Casamento Por Contrato
3 Capítulo 3: O Baile
Notas iniciais
–Você está linda. –Kory bateu palmas enquanto eu ainda estava estática em frente ao espelho. –Sinceramente, você me deve muito Rae.
–Acho que sim. –Disse lentamente encostando de leve em uma mecha dos meus cabelos e então uma sirene me tirou do transe que foi ficar em frente ao espelho. Paguei á cabeleireira e saí do salão com todas aquelas sacolas, mas incrivelmente satisfeita.
A ruiva ao meu lado já iria falar algo quando o celular dela tocou. Ela rapidamente abriu a bolsa e após alguns segundos (e acredite na bolsa da Kory, achar alguma coisa é realmente um desafio) atendeu:
–Oi amor. –Ela sorriu e eu já adivinhei quem era.
–...
–É nós ainda estamos aqui. Na verdade, acabamos de sair do salão.
–...
–Tá, nós esperamos vocês são problemas. Não demore. Beijo.
O celular foi desligado e minha amiga me olhou com brilho nos olhos. Claro, era Dick, nosso último integrante do grupo e namorado da Koryander. No começo Cib era meio desconfiado quanto á ele, afinal, era namorado da sua irmã, mas logo se conformou e Dick foi aceito sem maiores problemas. E com ele, o grupo estava finalmente completo.
–O Ciborgue e o Dick vão vir pra cá, disseram pra gente esperar na praça de alimentação perto do Burguer King.
–Okay. –Dei de ombros e lá fomos nós para a praça de alimentação. Para esperar, eu comprei um milkshake enquanto a Kory comprou uma casquinha e ficamos sentadas na mesa.
–Você tinha razão quanto á distração. –Falei mexendo no canudo do meu sorvete sem muita vontade. –Eu me distraí bastante, mas agora veio á tona tudo de novo. Ai Kory, eu vou me casar. Mas agora que me ocorreu, que eu posso virar essa situação. Eu posso me impor.
–Tenho certeza que pode. –Kory sorriu. –E não importa o que aconteça se lembre que pode contar comigo quando precisar.
–Eu sei. É por isso que eu te amo.
–Mas vamos mudar de assunto porque não quero ver você depressiva. Ainda não acredito que não vou encontrar você na escola ano que vem.
–Eu também não acredito que não vou para aquele inferno ano que vem. Isso é bom demais pra ser verdade.
–Muito bonito. E eu vou ficar sozinha lá. Quer dizer, tem o Dick e o meu irmão, mas mesmo assim... Vai ser muito estranho! Eu sabia que não devia ter você ser nerd! Que tipo de pessoa termina os estudos aos dezesseis anos?
–Eu.
–É que lindo da sua parte nos abandonar á mercê do mundo lá.
–Kory, esse ano a gente só se viu no intervalo porque eu estava no terceiro e você no primeiro. Nem vai fazer tanta diferença assim!
–Você que pensa. Vai ser um horror! E o nosso grupo faltando uma integrante ainda vai dar o que falar.
–A mais estranha do grupo saiu agora vocês não serão mais tão esquisitos assim.
Koryander olhou pra mim com uma cara engraçada e começou á gargalhar alto, no meio da praça de alimentação mesmo, fazendo uma porção de pessoas olharem pra nós:
–Rae, no dia que eu, Cib e Dick não formos esquisitos, pode se jogar da ponte. –Ela afastou os cabelos ruivos do rosto. –Felizmente, é isso o que nos deixam tão mais legais que os outros.
–Nessa parte eu tenho que concordar com você. É o nosso diferencial. –Sorri. –Kory, vou ao banheiro e já volto.
Ela assentiu com a cabeça e eu me levantei indo em direção ao banheiro feminino que no momento estava praticamente vazio. Na verdade, eu queria apenas ficar sozinha por um segundo pra pensar em tudo que estava acontecendo. Em uma única manhã eu fui obrigada á me casar, fui repaginada por uma amiga e eu tinha que pensar direito no que eu iria dizer para Trigon quando voltasse pra casa. E essa parte de voltar pra casa ainda me assustava.
Olhei para o espelho e mais uma vez me encarei. Quem me olhasse no momento não iria perceber nada, graças á minha facilidade em esconder emoções. Esperava que Trigon também não percebesse, afinal, a ultima coisa que eu queria era dar o gostinho de ele perceber que aquela notícia quase me derrubou.
