Carvão Escuro

1 Carvão Escuro


— Está acabando, senhora! — Disse um imediato qualquer para a Comandante. "O que?" pensou a Comandante, e quando ela se preocupava com coisas mais importantes do títulos uma voz alta surge do seu lado direito.

— É Senhora Capitã, soldado! — A Comandante olhou para o lado e viu o velho Anders torcendo sua boca mais uma vez ao corrigir furiosamente mais um subordinado, pra variar. Ele saiu da Academia de cadetes, mas o espírito de um sargento jamais saiu daqueles olhos inquietos e castanhos. Os mesmos olhos aceitaram a seguir a bordo de uma gloriosa nave batedora a alguns anos atrás. Não tão mais gloriosa, se tornou minúscula, ultrapassada e sucateada com em comparação com as novas engenhocas inventadas pela Federação do Garimpo. No entanto, continua tendo seu charme. Bem, no caso estou falando da nave, mas é claro que tais elogios se aplicam à nossa amada Comandante. Parando pra pensar agora valem mesmo, eu acho.

— Senhora Capitã! — Uivou o imediato trêmulo, batendo continência com uma mão e segurando uma prancheta cheia do outro lado. Ele tenta ficar ereto, firme e pronto, parecendo estar apto e assertivo. Entretanto as horas de análise, checagem e tensão eram um fardo bem claro naquele pobre sujeito. Assim como uma tentativa desesperada de estar arrumado o bastante para prestar relatório à Comandante. Depois de respirar fundo e conseguir tremer menos sua mandíbula ele arrancou algum ar de seus pulmões para dizer — Estamos com combustível limitado, senhora!

Anders estava de pé, com as pernas separadas e bem plantadas ao lado da cadeira da Comandante. Uma daquelas cadeiras padrão de Comandantes na sala de comando, você deve ter imaginado. Não, na realidade nenhuma nave da Federação, sim aquela do "Garimpo", tem cadeiras para o Comandante. E os oficiais são formados para cumprir seu dever sempre de pé o tempo todo. A Comandante era um caso isolado talvez, ou talvez todos os oficiais cansassem de ficar de pé depois de algumas semanas e logo pedissem uma cadeira qualquer do refeitório pra descansarem suas bundas. E ali ao lado, como dizia, estava Anders, com seu uniforme impecável. Aquele velho ainda tinha forças para deixar a farda polida como a de um recém-formado da Academia e fazia isso de forma exemplar, assim como todo o resto de sua existência, de forma exemplar. O uniforme dele era o único que se podia dizer que era azul, todos os outros da tripulação foram tomando novos tons emprestados de graxa, óleo de transmissão, fuligem, vapor contaminado, resíduo de catalizador quântico e água mal filtrada. Alguns poucos tinham a sorte de se sujar com carvão, mas isso é outra história. Agora falando sobre a Capitã, óbvio.
Diante dela o imediato engoliu a seco, seu uniforme registrou bem seu apreço por café nos últimos dias. Uma prova de sua dedicação, pensou a Comandante, apesar de café ser um recurso extremamente limitado. Oras, nada a se preocupar. Ele deve ser investido em encarregados preciosos com missões críticas, como aquele imediato, provavelmente. Ela viu bem os botões metálicos da farda encrustados de resina dos cristais resfriadores, uma prova de que ele foi recentemente até a sala do radiador, fuçando nos registros e se deixando sujar no peito com os cristais. Provavelmente verificando se havia algum vazamento.
A capitã ergueu o dedo indicador de uma das mãos a frente de sua boca, quase proferindo alguma palavra, mas se contendo rapidamente. Ela viu os ombros do imediato, era bem fácil de ver já que ela estava a alguns degraus acima dele com sua cadeira. Marcas do gotejamento no depósito principal, mais precisamente na ala onde os combustíveis são alojados e inventariados. Ela sabia disso, pois as goteiras mais preocupantes ali acontecem exatamente no corredor entre os combustíveis e os produtos de limpeza. Ele não só checou a reserva de combustíveis, como também ficou tempo o bastante no convés ao lado. Verificou o bastante para o piche mal aplicado dos corredores inferiores pingarem do teto e sujarem seus ombros já molhados das goteiras de água suja da lavanderia. Confuso não? Deve ser, porém na mente da Comandante tudo fazia sentido, e isso que importava.

— O que farem... — Dizia Anders já sendo interrompido instantaneamente.

— Mantendo nossa aceleração, quanto tempo ainda temos? — Disse a Capitã brusca. Alguns pensariam que ela estava esperando Anders falar algo para atropelar suas palavras. Ou foi apenas o Anders em sua angústia em tentar ser útil, mesclado com o peso da notícia, falando quando não devia.

