Casamento Imperfeito
14 Chapter 14: Sensações novas, visões infelizes
Notas iniciais

Sarah
Depois de descobrir sobre o pai de Klaus, minha relação com ele havia melhorado consideravelmente.
No sentido de eu me sentir mais conectada e íntima dele. Quando ele se pôs a me contar, soube que estava confiando em mim e desde então não senti mais medo de me abrir e mostrar tudo que eu tinha a ele.
Não literalmente, é claro.
Afinal, ele nem me contou tuuudo, então não posso dar tuuudo ainda.
Jesus Cristo, o que eu tô pensando? Ainda nem passou da meia-noite.
Terminei de comer meu sanduíche natural e fui para fora de casa.
— Damon, hoje tem consulta com a Sasuko — avisei para ele, distraída em mexer em meu celular. Ergui o olhar e o vi se agarrando com a Elena na frente do carro. — Deus me defenda — fechei as pálpebras com nojo. Pobre dos meus olhos de terem que ver essa atrocidade.
— Ah, oi, Sarah — parece que eles pararam de se comer.
Abri os olhos, vendo ambos descabelados e envergonhados. Quer dizer, Elena envergonhada, porque Damon e vergonha não existem numa mesma sentença quando se trata de putaria. Como um estrupício desses se tornou meu melhor amigo, eu não sei.
— Vamo que vamo, meu filho — apressei ao olhar a hora. — Tenho quinze minutos pra chegar a tempo da consulta com aquela demônia.
— Tá — entrou no carro e eu também. Puxou Elena pela janela, dando-lhe um último beijo.
Revirei os olhos com a cena, buzinando com força para ver se eles se separavam. Será que não entendiam que eu tinha horário e se não o cumprisse seria esquartejada, frita em pedacinhos e comida com muita pimenta por Sasuko? Talvez cozida porque parece mais saudável, pensando bem… ah, tanto faz.
— Estraga prazeres — resmungou o Salvatore enquanto partíamos com o carro.
— Estraga prazeres nada, você que é um folgado e fica achando que só porque… — ele aumentou o som do rádio, me deixando surda. — DAMON! — abaixei o som, querendo voltar a falar, mas o que ele fez? Aumentou de novo a música. — PARA COM ISSO — dei um tapa em sua mão, diminuindo o volume — Se você ousar aumentar essa desgraça de novo eu vou te espancar até você perder os dentes — avisei ameaçadora. Ele pareceu ouvir e me levou de cara fechada o resto do caminho.
Eu que tô certa e ele que fica puto? Meu cu.
Enfim, chegando para a consulta, faltava um minuto para eu ser chamada.
A questão é que eu não fui.
E passou mais sete, oito, nove minutos e nada.
Parei de mover minha perna descontroladamente e levantei para falar com a recepcionista pela décima vez.
— Por que ela tá demorando tanto pra atender a porra de uma paciente? — bati as mãos com força no balcão, irritada.
— Não sei, senhora. — ela engoliu em seco. — Mas vou tentar falar com ela novamente — pegou o telefone, mas apenas balancei a cabeça incrédula, saindo de perto dela para a porta que dava na sala de Sasuko. — Senhora, a senhora não pode entrar sem permis… — invadi logo aquela porcaria e puTA QUE ME PARIU, CARALHO, CU, BUCETA, INFERNO, DESGRAÇA, MER-
Fechei a porta na hora, ofegando em choque.
— S-s-senhora? — disse a recepcionista perto de mim. Me dirigi atônita até a cadeira de espera, sentando.
— Água, só me traz água — pedi num fio de voz. —, por favor.
Nesse dia eu não me consultei com Sasuko, mesmo depois de menos de um minuto ela ter aparecido um tanto bagunçada tentando se explicar. Eu estava mais concentrada na mulher que saía de seu escritório, os cabelos loiros esvoaçando para trás enquanto corria.
S•K
— Sarah, adivinha o que eu fiz — disse Klaus enquanto invadia meu quarto.
— Um quadro meu nua? — indaguei sem muito interesse, concentrada em meu celular.