Dei uma última olhada no meu reflexo e saí. De longe pude ver que na mesa onde eu estava sentada havia mais dois meninos que eu deduzi serem Dick e Ciborgue. Sorri com a ideia de o grupo estar completo e fui até lá.
Assim que cheguei á mesa eu sabia que os meninos ficariam surpresos. Mas eu não estava preparada para uma reação tão engraçada. Tanto Dick, tanto Ciborgue olharam pra mim de boca aberta e me analisaram dos pés a cabeça. Olharam um pra cara do outro, depois de novo pra mim e depois de novo para a cara do outro. Nesse momento Kory já estava rindo.
–Mas como?! –Ciborgue parecia estar em estado de choque. –Mas... Mas... Como? Meu Deus, meu Deus... Como?
–Oh my God! –Dick ainda estava de boca aberta. –Rae, é você mesma?
–Não, o bicho papão, não está vendo? Claro que sou eu. –Ri e me sentei. –Oi pra vocês também. E respondendo a sua pergunta Cib, foi tudo culpa da sua irmã.
A ruiva sorriu modesta:
–Não fiz nada demais. Apenas a fiz dar uma mudança nas roupas, passar um pouco de maquiagem e mudar ligeiramente o cabelo.
–Caramba, vou ficar abismado por um bom tempo. Mas você está linda Ravena. E eu expliquei para o Dick tudo o que aconteceu.
–Sinto muito. –Dick estava pesaroso. –Não deve estar sendo fácil pra você. Mas tenha em mente que nós três estamos ao seu lado para o que der e vier.
–Obrigada gente. Vocês são os melhores amigos que eu alguém pode ter.
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Estacionei a moto na garagem e desci com todas aquelas sacolas. Koryander me fez prometer que eu iria jogar todas as roupas do meu antigo guarda roupa fora e enche-lo com as novas. Promessa é promessa.
Da garagem eu subi diretamente para o meu quarto com cuidado para não esbarrar em ninguém e depois despejei todas aquelas sacolas na minha cama. Tirei todas as roupas do meu guarda-roupa antigo e coloquei numa sacola grande. Eu não iria jogar fora, iria doar. Sei que colãs e capas não eram lá boa roupa pra se usar, mas quem sabe alguém não usaria isso pra fazer fantasias? Sinceramente, daria certo.
Depois coloquei cuidadosamente todas as roupas no meu guarda roupa, tudo separado e bem organizado, calculado e pensado. E pra quem pensou que eu estava fazendo tudo isso tão vagarosamente e organizadamente pra adiar meu encontro com Trigon, pode ficar feliz e ganhar um balão, porque acertou.
Quando enfim tudo estava organizado e eu não tinha mais nenhuma desculpa pra ficar no quarto, eu saí de lá. Descendo as escadas, eu encontrei Margaret na sala de estar assistindo um programa tosco daqueles que passam á tarde sem nenhuma utilidade.
–Margaret. –Chamei. –Trigon está no escritório?
–Está.
–Obrigada. –E já ia saindo da sala quando ouvi ela me chamar.
–Ravena... Eu sinto muito que você tenha que se casar. Eu tentei convencer ele á desistir disso tudo, mas você sabe como seu pai é. Teimoso. Ele está irredutível. Você é uma boa menina, não merecia isso. E... Você está bonita.
Eu fiquei paralisada por uns cinco segundos no lugar. O que raios havia sido aquilo? Aquela mulher desde que eu me lembro, nunca havia nem olhado pra mim direito. Claro, não sou de culpá-la muito, eu não era filha dela afinal. Era filha de Trigon e para piorar ainda mais a situação com a minha madrasta, eu sou o fruto de uma relação extraconjugal. Logo, Margaret não era minha maior fã e nem eu era dela. Então, quanto mais a gente se evitava, melhor para as duas. Duvido que eu tenha tido um diálogo que seja com ela que não foi movido á monossílabos de ambas as partes. E agora, do nada, a mulher diz que tentou interceder por mim com o meu pai? E disse que eu era uma boa menina? E que eu estava bonita? Mas o que diabos está acontecendo nessa casa?
–Sei como Trigon é. Ele não desiste nunca quando coloca algo na cabeça. Mesmo assim, obrigada por tentar. –Dei um sorriso leve e torci para o meu rosto não ter mostrado toda a surpresa que eu estava sentindo. Toda a minha experiência em esconder emoções estava sendo testada de todas as maneiras possíveis num único dia.
