Casamento Imperfeito
5 Chapter 05: Sorrir sem vida
Notas iniciais

Sarah
Hoje era o dia da Camille aparecer. Uma psicóloga que, aparentemente, resolverá minha situação com meu marido.
Ah ta.
Mas já estava tudo pronto.
Sim, tudo pronto.
Encarei-me no espelho mais uma vez e cara, não tem como isso dar errado; esse plano é simplesmente per-fei-to.
Observem: hoje era sexta-feira e, justo nesse dia, eu tenho uma consulta marcada com a nutricionista. Claro que mudei; antigamente eram às quartas. E é impossível Klaus saber disso, já que nesses últimos tempos elas foram canceladas para eu aproveitar ao máximo meu maravilhoso casamento. Obviamente que isso é só uma razão para caso o ser humano vir questionar – e eu sei que ele vai – o porquê de não estar em casa num horário desses.
Também havia cuidado das minhas vestes para passar despercebida caso tivesse o azar de algum imprevisto acontecer.
O look era composto por uma blusa azul particularmente enorme de botões, um short cintura alta de cor caramelo, botas de cor clara e cano curto, e óculos escuros de armação redonda. Meu cabelo está preso num coque alto e perfeito, escondido pelo chapéu estilo Lana Del Rey. Sim, completamente irreconhecível.
Olhei a hora no celular. Ok, sete e vinte e cinco da manhã.
Mandei uma mensagem para uma de minhas empregadas: a bonitinha, Bonnie. Sim, eu meti essa garota nisso. Roí as unhas, ansiosa.
“O senhor Mikaelson ainda não saiu do quarto” veio a resposta.
Certo, hora de agir!
Alcancei a porta correndo, para abri-la lentamente, bisbilhotando pela fresta. Senti meu coração bater forte, mas ignorei, passando meu corpo silenciosamente pelo espaço aberto. Prendi a respiração, fechando com cuidado a maçaneta. A porta do quarto de Klaus estava bem ali, na minha frente, e isso me fez agir com mais cautela ainda, andando cuidadosamente pelo corredor. Parecia que eu estava naqueles filmes de terror em que você está numa casa assombrada e fica tentando não ser visto pelo monstro.
Quando finalmente cheguei perto da escada corri, mas corri como uma condenada, descendo e pulando tantos degraus que tudo era quase um borrão. E o medo de cair? Imenso. E de Klaus resolver acordar e dar um de the flash vindo até mim? Pior ainda.
Foi com muito esforço que cheguei à sala, e nem por isso parei de correr, pelo contrário, fiz foi aumentar a velocidade.
Mas um segundo depois gemi, e gemi de dor.
Ah sim, eu tive a decência de tropeçar e cair. Não me pergunte como, só sei que senão fosse o chapéu cobrindo minha cabeça, eu teria um calombo dos infernos neste momento. E graças a Deus os óculos estavam guardados na bolsa de lado que eu estava carregando. Espalmei as mãos no chão, impulsionando meu corpo para cima.
— Senhora Mikaelson? — disse, provavelmente uma empregada, seus passos cada vez mais próximos. — A senhora está bem?
— Claro — sorri sarcástica, já de pé. —, só estava fazendo flexões. — continuei, ajeitando o chapéu em minha cabeça para que pudesse ver quem quer que fosse. E era apenas uma garota morena, de cabelos lisos, com o rosto delicado. Parecia confusa, pelo jeito que me encarava. — Se meu marido perguntar por mim, você não me viu, certo? — estreitei os olhos em sua direção.
— Certo — assentiu rapidamente com a cabeça, mesmo que estranhando.
E assim eu pude passar pela porta da frente. O motorista bonitão logo me viu e sem delongas falei para onde deveria me levar.
...
Sabe quando bate aquele arrependimento? Então, é esse sentimento que me corrói no momento.
Não me leve a mal, mas nutricionistas são um pé no saco. Sério. Especialmente a minha, que se chama Sasuko – sim, nome japonês mesmo. Eu apenas saí um pouco da dieta e ouvi um sermão do caralho, e nossa, ainda consigo ouvir a voz dela soando em minha cabeça. Ela tem cara de profissional gostosona, apesar do rosto fino e pele leitosa, mas no final é só uma emo vingativa.