— Não, mas olha pra cá — ele tinha incrivelmente um quadro em mãos, mas não dava pra ver o que tinha desenhado porque eu só via a parte de trás.
Ele finalmente virou o quadro e
ai
meu
pai
amado.
— Que coisa mais linda — levantei da cama maravilhada, indo até onde estava. Toquei com delicadeza a pintura. Era uma arte de Shingeki no Kyojin, onde os três personagens principais estavam. — Ficou lindo demais, Klaus, sério — elogiei, encantada.
— Que bom que gostou, porque é seu — empurrou o quadro pra mim, que aceitei sem saber o que dizer.
— Obrigada, mesmo — agradeci de coração, colocando o quadro perto da parede.
— Mas avisando — aumentou o tom de voz, com as mãos atrás das costas. Aí vem merda. —, em troca eu quero centenas de beijos seus. — sorriu maroto.
Ri de sua fala, me aproximando de si novamente e o empurrando em direção à cama.
Quando sentiu a cômoda atrás de si, sentou-se sobre o colchão, sem parar de me encarar nos olhos um momento sequer.
Toquei em sua blusa de botões.
— O que vai fazer? — murmurou quando sentei em seu colo, parecendo confuso, a testa levemente vincada.
Desabotoei alguns dos botões de sua blusa, aproximando meu rosto do seu. Capturei seu lábio inferior e o puxei carinhosamente entre os dentes enquanto terminava de soltar os botões de sua veste. Retirei-a de seu corpo diante de seu olhar atento.
— Vou te encher de centenas de beijos — finalmente respondi.
Segurei com os dedos a barra de meu vestido, levantando do colo de Klaus apenas para puxá-lo lentamente para cima. Sentia minhas bochechas queimarem de vergonha e ele me olhando daquele jeito não melhorava a situação. Meu coração estava se acelerando, a saliva parecia aumentar e eu engoli em seco.
Deixei o vestido cair no chão.
— Tá fazendo calor, não acha? Por isso preferi fazer isso com menos roupas — sentei em seu colo novamente, sentindo suas mãos encostarem em minha cintura. Arrepiei na hora com o toque quente.
Acalme-se, Sarah, ele só está tocando sua cintura. Acalme-se. Acalme-se. Acalme-se!
Isso não está funcionando, querendo ou não me sinto um pouco nervosa. Suspirei para tentar acalmar um pouco a sensação eletrizante em meu corpo, acalmar meu nervosismo sem Klaus perceber.
Porque eu tinha que testar uma coisa.
— Tem certeza? — seu cenho ainda estava franzido. Ele estava preocupado.
E isso é fofo.
— Não vamos transar — encostei minha testa na sua. Não vamos transar, tentei convencer a mim mesma. — Só vamos… — fechei os olhos, respirando fundo. — aproveitar — não esperei uma resposta e o beijei logo de uma vez.
Nesse dia meu sutiã foi parar no chão.
S•K
Só para avisar que o fato de eu ter ficado com Klaus seminua durante a tarde não se dá nada ao fato de que encontrei Sasuko entre as pernas de outra mulher no seu consultório na parte da manhã.
Não mesmo.
Sem chances.
Ok, talvez um pouco.
Não que eu tivesse uma paixão reprimida por aquela emo. Não.
Tipo, não mesmo.
O que me pegou de surpresa foi que até alguém como ela – que parece reservada –, faz putaria e eu não. E no escritório de consulta dela, ainda.
E sim, é claro que você não deve se basear em ninguém, porque cada casal tem seu próprio ritmo e você não deve se forçar a nada só porque grande parte dos casais transam.
E até sua nutricionista que você achava ser assexual arromântica faz jus a essa grande parte.
A não ser que você queira fazer parte dessa grande parte de casais.
E é essa minha questão.
O que eu fiz com Klaus foi mais um teste para saber se eu queria ele na cama.
