Casamento Por Contrato
4 Capítulo 4: O Casamento
Notas iniciais
Por Ravena:
Entrei no salão de bailes novamente com um sorriso no rosto. Como meu pai, Garfield havia me subestimado e pensado que eu não iria me impor, que eu seria só mais um peão no jogo deles. E naquele dia eu adorei provar para ambos que eles estavam errados. Ao deixar o meu noivo no jardim eu não havia me virado, mas tinha certeza que ele havia ficado olhando para o nada com cara de idiota. E isso não poderia me deixar mais feliz.
Encontrei uma cabeleira ruiva perto da escada e segui pra lá, mas antes de alcançar minha amiga fui abordada por um casal. Reconheci como sendo os Narkisim, Martha e Oliver Narkisim, o casal de arquitetos mais bem pagos do país. Como a empresa do meu pai era a maior imobiliária do país, a maioria dos imóveis era feitos por eles. E obviamente eu os conhecia. Na verdade, eu não trabalhava ainda nas empresas, mas eu sabia tudo sobre a indústria imobiliária e estava sempre antenada. Quando Garfield Logan começou, eu acompanhei seu crescimento que foi muito rápido. Antes de ele ficar muito famoso eu já sabia que ele seria um rival em potencial pra a gente e pensei em avisar Trigon, mas não o fiz. Eu mal falava com o meu pai e ele com certeza não levaria em conta o que a sua filha de dezesseis anos diria sobre o seu trabalho. Mas o meu palpite estava correto. Eu sabia que ele tinha potencial e ele não me decepcionou. Chegou longe em muito pouco tempo o que surpreendeu á todos, menos a mim. Tenho talento pra ver o que pode ou não dar certo. Acho que deveria investir na bolsa, quem sabe né?
–Ravena! É você mesma? Lembro-me de quando seu pai nos apresentou você, quando ainda era um bebê. –Martha sorriu gentilmente.
–Olá Martha, Oliver. Pois é, não é? É espantoso como as pessoas crescem rápido. Ás vezes olho pra mim mesma e nem acredito.
–Eu quase não acreditei quando a vi descendo as escadas. Seu pai não nos contou que havia ficado tão bonita. Deve ter muitos pretendentes?
–Mas só estou interessada em um. –Sorri tentando ser o mais convincente possível. E fui com toda a certeza. Eu acho que faria sucesso se investisse em ser atriz.
–E que é o felizardo?
–Logo a senhora saberá. Aliás, logo todos saberão. –Um suspiro atravessou minha boca. Quando aquilo se tornasse público, seria um rebuliço. –Com licença.
Segui em direção á minha amiga, amiga que assim que pôs os olhos em mim, os arregalou e praticamente correu pra perto.
–Onde você esteve? Vi você toda linda seguindo as escadas e sendo recebida pelo seu noivo e aí desviei o olhar por dois segundos e não achei mais vocês.
–Fomos para o jardim. –Expliquei aos sussurros. –Expliquei minhas condições. Na verdade soaram mais como ordens. Eu falei tudo o que queria e nem dei tempo de ele responder, me virei e entrei pra a festa. Acho que não foi um começo lá muito receptivo.
–Você deve ter assustado o rapaz.
–Na verdade não. –Uma voz rouca fez Kory dar um pulo de susto, mas eu consegui esconde-lo. Olhei para o meu noivo que nos encarava e eu me perguntei de onde ele havia surgido.
–Está ouvindo minha conversa? –Levantei uma sobrancelha. –Acho que deveria ter acrescentado “privacidade” aos itens que falei.
Ele me olhou com incredulidade me fazendo ter vontade rir. Acho melhor ele ir se acostumando com o meu jeito:
–Não há nada que me faça seguir o que você me disse.
–Há sim. Uma coisa chamada divórcio. –Sorri cínica. Era um palpite, mas acho que ele não sabia que meu pai estava me chantageando. Logo, ele podia achar que eu realmente poderia me divorciar.
Meu noivo pelo visto não estava acostumado com pessoas que conseguiam retrucar o que ele dizia por que me olhou como se quisesse me fuzilar:
–Esteja pronta pra encenar.
–Estou encenando desde que pisei os pés neste salão. Seja convincente Garfield.
Koryander estava no encarando com uma cara que dizia “Dá pra pararem de fingir que eu não estou aqui, obrigada” o que fez eu e meu noivo olharmos pra ela. A minha amiga fuzilou meu marido com um olhar que dizia “Se destratar minha amiga eu juro que vou te esganar”. Isso era típico da Koryander ou de qualquer pessoa do nosso grupo. Nós protegíamos um ao outro. Sempre.
–Sou Koryander. –A ruiva queria ser formal por isso falou o nome todo, queria mostrar frieza, por mim, para que ele percebesse que ela estava do meu lado. E se a Kory falou o nome inteiro por você, sinta-se amado. –Melhor amiga da Ravena. Então por favor, se quiserem jogar granadas de tiradas um para o outro, não façam isso na minha frente.
