Cartas para você
1 Cartas para você (Capítulo único)
Notas iniciais
Levi sempre foi uma pessoa assustadoramente séria e dedicada ao trabalho, era professor da universidade local, atuando no curso de medicina, e quem o visse, diria sem pensar duas vezes que era alguém que vivia única e exclusivamente para o seu trabalho.
Bem, essa suposição não está completamente errada.
Na verdade, ele vivia para o seu trabalho e para a sua esposa, Petra Hal.
A união dos dois era considerada perfeita, Petra era uma mulher doce e gentil, simplesmente admirava o marido acima de tudo, e era uma dentre os vários pacientes que foram salvos pelas mãos do homem com quem estava casada há alguns anos, em um transplante de coração. Já Levi era sério, arredio, e não tinha muita paciência para interagir por muito tempo com as pessoas (não era a toa que era cirurgião), mas mostrava seu lado mais afável e gentil diante do temperamento forte e ao mesmo tempo meigo da ruiva.
Moravam em um condomínio de casas daqueles que pareciam uma cidade de interior, onde todo mundo se conhecia e sabia da vida dos vizinhos, e por isso, a notícia de que Petra estava grávida não ficou em segredo por muito tempo. Era uma gravidez de alto risco, mas nem por isso ela foi menos comemorada. Seus vizinhos Grisha e Carla Jaeger fizeram questão de chamar toda a vizinhança para o jantar, que, mesmo Levi não apreciando esse tipo de coisa, teve que admitir que foi divertido.
Mikasa, filha adotada do casal anfitrião, fazia várias perguntas, deixando Petra sem jeito, enquanto Eren ficava entre ajudar sua mãe, Carla, e encostar o ouvido na barriga da ruiva, tentando ouvir qualquer coisinha que fosse. Levi e Grisha assistiam a cena divertidos e conversavam sobre a profissão que tinham em comum, as duas famílias tinham de fato uma afinidade impressionante.
E foi devido a essa afinidade que, quando um fato trágico e inesperado aconteceu, ambas as casas ficaram de luto.
Os meses se passavam e com o avançar da gravidez, Levi assistia interiormente desesperado o estado de saúde da esposa se agravar, teria largado o trabalho para ficar em casa se Eren e Carla não tivessem se prontificado de imediato para se revezar ao lado da gestante sempre que ele estivesse fora.
Mesmo que o moreno convivesse mais com o patriarca da família, devido ao fato de ambos serem médicos — embora Grisha fosse pediatra e Levi cirurgião — e darem aulas na mesma universidade, tinha que admitir que sempre teve mais afinidade com o filho mais novo do casal, Eren. Era um jovem bem barulhento e agitado, mas que conseguia fazê-lo rir de alguma coisa bem idiota que o garoto tinha aprontado mesmo depois de um dia exaustivo de trabalho.
Não costumava se dar bem com pessoas mais jovens, só que o garoto era uma exceção à regra. Nunca admitiria em voz alta, mas, mesmo tendo um carinho enorme também por Carla, que era uma grande amiga da sua irmã Hanji, sentia seu peito aquecido quando chegava em casa e via que era Eren quem estava fazendo companhia a Petra, e sempre encontrava os dois se divertindo de uma forma diferente.
Era como se o adolescente iluminasse o ambiente com sua presença.
Em algumas ocasiões, Mikasa também vinha, e Levi geralmente encontrava os três na sala, com Eren com a cabeça deitada no colo de Petra, e ela e a morena falando sobre diversos assuntos "de mulher", o que era uma cena divertida na sua opinião, principalmente quando Eren resolvia opinar no assunto e acabava por apanhar das duas.
Até que numa tarde ironicamente ensolarada... Levi não encontrou ninguém quando chegou em casa. Até por que... Ninguém mais morava ali além dele próprio.
Ainda de madrugada, Petra entrou em trabalho de parto, mesmo ainda estando alguns meses longe do fim da gestação. Rápido e eficiente, Levi a levou para o hospital mais próximo, onde foi imediatamente atendida.
Mas nada, nem ninguém, nem todo o esforço e dedicação empregados... Pode evitar a tragédia.
Tanto a mãe quanto o bebê faleceram.
E naquela tarde, quando chegou em casa, colocou os pés na varanda em frente a porta, Levi quase não teve coragem de entrar.
Não suportaria ficar sozinho naquele lugar tão cheio de lembranças dela... E de seu filho também, que nem chegou a conhecer, mas já amava profundamente.
As lágrimas que vinha segurando até agora rolaram livremente sobre o rosto de pele pálida e feições bem desenhadas. Suas mãos tremiam como se estivesse sofrendo de um avançado grau de hipotermia... Porém era seu coração que estava gelado.
Respirou fundo, engolindo um grito de dor que rasgava sua garganta e abriu a porta.
Nem teve tempo de estranhar o fato de ela já estar destrancada e foi envolvido por um abraço forte e caloroso.
Eren.
Não conseguiu mais resistir, abraçou o garoto de volta e se permitiu chorar como há décadas não fazia. Ambos se deitaram no sofá e Levi se encolheu nos braços do mais novo, chorando e soluçando sem se importar com o resto do mundo, apenas com a dor que sentia e lhe dilacerava o peito, só se acalmou quando o céu já estava escuro e o cansaço foi mais forte, arrastando-o para um sono pesado e sem sonhos.
Eren permaneceu ali, acariciando os fios negros do outro e sentindo parte de si também se quebrar. Amava Petra como uma segunda irmã, e nem sabia calcular até onde iam seus sentimentos pelo homem que repousava em seus braços com os olhos vermelhos e inchados e o rosto marcado pelas lágrimas. O garoto sofria pela dor dos dois.
No dia seguinte, começaram as visitas... Hanji, a irmã do moreno, Erwin, amigo de infância dele e cunhado, quase todos os vizinhos, Mike, amigo da universidade e um dos médicos que tentaram salvar Petra, Carla e Grisha, até mesmo Mikasa... Mas Levi não recebeu absolutamente ninguém, apenas pediu silenciosamente a Eren, com um olhar de cortar o coração, que os dispensasse. Passou o dia inteiro na cama, deitado do lado em que a mulher dormia e com Eren ao seu lado.
Agradecia do fundo do coração por ter ele ali junto consigo, ou sentia que ia simplesmente enlouquecer de tanta dor.
Durante o enterro e o velório não trocou mais do que duas palavras com ninguém, apenas com o garoto pela manhã que o ameaçou dizendo que se não colocasse nada no estômago iria gritar até ficar mudo e consequentemente matar o mais velho de enxaqueca.