Jogou na minha cara que engordei três quilos e meio, dramatizando bem que se não fosse por ela eu não teria um pescoço à vista, de tão gorda que estaria.
Grande merda.
O fato é que agora tenho que seguir uma dieta rigorosíssima pra ficar fitness de novo – e isso não me agrada nem um pouco, devo ressaltar –, e de brinde não tenho nada para fazer.
Eu estava escorada no carro, o chapéu jogado no banco de trás e meus cabelos agora soltos voavam conforme o vento ia e vinha. O motorista, acho que ele é o tal Damon, me olhava de vez em quando, ao meu lado, como que esperando eu falar para onde deveria me levar.
E eu queria ir para casa, e ao mesmo tempo não queria.
Estalei a língua.
— Me leve para qualquer lugar confortável, exceto minha casa — ditei e atravessei o veículo, entrando no banco do carona porque simplesmente odiava ficar na parte do passageiro.
— Ok.
...
Eu não tinha palavras a declarar. Só olhei com descrença à minha frente enquanto saia do carro.
— Eu te disse para me trazer num local confortável — trinquei os dentes, olhando acusadoramente para o motorista, Damon, que fechava a porta do automóvel.
— Mas esse é um local confortável — devolveu, com o cenho franzido.
— DESDE QUANDO UM PARQUE DE DIVERSÕES É CONFORTÁVEL, SEU FODIDO? — gritei histérica, apontando-lhe o dedo em riste.
— Desde sempre? — soltou, dando de ombros.
Bati a mão na testa e não me contive; dei uma bolsada na cabeça daquele imbecil.
— Ouch! — gemeu, passando a mão pelo local.
Porém, já que estava ali, iria aproveitar. Puxei o motorista pela mão, ainda o ouvindo reclamar coisas como “agressão física” e “quanta violência”, ignorando tudo, claro.
O parque não estava nem muito nem pouco movimentado, digamos que um meio-termo. Comprei dois algodões doces, dando um para a linda pessoa ao meu lado, como um silencioso pedido de desculpas, por mais que, provavelmente, ele não tivesse percebido. Comi churros também. E pipoca. E tomei coca. Dividi praticamente tudo com Damon, que estava tirando ‘mó’ onda, devo acrescentar. Folgado.
Mas ele era legal. Enquanto andávamos em meio aquelas pessoas, me contava sobre seu namoro com uma das empregadas, Elena, e falava dela com tanta paixão, que nossa, era visível até mesmo para mim o quanto gostava da garota. Olhando assim dava até vontade de ter alguém legal pra namorar, mas não gostava de pensar muito nisso. Estava casada com Klaus e por mais que ele seja tão ou mais charmoso que Damon, não tenho nenhum interesse naquela coisa loira.
— Quero ir no bate-bate — fiz bico, e não demorou muito e eu estava lá, bloqueando o caminho de todo mundo naquela porrinha.
O Salvatore – era o sobrenome dele – também não perdeu tempo, e logo nós dois estávamos na fila do mesmo brinquedo, eu pela segunda e ele pela primeira. Não sei quantas vezes repetimos o processo, talvez umas oito, só sei que meus pés estavam dormentes no final, o cansaço me dominando. E aqui vai um conselho: nunca, nunca mesmo, vá primeiro no bate-bate, caso contrário você não conseguirá parar, como se fosse um ciclo.
Nem devo relatar que na minha próxima consulta Sasuko vai me esquartejar, certo? Tsc, que droga. E ainda comi um cachorro-quente – maravilhoso, devo acrescentar –, acompanhado de mais uma boa coca-cola.
Definitivamente, ela vai me matar — choraminguei infeliz, mentalmente, entrando de volta no veículo que estava abafado por ter ficado bastante tempo no sol. Damon, esse maldito, bem que poderia ter achado um lugar com sombra para estacionar.
— Liga o ar-condicionado, pelo amor de Jesus Cristo — soltei o ar pela boca.
— Ok — riu, ligando o carro e ajustando aquele ar frio que eu adorava. Encostei minha cabeça no banco, fechando as pálpebras.
E estava tudo tranquilo e suave, até que aquele motorista de uma figa ligou o rádio e começou a cantar i follow rivers.
