Casamento Imperfeito
7 Chapter 07: Tamo devagar, mas tamo indo
Notas iniciais

Sarah
Sentada em forma de meditação no tapete da sala, da mesma forma que Klaus, prendi os cabelos num coque, esperando-o se pronunciar.
— Ok, vamos do começo — dizia. — Meu nome é Niklaus Mikaelson, mas me chame de Klaus, por favor — estendeu sua mão, a qual aceitei, também me apresentando.
— Sou Sarah Raven Mikaelson, prazer em conhecê-lo, Klaus.
— Diga-me, Sarah — deu um sorriso. —, quais são as coisas que você gosta?
— Yaoi, ler, tipo, muito — frisei. —, yaoi..., escrever é maravilhoso também…, yaoi..., me iludir com meus ships impossíveis e ouvir música — entortei os lábios, estava me esquecendo de algo… — ah, eu já disse yaoi?
Ele riu e eu franzi as sobrancelhas, entendendo vários nadas.
— É que você disse yaoi em todas as vezes, praticamente — explicou, sorrindo marotamente. Ele não para de sorrir nunca? — Mas o que seria isso?
Soltei uma risadinha, tentando esconder o constrangimento e o mar de sensações que passavam por meu corpo; eu estava ansiosa, o que não é nenhuma novidade tratando-se de yaoi.
— Já volto! — levantei apressada e fui correndo buscar meu celular.
Ofegante por ter subido e descido as escadas, e cuspindo os fiapos de cabelo que grudaram em minha boca, desbloqueei o objeto em minhas mãos, quase desesperadamente, e procurei uma imagem qualquer na galeria; qualquer uma que representasse o que eu queria, ao menos.
— Aqui — mostrei-lhe a tela do celular, onde tinha uma fanart de dois homens, ou melhor dizendo, do Raito e do L de Death Note, um dos meus animes favoritos.
L estava praticamente no colo do Raito, seus pulsos sendo segurados enquanto Raito inclinava o corpo para beijá-lo, corado. Tão lindinho.
— Dois homens? — ergueu a sobrancelha.
— Yep, tudo gay do amor — sorri abertamente e feliz, me segurando para não apertar o celular contra meu peito.
— Yaoi são homens juntos romanticamente? — parecia processar e eu quase gargalhei, me sentia tão animada agora.
— Exato — ri divertida e tirei o celular de sua visão, sentando na mesma posição de antes.
— Hm, e você gosta? — esse homem é meio lerdo, não?
— Não é óbvio? — disse, tentando não soar debochada.
— Ok — deu de ombros. — Mas você escreve sobre isso? Por isso não quer que as pessoas leiam suas histórias? — questionou, curioso.
Suspirei, apoiando o cotovelo na minha coxa e pousando meu rosto na mão, enquanto com a outra virava o celular pelas laterais entre os dedos.
— Talvez — ponderei. — Sei lá, nunca tive muitas pessoas que eu pudesse falar sobre isso; acho que o Damon, apenas. A gente meio que se tornou amigos, mas, né, vai que ele é homofóbico? — fiz uma careta. — Quer dizer, aquele dali é hétero assumido, e nunca se sabe o que esperar de um hétero. — dei de ombros.
— Você não é hétero? — analisava-me, meio surpreso.
Ri mais uma vez, parando para refletir.
— Eu nunca senti atração por ninguém em especial, houve até um momento em que eu me considerei assexual¹.
Klaus continuou em silêncio depois de eu falar, apenas me encarava, demonstrando tudo e nada ao mesmo tempo. O que ele está pensando, Jesus?
— O que foi? — indaguei, um pouco incomodada com a situação, mesmo que tentasse não demonstrar.
Ele pareceu voltar a si, piscando os olhos.
— Nada. Só estava pensando no porquê de não ter tentado conhecê-la antes do casamento — parecia uma mentira mal contada. Ou melhor, era. O motivo? Não faço ideia. Vou fingir que acreditei.
— Só nos vimos uma vez, que foi no nosso noivado — rolei os olhos. —, só tínhamos um mês até o casamento, não havia tempo pa...
— Na verdade, eu poderia — interrompeu-me, inclinando-se e aproximando perigosamente seu rosto, o hálito quente batia na minha face enquanto dizia em tom baixo. —, poderia tê-la visitado, mesmo com os preparos, mas não o fiz — abaixou o olhar. — não o fiz porque mesmo estando muito ciente e concordando com tudo, não suportaria te olhar e pensar que em pouco tempo casaria com você. Parece patético, eu sei; não era mais do que minha obrigação tentar conhecê-la antes. — suspirou.