O imediato não esperava essa reação dela, na realidade ele não conseguia esperar nem imaginar nada. Estava ocupado tentando se manter acordado e de pé. Anders voltou a manter prontidão, mãos enluvadas para trás. O imediato relaxou um pouco, passou a mão no rosto limpo às pressas e foi procurar tal informação na segunda folha de sua prancheta. Gaguejando um "Eééérrr" enquanto parecia cada vez mais nervoso. Olhou para a Comandante sentada na sua frente, correu os olhos na papelada com desespero, mas voltou a olhar para a Comandante. Suas botas de cavalaria, cano alto, negras como a escuridão infinita do espaço, brilhantes como o painel de controle esquerdo do convés principal. Suas calças eram brancas como, bem ele não se lembrava de nada tão branco para comparar, então pensou na superfície de alguma lua. A casaca, de modelo quase idêntico ao da tripulação, era amarela. Com bordados decorativos de emblemas da Federação do Garimpo, fitas de condecoração, algumas medalhas que ela escolheu abotoar no peito, um ou dois broches indecifráveis e importantes. Ela estava recostada em um dos braços da cadeira, apoiando a cabeça em uma das mãos, olhando atentamente para ele. O soldado, o imediato, engoliu mais seco ainda quando — Vamos lá Landser, não temos o dia todo — Disse ela calmamente, mais calmo do que se esperava. Com tais palavras, o imediato chamado Landser por algum motivo que não sabia bem explicar conseguiu achar o valor — Temos cerca de quinze horas.

— Ótimo — Disse logo a Comandante — Excelente trabalho em apurar isso — Ela esticou o braço para frente, esperando receber a prancheta — Deixe que vou lidar com isso pessoalmente. Você pode descansar até segunda ordem — Landser praticamente sem jeito, petrificado com a situação ou apenas desorientado com o esgotamento, girou a prancheta e a entregou nas mãos da Capitã, que continuou falando — Darei ordens claras para não te incomodarem em hipótese alguma nas próximas quatorze horas — Ela tomou a prancheta já foi folheando o conteúdo recheado dela, não demonstrando alguma insatisfação — Espero te encontrar aqui pronto depois disso — Ela olhou atentamente alguns rabiscos, gráficos, tabelas. Feitas em caneta, lápis e sabe-se lá mais o que. Instantes depois percebeu que havia esquecido de algo — Dispensado! — Soltou logo a poderosa palavra, Landser ao ouvir isso expirou fundo. Se esvaziando como um balão de ar, o corpo inteiro relaxando. Não era como se tivesse tirado um peso das costas dele, ela literalmente tirou o peso da prancheta das mãos dele. Então o imediato caminhou a passos lentos, longos e satisfeitos até seu alojamento. A Capitã olhava cuidadosamente o material enquanto Anders a fitava com um olhar incrédulo. As passadas pesadas e sonoras do coturno de Landser ainda podiam ser escutadas nos corredores ao longe, e ela ainda não tinha tirado os olhos da resma rabiscada presa na prancheta de madeira prensada e surrada. Alguém iria dormir com a certeza de dever cumprido, outra estava acordando para executar o seu.

...

A Capitã se levantou de sua cadeira, ou poltrona, trono se preferir. Depois de tantos anos ela trocou o painel de controle em pé, com todos os registros, botões e alavancas, por uma pomposa cadeira acolchoada de encosto alto. Revestida de veludo vermelho, abotoada assim como seu uniforme, e com o assento já moldado para ela, algo que o tempo com certeza faz muito bem. Porém, o tempo traz alguns outros resultados engraçados.

— Catarina? Você está bem? — Disse Anders saindo de seu posto, bem ao lado direito dela, e se aproximando. Quando a Capitã girou um centímetro seu pescoço na sua direção ele entrou em pânico, percebeu que quebrou o decoro e o protocolo com aquela pergunta pessoal — Quer dizer, Comandante Capitã! Senhora! Capitã! Senhora! — Disse ele desenrolando e fazendo postura de sentido ao lado dela. Já seguindo um costume antigo, já esperando reações predefinidas e compreendidas por anos de convivência. Afinal, noventa por cento da tripulação já estava naquela nave com a Capitã a pelo menos dois anos. Anders era algum dos que estavam a bem mais.

— O que? — Respondeu a Capitã, a chamada Catarina, a Comandante da nave Corelli, Nave Batedora, que já foi chamada uma vez de um modelo paralelo de Cruzador.