E vejamos, os beijos que trocamos hoje à tarde foram muito bons, ele tinha uma língua muito interessante, digamos assim. Sua mão deslizando pelas minhas costas me deu uns arrepios loucos, e quando ele tirou meu sutiã e eu senti meus seios tocarem em seu peito foi algo tão, ér, bom, diferente, um formigamento, uma ansiedade subindo pelo meu corpo que eu senti meu coração quase sair pela boca de tão forte que tava batendo. E quando ele encostou as mãos neles pela primeira vez, brincando com os mamilos, a sensação que me deu lá em baixo foi quente demais pra explicar. Excitação é o nome, eu sei. O que eu não sei é como me sentir com tudo isso.
São sensações novas. Totalmente novas.
E eu ter dito que foi um teste é um tanto… errado? Sim, foi um teste no início, mas depois de um tempo, pareceu… outra coisa. Como se eu quisesse… ele.
Cocei a cabeça, suspirando confusa.
Deveria eu falar com Damon? — pensei por um momento.
Como ele reagiria? Não sei e nem quero saber, tô com raiva dele pelo que fez hoje de manhã.
Fechei a aba do Word, pois hoje eu não conseguiria escrever nem se quisesse. Desliguei o notebook e o guardei na gaveta.
Fui atrás do meu bichinho, Klarah, já que ele era o único que me entendia verdadeiramente.
— Ai, meu filho, por que a vida tem que ser assim, hein? — disse a ele enquanto olhava o céu pela janela. Abaixei meus olhos para o unicórnio, analisando o rosto rosa claro. — Será que falar com Caroline seria uma boa? Mas aí ela espalharia pro resto das garotas, que contariam pros meninos… — suspirei. Fiquei alguns minutos ali, refletindo e pensando que realmente não tinha ninguém pra mim falar sobre pensar em transar e o quanto isso era uma merda. — Onde eu te consegui mesmo? — perguntei para Klarah, aleatoriamente. — Ah... se me lembro foi naquela sorveteria, acho que Ice cream dreams, né? Bem que eu podia ir lá de novo, o sorvete é tão bom — lambi os lábios ao lembrar do gosto.
Ótimo, já achei algo interessante pra fazer. Ficar enfurnada nessa casa é o que menos preciso agora.
Fui a pé para o centro, fazer o quê se seu melhor amigo é seu motorista e você está com raiva dele por ele ser um babaca, assim não podendo chamá-lo para te levar.
Comprei balas azedas na velhinha e fui até a sorveteria, me sentando em uma das mesas, respondendo a mensagem de Klaus que perguntava onde eu estava e se estava bem. Ele estava com um dos irmãos, Elijah, dizendo ele que conversando sobre a empresa. Preferiu casar ao invés de trabalhar na empresa, e ainda se envolve indiretamente com ela, vai entender.
— Vai querer pedir algo ou só veio usar o WiFi mesmo, senhora? — ouvi a voz conhecida próxima a mim. Guardei o celular na minha bolsa e olhei para onde vinha a voz, vendo uma mulher limpar uma das mesas de costas. Não tinha ninguém próximo a ela além de mim, então estava falando comigo mesmo.
Mas parando pra pensar, aquele cabelo loiro me era familiar…
Arregalei os olhos, levantando bruscamente da cadeira.
— Você é a Naruko, não é? — me aproximei dela, que se voltou para mim, os olhos brilhantes azuis ficando surpresos ao me verem. Pelo jeito ela me reconheceu.
Então é mesmo ela que estava na sala da minha nutricionista desgraçada. E se bem me lembro agora, quando vim aqui pela primeira vez ela tava falando com alguém chamada Sasuko no telefone… Deus, agora tudo faz sentido.
Não acredito que Sasuko namora essa mulher. Meu Deeeus!
— Você… — dissemos ao mesmo tempo.
— Eu… eu… foi mal pelo que você viu lá na sala — ela virou o rosto, completamente envergonhada e vermelha. — E não fique brava com a Sasuko, eu que acabei insistindo e aconteceu o que aconteceu...