Franzi o cenho, tentando escolher as palavras certas a se dizer; estava cansada de errar com Klaus, então sim, eu estava tentando ser bem honesta com ele sem atacá-lo, culpá-lo ou o caralho que for. Palmas pela minha maturidade, obrigada.
— Não se martirize, provavelmente eu não deixaria que você tentasse se aproximar antes do casamento, não deixei isso acontecer nem depois — dei de ombros.
— Você é bem mais do que aparenta, afinal — deu um sorriso bonito, voltando a ficar numa distância respeitável de mim.
— Todo mundo é — encarei meu celular e o joguei levemente no tapete, meio sem graça com seu comentário.
— Não vai me perguntar nada? — indagou, erguendo a sobrancelha loira.
Ri, balançando a cabeça.
— Sim, sim. Chega de falar de mim por hoje, já tô cansada de mostrar o quanto sou incrível e magnífica — joguei meus cabelos sobre os ombros, sorrindo maravilhosamente.
— Quanto ego — fingiu um olhar impressionado, mas dava para ver que ele tentava controlar o riso.
— O negócio é amor próprio, meu bem, porque se a gente não se amar, quem vai amar? — pisquei um olho, fazendo pose.
Dessa vez ele riu, concordando com a cabeça enquanto soltava pelos lábios um “verdade, verdade”.
— Mas tá, o que você gosta de fazer além de ler, até porque eu não aceito um homem na minha vida se ele não gostar de ler — exceto o Damon, eu quis completar, mas não tinha necessidade.
— Eu realmente gosto de ler, como você pontuou. Também adoro pinturas, sejam elas abstratas ou não, às vezes passo horas apenas analisando uma; e não só analisar, eu as faço também — faltava só uma coroa para eu anunciar Klaus como rainha. Sim, rainha.
— Não estou crendo que você sabe desenhar, gente — mordi os lábios, sorrindo involuntariamente, faltava só bater as palmas para demonstrar minha enorme alegria. Na verdade, eu estou pulando interiormente aqui. — Vai ser minha vítima, vou forçar você a fazer várias fanarts de yaoi — gargalhei maleficamente, inclinando a cabeça para trás.
— Será um prazer — sorriu.
— O prazer vai ser todo meu, pode ter certeza — reprimi meu lábio superior, arreganhando os dentes de cima numa expressão safada e cômica. Deixei uma risadinha escapar.
Klaus riu da minha cara, melhor, gargalhou. Era gostoso e divertido ouvir aquilo, então o acompanhei.
— Ai, ai, Sarah, só você mesmo — balançou a cabeça negativamente, ainda rindo.
— Bem, fazer o quê, né — agarrei meu celular, pondo-me de pé. — Vamos sair? — perguntei, soltando um pulo animado. — Quero sorvete e comprar umas balas azedas, amo balas azedas — acho que meus olhos brilhavam.
— Vamos sim, aproveito pra passar num lugar e comprar umas tintas que estão faltando — levantou também, tirando uma sujeira inexistente de sua roupa.
— Ok! Então vou ali pegar um negócio — fui ao meu quarto, pegando minha bolsa – onde pus meu celular – e calcei uma sandália rasteira preta para combinar com o macacão curto que eu usava, de cor azul escuro, levemente folgado; mais pro verão mesmo. Fiz uma coroa de trança sobre meu cabelo; coloquei um óculos preto de armação redonda e saí perambulando do quarto.. Coloquei um óculos preto de armação redonda e saí perambulando do quarto.
— Parece animada, Sra. Mikaelson — ouvi a voz de Katherine enquanto passava pelo corredor.
— Sim, eu e Klaus estamos saindo. Bye — respondi e mandei-lhe um beijo enquanto passava com meu jeito único e gracioso de pular e andar. Ela deu com um sorriso mais falso que o amor de Damon por livros, desejando mais falsamente ainda um “bom passeio”.
Honestamente? Não ia com a cara dela. Dava para sentir o veneno em cada palavra que soltava pela boca, mas talvez fosse o jeito dela mesmo, afinal, nunca a vi falar diferente com ninguém. Ela tinha uma história muita louca com a Elena, que era sua irmã gêmea; ambas vieram a se conhecer anos depois, nenhuma sabia da existência da outra. Depois de muita treta e, para terem certeza – apesar de ser bem óbvio –, fizeram o exame de sangue e yeah, mesmo sangue nas veias. Como os pais de Elena estavam mortos e Katherine não tinha ninguém, a questão do que levou as duas a crescerem separadas ficou em branco.