Para o pai de Petra, não disse absolutamente nada. Ambos tinham tanta dor no olhar que não precisavam de mais do que isso para se entenderem.
Quando a segunda-feira chegou, Eren teve que se separar do outro com o coração na mão, afinal, ainda tinha a escola para ir e também tinha ciência de que Levi precisaria de um tempo sozinho. Pediu milhões de vezes para a mãe que ficasse de olho no vizinho, tinha medo de que ele fizesse alguma besteira e sabia que ela estava tão preocupada quanto ele.
Durantes as aulas Eren não conseguia se concentrar em nada que estava sendo dito em frente ao quadro. Só lembrava-se daqueles olhos cinzentos tão tristes... Aquela tristeza doía em si tanto quanto a morte da amiga. Lembrou-se de uma tarde em que a ajudou a caminhar até o quintal de casa e cortou melancia para comerem, adorava passar o tempo ao lado de Petra, e sempre conversavam sobre várias coisas, mas na maioria das vezes o assunto era seu marido.
" — Você e o meu Levi se dão tão bem, parece que se conhecem de uma vida passada. — A ruiva riu da expressão sem graça do garoto que comia um pedaço maior que sua cabeça.
- Poderia me prometer uma coisa, Eren? — Perguntou acariciando os cabelos castanhos que estavam sempre bagunçados. — Se... Se eu não resistir... Você cuida dele pra mim?
- Pergunta idiota. Você vai resistir, e eu vou ajudar a cuidar de vocês dois também — Falou apoiando a mão carinhosamente na barriga da mulher. — Eu posso cuidar do Levi-san quando você estiver no hospital com o bebê. Ah, aquele baixinho vai ficar uma pilha de nervos... Mas eu vou ficar aqui mesmo que ele queria me espancar com a vassoura. — Riu divertido arrancando uma gargalhada da ruiva."
Respirou fundo, olhando pela janela da sala de aula e lembrando da risada dela...
"Talvez... Ele precisasse lembrar dessa risada também... "
Com esse pensamento, arrancou uma folha do caderno e começou a escrever algo... Que mesmo sem querer acabou tomando a forma de um poema. Enquanto escrevia, lembrava-se dos olhos amendoados e gentis de Petra, do seu sorriso, do modo como ela agia como uma adolescente ás vezes e sempre aconselhava Mikasa romanticamente, de quando ela tentava fazer biscoitos, queimava tudo e fazia piadas depois... Não pensava somente na sua morte sofrida, pensava também em como, mesmo em seu estado debilitado durante a gravidez, ela continuava a mesma de sempre.
Por fim, o poema acabou dando duas folhas.
Não ligou para o tamanho, logo que chegou em casa, passou tudo para folha de ofício e colocou em um envelope branco e foi até a casa dele. Não se surpreendeu de encontrar a porta trancada. Queria entrar, queria ver como estava, queria abraçá-lo, mas de alguma forma sentiu que não era o momento, então apenas passou o envelope por debaixo da porta e saiu.
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Levi sentia-se como se seu mundo tivesse desabado por completo. Não queria fazer mais nada, não queria se levantar e lembrar mais uma vez de tudo que nunca mais teria de volta. Seu peito doía como se um ferro em brasa tivesse lhe atravessado o corpo. Queria morrer, já havia pensado nessa ideia várias e várias vezes, seu pulso ja carregava algumas marcas de suas tentativas paradas na metade, mas algo, uma lembrança, sempre lhe fazia parar antes de ir mais fundo.
Eram aqueles olhos espetacularmente verdes.
Estava deitado na cama, abraçado ao travesseiro que ainda tinha o cheiro dela, quando ouviu alguma movimentação na sua porta. Não reagiu, não se interessava pelo que quer que fosse, não queria largar aquela tristeza que lhe torturava a cada segundo nem tão cedo. Ouviu também algo sendo passado por baixo da porta, mas só de noite que conseguiu juntar forças para se levantar e ver o que era.
Uma carta. Uma carta dele.
Abriu e se sentou no sofá para ler, afinal, já estava há um bom tempo sem comer e suas pernas fraquejavam. Não conseguiu se impedir de chorar mais uma vez a cada linha que lia, de uma forma simplista, mas ao mesmo tempo encantadora, o garoto lembrava de como sua Petra era uma criatura bela, por dentro e por fora.
Teria adorado ler aquilo... Se ela ainda estivesse viva.
Rasgou a carta em quatro pedaços, mas não teve coragem de jogar fora, então guardou-os numa caixa qualquer onde não pudesse vê-los e voltou ao sofá, sentindo-se péssimo.
O sofá ainda tinha o cheiro dele, e de alguma forma isso o acalmou um pouco, conseguindo até mesmo dormir, coisa que não fazia desde que se despediu do garoto.
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No dia seguinte, logo que acordou, a inspiração lhe veio como um sopro e escreveu tudo antes mesmo de se levantar da cama, colocando em outro envelope enquanto fazia uma nota mental para comprar mais daqueles. Quando saia para ir pra escola, passou na casa do vizinho e dessa vez empurrou o envelope pela pequena fresta da janela do seu quarto.
Passou o dia pensando em qual seria a reação de Levi quando lesse, e quanto mais pensava nisso, mais lembrava de cada trejeito, cada pequeno traço único da personalidade do moreno. O jeito irritadiço e sério, o olhar que falava mais do que um milhão de palavras, os lábios finos que se curvavam em sorrisos discretos... Tantos detalhes.
Para Eren, Levi era feito de pequenos e minuciosos detalhes, organizados e unidos de forma perfeita, que o fazia especial de várias formas.
Na volta da escola, comprou mais envelopes e também papel de carta em uma livraria perto da escola. Tinha mais algumas ideias na cabeça, e quando chegou em casa acabou escrevendo sobre o próprio Levi. Se sentia um pouco sem graça enquanto lia o próprio trabalho, havia ficado um poema muito emocional e descritivo, mas... Mesmo assim decidiu entregar.
Começou a fazer as atividades acumuladas que tinha da escola, pensando sobre um novo tema para escrever enquanto resolvia equações quando seu celular vibrou em cima da escrivaninha.
Verificou o aparelho imaginando que seria uma mensagem de seu amigo Armin, quando se surpreendeu com o que viu.
De: Levi 18:37
Quero me deixe em paz Eren, falo sério.
Passou um momento em choque, lendo e relendo a mensagem. Os olhos verdes começaram a marejar involuntariamente. Suas mãos tremiam segurando o aparelho.
Olhou para o envelope em cima da sua mesa com pesar.
Será que... Estava magoando o outro sem saber?