— Tudo bem — cocei a nuca, sem saber o que dizer. — Vamos ignorar a existência desse acontecido — Naruko assentiu positivamente, o tom avermelhado saindo de seu rosto aos poucos. Respirei fundo. — Então, eu quero sorvete. — sorri desconcertada.
— Claro — ela seguiu para de trás do balcão. — Vai querer que sabor? Tem o premium, se quiser, mas infelizmente os unicórnios se esgotaram.
— Estou feliz apenas com o meu filho Klarah — meneei a cabeça. — Quero de chocolate e flocos, a calda é de morango. — pedi.
Observei ela preparar, quieta.
— Aqui — me estendeu o copo cheio de sorvete. Aceitei com um sorriso, sentando na mesa que estava anteriormente.
Tomei meu sorvete enquanto lia uma fic de Yuri on Ice. Vez ou outra olhava para Naruko, que estava atendendo outras pessoas. Ela tinha três riscos em cada lado do rosto, parecido com um gato, e até aquilo era estranhamente bonito nela. É, pra Sasuko se apaixonar, creio que ela deve ser A Pessoa.
E não só na cama que estou falando.
Na cama…
A cena do consultório veio à minha cabeça e eu corei na hora.
Ai, senhor, eu provavelmente nunca vou esquecer essa cena. Bem, nem chega a ser tão ruim quanto Elena e Damon se beijando – eu realmente não sei como, mas essas duas criaturas conseguem ser mais explícitas que Naruko e Sasuko em posições do kama sutra.
Ok, talvez eu deva tentar parar de fazer imagens se formarem em minha inocente cabecinha.
Melhor pagar o sorvete e voltar pra casa.
E foi o que fiz.
…
— Caralho, mas que porra — xinguei alto ao sentir um jato de água me atingir. — Damon, seu fodido! — gritei ao ver o dito cujo rindo de longe com a mangueira nas mãos.
— Tá tudo bem com você, Sarah? Você parece meio… — direcionou a mangueira em mim e eu tentei fugir, mas ainda fui atingida na cintura. — molhada — e voltou a rir.
Ah, mas é hoje que eu mato esse infeliz. Fui para a parte da varanda de casa, coloquei minha bolsa no chão e semicerrando os olhos, deixei claro que eu exalava ódio. Fiquei dois minutos o observando, ele voltou a lavar o carro e assobiava mesmo sabendo que eu estava ali, pronta para assassiná-lo.
O dia escurecia aos poucos. É agora.
Tirei minha sandália e caminhei silenciosamente em sua direção. Ele estava de costas, enxaguando o capô do carro cheio de sabão.
Quando eu estava prestes a atacá-lo, entretanto, ele se virou de uma vez e espirrou água na minha cara.
Grunhi de ódio e pulei em cima dele, que se desequilibrou e sentou no capô. Roubando a mangueira de sua mão, coloquei acima de sua cabeça para molhá-lo por inteiro.
Nem sei quanto tempo ficamos assim.
— Sarah, você não acha que já tá bom? — perguntou enquanto a água escorria de seu cabelo escuro até o rosto, escorrendo para todos os cantos restantes de seu terno.
Eu também estava me molhando por estar sentada em cima dele, mas fazer o quê.
Acho que já tá bom mesmo…
Fui saindo do colo dele e ele desceu do carro, mas quando estava me virando ele roubou a mangueira de meus dedos e me molhou de novo.
— DAMON! — gritei, mas ele já corria de mim, gargalhando.
Depois de nos molharmos inteiros naquele pique-pega, caímos mortos na grama, ofegantes.
— Você é um idiota — falei.
— Eu sei, mas mesmo assim você me atura — respondeu.
Suspirei.
— Pois é. — nos olhamos e rimos.
Então ficamos um tempo calados, olhando o céu já escuro.
— Damon — cortei o silêncio —, com quem foi sua primeira vez? — com algo extremamente aleatório.
Virei o rosto em sua direção e ele me encarou.
— Não lembro — deu de ombros.
— Como assim não lembra? — franzi o cenho. — A primeira vez não é especial, sei lá?
