Cartas de Amor
1 Prólogo - O Fim
Notas iniciais
Erros a frente, combatentes! É meu objetivo encontrar um beta, mas por enquanto, cuidado! Você pode sair traumatizado!
Jéssica não se sentia confortável.
É claro que o silêncio mortal não ajudava muito. O pequeno comodo estava lotado e mesmo assim, somente um ou dois suspiros podiam ser ouvidos durante toda a hora que estavam ali. Jéssica sentia que a qualquer momento alguém poderia levantar, soltar um grito e descongelar as estatuas paradas em frente ao caixão. Jéssica sentia que poderia ser essa pessoa. Ao mesmo tempo que considerava pular da cadeira de plastico que se encontrava, não conseguia parar de pensar que receberia mais atenção, mais olhares, mais cochichos. Ela tentava encontrar algum conforto no fato de que a maioria se esforçava para disfarçar, mas depois de algum tempo, aquilo começava a lhe dar nos nervos — ela socaria no rosto o proximo que a abraçasse sem permissão.Tadinha dela, pareciam dizer, tão nova, deve estar sofrendo muito.Vamos esmagar seus ossos em um abraço em grupo!Ela estava sofrendo sim, obrigada. Ela tinha passado a porra do mês inteiro chorando. A verdade era que Jéssica não encontrava mais forças para sentir tristeza. Sim, a dor em seu peito era real — era pulsante e sangrava por todos os lados — mas depois de um tempo, ela passou a querer ela. O luto parecia algo mais real do que o mundo ao seu redor, parecia a unica prova do que estava acontecendo e a impedia de acordar com alguma esperança de que aquilo tudo não fora um grande pesadelo. O grande problema estava em explicar para as pessoas que não, ela não estava na fase de aceitação, não estava negando o que tinha acontecido e não, de modo algum, procuraria um terapeuta. Isso era a gota d'agua. Sua tia, ao seu lado, se mexeu de modo inquieto e Jéssica se encontrou reprimindo um sorriso — nada adequado! — porque parecia que não era a unica a encontrar aquilo entediante e chato. Reprmiu a vontade de cutucar sua tia para as duas sairem de fininho de lá. Seria perfeito: ela veria o lado de fora do mundo, respiraria fundo e iria para casa e recusaria com veemência toda a visita de parente pelas proximas horas — ou semanas.Outra vez, alguma voz em sua mente, muito parecida com a de sua mãe e isso já era o suficiente para faze-la querer arrancar a cabeça do corpo, sussurrou que aquele plano não tinha nada de perfeito. Assim que ela respirasse de modo errado ou movesse os olhos longe do caixão branco, alguém notaria e então ela teria um inferno a enfrentar. Afinal de contas, as pessoas notariam se a esposa da mulher estendida no meio do salão saisse do velorio da amada. Mesmo que fosse para ir no banheiro. Um pequeno lado rebelde de Jéssica estava se esgoelando que aquilo seria ainda mais maneiro, ainda mais quando sua mãe se virou para ela e rosnou baixo:- Pare de se remexer!Não seria legal se ela saísse descaradamente e deixasse sua mãe com cara de tacho dando explicação para seus parentes? Sua tia, Lyce, beliscou seu braço como se sentisse a rebeldia da sobrinha. - Pare de planejar algum tipo de vingança contra sua mãe — sussurrou ela toda conspiratória — já basta eu que quer enfiar a cara perfeita dela no bebedoiro. Não me faça perder a compostura!- Nunca soube que tinha compostura — rebateu, quase rindo da cara de sua tia quando ela virou-se indignada para ela. Valeria a pena ver a cara de sua mãe se ela risse naquele momento. E quase riu. Quase. O que realmente impediu foi o rosto gravado em pedra, imovel, com mesma expressão desde o hospital, do outro lado do salão. Jéssica sempre quis acreditar que sua sogra era algum tipo de dragão vestida de Prada. A vilã da história, que aparecia nos momentos mais inconvenientes com uma faca na mão e algum tipo de lição de moral para os mocinhos. O nariz sempre levantado, agora abaixado ao chão no luto e os cabelos brancos cuidadosamente amarrados em um coque elegante e mais do que tudo — metido.Tudo nela gritava dinheiro, ganância e poder. Todas as vezes que se viam, arrumavam um jeito de provocar uma a outra e todas as vezes seus encontros terminavam em disputas de gritos e berros, cada vez ela ameaçando Jéssica, e a cada vez Jéssica revidando dizendo que pegaria o enfeite de seu cabelo e enfiaria onde o Sol não brilhava. Mas nos ulitmos meses — mais as ultimas semanas, na verdade — Jéssica e Ruby encontraram algum tipo de paz, principalmente para Amy, porque ela nunca concordou com a rixa entre as duas.A cara de escárnio de sua sogra do outro lado da sala lhe dissera que a trégua estava acabada. Oh, bem. O desejo de enfiar a cara dela no vaso sanitário sempre esteve lá e ela o faria a qualquer momento. Porque ela está morta, sussurrou no seu ouvido. Ela estava morta. Fria, naquele caixão branco.Rodeada por pessoas hipócritas, perdendo cada vez mais o brilho, mais a cor e Jéssica tinha o enorme desejo de nunca vê-la assim, porque não era justo, não com ela, não depois de tudo o que tinham passado para ficarem juntas. Apertou as mãos suadas e respirou, trêmula. Por que diabos ela ainda tinha vontade de chorar? Ela tinha esvaziado tudo. Dado tudo, a cada dia, presa no cilco infinito de chorar, olhar para o resto da casa, lembrar e chorar mais uma vez.