Respirou fundo algumas vezes e saiu pela janela do quarto mesmo, indo até a casa do vizinho. Bateu na porta uma... Duas... Três vezes, e não obteve nenhuma resposta. Pensou em gritar, mas tinha medo de acabar chamando a atenção da vizinhança toda, incluindo sua mãe que ia lhe arrastar dali pela orelha.
Decidiu dar a volta na casa até a janela do outro. Estava trancada e com as cortinas fechadas, mas... Ainda havia aquela pequena fresta por onde tinha passado o envelope antes. Subiu em uma de um dos anões de jardim da Petra até que seus olhos estavam na altura da abertura e espiou.
Levi estava lá, quieto como um boneco de cera. Não podia ver direito, mas ele parecia ver alguma coisa que tinha na mão, seriam fotos? Resolveu não pensar nisso, se concentrando no seu olhar... Parecia tão desolado, tão assustadoramente desolado que Eren nem teve coragem de chamar sua atenção nem nada.
Apenas chegou em casa e pegou outro papel de carta e desabafou.
Queria que Levi soubesse que não estava sozinho, que ele visse que tinham pessoas que o amavam incondicionalmente, queria que ele soubesse o quão forte era, e que iria superar a tristeza e se manter de pé devido as boas lembranças, queria lhe dizer tantas coisas! Derramou seu coração naquelas palavras, chegando a chorar enquanto escrevia, fazendo com que algumas marcas de lágrimas ficassem no papel, mas não se importou.
Quando terminou, pegou os dois envelopes, foi até a casa do moreno e os passou pela fresta da janela.
Não conseguiu dormir naquela noite com aquele olhar que havia visto na cabeça. Ficou deitado olhando para a janela, esperando o dia amanhecer... Até que na madrugada viu uma movimentação de luzes na casa vizinha e logo foi espiar.
Levi tinha ligado a luz do quintal, andou até onde ficava a janela e tirou o anão de jardim do lugar onde Eren o havia esquecido, colocando banquinho no lugar, mais espaçoso e com mais segurança para subir. Eren apenas riu do jeito do outro de demonstrar o que sentia.
Ao invés de voltar para a cama, voltou para a escrivaninha e escreveu sobre gentileza e sobre como nem tudo parece o que realmente é. Escreveu sobre tantas coisas que perdeu as contas de quantos assuntos abordou. Sentia falta de conversar com o outro, sentia falta do seu calor, dos olhos cinzentos... Até mesmo de quando ele reclamava por Eren estar comendo pizza com a mão.
" Como você faz falta!"
Suspirou pesadamente e acabou chorando outra vez naquele dia, debruçado por cima do papel, até pegar no sono já quase de manhã.
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Tinha acordado pela manhã com o garoto lhe passando outra carta por baixo da porta, o que o irritou profundamente. Por que ele o lembrava do quanto a amava justamente agora que ela tinha ido embora?!
Mesmo assim, abriu o envelope e leu, de certa forma matava a saudade do jeito doce e atrapalhado do garoto, embora seus poemas parecessem bem maduros.
Dessa vez, mesmo falando de Petra, as palavras usadas, a letra, o modo como as frases eram empregadas... Tudo demonstrava uma imensa preocupação e Levi não soube bem como lidar com aquilo.
Não queria que Eren pensasse nele, tinha plena ciência do quão destruído estava por dentro, e se permitisse que o garoto se aproximasse, só iria puxá-lo junto para o buraco. Levi havia acabado de perder uma parte significativa da sua vida inteira, do seu passado, do seu presente, e mais ainda, do seu futuro.
Sentia-se despedaçado, mas pior ainda era imaginar o mal que faria ao garoto se ele continuasse a se preocupar com alguém que já não tinha esperança alguma.
Já tinha escurecido quando tomou coragem para se levantar de onde estava, no seu habitual coma depressivo que durava dias e noites. Olhou para uma das várias fotos que Petra fazia questão de manter no móvel da sala, em uma delas, estavam ela e Eren dançando alguma coisa não identificada pelo moreno que tirou a fotografia.
Lembrou-se dos dias em que Eren se recusou a sair do seu lado, logo depois da morte dela. Não queria vê-lo tão triste como estava.
Enviou-lhe uma mensagem, mais fria do que qualquer coisa que já lhe disse alguma vez na vida e logo em seguida voltou a desligar o celular.
Estava feito, o garoto ia pensar que estava incomodando realmente e parar de escrever pensando em si.
Ótimo.
Era exatamente o que queria.
Mas por que... De repente se sentiu tão sozinho?
Passou o dia sentindo seu coração se dilacerar continuamente. Deitou-se na cama e lá permaneceu encarando algum ponto cego, como um cadáver. Era exatamente assim que se sentia, como se tivesse morrido junto a ela.
Ouviu o garoto bater á porta, já imaginava que ele fizesse isso. Ele bateu várias vezes, chamou algumas e Levi sentiu-se ainda pior quando ouviu o tom choroso da sua voz. Não respondeu, ficou apenas como estava, sentindo-se mais morto a cada segundo.
Até que dois envelopes caíram da sua janela.
Primeiramente tomou um susto. Como diabos o garoto tinha conseguido enfiar aquilo por ali?!
Como se sua respiração tivesse voltado ao corpo quase morto, se levantou e começou a ler as cartas com uma avidez que o surpreendeu. A primeira falava sobre si mesmo, e não soube descrever o que sentia enquanto lia. Pôde jurar que seu coração deu uma breve pausa, se acalmando um pouco de toda aquela dor insuportável. Se estivesse em melhores condições poderia ter rido de algumas coisas que o mais novo citou ali, que eram verdadeiras e o próprio Levi não tinha notado sobre o próprio temperamento.
Já quando leu a segunda carta... Sentiu o peito pesar quando viu as marcas de lágrimas no papel. Aliás, o próprio papel já mostrava o trabalho que o remetente teve de procurar o papel mais agradável para quem fosse ler, e ainda por cima o envelope. Eren sempre tinha tido esse comportamento atencioso consigo.
Quando viu o conteúdo... Quase ouviu a falecida esposa sussurrar em seu ouvido " Ele gosta mais de você do que imagina..." Imaginava o garoto escrevendo aquilo, imaginava aqueles sentimentos em seus olhos.
Sorriu em meio ás lágrimas. Sentia-se mais leve.
Queria agradecer ao garoto por isso, mas ainda não se sentia pronto para falar com ninguém.
