Cartas para uma Velha Amiga
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa noite, Velha Amiga
Quanto tempo faz desde a última vez... Anos se foram desde que você partiu, e eu temi o dia que você retornaria à mim. Lembro que nos conhecemos quando eu ainda era criança. Você apareceu na minha casa, enquanto eu brincava sozinha no balanço sentindo a brisa quente do verão. Era de tarde. Sua presença me dava forças para continuar balançando e os meus olhos se fixavam no céu azul logo acima. No começo você apenas me acompanhava em casa, brincávamos de boneca, jogávamos bolinhas de gude umas nas outras e liamos as coleções de livros que eu tinha — apesar de ainda não ler muito bem naquela idade. Com o passar do tempo você começou a me acompanhar na escola. Meus amigos e eu fomos crescendo, vendo as coisas mundanas e, pouco à pouco, fomos nos distanciando; mas você estava ali, firme e forte. Mudei de escola no ano seguinte, as coisas mudaram. Os poucos amigos que restaram logo sumiram e então estávamos apenas eu e você. Era a forma que eu tinha para sobreviver àquela selva que era lá fora. No ônibus ou no recreio, era você que eu tinha como companhia. Até que uma jovem se aproxima, também perdida nesta loucura que chamamos de ginásio e ambas se viram sozinha, fazendo com que uma amizade crescesse. Você, enciumada, se distanciou de mim. Ficava mais em casa, raramente conversávamos. Então quando tive o acesso à internet, armou-se a briga. Você foi embora da minha vida; mas não tinha problema, haviam inúmeros amigos que eu apenas conhecia por aquela telinha brilhante que me faziam companhia. Comecei a fazer parte de um círculo de amizades, era gostoso demais para se explicar a sensação. Desde àquela época, não sei mais o que é fazer parte disso. Muitas pessoas estavam por mim, como você também esteve. No entanto, quando as coisas se complicaram, você voltou para me apoiar. Só que eu não esperava que me fizesse dizer aquelas coisas. Pessoas se machucaram. Pessoas se distanciaram. No momento parecia certo, mas hoje vejo que talvez não havia tanta razão para ter dito tudo aquilo. O arrependimento continua aqui também. Ah... Suspiro em lembrar que ficamos novamente a sós. Só que você não esperava que um certo alguém seria mais forte. Enquanto eu ainda lutava contra os outros, esta pessoa viu algo em mim que ainda não compreendo. Ela foi se aproximando aos poucos, tomando o espaço dos outros para si, batalhando contra a sua presença. Foi ai que eu vi que você não tinha razão em tudo. Foi neste momento que me voltei contra você, expulsei da minha vida. Você foi tão persistente. Por céus, como eu odeio você. Agora volto a pensar no meu passado e vejo o quão ruim você me fez. Após anos eu segui em frente, me vendo livre da sua má companhia. Éramos eu e ela. E então, veio ele. De começo eu não me agradava com ele, mas as coisas foram mudando. Os primeiros anos foram incríveis. Houve um novo descobrimento sobre uma nova fase. Fiz novas amizades, mas que, infelizmente, não duraram tanto tempo. Pois novamente, ai estava você, batendo na minha porta pedindo por misericórdia. Eu fui tola. Eu atendi. Você os afastou de mim, você é egoísta. Eu não posso ser só sua, assim como não sou de mais ninguém. Estou tentando lutar contra você, mas esta noite me vejo desistindo desta batalha — como fiz em tantas outras. O céu está nublado lá fora, mas chove aqui dentro. Minha velha amiga, apenas deixo nestas palavras finais um pedido de ajuda. O que fazer quando a solidão bate na porta e te impede de dormir?
Com carinho,
Sua mais fiel amiga.
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