Parece que já rolou uma confusão com os Salvatore, Damon e Stefan, e ah, acho que foi por causa deles que ambas se conheceram, pelo menos foi o que Caroline me contou. Eu não entro em detalhes com o Damon sobre isso, prefiro falar coisas banais com ele.
A história que eu sei é que Stefan namorava Elena e Damon a Katherine, os dois nunca haviam apresentado as namoradas um para o outro, e quando resolveram fazer isso, PAH, o choque. Eu queria estar naquele momento histórico, sério. Imagina, você encontrar sua doppelganger, e melhor, ela namorar o seu cunhado?
Mas isso nem chega perto da questão de que, hoje em dia, Elena namora Damon, e Katherine o Salvatore mais novo, Stefan. Como isso aconteceu? Um dia procuro saber sobre isso com a fofoqueira, Caroline Forbes. Amo aquela garota, sempre me mantendo atualizada sobre a vida dos empregados.
— Já podemos ir — ditei assim que pulei o último degrau da escada, observando Klaus guardar o que parecia ser a carteira no bolso de trás de seu calção.
— Ótimo — disse, tirando um molho chaves do seu bolso da frente.
— Ah, vamos a pé — avisei de antemão, cruzando os braços. Qual é, tem dia que a gente quer andar pela calçada e observar essa sociedade de bosta sem ser dentro de um veículo.
Ok, vamos ser realistas: Sasuko me obrigou a fazer caminhadas. Tudo bem; ela me indicou academia, mas como eu não quis, me obrigou a fazer caminhadas. Na nossa última consulta ela não parecia de muito bom humor, não que um dia esteja, mas né, parecia chateada e sobrou para mim, pobre e inocente criança.
— Tem certeza? — me olhava meio desconfiado. É, se eu fosse outra pessoa também estranharia esse tipo de comportamento vindo de mim.
— Sim, sim, minha nutricionista falou que seria bom — dei de ombros.
— Então está bem — pareceu ter acreditado. Se bem que era verdade, de qualquer modo.
…
Eu estava colocando várias balas dentro de uma sacola, mas era tipo, várias mesmo, todas azedas e maravilhosas.
— Vai mesmo levar tudo isso? — Klaus perguntou assustado, o que me fez rir pelo nariz.
— Isso é pra eu não ter que ficar comprando, deve durar vários meses, sem tirar também o fato de que eu divido com os nossos empregados. Às vezes, quer dizer — fui andando pela lojinha até chegar num balcão onde uma senhora sorria simpática, apesar de não mostrar os dentes. Até imagino o porquê.
Paguei as balas, ressaltando para a senhora que iria visitá-la mais vezes para comprar mais. Ela então abriu sua boca, mostrando a quantidade de dentes que faltava, dizendo que eu iria ficar assim quando fosse da sua idade. Muito abusada essa velha, adorei. Pedi o número dela pra gente trocar umas ideias, mas ela negou, dizendo que era uma mulher direita e que não caia no charme de gente mais nova.
Resultado: Klaus quase morreu tentando segurar o riso, e assim que saímos do local ele desabou em uma gargalhada escandalosa. Ué, pensei que eu fosse a louca.
— D-desculpa, desculpa — tentava conseguir fôlego. —, é que não dá… — começou a rir de novo e eu rolei os olhos, puxando ele pelo braço para que as pessoas em volta parassem de olhá-lo. Bando de desocupados, isso sim.
— Vamos, macho, eu quero sorvete — arrastava-o pela calçada, procurando com os olhos uma sorveteria que ficava ali perto, mas que eu não me lembrava direito por não ter andado aqui faz certo tempo.
Klaus pigarreou, tentando pela quinta vez se recompor, e endireitou a postura. Finalmente, Jesus. Apontou discretamente para um ponto, onde segui com os olhos, vendo, graças a vida, a sorveteria, que estava na outra calçada, praticamente se esfregando na minha cara. Acho que estou com miopia, porque é a única explicação plausível.
— Acho que é ali que você estava procurando, né?
— É, vou fazer um exame de vista porque honestamente não tá dando — disse, balançando a cabeça negativamente.
Quando o sinal fechou, atravessamos a rua e entramos no lugar. Fomos atendidos por uma jovem garota, com um corpão invejável, loira, olhos azuis e sorriso tão aberto que a boca dela parecia que ia rasgar, e olha, até que não parecia falso. Na verdade, nada nela parecia falso, nem mesmo aqueles seios grandes.