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Nesse ritmo, passaram-se dois meses. Por dois meses Levi se recusou a falar com quem quer que fosse, o que rendeu várias visitas desesperadas da sua irmã a casa da família Jaeger, quase sempre com o marido Erwin com quem Eren sempre passava algum tempo conversando. O garoto até pensou em falar das cartas quando viu Hanji, sempre tão alegre, aos prantos, mas... O que iria dizer? Não tinha noticia de Levi também, só tinham algum mínimo contato indireto vez ou outra, como da vez em que o moreno deixou um livro de poesias que achava — e acertou — que o garoto fosse se identificar no banco que tinha colocado ao lado da janela.
Erwin havia tentado arrombar a porta da casa do outro uma vez, mas o menor simplesmente colocou um armário em frente a ela e lhe mandou uma mensagem "pouco educada" ameaçando chamar a polícia. Hanji já passou tardes gritando na frente da janela do outro e Grisha insistindo pelo celular ao mesmo tempo. Mikasa já ameaçou pichar a casa caso ele não saísse... Todos insistiam de algum modo, mas Eren permanecia quieto.
Escreveu alguns textos e poemas sobre cada um ter o seu tempo e que respeitaria o dele, tentou mostrar de todo o coração que também sentia sua dor, e que a cada dia que não o via, tudo ficava mais cinza a sua volta. Mas gostava de cinza, lembrava seus olhos.
Depois de inúmeras tentativas falhas, todos acabaram aceitando a escolha do moreno. Por fim, tudo indicava que Levi jamais superaria a morte da esposa, e que demoraria a voltar a se relacionar com o mundo outra vez.
Só de pensar nessa possibilidade, Eren sentia algo dentro de si morrer. Lembrava-se do olhar que viu daquela vez em que se atreveu a espiar... Não conseguia imaginar como viveria sabendo que o outro teria aquele olhar para sempre.
Era perceptível o quanto Eren vinha se tornando mais apático a cada dia sem a presença do outro. A voz animada e jovial ia se apagando gradativamente assim como o olhar determinado... Grisha chegou até mesmo a suspeitar de alguma doença, mas era apenas uma desculpa para não ver como o problema de seu filho parecia sem solução.
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Sete meses se passaram desde a morte de Petra.
Nesse período, Levi viajou, contratando alguém para arrumar a casa enquanto estivesse fora e, pasmem, encontraram o lugar tomado de poeira, coisa que o médico tinha um verdadeiro horror. No fundo, Eren não se surpreendeu, afinal, como mais estaria o lugar depois de todo esse tempo trancado? Só via Levi sair vez ou outra durante a madrugada para ir em algum supermercado ou caixa 24h.
Quando o moreno voltou, uma semana depois, haviam quase trinta cartas embaixo da sua janela. Eren tinha tido vários temas para escrever, em sua maioria tristes, mas havia um, dentre todos, bem inusitado.
" Estou escondendo um cachorro no seu quintal, não o maltrate ou paro de escrever, me ouviu? Embora eu não ache que seja uma ameaça válida. Eu sei que você não quer conversar com ninguém, então encontrei uma companhia que não conversa. "
O moreno sorriu bobamente ao ver o bilhete que, diferente dos outros, estava do lado de fora de uma carta, em um postit.
Foi até o quintal encontrando uma casinha improvisada, com uma tigela de água e comida do lado de fora.
- Cachorro? — Chamou-o estranhando o som da própria voz, devido a falta de uso. Tinha viajado para um lugar completamente deserto, onde Petra queria levar seu filho quando nascesse, para despejar as cinzas da mulher, logo, não tinha falado com ninguém.
Pouco depois do seu chamado, saiu da escuridão uma criaturinha sapeca e peluda que logo começou a pular nas suas pernas. Era um filhotinho de Pastor Alemão.
- Acabei de pensar no nome perfeito pra você.
" Como eu poderia maltratá-lo se essa coisinha é a sua cara, Eren? "
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Hoje Eren havia acordado especialmente mal. A ausência de Levi havia o afetado de uma forma que nunca imaginou. Sentia-se sozinho, perdido. Mesmo que os dois não conversassem mais, vê-lo sair até a varanda de madrugada, ou simplesmente saber que ele estava na casa ao lado, já tornava tudo mais fácil de suportar.
Não sabia para onde ele tinha ido. Ninguém sabia, nem mesmo a irmã. Erwin até desconfiava, mas mesmo assim ainda não era uma certeza. Eren só queria que ele voltasse logo, o mais rápido possível.
Não conseguiu comer nem dormir direito nos sete dias em que ele estava longe, mas em compensação escreveu bastante. Estava no comecinho do outono, queria ver felicidade naquela estação como sempre via, mas estava difícil. Acabou escrevendo muito sobre o mundo no geral, sobre as pessoas, sobre as estações, sobre o friozinho agradável, sobre a cidade... Queria escrever sobre qualquer coisa que não fosse sua tristeza, de modo algum! Imagina se acabasse deixando Levi ainda mais triste?
Achou um assunto que realmente lhe agradava: As árvores e as estações do ano. A forma como elas morrem e depois acordam. Via Levi daquela forma, e queria que ele acordasse logo de toda aquela melancolia.
Hoje, tinha decidido retratá-las de outra forma. Saiu de casa levando em sua mochila algumas tintas, pincéis, papel para desenho, os papéis de carta e algumas canetas. Estava de uniforme, mas desviou completamente do caminho da escola — mesmo ouvindo a Mikasa dizer que iria denunciá-lo logo que chegasse em casa — indo para o parque.
Chegando lá, sentou-se na grama e observou tudo por um momento... As pessoas correndo para se exercitar, as crianças se divertindo, os cachorros pegando discos... Desejou profundamente que o outro estivesse do seu lado agora, e com esse pensamento, escreveu outra carta.
As folhas voavam, e o dia mesmo nublado, estava lindo. Cinzento da cor daqueles olhos afiados.
Começou a abrir as tintas. Aquilo precisava ser retratado.
Seus traços eram irregulares e dramáticos, como se você observasse a paisagem a partir da superfície de um lado parado, que só ondulava um pouco vez outra. As cores eram sóbrias, mesmo as folhas multicoloridas que se espalhavam pelo chão, mas o cinza que tomava grande parte da paisagem parecia vibrar no papel.
Fez alguns desenhos também, mas acabou descartando a maior parte, ficando apenas com um feito com coleção de madeira, que retratava um casal no parque. Eram duas garotas, colegiais, provavelmente matando aula assim como ele. Uma de cabelo preto e curto, e outra de longos cabelos castanhos. Eram realmente bonitas.
As abordou educadamente e pediu para desenhá-las, dizendo que as pessoas ficavam mais belas quando apaixonadas.
- Ah, então sou obrigada a dizer que você está lindo garoto. — A mais baixa respondeu ao risos, deixando o garoto completamente atrapalhado com as próprias ideias, fazendo a outra de cabelo castanho gargalhar por um bom tempo.