— É o refrão agora, vamos lá, Sarah — incentivava animado, me olhando. Rolei os olhos, mas acabei sorrindo involuntariamente, começando a cantar aquela merda.
I, I follow, I follow you
Deep sea, baby
I follow you
I, I follow, I follow you
Dark doom, honey
I follow you
Um estrago para a música da Lykke Li, eu sei.
Estava sendo legal; fazia tempo que eu não tinha uma presença agradável na minha vida. Mas foi só ver minha casa, ou melhor, mansão, que senti certo desespero. Ah, sim. Porque assim que saí do carro, pude ver da janela do primeiro andar Klaus me observando. E eu não queria vê-lo. Não agora, não hoje. Entretanto, isso não parecia ser uma opção, então tratei de forçar minhas pernas cansadas a andarem até estar dentro do lugar, me despedindo de Damon com um leve aceno, que foi retribuído.
— Senhora, deseja comer alguma coisa? Já passou do horário de almoço. — disse Elena, surgindo da luz na sala. Tsc, essa garota é inconveniente, dá realmente certinho com o folgado do Damon.
— Não, valeu. — fui em direção das escadas, mas parei assim que vi outra Elena descendo elas. — Hein? — soltei, piscando os olhos, confusa. Olhei para o canto da sala, vendo a garota lá, olhei de volta para frente, e a mesma pessoa terminava de descer as escadas.
— Olá — sorriu falsa a Elena 2, que tinhas os cabelos encaracolados, o ar inocente não se fazia presente como no da outra garota.
Estalei a língua, entendendo; devem ser gêmeas.
— Hm, vocês são iguais, eu tinha esquecido — disse, tentando parecer indiferente. Não me lembrava de porra nenhuma, pois no dia em que todos os empregados foram apresentados eu estava mais ocupada em responder um comentário de um importantíssimo leitor pelo celular. Não me lembrava – pela explicação breve do Mikaelson sobre os empregados numa noite qualquer –, ter ouvido que havia duas Gilbert’s, mas vou ignorar isso, porque sinceramente não me importo.
Passei direto e logo me encontrava no corredor, ainda tendo o maravilhoso azar de encontrar Klaus lá. Legal, esse está sendo o nosso principal ponto de encontro.
Eu acordo e saio do quarto: lá está Klaus. Vou dormir, e olha, lá está a criatura saindo quarto. Vou almoçar e cara, lá está ele também indo almoçar. Vou deixar um livro que peguei na biblioteca e nossa, lá está ele saindo do quarto para ir à empresa do pai (pelo menos foi assim que Bonnie respondeu quando perguntei onde ele estava indo).
Cara, isso irrita. Tipo, muito. Tipo, pra porra. Pra caralho. Parece que ele tem um detector; eu saí do quarto, decide sair também.
Mas tudo bem, apenas inspire, Sarah. Isso… agora respire. Muito bem… agora faça cara de rica e vá desfilando.
E fui andando, sem ao menos olhar para Klaus. Mas quando eu já estava passando por ele, interiormente feliz por este não ter falado nada; segurou meu braço, me puxando para si até estarmos cara a cara, olho no olho.
E ah, Deus.
Ele me encarava de modo tão decepcionado, como um gatinho perdido, que deveria ser proibido. Aquilo acabou comigo. Me senti mal, muito mal.
Senti meus olhos arderem, mas sorri, apesar de tudo sorri, mesmo que amargamente; o orgulho impedindo que eu me sentisse arrependida frente à ele. Meu olhar, agora, era desafiador contra aquelas íris azuis, mas na realidade nem eu mesma sabia o porquê de agir assim: tão na defensiva.
Ah, eu realmente sou uma péssima pessoa. Tão arrogante quanto meu pai.
— O que foi? — estreitei os olhos, o sorriso agora malicioso.
E então me largou, se afastando minimamente.
— Eu realmente… — murmurava, parecendo confuso, a testa vincada com o olhar baixo. Merda. — esperava mais de você. — e passou rapidamente por mim, o cheiro de seu perfume me atingindo em cheio.
E o sorriso sumiu de meu rosto, minha face perdendo o posto de desafiadora babaca. E não havia ninguém para me abraçar enquanto eu chorava silenciosamente no quarto e ah, isso era tão nostálgico que me fazia sorrir.
Sorrir sem vida.
Fale com o autor