Cartas de Fogo e Água
9 Carta 4- Água.
Notas iniciais
Zuko,
Faz uma semana desde que aquilo aconteceu. Eu me refiro “aquilo” por que até agora não entendo o que aconteceu. A única coisa que realmente compreendo é que eu estava do seu lado no momento exato em que você desmaiou de dor e eu pude curá-lo e logo depois, acompanha-lo. Para meu azar, você ficou inconsciente o tempo todo, por que a dor era dilacerante, com certeza, e eu só podia ficar no palácio por um dia. Tive de ir embora às pressas, por que tinha ficado tempo demais cuidando de você.
Mas saiba que nada me atrapalhou. Imagine se eu não estivesse lá, do seu lado? Mas como eu fui tola em não ter percebido nada! Eu deveria ter prestado mais atenção, ao invés de ficar pensando só em mim. Até parece que sou a única aqui que sente alguma dor.
Mas eu sei que você também sente dor. Não só física, mas emocional.
Zuko me perdoe por se tão egoísta. Por ser tão fechada e confusa. Sou incapaz de me administrar direto, enquanto que você é tão sério, centrado, tão... Admirável, eu diria. Sim, eu tento seguir seu modelo de seriedade – mesmo sabendo das suas dificuldades, sua aparência se sobrepõe a tudo. É, muita gente poderia dizer que você, mesmo com a idade que tens, é um grande Senhor do Fogo, pela sua imponência e autoridade.
Mas, ainda assim, espero poder conversar logo com você. Sem atentados, sem problemas, sem reuniões. Só nós, sozinhos, conversando, sem ninguém para atrapalhar.
Se você tivesse a noção de como eu me sinto agora! Sinto-me uma perfeita idiota. Aang não quer mais falar comigo, e agora estou quase impossibilitada de ter uma boa conversa contigo – esta carta me salva, de certo modo. Sou a única que pode me salvar desse mar cheio de sensações mal administradas.
Ainda sou capaz de sentir teu abraço.
Sou capaz de recordar perfeitamente o laço, o aperto. Pude sentir seus braços fortes e esguios tocando minha pele com uma ternura e força característica, única, singular. Sou capaz de descrever minuciosamente toda a paz e conforto que senti. Nos teus braços, Sol, pude encontrar alívio. Literalmente, uma luz surgiu no horizonte, e eu pude descansar a escuridão onde estava emersa.
Nunca ninguém tinha me abraçado com aquela força. Não que tenha sido forte demais, ou médio, ou até fraco. Foi o suficiente para mim, o suficiente para me sentir completada, única, inaugurada, isolada de tudo e todos.
(Faria de tudo para que tudo acontecesse de novo. Não as coisas que se seguiram antes e depois daquele momento. Mas sim, aquele momento, somente ele e nada mais).
Por que faço tanto estardalhaço a respeito de um simples momento do passado? Por que eu estou me apegando a estas coisas tão fluidas, que passam e não voltam mais?
Por que eu preciso me lembrar dos meus sonhos nítidos para seguir em frente todos os dias? Tornei aquilo uma motivação? E o que afinal eles querem dizer?
Eu sinto que eu sei a resposta, mas acontece que sou incapaz. Somos tão diferentes! O que iam pensar? Além do mais, o que eu represento para você? Apenas uma amiga, ou algo mais profundo? Eu sinto que também sei a resposta, mas por algum motivo, não consigo admitir.
Acho que é medo. Admiti o Aang dentro de mim muito cedo, e observe no que deu. Naquela confusão, naquele estardalhaço todo, naquilo tudo, que culminou com o momento mais doloroso.
Sinto dizer, mas houve coisas na nossa conversa que eu neguei. Só que a vida é tão, tão... Imprevisível, que ela acabou me mostrando que de certa forma, se eu negasse aquilo, aquilo voltaria a acontecer. Não o momento de sacrifício, mas de dor. É, neguei uma dor, por que sacrifícios implicam em dores, quaisquer que sejam os sacrifícios. Este deve ser o significado de sacrifício: uma dor que compensa alguma coisa. Tudo é fundamentado em dor, e é na dor que as coisas de desenrolam. Sem dor, não haveria motivos de comemorar o nascimento da lua, por que é na ausência do sol que ela aparece. Sem dor, não haveria sentido a existência do amor, por que ele só adquire vigor, força e sentido de existência quando a dor que o precede é proporcional ao que se sente. E quando maior a dor, maior o amor. São dois lados da mesma moeda, quando referidos num mesmo assunto, por que existem dores que sentimos sem um pingo de amor.
E por que estou dizendo essas coisas?! Admitindo isso tudo?!
Será que eu estaria dando pistas dos meus pensamentos? É tão difícil escondê-los disso tudo! Eu tenho que melhorar nesse aspecto, por que, se você parar para pensar um pouco, descobrirá que eu acabei de fazer algo que não queria fazer, de maneira inconsciente.
Tudo eu faço de maneira inconsciente! Será que não tenho responsabilidade sobre meus atos, afinal? Ou será que só tento me esquivar da responsabilidade de tê-los feito com filosofias e assuntos anexos? Fazer as pessoas esquecerem que fui eu quem os cometi?
Isso é muito confuso. Mas minha linguagem é essa, me perdoe. Tenho que me questionar para me consertar, por que sou incapaz de questionar os outros diretamente. Posso confrontá-los, sim, mas eu me sinto muito insegura quando o faço. Agora veja tu: quando confronta alguém, é forte, rígido, imponente e não volta atrás. Consegue seguir em frente, mesmo que movido às custas do ódio.
(Sinto que toquei em feridas sensíveis ao dizer estas palavras. Perdoe-me).
Sendo assim, é isso.
Apenas queria dizer algumas palavras. A distância é tão grande, Zuko! Cada dia mais preciso mais de um conselho, uma palavra, um abarco, uma presença. Sinto que estou te colocando num pedestal, altíssimo, inalcançável, para no fim das contas, lamentar que estás tão distante...
Zuko, desculpe admitir isso, mas... Eu preciso muito de algo. Muito mesmo. Uma notícia, uma letra, um sussurro. Preciso saber, preciso muito saber.
Preciso. E sei que você sabe do que preciso.
Esperando fervorosamente uma resposta,
Katara.
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