Cartas de amor em Paris
2 Capítulo um
14 DE JANEIRO
30 DIAS PARA O DIA DE SÃO VALENTIN
De todos os tipos de pontuação existentes o que eu menos gosto é o ponto final. Detesto a forma em que ele põe um fim definitivo nas coisas, e se eu quiser acrescentar uma palavra à frase? Colocar mais um momento numa coisa que já acabou? Eu sempre fui uma garota indecisa, sempre mudo de opinião tão rápido quanto um flash de luz e por causa disso eu prefiro a virgula, é como dar um tempo, um tempo para pensar se quer acrescentar alguma coisa, se quer viver mais algum momento, colocar mais palavras na frase, e ai sim depois de pensar muito decidir colocar o ponto final. Eu não gosto da ideia de que minha vida em Paris teria fim daqui a sete meses, eu gostaria de colocar uma virgula e continuar aqui por muito tempo.
Tenho evitado pensar nisso desde o dia em que vim para cá, a ideia de que as coisas de certa forma seriam passageiras me incomodava ao extremo. Mas hoje faço seiz meses na cidade luz e de alguma forma é impossível evitar que isso domine meus pensamentos.
Caminho de volta para o lugar que há algum tempo se tornou um novo lar. Os Bernard são tão acolhedores e amorosos, com exceção de Christopher, aquele lá parece nem fazer parte da família de tão diferente que é deles.
Nicolas tagarela sobre uma série que havia assistido na televisão, ele havia se tornado um ótimo amigo, nem eu poderia imaginar que um dia nos tornaríamos tão próximos, já que no começo eu não fui muito com a cara dele, o que obviamente foi um equivoco da minha parte já que Nic é um cara incrível, sempre me acompanha aos lugares e está sempre disposto a me alegrar e me ajudar. Melhor até do que a maioria dos meus amigos da minha terra natal
Ao chegar em meu destino eu me despedi do garoto com dois beijinhos no rosto e o vi seguindo para ir embora.
Eu parei em frente ao singelo, porém, belo, prédio localizado na Quartier Latin. Não é um prédio alto como os que costumo ver em New York, consistia apenas por 3 andares com um apartamento por andar. Eu entrei no prédio e cumprimentei o Senhor Louis, o porteiro, com um sorriso simpático enquanto me preparava para subir os dois lances de escada. Não eram muito degraus, mas mesmo assim cansavam meu corpo sedentário.
Quando entrei no apartamento número 201 a primeira coisa que reparei era o como a sala estava uma bagunça, e eu sabia que quando Elisa chegasse com certeza não gostaria de ter essa visão, já que algo que ela afirma prezar é a limpeza e organização. A segunda coisa que percebi foi o volume da televisão, estava tão alto que era provável que daqui a pouco eles recebessem alguma reclamação sobre o barulho. Os vizinhos do andar de cima não eram o que se pode chamar de agradáveis e tinha como hobby incomodar as outras duas famílias do prédio.
Eu já mal entrei no comodo e comecei a juntar as bagunças. Sobre a mesinha de centro havia uma bandeja com um pacote de biscoitos e um copo já vazio, mas que anteriormente havia sido colocado suco, ainda sobre a mesa havia algumas migalhas.
Céus! Se Elisa visse aquilo tudo ela mataria não só Chris, que estava sentado no sofá da sala assistindo mais um de seus filmes de terror, quanto eu e Sofie que eram meras inocentes nessa história toda.
Comecei levando a bandeja para a cozinha e pegando um pano para recolher a migalhas e outra sujeira da mesa.
O barulho vindo da televisão era ensurdecedor para os meus ouvido, sério, qual a necessidade de ouvir algo em um volume tão alto.
— Christopher, por favor, abaixe a televisão, por acaso você é surdo? — Eu disse. Internamente eu ri, pois, percebi o quanto aquilo parecia se uma típica frase que minha avó direcionava ao meu irmão mais novo.