Saí da sala e fui em direção ao escritório. Respirei fundo e bati duas vezes na porta. Na segunda batida ouvi um “entre” e suspirando entrei fechando a porta atrás de mim. Trigon estava teclando alguma coisa no notebook e quando ergueu os olhos eu vi um lampejo de surpresa que me deu muita satisfação. Definitivamente, eu devo muito á Kory.
–Ravena, veio dar a minha resposta?
–Eu vou me casar. –Falei firme. –Mas isso não vai vir de graça. Eu tenho minhas condições e acredite, sim, eu estou no meu direito de exigir. Pra começar, não quero casamento na igreja. –Casamento na igreja fazia parte dos meus sonhos, mas aquilo não seria um casamento de verdade então eu não iria aceitar entrar na igreja para uma farsa. –Tirando isso, se você e meu noivo quiserem fazer qualquer comemoração pra deixar esse casamento realista eu não vou estar contra, mas quero Dick, Victor, Koryander e todos os meus parentes maternos nas comemorações ou pelo menos que eles sejam convidados. Não quero que você se meta na minha vida de casada quando eu me mudar dessa casa. E, você vai continuar suprindo cada um dos meus parentes sem falta. Estamos entendidos?
Quando terminei Trigon me olhava com incredulidade o que mais uma vez me deu uma satisfação impressionante. Ele com certeza não achou que eu iria ter exigência e que eu estarei tão firme quanto á isso. Passado o susto inicial, ele concordou com a cabeça.
–Hoje á noite teremos um baile onde Garfield e vocês irão anunciar seu noivado. Quero você bonita e sociável muita gente importante vai estar aqui. A propósito, gostei do que fez consigo mesma.
–Tudo bem. –Dei de ombros e saí do cômodo correndo para o meu quarto. Definitivamente, eu precisava da Kory de novo.
Por Garfield:
–Mais algum evento para o dia de hoje? –Perguntei da minha sala á minha secretária.
–Apenas o baile na casa dos Roth.
–Tudo bem. Obrigada Susan.
Suspirei e olhei envolta. Ainda não acreditava no que estava fazendo. Eu iria me casar com uma garota que nunca tinha visto na vida e que por sinal era bem mais nova que eu. Claro, unir a minha empresa com a dos Roth seria a minha glória. Com essa união, seríamos imbatíveis já que eles eram meus principais concorrentes. Mas... Casamento?
Abri a gaveta e olhei mais uma vez para a fotografia. “Você não vai ver ela de novo Garfield, supere”. Ás vezes minha consciência é tão insuportavelmente correta que me dá nos nervos. Eu não a veria de novo então o jeito era seguir em frente. Virei o porta retratos de cabeça pra baixo e fechei a gaveta novamente.
Meus pensamentos vagaram para a minha esposa. Eu havia procurado por fotos dela na internet, em entrevistas com os Roth e derivados, mas pelo que eu percebi, ela não aparecia nas festas que o pai dava o que me deixava completamente ás cegas de como ela era. Não que eu realmente me importasse com a aparência da garota, o casamento seria de fachada, mas eu realmente gostaria de saber o que esperar.
Levantei-me, tranquei a sala e peguei o elevador. Apertei o botão para a garagem ainda com a cabeça latejando. Naquele dia iria se tornar oficial, aquela loucura toda iria mesmo acontecer. Se eu fosse á aquele baile não iria ter mais como voltar atrás.
A porta do elevador abriu me tirando de mil devaneações. Iria acontecer e seria bom para ambos os lados. Não existia um “se eu me casasse”. Eu iria me casar. E quem sabe um dia aquela fotografia na minha gaveta fosse apenas uma fotografia qualquer.
Abri a porta do carro e entrei tentando pensar em algo que não fosse o anúncio do noivado, mas nada, absolutamente nada mais vinha á cabeça.
Por Ravena:
–Meu Deus! –Olhei para o espelho abismada, completamente abismada. Eu me senti numa segunda transformação e num único dia. –Kory! Você é muito diva! Como consegue?
–Meu bem, a beleza é sua, eu apenas a realço. Você está linda.
–Você também. –Olhei para minha amiga que sorria gentilmente. Ela usava um vestido cor de rosa quase vermelho com alguns detalhes em brilhantes. Os cabelos ruivos estavam presos em um coque bonito e uma diadema simples dava o toque final de elegância, beleza e simplicidade. Na sua mão reinavam dois anéis delicados e uma bolsa rosa bebê. E para completar nos pés um salto alto preto.
–Bondade sua. –Ela abriu um sorriso ainda maior. –Mas hoje, não sou nada comparada á você.
