Ophelia ficava o dia todo presa no apartamento de seus pais, ela pensava se estava desperdiçando sua juventude, se era uma inútil ou ainda uma medrosa. Mas Ophelia às vezes achava a agitação daquele apartamento muito peculiar, e era um peculiar bom. Todos falavam alto, seu pai tocava violão quando todo mundo queria ver a televisão, os gatos cagavam fora da caixinha e o chão era melado de tanto cloro. O pai implorava sexo a mãe de forma bem indiscreta por já estar desesperado, a mãe parecia ter problema de audição quando nunca respondia suas perguntas e suas irmãs se odiavam. Mas Ophelia gostava daquela movimentação.

Porque eram pessoas boas.

Sua irmã mais nova voltava da rua e dizia “seus olhos puros me fazem continuar”, outras vezes ela segurava seu rosto e dizia “você não precisa conhecer o mundo todo para entendê-lo. Está tudo bem dizer sua opinião mesmo vivendo presa num cubículo por 24 horas”.

Seu pai lhe dizia “você é uma pessoa muito boa” e perguntava quando voltaria a tocar violão “estava indo tão bem”.

Sua mãe sabia que não estava fazendo o melhor deixando tudo para depois, mas ela tinha certeza que amava Ophelia, porque Ophelia era muito carinhosa. A mais carinhosa das três filhas e a mais compreensível.

Sua irmã mais velha era o membro mais distante, dizia pouco sobre si, vivia nas sombras, mas Ophelia sabia que ela era como Robin Hood, praticava bondades sem ninguém ficar sabendo. As duas se davam bem.

Até os gatos amavam Ophelia profundamente, na verdade a família toda. Ninguém ousava levantar a mão para um deles.

Mas Ophelia chora, como no sonho que tivera: morava numa casa de vidro, a vista dava para o mar. Ela sempre via o mar e se perguntava o porquê de não sair lá fora, talvez porque ver o mar dentro de casa já era o bastante. Porém, um dia ela resolveu sair, a brisa desgrenhava seus cabelos e carregava a maresia junto, seu vestido branco subia alto, estava descalça e sentiu a areia fofa. Era uma tardinha, e o mar alcançava seus pés. Era quente, como as lágrimas que desciam de seus olhos castanhos.

Acordou e continuou presa no apartamento de seus pais como qualquer outro dia. Sua família continuou a lhe dar amor e apoio. Ophelia só pensava numa coisa: para onde vai todo esse amor?

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