Cartas para você

2 Primeira carta


Notas iniciais
Para quem leu o primeiro capítulo: Eu fiz umas pequenas edições corrigindo alguns erros e mudando uma data.

São Paulo, 05 de janeiro de 2019

Caro Daniel, como dito, aqui está a primeira carta que prometi escrever. Quero te desejar, antes de tudo, um feliz ano novo. 2018 foi um ano muito especial para mim, alcancei coisas que há tanto tempo tenho almejado. Tenho certeza que você ficaria feliz comigo, é incrível como você consegue compartilhar das alegrias dos demais. Mas não é sobre minhas metas alcançadas que venho escrever aqui, quem sabe mais para frente eu faça uma carta especial, porém, vamos focar no que aconteceu conosco na primeira semana de 2016.

Eu te conheci no dia 07 de janeiro, primeira quinta-feira do ano. Acho que eu nunca comentei com você, mas a manhã daquele dia tinha sido um completo desastre. O escritório resolveu passar o final de ano juntos, no terraço do prédio, por sorte não tivemos nenhum acidente por excesso de álcool. Mas essa festa trouxe um incômodo muito grande nessa primeira semana de 2016. Como você deve saber, eu não me dou bem com o álcool, por mais que eu goste muito, poucos copos de alguma bebida forte são capazes de me deixar meio abitolada. Eu amo esse termo.

Eu estava tão feliz naquela virada de ano, um mês antes tinha conseguido minha promoção para assistente editorial, foi uma grande conquista. Nessa noite de ano novo, eu conheci um rapaz, seu nome era Fernando e, por Deus, ele era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto em minha vida. Bem mais bonito que você.

Bonito, inteligente, com uma brilhante carreira pela frente e, principalmente, um ótimo papo. Acho que foi isso que mais me atraiu nele, você sabe como eu adoro passar horas me envolvendo em uma conversa. Fernando foi o cara ideal para uma noite perfeita que estava coroando um mês mágico. Magia do Natal, Daniel.

Passei o restante da noite com ele (e a madrugada também), mas te pouparei de mais detalhes, já é constrangedor demais a ideia de você está lendo esse assunto que nunca foi comentando antes. Como nada pode ser perfeito para sempre, nem mesmo os mais belos dos sonhos, eu descobri que o diabo pode mesmo vir em formato de anjo da luz para te confundir. E o que eu achei ser o homem mais maravilhoso que poderia conhecer nessa vida se mostrou, na verdade, o ser mais repugnante que eu já tive o azar em ter colocado na minha vida. Foi a pior primeira semana de um ano novo que eu tive. Fernando, que pelo visto não sabe que mulher pode passar a noite com um cara só para se divertir, pensou que teríamos algo sério. Meu chefe passou meu número para ele e há cada 5 minutos eu recebia uma mensagem. No começo foi divertido, poderia ser algo para passar o tempo em conjunto, entende? Mas ele nunca pensou assim. No começo, as mensagens agradáveis e que eu tinha prazer em responder, logo se tornaram um peso para o meu celular.

Sério, qual a dificuldade em entender que a pessoa não quer engatar um relacionamento depois de uma noite juntos? Todo aquele encanto que eu sentia por ele foi se esvaziando completamente. Na verdade, diminuía a cada mensagem que chegava de 5 em 5 minutos.

Mas o ápice disso tudo foi no dia 07, sim Daniel, aquele maldito dia em que meus olhos fitaram o seu. Aquele maldito dia em que você sorriu de maneira educada e gentil para mim. Sem dúvidas foi a punição divina por ter saciado meus desejos carnais com um maldito stalker.

Muito bem, aquele dia começou da pior maneira possível. Acordei atrasada para o meu trabalho, tinha umas 10 mensagens do Fernando no meu celular e estava muito quente. Você sabe o quanto eu odeio calor. Dias quentes me deixa estressadas. Continuando, além de uma semana com um cara que tinha tudo para se ter uma boa amizade, mas que acabou se mostrando bem arcaico, uma semana tão quente que eu não queria sair do meu apartamento, a primeira semana do ano foi tão cansativo na empresa. Benjamin não me poupou um minuto com papéis, entrevistas, reuniões para cuidar, e pensando bem, Daniel, eu merecia que ele pegasse mais leve só por ter passado meu número sem autorização.