— Estou esperando ordens, senhora! — Disse Anders exaltado. Os membros da tripulação naquela sala pararam poucos momentos os seus trabalhos para ver com canto de olho o que acontecia. Alguns de costas, outros de lado para onde a Capitã parou, de frente para o monitor de proa, aquele que mostra o que existe à frente da nave. Os operadores de rádio cochichavam entre si, uns deles se perguntavam o motivo de Anders estar tão nervoso, parecia que ele tinha visto um traje móvel de gundarium. Um daqueles alelos de titânio lunar que metiam medo em qualquer um, principalmente em nos entendidos em siderurgia. Mas chega de piadas internas da tripulação.

— Anders... — Começou a falar a Capitã, olhando fixamente para o monitor, que registrava o vazio espacial logo a frente. Colocou as mãos para trás, juntamente com a papelada na prancheta — ...Estou bem, só estou... — Ela levantou a prancheta e a entregou para ele — ...Só estou...

— Cansada Senhora? — Perguntou Anders sendo cortês.

— Não, só estou colocando algumas coisas no lugar — Disse ela olhando firme para o monitor, percorrendo os olhos nas leituras, medidores e esquadros digitais que se moviam como abelhas naquela tela recém gradeada, agora que ela apertou o botão para que a gama de displays ficassem à mostra.

— Entendido Capitã! — Disse Anders segurando firme o pacote de papéis da prancheta. Ele se virou também ao monitor para acompanhar o que a Comandante estava fazendo. Sentia profundamente que ela estava um tanto estranha. Estava diferente fazia já uma semana, mas naquele dia dentro do sistema horário terrestre, ela estava terminantemente irreconhecível, pensou ele.

Antes que Anders fizesse alguma pergunta, Catarina já adiantou enquanto apertava um botão ou outro, girava controladores ou puxava alavancas vaporosas aqui e ali — Você se lembra bem daquele alerta que rebemos à alguns dias, certo? — Tudo isso sem desgrudar os olhos do monitor com a face da tela arredondada e formato oval. Bordas em metal brilhoso num tom de cobre, devia ser cobre. Isso era algo que ninguém parecia se importar, o material da borda do monitor principal, exceto Catarina. Ela conhecia cada arranhão, cada mancha e cada amassado naquela borda metálica. Até os catalogava num sistema alfanumérico, para não ter que lhes dar nomes, detestava isso.

— Sim senhora, um cargueiro com tungstênio estava com vazamento do sistema de refrigeração. Mudamos o curso para prestar assistência técnica — Disse Anders pontualmente e precisamente a informação que lhe foi concedida.

— Exatamente, à duas horas atrás recebi um último alerta. O vazamento piorou, o tungstênio foi contaminado pelos cristais enquanto a nave inteira virava um forno — Falou Catarina com sua voz que despertava atenção, determinação e obediência, como de costume. Anders não escondeu sua surpresa e pesar pelo acontecimento. E Catarina continuou — Mas isso é parte da situação. Quem mandou a mensagem conseguiu se lacrar em um convés, graças à um depósito de nitrogênio líquido — Ela olhou para Anders, que esboçou uma reação e uma frase de resposta, mas ela prosseguiu com seu discurso — Ele não foi cauterizado pelo motor superaquecido da nave, ainda.

— Quem transcreveu a mensagem? — Disse Anders, tentando se manter a par dos procedimentos que Catarina estava falando. Ou melhor, que ela despejava sobre ele com informações, mais um dia comum na frota da Federação.

— Valéria — Disse Catarina balançando a cabeça para a soldado Valéria sentada a poucos metros deles dois. Anders fazia uma pergunta de praxe, checar a confiabilidade do operador de comunicações para ter certeza de que a informação é correta. Ainda mais uma que estava aparentemente transtornando sua Capitã. Por mais que fossem boas suas intenções, ele não poderia questionar uma informação já acatada e validada pela Comandante, ainda mais vindo da Valéria, a melhor operadora da nave. Pelo menos desde que o Hugo se aposentou.

— Certo — Respondeu curto o preocupado Anders. Valéria era jovem, ágil e esperta. Mas isso o fez lembrar de outro fator que com certeza devia ser a causa da atual quebra de paradigma de sua Capitã. A Federação do Garimpo permite um tempo máximo de trinta anos de serviço para Oficiais em Naves Batedoras. Ou seja, Catarina, como ele bem sabia e era um dos poucos privilegiados com tal informação dentro daquela nave antiga. Ela estava para completar esse tempo, já que se formou oficial aos quinze anos, uma prodígio inquestionável até mesmo pros padrões atuais — E qual o plano? — Perguntou ele discretamente tenso. Como dito, ele sabia de certas coisas da Capitã, não apenas por já ter lido sua ficha, mas por ter vivido com ela. Sabia de alguns infortúnios em sua vida particular, opostos à sua carreira invejável. Tristezas com uma certa pessoa dada como morta a vários anos.