Havia desenhado as duas abraçadas. A mais alta abraçava a morena por trás, em um gesto protetor e carinhoso, enquanto a olhava como se fosse a única coisa que importava em todo o universo. Olhar que era retribuído pela baixinha.
Depois de agradecer as duas, recolheu as pinturas que tinha deixado para secar e voltou pra casa correndo. Sentia seu coração acelerado por algum motivo. Seria o que a garota falou? Sentia-se inquieto só de pensar.
Chegou em casa, mas ao invés de entrar, foi até a do vizinho estranhando o fato da janela da sala estar aberta. Seu coração quase saiu pela boca. Pensou em entrar, ou em chamar pelo nome do outro. Sentia tanto a falta dele, de olhar de perto para aqueles olhos...
Suas mãos suaram, sua respiração acelerou.
No fim, apenas jogou os desenhos e a carta pela janela e correu para casa.
Entrou no quarto e se jogou na cama. Sua mãe tinha saído, seu pai estava trabalhando — como na maior parte do tempo — e Mikasa ainda estava em aula, então estava sozinho.
Olhou para o celular que tinha esquecido em casa e resolveu ver se tinha alguma novidade. Haviam algumas mensagens de Armin sobre o assunto da aula, várias ameaças de Mikasa por ter faltado um assunto importante, e uma de Levi.
Seu pobre coração que tinha acabado de se acalmar voltou a acelerar vertiginosamente.
Abriu a mensagem.
Era uma foto. A foto de um pingente de cachorro com um nome gravado.
"Eren Jaeger"
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Levi se equilibrava em cima de um banco enquanto pregava os desenhos do garoto na sua sala, o que era uma tarefa árdua já que Eren não parava de lamber seus pés...
Parou um segundo para pensar em como era estranho pensar nisso.
Vinha se divertindo bastante com aquele cachorro nesses últimos dias. Isso, se divertindo! Nunca pensou que fosse voltar a fazer isso alguma vez na sua vida! Ter colocado o nome do garoto no cachorro foi uma das melhores ideias que já teve.
Principalmente em situações como: "Eren, não coma o papel higiênico", "Eren, pare de cheirar meu sapato.", "Eren, o que você está fazendo dentro do armário?".
Sim, imaginava o garoto fazendo aquilo e já se pegou rindo algumas vezes.
Não pensava que sentiria tanta falta de conviver com alguém, mas aquele cachorro acabou lhe mostrando novamente a graça de interagir com alguma coisa vida.
" Me pergunto se o garoto já planejava isso quando teve a ideia de me dar um cachorro."
Quando voltou de viagem, Levi finalmente tomou coragem de arrumar as coisas da esposa. Fez uma faxina na casa inteira, uma vez que a pessoa que tinha contratado era completamente incompetente, e no quarto que seria do bebê, acabou arrumando das coisas que seriam dele, e também as de Petra.
Sempre pensou que aquele momento seria terrível para si, mas não foi o que aconteceu. Sentia falta dela, isso nunca ia mudar, mas não era mais aquele vazio, como se sua vida tivesse acabado. Acabou lembrando de coisas boas, das trapalhadas que ela fazia na cozinha, do primeiro encontro dos dois, e também teve que correr atrás do Eren várias vezes já que o safado do cachorro estava sempre pegando alguma coisa.
E falando em correr atrás do Eren... Durante esse tempo, acabou percebendo como o garoto lhe fazia falta.
Tinha até se irritado com a faxineira por ter colocado o sofá no sol, pois agora o móvel não tinha mais o cheiro dele.
Enquanto arrumava as coisas da mulher, acabou encontrando a caixa onde tinha escondido a primeira carta que Eren lhe mandou. Colou de volta todos os seus pedaços cuidadosamente e a leu outra vez, e agora, percebendo a real intenção do garoto de fazê-lo se lembrar dos momentos bons. Guardou a carta junto com as outras, em uma caixa de madeira onde as tinha organizadas por ordem de data.
Terminou de pregar os desenhos na parede e sentou no sofá, logo tendo uma coisa peluda e carente em seu colo, pedindo carinho. Ficou acariciando seu pelo distridamente, lembrando da textura daqueles fios castanhos rebeldes.
Olhava as imagens na sua parede, captando os sentimentos do garoto em cada uma. A melancolia e a beleza do outono, em uma pintura onde o cinza predominava de uma forma que lhe impressionou, uma outra imagem do parque inteiro, também pintada, que lhe passava um sentimento de solidão, de falta, mas ao mesmo tempo de conforto, e a terceira, era um desenho de duas garotas.
A posição não era nada muito comprometedor, um abraço carinhoso, mas o olhar... Ah, aquele olhar denunciava tudo. A garota mais alta, de cabelos castanhos e olhos castanho-esverdeados olhava a baixinha morena de olhos azuis elétricos como se todo o seu universo estivesse resumido ali.
Levi sentiu seu coração acelerar um pouco.
Era a primeira vez que seu peito apertava pela falta de alguém que não fosse a esposa.
Procurou a carta do garoto e encontrou um outro poema. Um soneto sobre a importância de algumas coisas na vida. E logo no verso, mais uma meditação sobre as estações, principalmente sobre como algumas coisas passam e outras ficam, como as folhas vão e voltam, mas as árvores permanecem de pé.
Era algo muito belo de se apreciar, porém... A solidão e melancolia nas palavras fez os olhos cinzentos marejarem pelo que ele prometeu a si mesmo que seria a última vez.
- Também sinto sua falta Eren... — Sussurrou logo sendo atacado por uma série de lambidas bem molhadas no rosto. — Não de você coisa peluda! Urgh, sai daqui, tá me babando inteiro.
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Quando sua mãe chegou e o encontrou em casa, os dois acabaram tendo uma conversa bem séria que Eren sabia que iria odiar desde o início. Começaram falando do fato dele ter faltado a aula sem avisar e sem motivo, depois sobre ele não ter comido nada descente o dia todo, o que levou ao assunto do seu exame de sangue que acusou um início de anemia — coisa que o garoto nunca tinha chegado perto de ter — e por fim, no provável motivo da piora na saúde do garoto: O isolamento de Levi.
Eren nunca percebeu, mas todo esse tempo, sua mãe sabia das cartas. Não sabia sobre o que falavam, jamais invadiria a privacidade de seu filho dessa forma, porém, via o quanto ele sentia a falta do outro mais do que ninguém. Tinha até mesmo noção do que ele estava sentindo pelo mais velho — algo que nem o próprio percebia — e não o condenava em momento algum, entretanto... Era uma mãe, se preocupava com ele acima de qualquer coisa, e por isso tomou a decisão que deixou o garoto sem chão.