— Eu tava bêbado quando aconteceu. — explicou. — Fui um adolescente fodido, tenho pena do Stefan por me aguentar naquela época. — riu. — Não que ele tivesse muita opção…
— Haha — ri sem graça. Engoli em seco, eu deveria falar com Damon sobre o que quero fazer? — Damon… — endireitei meu corpo de lado. Ele ainda me encarava. — eu quero transar… — praticamente murmurei.
Ele ergueu o cenho.
— Eu sou fiel, Sarah — mostrou o anel entre os dedos.
Revirei os olhos e dei um tapa fraco em seu peito.
— Não com você, idiota. — sentei, olhando para o céu agora. — Tô falando do Klaus.
— Ah — ele também sentou. — E qual o problema?
— Eu sou virgem — confessei, virando o rosto para ele.
— E...? — continuava com cara de cu.
— E que eu quero que seja algo especial, não só chegar lá, transar e acabou. E bem, na verdade, eu nem sei se eu quero ele desse jeito na minha vida… quer dizer, eu gosto dele, a gente fica às vezes. Ok, várias vezes agora, mas eu não sei se… se sou apaixonada por ele, sabe? Eu penso muito nele, claro, e também gosto de passar tempo com ele, e é sempre tudo tão fofo e ao mesmo tempo intenso e também estranho e diferente e… e... totalmente novo. — suspirei, escondendo o rosto entre as minhas pernas.
— Você me diz tudo isso e ainda fala que não sabe se tá apaixonada? — pergunta com ironia.
— Mas e se for outra coisa? Não sei… — me voltei a ele, confusa.
— Sarah, escuta o mestre aqui — segurou meu rosto entre os dedos frios e molhados. — Eu estou apaixonado há anos pela Elena e é exatamente assim que eu me sinto, tirando a parte do estranho, mas eu acho que é porque antes do Klaus você era uma porta pra relacionamentos.
— Ei, eu me sinto particularmente ofendida!
— Cala a boca e deixa eu continuar meu momento épico. — revirei os olhos. — Então, como eu tava dizendo, sinto os mesmos sintomas pela Elena e muito mais, eu amo essa mulher. Você pode até tentar, sei lá, negar por um tempo, mas sempre a vida vai tentar dar um tapa na tua cara pra você aceitar a realidade. Tipo eu agora, mas sou um ser muito mais delicado, claro. E você tá definitivamente apaixonada por ele. E também, se quiser transar com ele, investe, ué. Mas assim, isso não te garante o coração dele, talvez o pinto, mas o coração não. — acabei rindo de sua fala, mesmo sentindo meu peito se inundar de ansiedade por meus sentimentos sendo expostos desse jeito. Damon disse o que eu precisava confirmar.
— É, talvez você tenha razão — concordei.
Ele me olhou com deboche.
— Dá licença, talvez não, eu definitivamente tenho razão.
— Ai, quieta — empurrei seu rosto com a mão. — Eu ainda não sei como me sentir em relação a tudo isso. Eu preciso digerir que tô realmente apaixonada. É tããão estranho.
— Só precisa aceitar, bebê. Vem cá, deixa eu te dar um abraço molhado pra você se sentir melhor — me puxou com força pelos ombros.
— Argh — murmurei ao sentir suas vestes molhadas contra a minha pele, mas acabei ficando por ali por mais um tempo até a gente começar a espirrar por conta do frio.
S•K
Espirrei pela quinta vez em menos de um minuto e assoei o nariz, jogando o lencinho no cesto de lixo localizado ao meu lado. Essa é minha nova rotina, aliás, porque, afinal, minha brincadeirinha com Damon só poderia ter resultado em uma coisa: um resfriado do caralho.
O desgraçado nem pra pegar também serviu, totalmente imune, já eu, bem, o que dizer de mim? Tô aqui na cama, acabadíssima, com um notebook no colo tentando escrever minha história enquanto arranco meu nariz de tanto assoar. Saudades do tempo que minha vida era fácil; saudades de ter um nariz que respira.
