-I-

Medo, abandono, amor, apego, sentimentos. São todas palavras que fazem parte do que estou passando nesse momento. Toda essa confusão camuflada por um sorriso e um roupão.

Toda essa dor se alojou em uma parte em meio as minhas costelas, é como se eu tivesse entrado em uma briga de rua.

Pensei que soubesse o que era dor... um osso quebrado, uma facada nas costas, uma queimadura... Mas o desprezo é a pior de todas elas.

-II-

Deitado em minha cama, semi nu, observando o teto enquanto meus pensamentos parecem embaralhar em minha mente inquieta. A comparação entre a cor do teto com a cor de minha cueca talvez seja a única coisa que me interesse nesse momento.

Ouço três batidas na porta de meu quarto, batidas que se tornam desnecessárias ao ver a pessoa abrindo a porta e entrando sem minha permissão. Era Pete, como sempre atrevido. Fechou a porta e veio até mim, pisoteando meus cobertores que estavam jogados no chão. Ele veio até minha cama e se deitou junto a mim. De lado olhando para mim.

— Então...? _ perguntei.

— Nada, estou aqui pra passar o tempo mesmo. _ respondeu com um olhar cativante. — Você não tem roupas, não?

— Até tenho, mas a disposição para vesti-las é o que me falta.

Uma leve risada tocou meus ouvidos, o que me fez acompanha-la. Estava bem, porque ele estava ali, mas ao mesmo tempo tenso sem saber se podia confiar na pessoa que dedico minha vida a proteger, ou não.

— Eu estava pensando no que estávamos conversando na estufa mais cedo... _ começou a falar como se tivesse uma solução. — Clis está presa aqui, e com certeza ela não vai embora, porque está ligada a você.

— Ligada a mim? Por que diz isso? _ com minha mão direita dependurada na cama e a outra sobre meu peito, desviei meu olhar para Pete. — Diga-me.

— Não é óbvio? Você a matou. E por tê-lá matado, ela ficou aqui pra você lavar o seu carma. _ Pete se sentou na cama. — E eu sei, que você não se arrependeu do que fez, é o que a mantém nos incomodando ainda.

— Não me arrependendo de ter matado ela. Só fiz isso pra proteger você dela. _ respondi franzindo as sobrancelhas.

— Acho que eu não preciso mais de sua proteção, já desenvolvi minhas próprias asas e agora, eu preciso aprender a voar sozinho. _ suspirei.

— Você precisa de mim, e sabe disso...

— Tudo bem então.

—III-

Parado na escada observando Pete e Lari sentados no sofá um pouco distante, não me importava saber sobre o que conversavam. Esther e Bruna sumiram novamente, mas nem estou me importando com o que aquelas duas andam aprontando, sempre fazem coisas erradas e depois se arrependem.

— Vou rasgar a garganta dele e dar o corpo de comida as cobrar! _ chegou Maressa de repente sussurrando em meus ouvidos com um tom sarcástico.

— Apenas saia de perto de mim, se você não quiser ver um animal feroz, mulher.

Maressa com suas risadas irônicas andou de costas, me desafiando com os olhos até sair. Um dia ainda mato essa garota, mas não antes de transar com ela.

Após meu encontro com Maré, eu sai da sala e subi para meu quarto novamente, mas uma coisa ainda mexe comigo e com tudo que eu penso. Será que esse pesadelo sem fim vai me incomodar até quando?