Cartas de um Fracassado
10 Carta 10: Tentando ser alguém.
Notas iniciais
Vovô eu tenho uma piada para te contar.
James Winter está oficialmente tentando ser alguém. É sério. Você estaria se revirando agora caso visse o que eu estou vendo durante essas cinco semanas de namoro entre James e Lorenza.
Você acredita que ele pediu para o pai dela o consentimento para namorar? Eu não acreditei quando Lorenza me contou. A parte mais engraçada é que o pai da Lorenza só deixou que ele a visse nos finais de semana, sob olhares dele. Mas é claro que eles não estão seguindo essa regra.
E mais, sim tem mais! James comprou um buquê de rosas para Lorenza, porque ele derrubou um copo de refrigerante na blusa preferida dela.
Quem diria que James daria tanta importância para uma garota que, a meu ver, seria apenas mais uma nas mãos do irritante James.
Eu achei engraçado toda essa relação deles, mas, ao mesmo tempo, estou contente por isso. Talvez James esteja tentando ser alguém, sabe, alguém que realmente seja importante na vida de outra pessoa.
Eu sei que Lorenza está apaixonada por ele e creio que essa paixão é bem mais forte do que eu sentia por ela. Não sei se será passageiro como foi o meu, mas eu espero que ela possa aproveitar o suficiente.
E por falar em Lorenza e paixão, tenho que te contar da tarde que passei com ela, no campo da cidade vizinha.
Ficamos horas deitados no campo raso, observando as nuvens e falando sobre elas. Lembro que em algum momento Lorenza disse de repente:
— Brandon, obrigada.
Aquela pequena palavra me fez sentar e olhá-la com muita curiosidade.
— Pelo que?
— Bem, por tudo que fez por mim. Sabe, aquele dia no banheiro… Você me deu muita força e no fim das contas meu pai realmente era inocente, você estava certo quando disse que eu precisava acreditar apenas em mim mesma. Por mais que não pareça, aquela conversa fez toda diferença… ou acha que eu saí com você naquela festa porquê? É claro que foi como agradecimento — disse ela, sorrindo levemente, a voz debochada fazia contraste com seu pequeno sorriso.
— Uau. Era só ter dito "obrigado, Brandon querido”, não precisava se forçar a ir numa festa…
— Ei, eu estou brincando, seu idiota — eu ao menos reparei direito no soco leve que ela me deu, sua gargalhada foi a única coisa vibrante aos meus olhos e ouvidos.
— Não tem que me agradecer, Lorenza… Somos amigos, afinal. Você me ajudou muito quando meu avô morreu, esteve lá todos os dias para me animar.
Era verdade. Se você pudesse ver, vovô, creio que agradeceria imensamente a Lorenza, pois ela sempre estava tentando me animar, por mais que não compreendesse exatamente minha dor.
— Eu fiz o que qualquer amiga faria. E lembra aquele dia em que nós roubamos aquele mercado?! Foi a coisa mais idiota que eu fiz na minha vida, mas foi o melhor aniversário que já tive! Você me fez sentir coisas que nunca senti com meus outros amigos. Você é importante pra mim, Brandon. É meu melhor amigo — ela sorriu novamente, pude ver seus olhos encherem-se de lágrimas, não soube porquê mas eu quis chorar também.
— Por que isso está me soando como uma despedida? — questionei a ela, olhando diretamente para o céu nublado.
— Eu não sei… Acho que vamos seguir caminhos diferentes, não é? Você estará a 3,000 km longe daqui, cursando medicina… Enquanto eu estarei no último ano do ensino médio… Acho que no fim, é sim uma despedida.
— Eu não quero que nossa amizade acabe por causa da distância… — minha voz saiu embriagada de tristeza, mas eu não chorei, não dessa vez.
Por mais que eu seja um grande chorão, eu não desabei em lágrimas e mesmo que eu quisesse, sinto que não conseguiria.
— Acabar? Pobre de você, Brandon Winter, porque eu jamais vou deixar de te incomodar… Sabe, ouvir comigo a tarde toda o algum da Beyoncé, puxar você para festas… eu farei tudo isso — seu tom de voz era animador.
— Pensei que você não gostasse de festas.
— Bem, um certo alguém me fez mudar isso — Lorenza olhou-me com aqueles olhos grandes e intensos, eles pareciam sorrir de alguma forma.
Foi uma das tardes mais importantes pra mim. Porque aquela paixão estranha tornou-se numa amizade verdadeiramente forte e aquilo era algo que eu jamais trocaria em toda minha vida. Afinal, Lorenza era praticamente a única amiga que me restara.
Agora, vovô, estou escrevendo essa carta e daqui duas horas parto para a viagem de três mil quilômetros, na cidade que cursarei medicina.
Eu não sei se isso vai dar certo, porque eu realmente sou desastrado. Mas eu quero ajudar as pessoas e para isso me esforçarei verdadeiramente.
Se medicina não der certo, eu irei para enfermagem, porque no fim tudo que eu realmente quero é fazer as pessoas se sentirem bem.
Com carinho, do seu neto fracassado, Brandon.
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