Sentindo meus olhos lacrimejarem por conta da claridade do notebook, fechei a tela, pegando mais um lenço e limpando as lágrimas que caiam aleatoriamente por meu rosto.
Merda de olhos sensíveis que não me deixam escrever.
Funguei fortemente, soltando o ar ruidoso pela boca. Nunca brinquem de mangueira durante a noite com seu motorista, crianças.
Sinto que essa frase saiu bem errada.
Olhei para a porta do quarto, pensando se deveria me levantar de novo para tomar um ar. Magicamente, alguém entrou por ela. E também magicamente, essa pessoa era Klaus Mikaelson com uma bandeja e algo fumegante nela – além de duas visíveis taças do que acho ser frutas dentro.
Ele sorriu penoso quando me viu, me fazendo revirar os olhos. Provavelmente alguma das meninas deveria ter contado que eu acordei resfriada.
— Bom dia e você não deveria estar com esse notebook no colo, mocinha — disse enquanto fechava a porta com o pé e se aproximava.
— Quem disse? — ergui a sobrancelha, coçando o nariz.
No fundo, se eu confessar, eu gostei sim dele estar se preocupando comigo – me dá uma sensação quentinha no peito –, mas convenhamos, se não fosse pra ser contraditória eu nem tinha saído do útero.
Com desespero, peguei mais um lenço e tampei meu nariz, espirrando. Joguei-o no lixo ao mesmo tempo que empurrava o notebook para o lado para dar espaço à bandeja.
— Eu. — abriu os apoios da bandeja e pôs sobre meu colo, cuidadosamente. Olhei o conteúdo, vendo um mingau de chocolate. Do lado tinha as tais duas taças de salada de fruta, além dos talheres. — Caroline me disse que estava mal de um resfriado, então trouxe algo para você. — indicou a bandeja. — Queremos que melhore logo, não é? — perguntou retoricamente.
— Pelo menos você teve a decência de trazer de chocolate — comentei, ainda observando o tom marrom da papa. — E para quê duas taças de salada de fruta? — indaguei, cutucando um dos vidros.
— Uma é minha — deu de ombros. — Quando terminar de tomar o mingau, comemos juntos — não estava com muita fome pela garganta inflamada, mas não é como se ele me desse chance de recusar ao pegar uma colher cheia, querendo enfiar em minha boca.
Gemi cansada.
— Para de birra. Não ouviu a parte do “queremos que melhore logo”? — continuou a tentar enfiar a colher entre meus lábios.
— Eu sei, ok? E sei comer sozinha — peguei a colher de sua mão e assoprei o conteúdo cremoso antes de tomar desgostosa. — Satisfeito? — questionei impaciente.
— Se você tomar tudo, estarei — respondeu, se divertindo com o meu sofrimento. Tomei mais algumas colheres de mingau enquanto ele sentado em posição de meditação intercalava entre observar a decoração do quarto e me encarar.
Não era um silêncio que me agradava, até porque parecia que ele estava incomodado com algo.
— Você quer falar alguma coisa? — funguei, me irritando com meu nariz que começava a escorrer por conta do vapor do mingau. Pelo menos ajudava a descongestionar um pouco – o que não deixa de ser uma situação nojenta.
Ele uniu as mãos, passando a ponta da língua pelo lábio, olhando para o teto. Ele tá tão pleno e eu aqui morrendo…
— Eu sei que é idiotice, mas... — fez uma pausa, me fitando hesitante. Pousei a colher no prato, pois estava enjoada do doce, e esperei calmamente ele resolver se abrir, sentindo minha visão cansar e meu corpo doer. Ainda estava com sono.
— Mas? — finalmente incentivei, bocejando.
— Eu vi você no colo do Damon ontem e fiquei um pouco confuso — ih, rapaz. — Eu acho que vocês estavam brincando, mas se eu for ser honesto, não gostei — revirou os olhos.
Busquei um lenço e espirrei sobre ele, sentindo meu nariz arder pelo esforço. Joguei o lenço no lixo, isso tudo com Klaus me olhando. Era vergonhoso, até.