— Temos menos de quinze horas de combustível nessa velocidade. A nave está nesse lugar — Apontou ela para o quadrando específico. Não era o momento para divagações, sabia bem Anders, tentando manter o foco.

— Levaríamos dez horas para chegar lá — Disse Anders calculando, já que conhecia bem aquele setor — É perto do planeta Argento. Não vamos conseguir salvar o último sobrevivente, mas pelo menos poderemos reabastecer no planeta, até mesmo rebocar o que restar da nave.

— Dez horas no nosso ritmo atual — Disse ela já fazendo os ajustes diretamente na própria nave — Cinco horas se dobrarmos. Duas se ligarmos a pós-queima e as outras medidas de velocidade.

— Mas aí ficaríamos sem combustível pouco antes de chegarmos nessa tal nave. Teríamos sorte se conseguirmos abordar essa nave sem aceleradores de ajuste — Anders ficou cada vez mais preocupado com as medidas que a Capitã estava tomando, engasgou por um instante e voltou a falar. Quando mais se demorava, mais rápido a Capitã mexia nos painéis — E não haveria como aterrissar em Argento depois!

— Isso é algo que vamos resolver depois. A prioridade é salvar aquele tripulante — Disse ela sem muito alarde em seu tom. A tranquilidade própria de quem tem certeza de que a sua decisão é a última e será acatada.

— Salvar o tripulante? — Anders ficou abismado. Meses atrás, anos a frio e a fio, a Comandante nem ao menos falava com seus subordinados direito. Quase sempre fazia de Anders seu porta-voz. Não olhava nos olhos da sua tripulação, apenas encarava cada polegada de sua nave com uma mistura de desdém e preciosismo. Depois de alguns dias começa a responder as pessoas, e de um dia para o outro para completamente de maltratar todo mundo, até mesmo os mais caprichosos e eficientes. E então, como num pulso eletromagnético, ela quer basicamente salvar uma vida. Mas não qualquer vida, quer salvar uma vida que simplesmente não pode ser salva, ou que custaria muito para ser salva — Posso saber o motivo? — Ainda mais a alguns meses, talvez menos, para sua aposentadoria compulsória. A Comandante era, no mínimo, interessante.

— Primeiro — Respondeu a Capitã Catarina, ríspida — Como deve saber o planeta Argento é bem revestido de água. E temos uma nave gigantesca em chamas, cheia de tungstênio, cristais de refrigeração, combustível, carvão e sabe-se lá quantos outros contaminantes... indo direto como uma bomba direto para o meio do maior oceano deles — Disse Catarina mostrando para Anders um trajeto aproximado e pré-calculado no computador. As linhas pontilhadas, a figura, a escala, as estimativas, tudo indicava o pior. A Comandante já falava assertiva com tanta paixão que alguns tripulantes tiravam seus fones de ouvido e se aproximavam cautelosamente do monitor, cercando Anders e a Capitã. Atentos, atônitos e chocados. Talvez pelos mesmos motivos com que o velho se preocupava antes, ou talvez seja por causa do panorama um tanto catastrófico — É bem sabido que a água desse planeta é uma das melhores de todo o sistema local. Uma contaminação desse calibre iria comprometer o abastecimento de água de pelo menos dezessete planetas, sem contar estações, luas e planetoides.

— Segundo! — Continuou a Comandante Catarina, sendo rápida antes de quaisquer interrupções — Toda a situação se deve à uma falha, não sabemos se foi mecânica ou humana, dentro da nave — A tripulação do convés todo já se reunia cercando a Capitã, que digitava implacável, diante do monitor. Todos atentos, concordando e olhando um para os outros — O tipo de falha que não podemos permitir que se repita, a única pessoa que pode nos dar alguma pista do que aconteceu e respectivamente ajudar toda a corporação, a Federação e a Comunidade Interplanetária a evitar que isso aconteça de novo é aquele tripulante sobrevivente! — Disse ela com um fôlego inacreditável, alguns pensaram que ela estava compensando todo o tempo calada, haja ar. Anders pensou que não via ela com tanta energia há cerca de vinte anos.

Alguns instantes de silêncio, indagações silenciosas. As pessoas, todas fardadas, todos tripulantes, os que chegaram até ali e se acotovelaram ali. Todos ouviram o que a Comandante dizia, ouviam sua voz, sentiam o seu comando, sabiam que ela estava ali e que tinha pleno conhecimento do que fazer. Podiam sentir isso em seus ossos e nos seus fluídos, que alguns juravam já ter sido trocado de sangue para o óleo da nave. Estavam seguros, não importava a idade da nave ou quem a Capitã um dia já foi. Havia algo a ser feito, e a sua farda dourada brilhou mais do que nunca, mesmo naquele recinto sombrio e coberto de penumbra.

