um momento, um rolo com uma moça durante a viagem em Bogotá. E as coisas se deram de um jeito mui diferente de tudo o que eu já experimentei na terra...
— E por acaso você pensa que eu vou rasgar as garantias dos bancos e mandar a nossa Fazenda Laços para a ruína total por causa de um capricho de saia da Capital, Armando Mendoza?! — o Velho Roberto levantou-se num salto, fuzilando o filho com o olhar.
— Não se trata de reles capricho de gandaia, papai! Me escute! — Armando implorou, o desespero e o remorso do hotel transbordando na fala. — Eu não quero de jeito nenhum fugir das minhas responsabilidades de homem feito! Eu sei mui bem o tamanho do meu erro! A moça... a moça era uma virgem prístina, uma menina mui doce e pura que me entregou absolutamente tudo o que portava na vida de livre vontade, debaixo de um amor verdadeiro! Não é justo, não é honrado da minha parte tirar o desfrute da pureza dela para depois...
-Você não abusou dela?
-O que pensa que sou, papai? Nunca abusaria de uma moça, ela, ela..
-Se entregou a você?
-Sim.
-Menos mal! Não aceitaria um filho abusador! Mas se ela se entregou, foi como com as outras que tem por aí!
-Não! Ela, ela é diferente. É pura, doce. -disse com olhos sonhadores, mas Don Roberto de cabeça baixa sequer reparou nisso.
O Seu Roberto Mendoza soltou o ar com força pelos dentes, limpando o suor da testa com o lenço. Ele olhou para o filho e, adotando o seu tom mais frio, calculado e experiente de velho fazendeiro, esmagou qualquer romantismo perante a mesa.
— Pois coloque essa sua cabeça no lugar agora mesmo de vez, Armando! — ordenou o pai, a voz gélida feito o sereno de Bogotá. — Nós estamos no meio de uma crise terrível com as safras de algodão, os bancos nos fecharam as portas e o seu compromisso com a Marcela é a única e legítima tábua de salvação que impede o nosso sobrenome de ir para o olho da rua da miséria! Este não é o momento de ter peso na consciência, se sabia que era virgem não devia ter feito! Ainda mais não deveser a primeira nem a última em seus braços!
-Não, eu nunca...
-Tem a Marcela. Lembra quando começaram tudo?
Armando tentou lembrar, sim a Marcela disse que começaram quando eram adolescentes, mas tampoucio achava que fosse virgem.
-Pode pagar com sua consciência com a Marcela! E a menos que tenha agora mesmo o dinheiro vivo para pagar tim-tim por tim-tim da dívida imensa que nós devemos à família Valência, deixe de história e de romances de asfalto e cumpra o seu dever!
Armando sai chateado. Pensava que seu pai compreenderia. Nunca pensou em MArcela sendo virgem, ela não agiu como Betty, na primeira vez deles.
A poucos centímetros dali, a tragédia do pior dos mal-entendidos acabava de se selar no corredor escuro.
Betty caminhava a passos lentos para o quarto de cima quando escutou os berros de Armando dentro do escritório. Ela colou o ouvido contra a madeira da porta e acabou escutando e interpretando aquela conversa mui pela metade
Betty escutou o Armando dizer que havia tido "um rolo com uma moça da cidade", e ouviu o Velho Roberto ordenar com total desprezo e pouco caso que o que ele lhe contava não era nada já que não foia buso e a moça se entregou porque quis.
Betty virou as costas em silêncio e correu desesperada para o quarto de hóspedes da Camila, trancando a fechadura por dentro para desabar no travesseiro e chorar todas as lágrimas de humilhação do seu peito. Para ele, Armando concordava com o pai e não havia sido nada o que viveram. Não ouviu quando ele disse que queria terminar o casamento.
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