O sol terno da manhã entrava por entre as cortinas batendo no rosto de Melanie. Era uma sensação quente e boa, não a incomodava mesmo tendo acabado de acordar. Ela tateou a cama em busca de Vitor mas ele não estava lá. Abriu os olhos o procurando e viu apenas a sombra vinda do banheiro.
Ela se levantou segurando o cobertor sobre os seios. Os cabelos estavam bagunçados e caiam sobre o rosto mas logo foram afastados e amarrados em um nó.
– Vitor? — uma camiseta dele estava jogada ao lado da cama, provavelmente a usara para dormir na noite anterior a chegada de Melanie, então ela a colocou e foi até ele.
O rapaz escovava os dentes distraído e ela o abraçou pelas costas apoiando o rosto na omoplata do namorado.
– Bom dia — ela disse ainda sonolenta.
– Bom dia, meu amor — ele lavou a boca e depois se virou a segurando pela cintura enquanto se apoiava na pia — Dormiu bem?
– O tempo que você me deixou dormir? Sim — ela respondeu com um risinho e o rubor subindo a face. Vitor também riu selando os lábios nos dela.
– Não vai pro colégio, não é? Preciso ir para a faculdade... — ele soava melancólico por não poder passar a manhã com ela — Quer que eu te deixe em casa? — ele perguntou.
– Não. Não precisa. Não quero que ninguém te veja — disse abaixando o olhar mas logo o voltando para o rapaz com os olhos arregalados — Mas não por você! Você sabe...
– Quanto menos souberem, menos irão nos atrapalhar — ele falou com um sorriso compreensivo. Ela assentiu com melancolia — Tudo bem. Só vou pedir para que volte para casa. Seus pais devem estar preocupados.
– Tudo bem.
Vitor sorriu selando os lábios nos dela novamente e pegando o casaco.
– Até logo. Eu te amo, Mel.
– Eu também, Vitor — mas ele já havia saído pela porta deixando-a sozinha.

* * *

Melanie chegou em casa por volta das 10h00minh e viu que a mãe fazia o almoço. Ela havia tomado café antes de sair da casa do namorado e não sentia fome mas o cheiro da comida da mãe fez seu estômago se atiçar.
Ana vestia um avental rosa e cortava cenouras. Os cabelos escuros estavam amarrados em um rabo de cavalo alto e firme permitindo que Melanie visse o rosto da mãe, o rosto delicado com traços femininos, bochechas rosadas e lábios em formato da coração. Apesar de toda a delicadeza de uma boneca e a concentração era visível à preocupação naquele rosto tão parecido com o de Melanie.
– Mamãe — ela disse suavemente se aproximando e ajeitando a mochila rosa nas costas.
A mulher se virou bruscamente com os olhos arregalados largando a faca e jogando os braços ao redor da filha a apertando num abraço acolhedor. Melanie deixou a mochila cair e abraçou a mãe também colocando a cabeça no ombro da mãe que era pouca coisa mais alta.
– Meu Deus! Você está bem? Onde estava? — ela apertou a filha mais uma vez e se afastou a segurando pelos ombros e olhando-a da cabeça aos pés.
– Eu estou bem, mamãe — Melanie sorriu sem graça segurando a barra do vestido.
– Onde você estava? — a voz grossa e retumbante do pai soou e Melanie se desvencilhou da mãe e o olhou boquiaberta. Ele quase nunca estava em casa, ainda mais em um dia de semana comum — Eu te fiz uma pergunta. Responda.
Melanie abaixou a cabeça mordendo o lábio.
– Dormi na casa de uma amiga — ela mentiu erguendo o olhar. O pai estava a olhando fixamente com os olhos azuis penetrantes. Os braços estavam cruzados e parecia não crer na mentira dela.
Ele a segurou pelo braço com força fazendo-a guinchar em surpresa. Melanie foi obrigada a se aproximar com um puxão no braço. Ela segurou um arquejo de dor quando o pai apertou ainda mais seu braço.
– Qual é o seu problema, garota? Nessa casa existem regras a serem respeitadas! — ele rugiu.
– Roberto, solte a menina. Ela só foi dormir na casa de uma colega — Ana interveio se aproximando. Roberto soltou Melanie a jogando. A mãe a segurou para que não caísse e olhou nervosa para o marido — ROBERTO!
– Largue-a também como largou o garoto, Ana! Ela é minha filha e vai obedecer minhas regras! Quem ela acha que é para sair e só voltar no outro dia?
– Só estou seguindo o exemplo que meu pai me dá — Melanie disse o encarando furiosa.
Nem a mãe nem ela puderam ter alguma reação antes da mão de Roberto lhe atacar o rosto. O estalo foi o único som audível para Melanie. O rosto ardia e a mão subiu para tocar a pele avermelhada.
Sentindo os olhos marejarem ela pegou a mochila e subiu as escadas o mais rápido que pode.

* * *

Melanie se trancou no quarto e se jogou na cama agarrando-se ao travesseiro. A mãe bateu na porta algumas vezes pedindo para entrar mas a menina pediu para que fosse embora.
Ela chorou por alguns minutos e logo pegou no sono. Acordou com o celular tocando ainda dentro da mochila.
Levantou preguiçosa sentindo uma pontada na cabeça deixando-a tonta. Levou uma das mãos à têmpora enquanto a outra caçava pelo celular.
Olhou a tela antes de atender. Era Vitor.
– Alô? — sua voz estava embargada pelo sono e choro recente.
– Mel? Você está bem? — a voz soava preocupada e tristonha ao mesmo tempo.
Melanie se levantou limpando a bochecha com as costas da mão. Se olhou no espelho e viu os olhos inchados e vermelhos. Revirou os olhos se desvencilhando do reflexo.
– Estou — respondeu esfregando os olhos — E você?
– Bem. Pensei que ia me esperar chegar. Você é sempre tão teimosa.
Melanie riu fracamente.
– Queria ter ficado. Mas minha mãe não merece essa tortura — Melanie ouviu o riso suave do namorado do outro lado da linha. Ela começou a brincar com as unhas se sentando na cama novamente.
– Quer sair para algum lugar? — ele perguntou. Sua voz soava doce e gentil como no dia em que Melanie o conhecera. Ela deu um sorriso fraco mesmo ele não podendo o ver.
– Provavelmente estou de castigo pro resto dos meus dias... — ela disse lamentando.
– Desde quando isso foi empecilho para você? — ele perguntou com um tom brincalhão. Melanie sorriu se levantando e abrindo o guarda roupas.
– Hm... Aonde vamos e o que devo usar, querido?