— Não Livizinha, pra mim o volume está ótimo. Você é a única incomodada por aqui, até agora não houve nenhuma reclamação.
Só esse simples apelido fez o meu sangue esquentar, eu nunca gostei que ele me chamasse assim, mas ele sempre insistia nisso. Às vezes eu achava que era apenas para me irritar mesmo.
Respirei fundo e tentei controlar os meus nervos.
— Não houve nenhuma reclamação sobre isso ainda, já até imagino a senhora Lourdes ligando para a portaria reclamando disso — falei.
Christopher simplesmente ignorou a palavras proferidas por mim como se elas não fossem nada, eu soltei um suspiro de irritação e tentei me concentrar para terminar de organizar a sala. Peguei o casaco que estava jogado no canto esquerdo e coloquei no cabideiro. Está seria a ultima vez que eu organizava as bagunças dele. Se bem que eu sempre dizia isso, falava que pararia de limpar a desorganização da casa, mas nunca conseguia. Penso que como a Dona Elisa eu prezava a ordem das coisas.
Então, apenas como forma de implicância Chris aumenta mais ainda o volume da Tv, e eu pensando que já estava no máximo. Eu revirei meus olhos castanhos e mais uma vez me controlei, estava evitando discutir muito com ele nos últimos dias, já que nós brigamos muito desde o dia em que cheguei aqui e ultimamente tenho refletido e acho que não é justo para com o resto da família ter tanta desordem em casa, já que minhas brigas com ele não eram lá muito silenciosas.
Resolvo ir para o quarto que divido com Sofie. Ela é um amor de pessoa, me recebeu tão bem, é minha melhor amiga. Ela está deitada digitando algo em seu celular, eu me sentei na minha cama e então percebi o quanto estava cansada, me ombro e minhas perna até estavam um pouco doloridos.
— Você não faz ideia da zona que seu irmão fez na sala.
— Pior que eu faço, Christopher é a pessoa mais desorganizada que existe no universo.
Eu e ela começamos falar sobre o nosso dia de aula, Sofi falava sobre Henri, seu namorado, e o quanto ela estava irritada com que ele não fora assistir a sua competição na equipe de ginástica.No fundo, eu não julgava o garoto, já que sua namorada participava de outro dois equipes de esporte no colégio, natação e atletismo, por resto ele ficava cansado e enjoado de ir a tantos treinos e competições, até eu havia faltado esse ultimo evento da minha melhor amiga.
— E não pense que eu não reparei em sua falta não Srta. Olivia.Só por isso vai ter que me acompanhar no final de semana ao treino de natação.
Suspirei desanimada, mais treino, ninguém aguentava.
A campainha tocou e acabou por interromper nossa conversa. Nós ficamos paradas, Chris estava na sala, ele podia muito bem atender a porta.
Então a voz de Christopher é ouvida:
— Eu não vou abrir essa porcaria, que alguma de vocês venha até aqui e veja quem é.
Saio do meu quarto impaciente e quando passo pela sala laço um olhar irritado para o garoto.
— Você é um imprestável mesmo — tive que dizer.
Ele deu de ombro e expressando um sorriso estranho me ignorou mais uma vez continuando sentado no sofá.
Quando abri a porta encontrei apenas um envelope bege sobre o chão, contrastando com a cor escura do piso.
No envelope havia o seguinte escrito: Para Olivia
A letra parecia ser daquelas maquinas de escrever antigas.
Sem entender eu o abri rapidamente e comecei a ler o conteúdo da carta.
"Olivia,
Faltam exatos trinta dias para o Dia dos Namorados, e aqui em Paris temos o costume de nessa época escrever cartas para as pessoas que amamos ou gostamos. No meu caso eu não sei o que sinto por você, afinal, confusão e dúvida são meus sobrenomes.
Faz seis meses que você está aqui eu não sei se agradeço ou amaldiçoou sua presença, pois, você consegue me fazer viver em um louco paradoxo, onde traz a tona o melhor e o pior de mim ao mesmo tempo.
