Cartas de mim...
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Fortaleza, 24 de outubro de 1997
A,
Lamento que tudo tenha ido por esse caminho. Mas, eu não posso ficar esperando que você entenda meus motivos. Não mais. Não dá mais tempo. Partir, pra mim, era uma não questão. Ou pelo menos, passou a ser com tantas recusas e tantas besteiras da sua parte. Eu estava esperando que você lutasse pela gente e não que fizesse desistir. São Paulo é uma boa oportunidade. É um sonho. É um trabalho que quero há muito tempo. E que não esqueço nunca de como você esteve lá me apoiando, mesmo que no fundo agora eu saiba que talvez isso seja a contra gosto.
Não pense que não vi sua distância. Não pense que não sei que, quanto mais eu mirava no meu objetivo, menos eu estava perto de você. Eu sempre achei que nosso amor vivia no ato de que a gente fosse sempre ser capaz de se apoiar e se entender. Hoje, posso sentir que estava sozinho nisso. E não existe dor maior do que estar sozinho em algo que sempre acreditou estar junto. Não existe dor mais estranha que amar sozinho. E hoje, ao pegar o ônibus e não te ver lá, percebi que amava sozinho. Porque nem pra se despedir de mim, ou me telefonar antes de sair, ou qualquer outra coisa, você fez.
É uma magoa que vou levar pra vida te amar tanto e, mesmo na separação, me sentir sozinho.
Que você fosse ficar, eu quero prever que sim. Não sou babaca de te forçar a algo que eu sei que no fundo você talvez não quisesse. Mas eu, pelo menos, gostaria que nosso fim tivesse sido tão delicioso quanto nosso começo. Que o seu beijo do fim tivesse o mesmo gosto do beijo do começo. Que o seu olhar de mel tivesse o mesmo brilho no fim e no começo. Eu não gostaria de terminar, mas também não posso fingir que suportaríamos a distância, embora confiasse na sua maturidade.
Eu não estava esperando por você. Eu te dei uma escolha, na verdade: Ou vem, ou fica. Pensar agora só atrasaria a minha e a sua vida. Nós tivemos tempo pra decidir. Nós tivemos tempo pra conversar como dois adultos. Nós tivemos tempo pra fazer as coisas do jeito certo. Mas, indiferença mata. Mais do que isso: Indiferença sufoca. Pra você, a vida parece seguir normal. Sintética. Indiferente. Custava dar valor ao meu e ao seu tempo? Não estou pedindo que você faça loucuras por mim. Só tô pedindo que a gente tivesse conversado. Que a gente tivesse se acertado. Que a gente tivesse... se amado ao ponto de saber se despedir.
Agora sei que não é possível. Não sei o que você está pensando agora. Não sei o que você vai fazer com essa carta. Só, no fundo, gostaria que você soubesse que te amo. Mas também tenho que aprender a ser feliz sem esperar por você e espero que você esteja fazendo o mesmo. Não por mim, mas por você mesma.
Estar com você não foi e nem nunca será um erro, Cachinhos dourados. Cada momento com você foi único. Na sorveteria, nas calçadas, nos novos shoppings, nos jardins do Cocó, no Passeio Público, nas nossas idas a Praia do Futuro só pra ver o amanhecer. Juntos.
Ali, nossos momentos foram infinitos. E quero guardar eles com carinho na minha memória. Mas não espere que sinta rancor por algo que não fiz. Você não pode me culpar por seguir a vida e deve saber que não te culpo por não estar na Rodoviária no fim. Sei que compromissos são finitos. Sei que amores podem acabar. Sei que amores podem restar pouco. Mas também sei que a “não resposta” mata mais do que a resposta. A “não palavra” dói mais do que um sim ou um não. Dói muito mais gritar pra ninguém escutar.
Eu entendo a sua escolha. Só gostaria que você tivesse sido transparente. O que me magoa não foi ter terminado. É ter terminado sem nenhum adeus que fosse. Sem fechamento. Sem definição.
Nossa história não ficará em aberto, cachinhos dourados. Ela terminou quando você preferiu a atitude a conversa. Eu entendo sua escolha. Mas, se você estava esperando uma satisfação minha, mesmo eu tendo tentado conversar com você tantas vezes, não espere. Não estamos mais juntos. Você é só uma das memorias felizes que quero e sei que vou guardar com carinho no fundo da minha mente. Com você cresci, aprendi e vivi um amor que não vale a pena esquecer.
Mas também não vale a pena viver.
Obrigada por ter sido minha. Quero que saiba que, enquanto estive aqui, sempre fui seu. Sempre gostei de ser seu. Sem obrigações, sem amarras, sem questões além do desejo simples de estar com quem mais se ama. Com você aprendi que amar é simples. É um desejo constante pelas coisas pequenas. Os olhares pequenos pro oceano. Os caminhos desenhados nas covas do seu sorriso. Seu inesquecível sorriso.
Vou com a certeza de que estar com você foi uma escolha das que mais fui feliz. E vou querendo esquecer a tristeza de nosso final.
Desejo que fique bem, da mesma forma que desejei você nas madrugadas. E da mesma forma que me senti desejado enquanto estive com você.
Do seu garanhão.
A.
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