–Sinto muito Kory. –Falei com sinceridade. Tudo o que eu menos queria era ficar trocando farpas com meu noivo na frente da minha amiga. Eu teria muito tempo pra isso quando me casasse e a ruiva não precisava ver aquilo, ela iria se preocupar mais ainda. –Garfield, com licença.
Praticamente puxei a minha amiga para outro canto onde ela me olhou com surpresa:
–Você e ele vão se dar muito bem pelo visto.
–É, com certeza. –Revirei os olhos com sarcasmo.
–Mas pelo menos ele te acha bonita.
–E como você sabe disso?
–Quando você desceu as escadas os olhos dele não conseguiam se desviar de você e eles estavam brilhando, brilhando muito. E você também o acha bonito.
–Ele é bonito. O que não melhora nem um pouquinho a minha situação. Apenas acho que ele não está acostumado á ser retrucado. Ele tem respostas boas, a maioria das pessoas não consegue responder. Felizmente, não sou a maioria das pessoas.
–Vai mesmo transformar a vida dele num inferno?
–Apenas no noivado. –Eu sorri. –Quero que ele saiba que não pode se meter comigo. E depois, quando nos casarmos, posso viver evitando ele e ele me evitando. Eu já vivo assim aqui em casa, não vai ser problema nenhum pra mim.
–Quando anunciar o noivado... Acha que vai conseguir...
–Encenar? Até você vai acreditar que somos um casal apaixonado. Só espero que ele também saiba fazer isso bem.
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Girei o anel de noivado no dedo. O baile havia sido há duas semanas e aquele anel ainda me incomodava. E quando eu estava nervosa com algo ou alguém, inconscientemente eu o girava no dedo.
Combinamos com Garfield que o anel de noivado seria também a aliança. Apesar da situação, o anel era lindo e combinava comigo. Não iria trocá-lo e correr o risco de outra aliança ser tão deslocada pra mim quanto o casamento em si.
Olhei para Koryander mais uma vez no meu quarto:
–Kory, sinceramente, não me importo nem um pouco com o vestido que vou usar. Vai ser um casamento só de cartório, com poucas pessoas. Depois disso iremos direto para a “lua-de-mel”. –Fiz aspas com os dedos.
–E você acha que eu vou te deixar casar como uma qualquer? Rae, o casamento é amanhã! Se hoje eu não estivesse praticamente te arrastado para comprar um vestido decente, você provavelmente iria se casar de calça jeans e camiseta.
–Nada á ver. No dia da minha “transformação” você deve ter me comprado pelo menos uns cinco vestidos de gala e mais uns trocentos de festa. Um deveria servir.
–Não iriam não. Felizmente eu tive o pensamento de ir comprar com você. –Então ela sentou-se ao meu lado e pegou uma das minhas mãos. –Eu, Ciborgue e Dick vamos estar lá ao seu lado amiga.
–Eu sei e agradeço demais vocês por isso. –Deitei-me e coloquei minha cabeça no colo da Koryander. –Estou com medo Kory. Não sei o que vai acontecer depois que nos casarmos. Como será a minha vida. Mas... Tudo ficará bem. Eu consigo passar por isso.
–Sei que consegue. Vai passar por isso de salto alto e sambando na cara do recalque. –Gargalhei alto com isso. Tinha que ser ela.
–Koryander, eu definitivamente te amo.
–Eu sei. –Ela jogou o cabelo. –Amiga, tenho um presente pra você.
–Mais um? –Levantei-me do colo dela. –Não precisava Kory. Você já fez tanto. A transformação, estar ao meu lado no baile, ter ido hoje comigo comprar o meu vestido de noiva, estar comigo sempre...
–Eu sei, mas eu precisava te dar isso. –Ela me estendeu uma sacola de onde tirei uma caixa grande e prateada com um laço dourado no meio. Mordi os lábios enquanto pensava o que poderia ser. Abri com cuidado o laço dourado e tirei a tampa da caixa.
De dentro eu tirei a capa mais linda que eu já tinha visto. Ela era toda branca com alguns detalhes nas laterais em delicadíssimos fios dourados. O tecido era de um material macio e felpudo que me fazia querer me aninhar nela.
–Eu não tenho palavras. Kory... Ela é linda! –Passei as mãos quase com reverência pelo tecido. –Pensei que odiasse quando eu uso capas.
–E odeio. –Ela riu. –Não é pra usar sempre e se depender da minha vontade você não vai usar nunca. Olha Rae, eu sei que suas capas sempre te deram segurança. Estou te dando essa, para os momentos em que você se sentir muito, muito, muito insegura e com medo, você usá-la. Mas apenas nesses momentos.
–Muito obrigada. –Levantei-me e coloquei a capa com delicadeza num cabide e a guardei. –Obrigada de verdade. Kory, definitivamente, você é diva.