Nunca fui o tipo de cara romântico, e pra falar a verdade nem sei o que estou fazendo aqui, escrevendo essa carta como se fosse uma criancinha apaixonada.
A verdade é que eu não sei nada quando as coisas estão relacionadas a você, tudo que eu escrevi até aqui é a prova disso, pois, em todos os parágrafos eu só disse "não sei".
Então, por favor, me ajude a saber de alguma coisa, a entender o que se passa na minha cabeça, pois, eu já percebi que não adianta mais tentar lutar contra isso tudo, a única forma de ter um pouco de paz é ter você por perto
Atenciosamente, seu admirador secreto."
Surpresa. Essa simples palavrinha de oito letras representava exatamente o que eu estava sentindo naquele exato momento. Amor, ou qualquer sentimento relacionado ao mesmo fazia com que eu me apavorasse, afinal meu histórico nunca foi muito favorável quando se trata de sentimentos amorosos.
Sempre gostei de dizer que os sentimentos podem ser vistos de várias formas, e essa surpresa não se apossava de mim de forma positiva, não é como receber um presente que não esperava receber, ou como uma festa organizada em segredo para o seu aniversario. Tudo se assemelhava mais a um estado de choque do que a algo bom, pois, a única coisa que se passava por meus pensamentos era o quanto as pessoas gostavam der brincar com as outras. E essa carta era um típico exemplo disto, era obvio que se tratava de uma pegadinha.
Eu dei um suspiro impaciente, e tentei camuflar um pouco a minha curiosidade em decifrar tudo isso.
Mesmo do lado de fora do apartamento eu pude escutar Sofie e Christopher conversando
— Você viu aonde Olivia foi? Já faz uns 15 minutos que ela saiu para atender a campainha e não voltou para o quarto.
— Talvez ela esteja fugindo da sua chatice — ele disse implicando com a irmã — Ela está ali fora
Eu podia não estar os vendo, mas conseguia visualizar em minha mente Sofi dando língua para o irmão e o mesmo revirando seus olhos azul-colbato.
Ouvi os passos da minha amiga vindo em até onde eu estava.
Não precisei falar muita coisa, apenas lhe mostrei a carta e a mesma leu com muita calma
— Um admirador secreto, é fofo. — afirma Sofie.
— Fofo seria se não fosse mentira, estamos no século em que o romance foi abolido por cantadas bregas, admirador secreto é coisa dos filmes Hollywoodianos. Isso é tudo uma pegadinha.
— Fala sério Olivia, mesmo que isso seja uma brincadeira de mau gosto, me diz se você não está se matando de vontade de saber que escreveu essa carta. Todo mundo sabe que você é a pessoa mais curiosa do universo.
— Só um pouquinho — digo me rendendo
—Então nós vamos descobrir.
Nós entramos em casa e quando passamos pela sala encontramos Chris sorrindo para a televisão.
— Você é mesmo maluco — falou Sofie.
— Puxei você irmãzinha — ele ri.
Quando chegamos no quarto minha amiga pega uma folha de papel e se senta na cadeira próxima a escrivaninha.
—O quê acha de fazermos uma lista com possíveis pessoas?
— Seria uma ótima ideia.
Lista de garotos que pode ser o admirador secreto:
· Christopher — Não, não, não, com certeza não é ele. — confirmei em pensamento. Nós discutimos quase sempre.
· Marcos — Nosso vizinho de baixo, é aquele tipo de cara que canta todas a meninas que vê pela frente
· Nicolas — Meu melhor amigo, acho que a palavra amigo já diz tudo, Sofie está delirando em coloca-lo na lista
· Sebastian- Meu colega na aula de artes, uma vez ele me chamou para sair, mas eu recusei pois tinha acabado de chegar na cidade. No fundo acredito que ele me convidou apenas para provocar sua ex namorada, Helene.
Fale com o autor