A tripulação ovacionou com um — URRAAA! — Segundo depois que a Capitã terminou de explicar seu segundo motivo. Mais do que suficientes. E ela não precisou mandar eles pararem de gritar, se empolgar ou espumar ensandecidos. Bastou um vislumbre de um olhar característico da Capitã e todos imediatamente, e quase que automaticamente, correram até seus postos. Não acuados ou submissos, como seria antes provavelmente, mas motivados, energizados e vivos. Não interessava mais o racionamento de água ou ração, a sujeira e as goteiras no depósito. Até mesmo quem não tinha todos os dentes, mostrou eles. E colocaram suas caras imundas de carvão, ou apenas suor mesmo, ao trabalho. A cacofonia de gritos virou uma orquestra de botas girando, correndo, marchando e andando em infinitas direções. Tudo voltou a funcionar, e melhor. Um pouco de lubrificante nas engrenagens emperradas de uma locomotiva.

Anders estava admirado, mas ainda sim tinha que perguntar — Jurava que iria ter um terceiro motivo, senhora — Enquanto ele falava ela se virou e se dirigiu ao outro lado daquela sala. Ao elevador.

— Siga-me Anders — Disse ela enquanto seu uniforme amarelo contrastava com as paredes metálicas escurecidas, repletas de rebites, completas de tubulações, mostradores e pequenos botões aqui e ali.

— Para o convés panorâmico, minha senhora? — Falou Anders já dentro do pequeno elevador, vendo o destino.

— Sim, aquele monitor não vai me servir — Respondeu ela, como um ultimato, pouco antes da porta do elevador se fechar com diante de Anders agarrado à uma prancheta e uma Capitã olhando para o aço corroído diante dela.

...

Um elevador se abre, dois pares de botas saem de dentro dele. Elas pisam em uma sala pouco gasta, mas não pouco limpa. Uma cúpula transparente acima, alguns controles iguais aos que havia na ponte de comando abaixo e espaço o bastante para se conseguir ver, pensar e agir. O dono das botas mais curtas, mais acanhadas e ainda sim mais lustrosas caminhava boquiaberto contemplando a escuridão fascinante perfurada pelas estrelas, tinha uma resma de papéis no braço direito.

— Capitã — Anders deu um pigarro e retomou — Vai dar as ordens daqui?

Catarina, da farda dourada, foi clara — Sim, coloque Valéria como sua assistente adjunta. Quero que cuide lá de baixo enquanto passo suas ordens daqui. Quando Landser acordar, mande-o para cá — Disse ela já assumindo o seu lugar, de pé no centro da sala, cercada de controles. E antes que Anders pudesse a questionar, uma das várias perguntas que com certeza ele tinha. Ela falou — Anders, é o Heitor. Esse é o terceiro motivo que eu tenho, o sobrevivente é o Heitor.

Escutando aquelas palavras, Anders entendeu tudo. Suas costas velhas lhe davam esse trunfo. A velhice sem dúvida o atingiu, da mesma forma que atingiu a Capitã de forma precoce por tanto tempo. No entanto, não é apenas um fantasma do passado o bastante para mudar uma pessoa. Mais fácil seria arrastar uma estrela, já as pessoas precisam de um empurrãozinho diferente. Ele foi confidenciando para si mesmo enquanto batia continência como nunca e descia no elevador barulhento.

A nave, Corelli, fazia parte dele, assim como fazia parte de Catarina. Chega a ser uma extensão de seus corpos, assim como de todos os outros lá dentro. A maneira de encarar isso, e a parte disso que você vai agregar para si, é que faz toda a diferença. Diferença que martelava na cabeça de muita gente dentro daquela nave, pelas horas que se passaram dentro do imenso vazio cósmico. Estavam rumando com toda força na direção daquele tal planeta rico em água.

— Já está tudo operacional? — Perguntou Anders, bufando e estufando o peito, repleto de pompa.

— Tudo como planejado, já podemos acordar o Landser? — Perguntou um dos operadores que lia um dos painéis cheios de ponteiros e visores com números mudando ensandecidos.

— Não, deixe-o descansar um pouco mais — Respondeu Anders benevolente. A comandante foi clara com o horário, mas o velho parecia estar ficando mole desde o último discurso dela e de toda a motivação para o que estava acontecendo.

Quando Valéria, sentada no outro lado da sala, começou a entender certas leituras e se preparava para gritar um estrondo irrompeu por dentro da nave. Um choque, algo estava batendo na fuselagem.

— Estamos cercados! — Uivou um dos sentinelas incrédulo.