— Boa tarde! Bem-vindos ao Ice cream dreams! Estamos tendo várias opções maravilhosas por aqui, sériozinho, e se vocês comprarem ao menos um premium levam esse unicórnio! — mostrava a pelúcia nas mãos bonitas. Uma música começou a tocar dela, e envergonhada ela tirou o celular de sabe-se lá onde (um bolso, provavelmente). — Desculpe — ignorou a provável ligação, guardando o aparelho de volta.
— Eu quero! — comecei animada. — Não importa o preço desse sorvete aí, eu quero esse unicórnio e quero agora! — eu quase pulava em cima da mulher, que pareceu feliz e satisfeita com a minha reação. Tanto que riu, estendendo o unicórnio pra mim. Porém, seu celular tocou novamente.
— Sarah… — senti a mão de Klaus em meu ombro. —, calma, não precisa ter pressa, o unicórnio não vai fugir — afagava-me levemente.
Franzi o cenho por um momento e suspirei, tentando não demonstrar minha irritação. Eu não gosto de ser corrigida nem pelos meus pais, dirá por Klaus. Mas tudo bem, eu vou relevar, até porque estamos numa relação muito rasa e fácil de se quebrar e ficar dizendo o que me desagrada, assim, de repente, vai soar chato. Ia começar da forma mais educada possível, a negar, dizendo que só pegaria quando tivesse pagado e com os três sorvetes nas mãos, mas a mulher que descobri se chamar Naruko pelo crachá preso na blusa parecia ter aproveitado esse meio tempo e atendido o celular que não parava quieto. De qualquer jeito, Klaus acaba com o momento criança das pessoas.
— Sasuko, eu tô atendendo gente agora. Sim, sim, eu sei e não vou esquecer. — rolou os olhos. Sasuko… esse nome me é muito familiar. — Não acredito que você me ligou pra isso. Ok, Sasuko. Te amo, tchau. — guardou o celular de volta. Comecei a me benzer ali mesmo, aquela mulher estar falando com alguém chamada Sasuko era muito suspeito e claramente um sinal de que eu não deveria estar tomando sorvete pela dieta rigorosa que deveria estar seguindo neste momento. — Me desculpem, era minha namorada enchendo o saco — riu sem graça.
Fiz um sinal de descaso e Klaus deu de ombros.
Pedimos dois sorvetes normais e um premium. Dito e feito, eu saia feliz da Ice cream dreams, provando meu sorvete de flocos enquanto Klaus o de morango, meu novo e já tão amado unicórnio estava preso em um de meus braços.
— Hm… — saboreei o gosto gelado derreter em minha boca com a cobertura de caramelo. — Qual vai ser o nome do nosso filho? — questionei, e o outro olhou pra mim com a cara franzida. — O unicórnio — expliquei, rolando os olhos.
— Ele é nosso filho? Pensei que ele fosse apenas seu — percebi que ele estava tratando o assunto tão seriamente quanto eu.
Dois loucos, ótimo.
— Se eu tô dizendo é porque é seu também, meu jovem. Mas tá, eu pensei no nome Twilight! E não, eu não sou fã de crepúsculo, é porque isso me lembra uma personagem de My Little Pony.
Klaus pareceu pensar, jogando o potinho descartável do sorvete numa lixeira. Fiz o mesmo.
— Bem, não é um nome ruim, mas que tal uma junção dos nossos? — abria a embalagem do sorvete premium que dividiríamos, e o bom é que o recipiente era próprio para o sorvete não derreter. Agora se alguém me perguntar como fizeram ou fazem isso; eu não sei.
— Uma junção dos nossos nomes? — ergui a sobrancelha, aceitando a colherzinha que ele me estendia. Assentiu. — Hm… Klarah? — tentei, pendendo a cabeça para o lado.
— Pode ser Saus também — provou o sorvete enquanto estendia pra mim.
Ri, achando graça do nome.
— Acho que Klarah é melhor — peguei um pouco com a colher que me dera. Sasuko iria me matar se visse esse sorvete.
— Concordo — sorriu.
Caralho, essa porra é muito boa! — pensei enquanto sentia o sorvete derreter em minha língua. Mastiguei a casquinhas de biscoito que vinha; bem amargas como eu pedi.
— Então nomeamos você — falei e ergui o objeto para o alto, fazendo a luz do sol refletir nele, e nossa, agora sim está parecendo um unicórnio de verdade. — de Klarah — apertei-o contra o peito, sorrindo minimamente. — agora teu pai te segura — empurrei-o para Klaus e roubei o sorvete enorme de suas mãos, pegando mais.
É, meu povo, tamo devagar, mas tamo indo.
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