O proibiu de continuar com as cartas.
Carla teve que ser forte para encarar o ataque de nervos que sabia que seu filho teria. Ele ficou bravo, reclamou, gritou, destruiu alguns vasos, argumentou de todas as formas, e no fim, acabou chorando no colo dela e pediu — implorou — para apenas escrever ao menos uma última carta se despedindo. Ela deixou com o coração apertado.
Tinha sofrido também pela morte de Petra e o isolamento de Levi, também pela sua melhor amiga e irmã dele, Hanji, que não conseguia conversar com o irmão mais novo e estava á beira de demolir a casa, mas perceber que estava perdendo seu filho a cada dia, vê-lo com um olhar cada vez mais triste, mais distante, estava acabando consigo. Faria o que estivesse ao seu alcance para, ao menos, amenizar o sofrimento do filho.
Naquela noite, Eren passou a noite acordado, escrevendo e chorando... Chorando e escrevendo. Estava péssimo.
Não queria parar com as cartas por nada no mundo, não queria destruir a expectativa de alguma resposta, não queria perder aquele sentimento quentinho e acolhedor de que o outro estava lendo o que escrevia, não queria se sentir ainda mais distante da pessoa que havia percebido que amava.
Ah, vale recordar o choque que foi ter sua própria mãe lhe abrindo os olhos para o que sentia.
Tinha medo de que Levi pensasse que o havia abandonado, ou que se sentisse sozinho, ou que não tivesse ninguém pra conversar...
Começou a escrever várias vezes, desistindo e começando do zero, em um ciclo agonizante que já estava o deixando frustrado.
Até que lembrou de algo que nunca havia feito.
Naquela carta, ele não falou sobre o outro, nem sobre o mundo aqui fora ou sobre sua família. Pela primeira vez... Falou sobre si mesmo.
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Naquela manhã Levi tinha acordado surpreendentemente disposto. Abriu todas as janelas, fez café da manhã, e até deu algumas torradas para o cachorro.
Estava decidido a sair daquela escuridão que estava vivendo.
No dia em que foi libertar as cinzas da esposa, teve a clara impressão de que ela esteve ali por um momento, e pode então se despedir adequadamente. Não iria mais focar a sua vida nisso, não poderia viver de sonhar o que poderia ter sido.
Não iria esquecê-la, nem deixar de amá-la, iria viver. E queria viver sempre do lado da pessoa que o manteve são por todo esse tempo.
Levi não queria imaginar o que teria acontecido consigo se não fossem as cartas, as palavras do garoto que pareciam vir sempre na hora certa, a sua maneira de mostrar pra ele o mundo para o qual o seu coração estava se fechando, e a forma quase milagrosa como a dedicação de Eren conseguiu fazê-lo se sentir vivo outra vez.
Em contra partida, Eren nem havia acordado naquela manhã. Só fez acalmar a crise de choro e lavar o rosto. Se arrumou para ir a escola, pegou a sua carta e desceu sem falar com ninguém. Mikasa ainda pensou em arrastá-lo para a mesa do café, mas vendo o estado do filho, Grisha a pediu para deixá-lo em paz por enquanto e forçá-lo a comer na escola.
Eren sentia-se gelado, frio, como um zumbi. Andava sentindo a cabeça doer a cada passo, as pernas fracas e o corpo mole.
Aquela era a última carta.
Subiu os três degraus da escada da casa do outro com alguma dificuldade, e se surpreendeu quando encontrou a janela aberta. Não só isso, havia barulho, cheiro de comida, e... Eram seus desenhos ali na parede?!
Segurou a carta mais firme nas mãos trêmulas, sentindo os olhos já inchados marejarem.
Bateu três vezes na porta.
Seu coração acelerou como nunca antes, bateu forte como não batia mais todos esses meses.
Um calafrio atravessou o seu corpo quando o trinco mexeu.
A porta se abriu e Eren teve certeza de que iria morrer ali mesmo.
Os olhos cinzentos encararam os verdes.
As lágrimas escaparam pelo rosto do garoto.
- L-Levi...? — Sua voz tremia, seu corpo todo tremia. Não acreditava no que estava vendo.
- Também senti sua falta. — Respondeu o moreno com a voz rouca, sentindo seu interior esquentar e seu coração descompassar ao finalmente se deparar outra vez com aqueles olhos.
Sem mais palavras, Eren simplesmente se lançou nos braços do outro, chorando compulsivamente enquanto o abraçava como se nunca mais fosse soltar em toda a sua vida, enterrando seu rosto no pescoço pálido do menor, sentindo seu cheiro inebriante, sua pele quente, sua presença, seu coração batendo também acelerado.
Levi o abraçou de volta na mesma intensidade, dando alguns passos para dentro de casa, até os dois acabarem no sofá, e a cena daquela tarde trágica de repetiu, só que dessa vez era Eren chorando e Levi o abraçando como se fosse protegê-lo do mundo.
Demoraram uns bons minutos assim, Eren se recusava a soltá-lo, mesmo com os braços já dormentes. O moreno o abraçava de volta, fazendo carinho em seu cabelo até que se acalmasse, se preocupando com o estado do garoto que parecia anormalmente pálido e com olheiras acentuadas.
O que tinha acontecido com ele durante todo esse tempo?
- N-Nem acredito que você está a-aqui. — Murmurou fungando, finalmente parando de chorar e encarando o rosto do mais velho com clareza.
Sentia tanta falta de cada pequeno traço daquele rosto! Os olhos afiados, as sobrancelhas finas, os lábios estreitos e que se curvavam só um pouquinho de lado quando ele sorria... Sentia tanta falta! E vê-lo ali, tão perto, sentir o seu toque, o deixava tão feliz que mal podia suportar.
- Você me fez continuar aqui, pirralho. — Sentiu a garganta fechar um pouco, tinha saudade de chamá-lo assim. — E eu não vou mais embora. — Completou sentindo as mãos trêmulas pousarem em seus ombros.
- Eu não ia deixar de qualquer maneira. — Eren sorriu, sorriu abertamente daquela forma que tinha até se esquecido de que era capaz.
"Você não deixou. Não me deixou em momento algum."
Levi estava completamente admirado com a visão a sua frente. Levou uma das mãos ao rosto do garoto, sentindo sua pele quente, descendo o toque até a nuca do mais novo, fazendo um carinho lento no seu cabelo. Eren parecia tão frágil ali, como se fosse quebrar se fosse embora.
Queria abraçá-lo. Queria guardá-lo junto ao peito e nunca mais deixá-lo ir.