— Usaram campo de refração! — Alertou Valéria, aparentemente já interpretando o contexto — Devem ter usado alguma frequência de interferência para enganarem nossos radares.

A grosso modo, alguém se aproximou se utilizando de invisibilidade e enganou os instrumentos que acusariam qualquer massa ou objeto próximo. E as explosões apenas continuavam.

— São quantos? — Perguntou Anders abismado, tentando se segurar em alguma coisa.

— Estão em cinco! — Respondeu o sentinela escorregando com o chão que não parava de tremer.

— Só podem ser piratas! — Sugeriu um dos operadores da sala de comando.

— Onde está a Capitã? — Alguém gritou no fundo, entrando em pânico.

— Ela está na sala panorâmica! — Respondeu Anders logo antes de perceber que ela era um alvo fácil ali.

— TIREM A CAPI... -- Vociferou Anders, quando foi interrompido por uma voz feminina e familiar.

— Estou bem aqui, velho — Disse a Capitã, séria — Poupe seu fôlego.

Ele suspirou. Toda a tripulação que a viu rapidamente se encheu de esperança — Senhora! Pensei que tinha...

— Pensou errado, por pouco estive no saguão para ser espatifada no espaço congelante — Respondeu ela ainda ríspida, se dirigindo até Valéria.

— Ainda bem — Comentou o sentinela se arrastando no chão. Tudo ainda tremia, parecia que estavam bombardeando a nave.

— Qual é a situação? — Perguntou a Capitã já ao lado de Valéria. A operadora que havia saído para um intervalo e voltado algum tempo antes de tudo isso acontecer. Todos estavam gratos por isso, pois, repetindo, ela era a melhor nisso daquela nave.

— Cinco deles, parecem naves pequenas de assalto, uma delas está... — Valéria hesitou.

— Está o que?! — Gritou a Capitã ficando irritada com a hesitação durante uma informação vital como aquela.

O chão parou de tremer, e uma onda de choque de ar instaurou-se nave adentro. Todos sabiam o que isso significava. Abordaram, entraram, eles estavam ali com eles.

— Senhora! — Gritou um tripulante vindo pelo corredor fora da sala de comando — Eles estão aqui!

O tripulante levou uma coronhada na nuca, caindo feito um boneco ao chão e depois pisoteado por sete sujeitos. Todos eles usando máscaras escuras com brilhantes visores redondos ofuscando na cor vermelha. Roupas surradas de couro, pano grosso e jeans. Bandoleiras cruzando o peito e a cintura. Rifles de pulso e eletromagnéticos em mãos.

— Todos parados! — Disse um deles com a voz abafada pela máscara. Coisas que tinham tubos e canos saindo da região da boca e indo para compartimentos em suas mochilas.

Ninguém da tripulação estava pronto para aquilo. Anders até pensou em sacar uma pistola, mas já estava sentido o cano frio de um rifle nas costas antes mesmo de mexer um músculo.

— Isso mesmo, quietinhos — Falou um outro dos assaltantes.

Todos naquela sala, fora os sete bandidos, ergueram suas mãos. O sentinela que havia escorregado se ergueu trêmulo com as mãos atrás da cabeça. Enquanto isso, cinco dos bandidos se espalharam por toda aquela sala, apontando suas armas ameaçadoramente para todo mundo.

— Vocês não estão com sorte — Proferiu a Capitã, em tom desafiante — Essa nave não tem qualquer carga de valor, nem combustível temos mais.

Um dos dois bandidos que ficaram perto do corredor avançou para ela, a encarando silenciosamente, passos lentos e pesados. Quando chegou bem perto dela foi então que ele disse com uma voz forte e modulada — O que queremos está aqui sim.

A Capitã não conseguiu deduzir do que eles se referiam. A nave era em si um ferro velho, não havia peças valiosas ali dentro, nem mesmo um sucateiro pagaria muito por aquela nave ou o equipamento da tripulação. O combustível que esses piratas usaram para assaltar sairia mais caro do que tudo que eles pudessem agarrar dentro da nave.

— O que foi? Sua língua afiada ficou sem bala na agulha? — Indagou o pirata que encarava bem de perto o olhar cheio de brio da Capitã, mas que agora falseava para a confusão.

— Vocês estão loucos, não tem nada para vocês aqui — Continuou a Capitã, batendo boca com um bandido armado cercando seus subordinados. Os piratas podiam não respeitar muita coisa, mas reconheceram que aquela oficial tinha coragem.

— Haha! Ela tem mais culhões que você, Heitor! — Disse um dos bandidos, enquanto o resto esboçava gargalhadas.

— Falou sério quando disse que ela era braba — Outro comentou risonho.