–Eu sei. –Ela jogou o cabelo de um modo exagerado e nós duas rimos. –Kory, meus parentes vieram aqui.
–Por Deus! Como foi?
–Tia Luz está simplesmente exultante com o fato de que vou me casar. Ela está tão feliz. A Juliana está uma gracinha e meus outros tios. Ah, a Vanessa fez um grande avanço. Ela está falando tão corretamente, pra quem há um tempo atrás não falava nada. A Bianca continua meio fechada, de acordo com a minha tia ela está tendo surtos constantes, mas ela estava bem calma na minha presença. Titia diz que ela tem um carinho especial por mim já que ela me associa á minha mãe. –Olhei o retrato da minha mãe em cima da minha estante. Por um instante pensei no que teria acontecido se ela não tivesse morrido. Minha vida podia ser diferente, tanto pra pior quanto pra melhor. -E o meu tio Otávio não muda nunca, tão brincalhão como sempre. Todos eles estão brilhando de tanta felicidade. Ver eles fez tudo valer á pena.
–Sua mãe se orgulharia. –Koryander estava olhando para o mesmo lugar que eu, o retrato de Arella. Os cabelos tão violetas tão parecidos com os meus. Ela era tão linda.
–Se ela não tivesse morrido... Sabe, eu não sei. Meu pai só pegou minha guarda depois que ela morreu, mas talvez ele ainda quisesse ter a minha guarda, afinal ele querendo ou não sou sua única herdeira com Margaret sendo estéril.
–Rae, não fique pensando em como poderia ter sido. Não vai acontecer. Agora pense no seu futuro e no que você vai fazer.
–Eu? Ficarei presa num casamento arranjado. Mas não estou triste. Eu vou estudar, vou fazer cursos, vou trabalhar e seja o que Deus quiser.
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Por Garfield:
Eu iria me casar! Aquela constatação bateu no fundo da alma quando eu entrei no cartório. Era real, iria acontecer e quando eu assinasse esses papéis não teria mais volta. Eu iria estar casado com Ravena Roth (e ela seria Ravena Roth Logan). E vamos dizer que nem eu e nem ela estávamos muito felizes com isso.
Tomando coragem entrei no cartório. Minha noiva e nem o pai dela estavam, mas pude avistar a ruiva do dia do baile que trajava um vestido branco simples e os cabelos lisos estavam soltos livremente. Ao lado dela estavam dois rapazes, um deles de cabelos negros, segurava a mão dela com os dedos entrelaçados. O outro era alto, moreno e estava me olhando como se quisesse me fuzilar. Ele sussurrou algo para a ruiva e veio em minha direção com cara de poucos amigos.
–Então é você quem vai se casar com a minha irmãzinha. –Ele sussurrou. –Vamos deixar uma coisa bem clara: Ela é como uma irmã mais nova pra mim e eu a amo. Se você a ferir de qualquer maneira, seja fisicamente ou psicologicamente, você vai se ver comigo e você não quer isso. Você vai ser o marido da Ravena então cuide bem dela, otário.
E depois disso voltou de onde veio me deixando com cara de idiota e ligeiramente assustado. Não assustado com ele obviamente, afinal, sabia que ele só estava tentando proteger a amiga. Mas assustado com o fato de que ele estava certo, eu seria o marido dela e era minha obrigação cuidar da garota. Embora ela não houvesse parecido o tipo de garota que precisa ser cuidada. Pelo que eu havia visto no último encontro, eu tinha que cuidar era de mim perto dela.
E então eles chegaram. Trigon estava de braço dado com a filha, com a pose altiva e intimidante de sempre. E ela... Ela estava linda, linda como da última vez que eu a vi. Usava um vestido branco até os joelhos, rodado com detalhes de flores igualmente brancas. O cabelo estava preso em um coque simples que deixava algumas mechas caírem onduladas, emoldurando o rosto dela.
Ravena sorriu ao ver os três amigos ali e o sorriso dela foi tão sincero quanto lindo e me embasbacou por dois segundos.
–Vamos iniciar? –Trigon perguntou e eu apenas assenti com a cabeça. Eles se aproximaram e ele passou a mão dela pra minha, como seria se a gente estivesse em uma igreja.
E então começou a parte em que eu temia. Falamos poucas palavras, trocamos as alianças (aliança que ela insistiu que da parte dela continuaria sendo a do noivado) e então chegou à hora de tornar aquela coisa toda real. A garota assinou primeiro, colocando o seu nome com a mão tremendo. Assim que ela terminou de assinar, encarou a própria assinatura por dois segundos, suspirou e me entregou a caneta. Era minha vez. Aquilo mudaria minha vida toda e eu tinha a impressão que Ravena Roth ainda iria me dar muito dor de cabeça. Mas era preciso. Então eu me inclinei e assinei meu nome, tornando aquilo real. Eu estava casado. E não tinha mais como voltar.
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