–Kory, muito obrigada! Por vir e por me ajudar. Eu nunca conseguiria ficar tão... Tão bonita sozinha.
Olhei para o espelho, ainda abismada. Eu usava um vestido azul que na parte de cima era feito de pedras e na parte de baixo se soltava leve. Os brincos eram em forma de gota, não muito grandes. Meu cabelo violeta havia sido preso em um coque bonito e despojado com o enfeite em forma de flores brancas. Um anel solitário prateado com azul reinava em meu dedo e uma pulseira de brilhante não muito chamativa em minha mão. Sapato prateado de salto alto e para o toque final um colar com pingente em forma de gota.
–Dick e Ciborgue mandaram as desculpas por não poderem vir, mas pra eles que não costumam ter trajes de gala no armário foi muito em cima da hora. Eu consegui vir porque sempre tenho três ou quatro vestidos para ocasiões como essas. Sou prevenida.
–Para minha sorte. Que bom que você está aqui, acho que não conseguiria descer para a festa se você não estivesse lá também. Eu vou finalmente conhece-lo.
–Você já não tinha visto fotos?
–Claro, pesquisei na internet sobre ele o quanto pude. Não é muito difícil de reconhecer ele na festa, afinal, ele é verde.
–É verdade. –A ruiva deu um risinho. –Mas, afinal, como é que ele ficou dessa cor mesmo?
–Foi um acidente em uma viagem com os pais e isso é tudo que sei. Pelo que li em entrevistas, ele não gosta de falar disso. Lembrarei á mim mesma disso.
–Para não tocar no assunto?
Gargalhei:
–Para tocar no assunto o máximo possível!
–Você é terrível Ravena!
–Estou brincando. É claro, se ele me irritar muito, o que, se eu tiver muita sorte, ele não gostar de fazer, é bom eu ter em mente um assunto que o deixe meio desconfortável. Caso ele tente me provocar, eu tenho uma escapatória ou mais próximo disso.
–Eu tenho até dó desse cara se ele resolver te provocar.
–Eu também. –Nós rimos juntas.
–Ravena, eu já vou descer. Acho que você precisa de um tempo sozinha antes de ir lá e finalmente encarar o seu marido.
–Fique por perto, vou te procurar assim que eu pisar os pés lá.
–É claro.
A ruiva sorriu e saiu do quarto. Assim que ouvi a porta sendo fechada sentei-me na cama e fechei os olhos. Minha vontade era de dar um jeito de fugir pela porta dos fundos e nunca mais voltar para aquela casa. Talvez eu pudesse ir para outro país, mudar meu nome, pintar meu cabelo e ficar irreconhecível o suficiente pra nunca mais ter que voltar pra casa. Mas obviamente eu não faria isso.
Suspirei e abri os olhos. Olhei mais uma vez para o espelho e fiquei encarando. Eu estava linda. Lindamente vestida, lindamente maquiada. E isso me fazia sentir um pouco mais segura. Apenas um pouco. Eu ainda sentia falta de puxar o capuz da capa e me aninhar-me naquela peça de roupa, atos pequenos que me faziam sentir-me bem melhor. Mas naquele momento, insegura ou segura, com medo ou sem medo, eu iria descer aquelas escadas e conhecer o meu noivo que me foi imposto logo pela manhã junto com o casamento. E faria isso linda e em cima de um salto alto.
Levantei-me ouvindo o farfalhar leve do vestido e fui em direção á porta. Coloquei á mão na maçaneta e me ocorreu ficar apenas mais um pouco no quarto, mas não o fiz. Se eu não saísse naquele momento, não sairia nunca. Então respirei fundo e abri a porta saindo da minha zona de conforto e indo em direção á minha zona de confronto.
Desci as escadas lentamente e de repente senti olhares me queimando. Claro, era a primeira vez que eu aparecia numa festa de Trigon. Os jornalistas deviam estar loucos com isso e o resto das pessoas também, fervendo de curiosidade para saber o porquê de eu nunca aparecer e por que eu havia mudado de ideia agora. Eu ficava apenas imaginando como seria a reação dessas mesmas pessoas quando meu noivado fosse anunciado, logo com Garfield Logan, um dos milionários solteiros mais cobiçados no momento.
Quando cheguei aos pés da escada, havia alguém me esperando. Um certo rapaz de pele verde e mais bonito do que as fotos poderiam mostrar. Nas fotos em que eu vi, mostrava que apesar da cor da pele diferente, ele era bonito. Mas agora pessoalmente, era mil vezes mais bonito, mais másculo e aquele sorriso... Meu Deus, que homem era aquele?