— Heitor? — A Capitã esbugalhou os olhos, pasma.

Então o home que a encarava arrancou sua máscara, revelando um rosto latino, com barba por fazer, cabelos negros penteados para trás, crescendo cumpridos tocando seus ombros. Olhos esverdeados e um nariz definido junto de um queixo pontudo.

Ele olhou para ela profundamente antes de dizer — Olá querida.

A Capitã não conseguia acreditar, seus olhos reviraram a sala, encaravam aquele homem, depois se remexiam inquietos.

— Mas, você — Ela hesitou, não conseguindo encontrar palavras. Anders e o resto da tripulação ficaram impressionados, pois nunca haviam visto a Capitã tão emotiva e vulnerável daquela forma.

— Não, eu não estou preso num cargueiro a caminho de um planeta aguado, não — Disse ele em tom de deboche.

— Mas... — Ela tentou perguntar os motivos, mas Heitor parecia bem feliz em explicar.

— Eu sabia que você viria se escutasse meu nome, independentemente da situação da sua nave — Disse Heitor orgulhoso e marrento.

— Mas, se queria que viesse. Quer dizer que... — Ela continuou catando palavras perdidas na confusão de sua mente.

— Sim, queríamos apenas você — Respondeu o bandido que a Capitã uma vez conheceu, muito, como Heitor.

— Digamos que o resgate de uma oficial da Federação do Garimpo esteja bem cotado hoje em dia — Completou um dos bandidos. Aquele mais próximo que está no corredor.

A Capitã caiu de joelhos, no chão, não aceitando ter caído numa armadilha daquelas. Não podia se culpar, não poderia adivinhar, porém seu lado inquisitivo iria ignorar sumariamente isso, sim. Ela não poderia carregar o fardo de tamanho fracasso, e o pior, o que viria depois.

— Então agora, vamos limpar esse lugar aqui e... — Disse um dos bandidos apontando a arma para a cabeça do sentinela.

— NÃO! — Gritou a Capitã. Se levantando diante de Heitor, olhando bem fundo nos seus olhos e dando olhadelas sugestivas para sua região pélvica — Se você tem qualquer respeito por mim ou pelo que nós tivemos juntos.

— O que é? — Indagou Heitor, parecendo estar interessado.

— Poupe minha tripulação — Respondeu ela, num tom que mesclava autoridade e malícia — E eu vou lhe recompensar antes que a Federação pague meu resgate.

— Hmm — Heitor coçou o queixo enquanto seus colegas piratas riam ainda mais — Gostei. Não deve fazer mal deixar esses imprestáveis vivos.

Heitor aceitou a barganha. Sabia, pelo que a Capitã disse, e por ter visto na tela do comando que o combustível da nave não duraria nem mais cinco minutos. Seria o bastante para atingir a nave que pediu socorro, mas como essa nave não existe, não teria como sucatear ou aproveitar nada dela como combustível. A nave da Capitã estava fadada à morte solitária, à deriva no espaço sem combustível e fora da zona de rádio de qualquer um. Eles só poderiam, no máximo, fazer uma carga de fuga, queimando todo o combustível de uma vez e arremessando a nave para algum ponto aleatório num raio de vários quilômetros dali. Teriam que ter muita sorte para achar alguém para ajudar.

Alguns bandidos questionaram, mas bastou um gesto rápido de Heitor para se aquietarem.

— Vamos indo! — Heitor colocou a máscara de novo. Seus colegas piratas voltaram para o corredor, um deles empurrou a Capitã com o rifle, a coagindo para ir com eles até o convés central e dali partir como refém.

— Cuidado com essa aí — Disse Heitor, enfiando a mão na cintura da Capitã — Ela é bem perigosa — Ele tirou a pistola escondida, que ele sabia exatamente onde ela colocava, por dentro do uniforme, na região do quadril. Jogou a arma pra um colega, que apreciou a fragrância única da peça antes de a guardar em um coldre vazio.

Heitor podia agir como um galã barato, mas não era estúpido, não muito, a Capitã sabia. Seguiu junto do grupo. Enquanto a tripulação ficou sob a mira dos homens de Heitor até que eles entrassem dentro da câmara de conexão e estivessem à meio passo de entrar na nave de assalto dos piratas.

A tripulação ficou em choque. Valério e alguns dos operadores fizeram menção de correr atrás deles e tentar salvar a comandante. Mas Anders evitou, gesticulando para se manterem abaixados. Não queria colocar em risco a barganha de suas vidas que a Capitã duramente conquistou.

Eles estavam agora, os sete piratas e a Capitã, dentro de um estreito corredor que conectava a nave da Capitã com a dos piratas. Funcionava com duas portas que abriam de forma intercalada, para evitar que o ar de um lado não escapasse ou contaminasse o do outro. A Capitã não foi algemada, só estava entre vários homens armados e qualquer movimento brusco era resolvido com uma pancada ou um tiro.