Durantes esses meses, sempre desejou ver as palavras daquelas cartas refletidas naquele mar de verde que eram seus olhos.
Agora via cada uma delas, e milhares de outras.
Em uma ação inédita, repousou seus lábios sobre a testa do garoto, apertando o abraço até que ele parasse de tremer.
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Naquele mesmo dia, outra festa aconteceu na casa da família Jaeger.
Carla havia ido a casa do vizinho, se perguntando o que tinha acontecido, e acabou chorando e abraçando Levi também, arrastando-o para sua casa, onde viram um Grisha e uma Mikasa emocionados como raras vezes acontecia.
Hanji também foi chamada, e ela quase assustou toda a vizinhança com o berreiro que abriu quando viu o irmão, seu marido Erwin então, saiu da pose de homem sério e derreteu como uma manteiga.
E foi o único dia em que não viram Levi reclamar de excesso de contato com absolutamente ninguém. Fica a dúvida se foi a culpa por ter preocupado todos, ou se foi por que também sentia falta de todo mundo.
Quando já era tarde da noite, restaram apenas Carla, Eren e Levi na sala. Grisha tinha um plantão, Mikasa foi dormir, assim como Erwin e Hanji que acabaram passando a noite por lá, principalmente a castanha que tinha medo de se afastar outra vez do irmão e não poder mais vê-lo.
Carla contava tudo o que tinha acontecido durante esse tempo, Levi se inteirava das novidades e, acima de tudo, se preocupava com o estado debilitado do garoto que dormia em seu colo, colocando em dia todo o sono perdido.
Quando entraram no assunto das cartas, Levi decidiu deixar o garoto que dormia como um morto no quarto e foi com a mulher até a sua casa, contando a ela do cachorro — o que a surpreendeu por completo — antes de ir até o quarto buscar um de seus maiores tesouros, a caixa com todas as cartas.
A primeira reação da mulher foi se assustar com a quantidade de cartas, que eram mais de duzentas, e até pensou em se desculpar, mas quando viu o conteúdo de algumas... Ficou impressionada. Era mesmo seu Eren o autor delas?
- Eu nem sei o que dizer... — Murmurou chocada, se distraindo com o cachorro que, ela teve que concordar, se parecia muito com o Eren humano.
- Eu sei. Quero sua autorização e a dele para publicá-las. — Falou convicto. Seu desejo era imortalizar aquelas palavras, não queria que ficassem restritas a sua caixa. — Pretendo montar um livro com elas. — Falou encarando os orbes surpresos da mulher.
- A minha você tem, e eu concordo com a sua ideia... Só estou meio chocada, não conhecia esse lado dele. — Sorriu desconcertada, seu filho era uma caixinha de surpresas.
- Eu também pretendo entregar a ele minhas respostas. — Comentou guardando as cartas de volta.
- Você respondeu todas? — Indagou impressionada.
- Sim, mesmo tendo ficado com o punho inchado quando cheguei de viagem e tinham mais de trinta embaixo da minha janela. — Respondeu com uma ponta de humor, fazendo a mulher rir.
- E a última? — Perguntou observando o outro lhe devolver o olhar confuso. — A de hoje de manhã. — Esclareceu.
- Ainda não li. — Falou fitando o envelope em cima da mesa de centro.
- Essa eu sugiro que responda pessoalmente. — Falou apoiando a mão no ombro do amigo e se despedindo.
Quando se viu sozinho em casa, Levi abriu o envelope, encontrando um cartão de memória no lugar de papel. Franziu o cenho e foi em busca do notebook para ver do que se tratava. Era um vídeo.
" Oi, Levi..." Começou o garoto parecendo inseguro, falando em frente a webcam. " Er... Eu ia escrever, mas acontece que eu não consigo usar palavras para dizer o que eu estou sentindo, então resolvi gravar por que... Ok, eu não sei por que, espero que funcione." Coçou a nuca, nervoso. " Essa é a ultima carta que eu vou te mandar, mas não é por que eu quero, fui totalmente obrigado! E saiba que mesmo assim eu não vou te abandonar, não vou parar de pensar em você e sempre que eu conseguir enrolar minha mãe, vou te mandar pelos menos um bilhete, não desisto fácil."
Levi acabou rindo de canto com a expressão travessa do garoto.
" Eu queria que soubesse que todo mundo sente sua falta, sabe, o mundo sem você fica sem graça. Lembra da vez que a gente estava numa parada de ônibus, ai chegou uma moça desesperada dizendo que tinham roubado o celular dela... Você estava de péssimo humor no dia, ai perguntou ' te bateram?', ela disse que não, ' te estupraram?', ela negou de novo, aí você ' ah, então não fizeram o serviço que eu mandei completo'. Ah, eu ri tanto lembrando disso esses dias! Mesmo todo mundo dizendo que você é chato, eu sempre gostei do seu temperamento, e sinto falta até dos seus ataques quando via a bagunça no meu quarto agora."
" Você viu os desenhos que te mandei? Sabe, o outono pra mim está sempre tão cinza, e isso só me lembra de você. É cinza da exata cor dos seus olhos, e eu sinto tanta falta de olhar pra eles, então o céu tem matado um pouquinho da minha saudade ultimamente..."
O moreno podia jurar que ouviu o coração falhar uma batida. Olhou para a pintura que estava em sua parede, analisando-a de um ângulo totalmente diferente.
" E o outro Eren?" Parou para rir um momento. " Eu o adotei numa tarde que eu estava me sentindo especialmente sozinho, foi quando você viajou, aí eu lembrei que seu estava me sentindo assim, imagina você? Aí veio a ideia de te dar o cachorro, gostou dele? Tenho certeza que ele gostou de você, mas por que diabos colocou meu nome nele?" Riu docemente mais uma vez.
- Não tem mesmo nenhuma ideia do motivo, pirralho tapado? — Resmungou sozinho, sentindo Eren cheirando seus pés.
" Sabe, eu sempre vejo quando você sai de madrugada e... Queria muito falar com você esse tempo todo, ou pelo menos agradecer o banquinho perto da janela, mas eu tinha tanto medo de te machucar sem querer... Acho que você não gostou muito da minha primeira carta, ai fiquei com medo de fazer mais besteira."
Levi nunca iria admitir, mas sentiu uma bela fisgada de culpa.