E foi nessa quinta de 34 graus, com o celular cheio de mensagens e com a voz do Benjamin na minha cabeça que eu saí do trabalho disposta a ter um tempo só para mim. A Paulista era o local ideal. Eu realmente queria pagar por um café mais caro no fim do meu turno e ver a movimentação que ocorria na avenida. Eu ia fazer isso, se eu fizesse, não teria esbarrado no Thomas. Não mesmo. Mas não fiz, tudo porque o meu dia tinha sido tão estressante que eu não conseguiria passar 40 minutos olhando para o tudo e não enxergado nada. Até hoje eu não entendo como aquela tampa foi capaz de se abrir e derramar meu café no Thomas. Acho que foi o destino. Eu odeio a merda do destino.

A minha cara de espanto está guardada até hoje na memória, mesmo não tendo visto, eu consigo imaginar como foi. Já iria implorar por perdão para o desconhecido, até que vejo o rosto do Tommy e sua surpresa ao ver quem tinha sido a desastrada que acabou com a camisa nova dele. Sei que era nova porque a Daniele deu de presente para ele no ano novo. Fui com ela comprar.

E naquele momento de desastre, com meu rosto vermelho em ter derramado café no Thomas, entra você. Nunca vou me esquecer da sua aparência cansada, a bolsa preta nas costas e da edição bilíngue de Orgulho e Preconceito nas suas mãos. Nunca vou me esquecer de como sua face mudou de cansado para alguém que não parava de rir ao ver a cena desastrosa na sua frente. Eu não te disse, mas a primeira coisa que senti foi meu rosto esquentar de vergonha, a segunda... bem, a segunda foi uma raiva em olhar um cara rindo de mim e eu sei que você não estava rindo de mim, mas a minha mente projetou que aquela gargalhada foi por causa do meu desastre.

Lembro do Thomas me abraçando, lembro dele falando que estava tudo bem, que acontecia e que ele não imaginava uma ocasião melhor em me encontrar do que aquela, a chance de apresentar seu amigo que tinha mudado de Florianópolis para São Paulo. Eu lembro da sua mão esticada e o seu relógio simples no pulso. Lembro de como você me olhou de uma forma doce e educada, quase conseguiu tirar a raiva que eu estava sentido por você ter dado risada. Lembro da fragrância do seu perfume amadeirado. Nesses anos, eu saí com rapazes que usava o mesmo perfume que o seu, mas o seu cheiro sempre foi diferente.

Tenho na minha memória as palavras do Thomas me apresentando para você, do meu emprego em uma editora e de como eu era umas das pessoas mais engraçadas que ele conheceu. Tenho na minha memória sua cabeça balançando e de como seus olhos estavam firmes nos meus, quase como se assim pudesse entender melhor o que o nosso amigo dizia.

Por fim, recordo perfeitamente de quando ele deu aquele sorriso de quem está pensando em algo e propôs a ideia de nós sairmos juntos para um cinema. Eu, você, Daniele e o Thomas. Por que o Thomas tem esse espírito aventureiro? Por que ele tem essa ambição em ser o cupido de algum amigo dele? Eu ponho culpa no Thomas. Ponho culpa nele porque ele nos conhecia. Conhecia você, conhecia do seu antigo e desastroso relacionamento. Ele me conhecia. Ele sabia de como eu estava tentando ser mais conservadora. Ele nos conhecia tão bem e mesmo assim ele deu aquele empurrão. Nunca se deveria misturar gasolina com uma pequena faísca, e naquele momento você já era um galão transbordando de combustível, e eu... ah, Daniel, eu era uma tocha acesa enquanto torcia para o vento me apagar.

Laura.

Notas finais
Então, eu escrevi o primeiro capítulo ontem, e hoje fiz o segundo. Queria postar porque estou torcendo para receber um feedback para me dar uma luz sobre a história. Por favor, vai ajudar tanto. Mika