— Ah, bem — coloquei meu cabelo atrás da orelha, corando sabe-se lá por quê. Ele estava com ciúme do Damon... de novo, aliás. Ri baixinho, boba. — Não precisa ficar com ciúmes, Damon e eu somos como irmãos. Até porque eu até estava conversando com ele sobre… — fiquei muda ao perceber o que ia falar. Klaus não precisava saber que procurei Damon para dizer que quero transar com ele. Seria mais que constrangedor.
— Que o quê? — indagou curioso.
— Que… ah, que ele estava pensando até em ter filhos com a Elena, olha só — ele me olhou desconfiado, sem parecer acreditar. Suspirei. — Não temos nada, confia em mim, ok?
— Eu confio…
— Então para de se preocupar. Eu e Damon podemos estar pelados numa sauna que vamos rir da situação e comentar dos nossos órgãos sexuais em tom de piada, nada mais que isso — entreguei uma das taças de salada de frutas para ele, que aceitou.
— Tudo bem — respondeu depois de ponderar por segundos. — Você está certa — sorri suavemente. — Eu juro que vou parar de ser um idiota paranóico e não te encher mais com minhas inseguranças. Principalmente com você doente desse jeito.
— Ah, nem acredito que Damon é considerado uma delas, pelo amor — brinquei para descontrair, mordiscando um pedaço de manga da taça. — E para de me invalidar por estar resfriada, isso — apontei para mim mesma. — não é nada.
— Na verdade, é sim. Você foi irresponsável… — e começou um sermão… adorável.
Meu Deus, não.
Nesse tempo de sermão, ele terminou a salada de frutas dele e logo saiu do quarto com a bandeja, já que eu não aguentava mais nada no estômago. Poucos minutos depois voltava com remédios e um inalador que aceitei de bom grado.
— Você precisa de descanso — acariciou meu cabelo e eu me encolhi de frio no cobertor grosso, inalando o objeto que ajudava a desentupir meu nariz. — Você tá um pouco quente, vou fazer compressa — se adiantou até o meu banheiro e voltou com um pano molhado, colocando sobre minha testa. Gemi de descontentamento. Estava tão cansada…
— Conta uma história pra mim dormir — pedi com a voz mansa.
Ele sorriu, se sentando na ponta da cama.
— Que tipo de história quer ouvir?
— Qualquer uma.
— O conto dos três irmãos, então? — balancei a cabeça como um sim. — Ok, hm — pigarreou e começou a história. Ele é muito lindo, meu Deus.
Com sua voz dos deuses, fiquei cada vez mais sonolenta, o inalador que eu segurava quase caia entre meus dedos, mas eu me obrigava a apertar o objeto com mais força para poder despertar e ouvir mais. Eu nem ligava tanto para a história no momento, só sentia que seria um desrespeito parar de escutar aquele sotaque britânico e macio junto com aquela carinha linda de morrer para dormir. Senti meu peito doer, mas de uma maneira estranhamente agradável, como se doesse só de olhar para Klaus. Como se ele fosse bom demais pra ser real.
Ok, isso foi pateticamente ridículo de se pensar.
— Sarah, você tá chorando? — acordei de meu torpor ao sentir a quebra da narração da história, sua testa estava franzida.
— Hã — soltei confusa, tocando meu rosto e constatando que realmente, eu estava chorando. — Meus olhos são sensíveis — disse a primeira resposta que pensei, e não era de todo mentira. Realmente não sabia porque estava chorando.
Como sou ridícula, Jesus.
— Você nem piscava — ele riu levemente, balançando a cabeça.
— Continua a história — resmunguei, limpando as lágrimas inúteis.
Ele mordeu aqueles lábios lind- ele continuou a narração, foi isso. Deveria ser tão fã de Harry Potter quanto eu para poder lembrar de cor a história dos três irmãos. Sim.
Ignorando os elogios sobre ele que eventualmente surgiam em minha cabeça – provavelmente vinham de delírios da febre, só pode –, prestei atenção em sua voz deliciosa (desisto) e dormi dominada pelo cansaço.
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