" Eu queria que você soubesse que eu sempre vou estar aqui, a um quintal de distância de você, então... Se quiser conversar... Ah, mas que merda eu estou dizendo?! Ok, eu tenho que tentar cortar isso quando for editar o vídeo... Er, de novo. Olha, isso não é um adeus, até por que eu só vou te dizer adeus quando eu morrer, nem que você resolva ficar trancado aí até eu ficar velho e... " Parou, dando um suspiro pesado, tentando não chorar, mas... Não foi muito efetivo. "Ah, droga. Eu só... Doi tanto no meu peito quando eu penso que você está sofrendo, sabe? Eu perdi a Petra e o bebê tanto quanto você Levi, só que te perder também, tá acabando com todo mundo, mas eu sinto que está me matando... Ah, droga, eu tenho que cortar isso depois, ele vai acabar ficando triste quando assistir... " Parou mais uma vez, enxugando o rosto com um lenço de papel.
" Eu só... Queria abraçar você uma ultima vez, e... Eu descobri que... Eu acho que... Euachoqueeuamovocêdeverdade. É isso. Até... Er... Puta que pariu Levi! Por favor, você merece uma vida! Você merece ser feliz então... Por favor... " Respirou fundo. " Se ficar trancado te faz feliz, continue assim, mas se não... Eu te imploro Levi, fique bem."
Fim de vídeo.
Não resistiu. Assistiu outra vez.
Dormiu com aquele "euachoqueamovocêdeverdade" na cabeça.
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Um ano se passou e Eren ainda passava na casa de Levi todo santo dia, só não passava mais tempo por que tinha que estudar e o outro tinha retomado seu trabalho na faculdade, mas viveriam grudados se pudessem.
O garoto havia voltado ao normal por completo, e nem mesmo lembrava aquele garoto de pele doentiamente pálida, olhos vermelhos e tristes de antes. Na verdade, parecia estar ainda melhor, voltando a sorrir e a ser o Eren barulhento de antes. E se um Eren só era muita bagunça, imaginem dois! O cachorro crescia mais rápido a cada dia e logo suas travessuras já estavam corroendo os nervos de aço de Levi que temia pela integridade da sua casa.
Todas as tardes, o moreno ia buscar o mais novo na escola, e então iam ao parque, onde o mais velho se distraia com algum livro e observava os dois Erens brincarem com um frisbee.
Sempre que via o sorriso do garoto, lembrava daquele menino abatido daquele vídeo, que chorava e dizia em meio aos tropeços que o amava.
Nunca soube como reagir àquelas palavras, então nunca deu nenhuma resposta ao garoto. Iria esperar que o tempo lhe dissesse o que fazer... Só não imaginava que o tempo fosse lhe dizer o que não fazer: Ficar longe de Eren.
O livro com as cartas foi publicado e fez um sucesso inesperado e avassalador, foi traduzido para alguns outros idiomas e ganhou uma legião de fãs que iam desde adolescentes apaixonadas até senhoras que se emocionavam com o sentimento com o qual aquelas palavras eram carregadas.
Várias emissoras de TV, sites, blogs e até mesmo roteiristas de filme já procuraram o autor daquelas cartas, mas a pedido do próprio Eren, Levi, Carla, Grisha e Hanji trabalhavam para que permanecesse no anonimato, por mais que gostasse de saber que as palavras que escreveu para aquele que amava tinham tocado pessoas em todo o mundo.
Quando voltaram do parque naquela tarde, Levi decidiu fazer lasanha — o prato favorito de Eren — e ambos abriram uma garrafa de vinho no final, mas claro, o mais velho se certificou de não deixar o mais novo passar da primeira taça, de modo algum. Só não esperava que o garoto fosse começar a fingir que estava bêbado.
Ora, Levi não era bobo para não notar uma coisa dessas...
- Levi... Você cheira tão bem... — O mais novo ronronou, cheirando o pescoço do moreno que não sabia como reagir aquilo.
- Não me faça te acertar um soco, pirralho. — Respondeu com um olhar de advertência que não teve tanto efeito, já que o garoto simplesmente grudou no seu pescoço o resto da noite.
Acabou ligando para Carla, explicando que ele dormiria em sua casa, e ela não teve problemas em aceitar, mas claro, não sem uma brincadeirinha sobre o relacionamento dos dois antes de desligar.
O que podia esperar? Era a melhor amiga da sua irmã afinal.
Acabou levando o garoto para dormir consigo na cama, deitando-se lado a lado, um de frente para o outro, como no dia em que o moreno saiu de seu isolamento e Eren foi a sua casa e ficaram matando a saudade no sofá. Esperava que o mais novo dormisse logo, porém mal fechou os olhos e ouviu a seguinte frase:
- Levi... Eu não acho mais que eu te amo. — Sussurrou baixinho, mas em um tom alto o suficiente para que o outro ouvisse.
O mais velho abriu os olhos surpreso, não apenas com a frase, mas no quanto ela lhe doeu.
- Agora eu tenho certeza. — Completou acanhado, desviando o olhar das intensas orbes cinzentas.
- Bom saber... Então eu finalmente posso dar a minha resposta, não é? — Sussurrou de volta, tocando o rosto corado do menino.
Os rostos se aproximaram lentamente, roçando os narizes antes dos lábios finalmente se encontrarem em um beijo calmo, mas intenso. Era o primeiro beijo do garoto, então Levi foi devagar, explorando a boca do outro carinhosamente, puxando-o para mais perto, sentindo mais do seu calor... Aos poucos, ambos mostravam o que sentiam, avançando devagarzinho, até que juntar só os lábios não era suficiente.
Não sabiam dizer quando foi que as roupas ficaram tão incomodas, ou quando o quarto ficou tão quente, e nem como aquele beijo calmo acabou com um Eren só de boxer no colo de um Levi que praticamente devorava a pele do pescoço do mais novo que gemia baixinho em seu ouvido.
Era como se ambos estivessem para morrer de sede em um deserto, e finalmente encontrassem água. Não conseguiam se afastar nem minimamente. Desejavam mais, mais intensamente, mais quente, mais perto... Nunca era suficiente.
As mãos do moreno percorriam todo o corpo do adolescente, usando do tato para gravar cada pedacinho dele na sua mente, desde o abdômen levemente definido, a cintura, o quadril, as coxas... Eren não estava muito diferente, finalmente matava sua vontade de saber como era sentir aquele corpo no seu, como era arranhar as costas fortes e sentir sua pele se arrepiar embaixo das suas mãos...
Antes que acabassem longe demais, entraram em um consenso mudo de que era hora de dormir, e sem se importar com a falta de roupa, dormiram abraçados, se deliciando com a sensação de sentir a pele do outro na sua.
Não queriam apressar as coisas, afinal, tinham o resto da vida juntos pela frente.
Notas finais
Sinceramente eu gosto de escrever coisas assim, acho tão lindo isso de amar e cuidar de alguém só pelo fato de querer que a pessoa esteja bem.
Espero que tenham gostado, até breve o/
Kissus
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