Por Garfield:
Ela era simplesmente linda! Muito linda! Muito mais do que minha mente limitada poderia imaginar. O pai dela me deu uma pequena descrição sobre ela, mas falou que era melhor que eu visse pessoalmente. Seria fácil de acordo com ele, porque ela era a única de cabelos violeta. Obviamente, eu não estava preparado para aquilo. Quase dei um infarto quando a vi descendo as escadas. Acho que de verde eu fui pra branco em dois segundos. Ela parecia uma fada! Aliás, ela era mais que uma fada! A pergunta era: Por que uma garota tão linda não iria querer aparecer em outras festas?
Não tive tempo para tentar responder á essa pergunta por que ela já estava terminando a escada e como futuro marido era minha obrigação recebe-la lá. Então lá fui eu, encontra-la.
–Garfield Logan, presumo. –Foi à primeira coisa que ela disse quando me viu, numa voz neutra e uma expressão também neutra.
–Ravena Roth. Prazer.
–Todo seu. –Ela sorriu ironicamente e pegou a mão que eu estendia. Tínhamos trocados três frases e três frases curtas, mas era o bastante pra eu saber que aquela garota seria um problema e dos grandes.
–Então você é meu futuro noivo? –Ela falou baixo, afinal, precisávamos manter as aparências. Ninguém poderia sequer sonhar que aquilo era um casamento arranjado, embora a maioria já tivesse especulado isso. Especulações são especulações, não queríamos dar nenhuma prova pra eles.
–Pois é. Surpresa com o que viu?
–Um pouco, devo admitir. E você?
–Muito. –Admiti também. E era a mais pura verdade, eu havia ficado muito surpreso em ver que a minha futura noiva era extremamente linda e pelo visto extremamente antipática.
–Precisamos conversar. –O tom de voz dela deu uma leve mudada ficando mais sério. –Vamos ao jardim.
E sem dizer mais nada ela me guiou discretamente ao jardim. Não sabia o que ela queria conversar, mas levando em conta a nossa situação poderiam ser mil coisas.
Tinha uma saída bem próxima de nós então conseguimos sair do salão de bailes antes que alguém viesse conversar ou comigo ou com ela. Ou com os dois juntos.
Já fora do salão ela respirou fundo, coisa que provavelmente passaria despercebido por alguém que não estivesse prestando atenção, mas eu estava. E vi que ela parecia mais aliviada em estar fora da festa. E olhando um pouco mais nela, em meio aquelas flores, ela realmente parecia ter saído de um daqueles livros que falam sobre fadas:
–Tudo bem. –Ela finalmente virou-se pra mim. –Vamos nos casar e nunca nos tínhamos visto antes. Você e meu pai meio que me fizeram ser parte de um contrato e até ontem essa parte estava completamente calada. Pois é, até ontem. Vamos estabelecer umas coisas e depois disso estarei completamente disposta á encenar.
–Estou ouvindo.
–Primeiramente: Você não vai me tocar. Dormiremos em quartos separados e demonstrações de afeto serão feitas somente em público. Se quiser me trair, seja discreto. Se algum jornalista descobrir sobre alguma traição sua eu saberei muito bem fazer o papel de esposa traída, tão bem quanto irei fazer a de noiva apaixonada. Segundo: Não sou muito sociável, mas vou fazer o meu melhor, para o nosso contrato e para a empresa, mas não fique muito surpreso se em algumas festas eu sair de mansinho por um longo tempo. Terceiro: Eu tenho amigos e parentes e se destratá-los eu juro que mato você. Deixando claro que você pode cobrar essa terceira condição de mim também, mas eu te aconselho á não tentar me matar. Seria engraçado, mas eu sei me defender bem. Quarto: Não espere que eu fique em casa fazendo nada. Não vou pra faculdade porque as pessoas acharão estranho que eu abandone meu marido pra ficar tanto tempo longe, mas vou fazer cursos, trabalharei enquanto meu pai não me deixar assumir a empresa, enfim, ficarei ativa. É só.
E então sem esperar resposta ela se virou com o vestido farfalhando graciosamente e entrou novamente na mansão me deixando com cara de idiota por uns cinco segundo. Quem aquela garota pensava que era pra me impor ordens e depois me deixar como um otário? Definitivamente, eu teria um grande problema pela frente.
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