— Espera aí, preciso amarrar o cadarço — Disse ela se agachando quando os homens começaram a entrar na nave dos piratas.

A porta para sua nave estava lacrada, seis dos sete estavam já dentro de sua nave. Ela se debruçou sobre seu coturno, onde inventou algum nó para ajustar enquanto o último guarda estava logo atrás dela. Com o rifle gauss bem apontado para sua nuca, só esperando um pretexto para atirar, e por toda a operação pro lixo.

A Capitã sabia que eles iriam hesitar em atirar nela, ela era valiosa viva. A porta para os piratas estava ainda aberta. Só havia ela e um homem logo atrás num corredor estreito de dois metros. Era basicamente um tubo padrão de sua nave que garantia a vedação de ar das duas naves. Qualquer irregularidade e o tubo era ejetado, com ar e tudo, pro espaço. A Capitã tinha um plano, arriscado, mas preferia morrer do que se entregar para bandidos lucrarem em cima da Federação.

— Me ajuda aqui — Disse ela sensualmente, apontando para seu colo. O pirata olhou para aquilo se distraindo por algum momento, não havia muito que ver. Ela era atlética, apesar de meia idade e com certeza tinha encantos de uma mulher, porém o uniforme não ajudaria nisso.

Ajudou o bastante. O homem ficou olhando para a cintura dela e para seus cadarços amarrados e não entendeu o problema. Não entenderia nada até um punho ir em direção à seu rosto. O homem caiu para trás, bateu com a cabeça na parede cheia de canos de ferro negro e ferrugem e caiu no chão.

— Peguem ela! — Disse Heitor para seus homens de dentro da nave, fora do tubo de conexão.

A Capitã conhecia tudo muito bem ali, se arremessou sobre um botão vermelho quase escondido perto do assoalho que fez a porta pra a nave dos piratas ser lacrada.

— Não! — Disse um dos piratas antes de sua voz ser cortada pela vedação de ar e ferro.

A Capitã se apressou, tirou a máscara e a mochila de oxigênio do assaltante nocauteado ao chão e a vestiu o mais rápido que pôde. Enquanto isso os homens disparavam suas armas e davam violentas pancadas na porta para a abrir. Mas era tarde demais, a Capitã ativou a ejeção de emergência daquele tubo.

De repente o som de ar comprimido invadiu aquela sala. O bandido escorregou para fora do tubo, as portas sumiram. O tubo estava agora flutuando no ar, em algum lugar entre as duas naves. A capitã, se aproveitando do sistema automático de vedação de seu uniforme, não sofreu com o choque de pressão. E com a máscara de ar que roubou do bandido, agora poderia sobreviver alguns instantes literalmente no espaço.

Os homens de Heitor começaram a apontar as armas de suas naves na direção dela, mas ele deu ordem para não atirarem. Ela era valiosa viva, não em pedaços. A Capitã só tinha uma chance. O tubo de conexão começou a flutuar acima de sua nave, e ali em cima ela viu o saguão panorâmica espatifado, lacrado, com os vidros de cima quebrados. Ainda acessível.

Ela se segurou dentro do tubo, esperou até o momento certo e se arremessou em direção ao grande buraco no vidro daquela sala. Passou raspando nas pontas afiadas e bateu dentro da sala, contra o chão que estava pisando minutos antes em segurança.

Estava virtualmente dentro da sua nave. Mas ainda visível e à mercê de seus captores. Foi aí que ela agradeceu muito por Anders ter pensado rápido, ou prevendo seus movimentos, ou tentando salvar a tripulação de qualquer golpe traiçoeiro das naves dos piratas. Ela estava dentro da nave, de certa forma. Podia se segurar nos corrimões de segurança que haviam nas paredes. E foi aí que veio outro estrondo.

A nave estourou todo o seu combustível, literalmente saindo dali, do meio dos piratas e indo para fora do alcance deles, onde eles não poderiam os rastrear, não pela próxima meia hora. A Capitã foi espatifada contra a parede daquela sala, felizmente não morrendo no choque. Cuspiu sangue dentro da máscara, mas sorrindo quando percebeu que estava saindo do alcance daqueles bandidos e que seria questão de tempo até a sua equipe abrir o elevador lacrado e lhe prestarem ajuda médica. Poderia até morrer, mas evitou a execução de seus amigos e colegas. Saiu das garras de piratas gananciosos. Principalmente, saiu das garras de um antigo amor que provou mais uma vez o motivo de ter sido abandonado em primeiro lugar.

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