De repente, a vontade de sair dali era demais. Tudo o que tinha estava ali, naquela caixa de madeira, toda a sua felicidade, todos os anos. Ela tinha passado muito tempo em hospitais, respirando doença e agora estava ali, inalando morte. E ela já não tinha mais força para isso. Decidida, levantou-se. Iria sair dali, nem que fosse a base de gritos, pontapés e tapas. Ela estava determinada e sabia como lutar e quando viu sua mãe virando-se para ela, como se para repreender sua atitude, Jessica zombou e fechou os punhos. Lyce estava ao seu lado antes que pudesse piscar.- Vamos sair daqui — ela agarrou seu braço e Jéssica a encarou, confusa — Mas primeiro....Se despeça dela, Jess. Você precisa disso. Ela merece um adeus. Você merece um adeus.Respirou fundo — Eu... Já fiz isso, tia. Não vou repetir tudo de novo. Por favor.Mas a teimosia estava enraizada na familia e Lyce se virou para encarar as pessoas que estavam olhando para a troca com curiosidade,como se fossem animais e vissem seres humanos pela primeira vez.- Ok, pessoas, já estamos aqui a muito tempo e ninguém sequer se mexe. Amy era nosso tesouro e eu vou falar pra vocês que ela não gostaria de ver essas suas caras de bunda no enterro dela e sim, Ruby, estou falando de você. Eu — ela bufou e lançou um sorriso aguado para Jéssica, que estava ao seu lado paralisada e com os olhos arregalados como um cervo em frente aos faróis — Eu tinha um carinho por ela. Era minha sobrinha também ! Era uma pequena bola de energia, nunca parava e eu sinceramente,perdi as contas de quantas vezes eu e Jess fomos arrastadas para museus de arte com nossas pantufas e camisolas. A menina era imprevisível ! 'Mas nos amávamos ela. Sua força, mesmo no final. Mesmo indo embora a menina queria se enfeitar. Não queria que as pessoas sentissem pena dela, fazia beicinho e gritava pelos quatros ventos sua irritação. Um inferno de mulher! E Jess? Jess — ela agarrou a mão dela e a puxou para o lado de Amy — Ela amava você, entendeu? Ela me disse isso!Naquela hora, o queixo de Jessica tremeu e ela não mais ouvia o discurso de sua tia. Suas palavras, os olhares, as pessoas ao seu redor, se perderam enquanto encarava o amor de sua vida, sua Amy, ali, estendia, cuidadosamente vestida com a roupa que elas escolheram dias antes. Seu rosto estava pacifico, suave, como se tivesse encontrado sua própria paz. Seus cabelos tinham sido raspados meses antes e não havia nada além de uma pequena penugem ruiva lá. E mesmo assim, era a coisa mais bonita que tinha visto. Havia tantas coisas que poderia falar, tantas despedidas ensaiadas. Muitos dias encarando a chuva em seu porão e pensando:'Ela está em algum lugar lá fora. Ela esta olhando para mim' Mas tudo que saiu de sua garganta de forma engasgada e nada poética foi:- E eu sempre vou te amar, ouviu? Eu nunca vou esquecer de você. Por que você se foi? Por que você me deixou?Ela não queria admitir que estava chorando naquele momento, dando um belo show para aqueles idiotas. Mas ela suspirou e quase estendeu a mão para acariciar o rosto dela arrependida.- Não importa mais, não agora. Porque ela não seria mais egoísta com ela. Daria seu adeus, libertaria Amy e por mais que não conseguisse se imaginar fazendo isso, seguiria em frente, talvez em anos,décadas. Não agora.- Sempre em meu coração, sempre, amor. Inclinou-se para frente, deu o ultimo beijo em sua testa, olhou pela ultima vez para seu rosto, virou-se e saiu. Caminhou a passos errantes para fora. Ela sairia dali e não olharia para trás. Certo? Amar conseguia ser tão difícil as vezes. A dependência de outra pessoa. Porque, em algum momento, inevitavelmente, sua alma gêmea se separava de você. Iria embora e por mais que tenha ouvido Amy dizer que esse era o caminho dela, não se conformava com isso. Em algum momento, no amor,seu coração não era mais seu, não pertencia a você. Sua felicidade não dependia mais de sorvetes e filmes no fim de semana. Ela girava ao redor de alguém e você só poderia torcer que essa pessoa gostasse de sorvete e filmes, a qualquer dia. Amar, de acordo com Amy, era como tirar uma foto, gravar para sempre sua alma e saber que dali em diante nada que fizesse poderia impedir a pessoa de partir e levar sua felicidade com ela.Amy tinha deixado seu legado na terra. Tinha sido a melhor pessoa que conhecera. E se foi, do jeito que queria, em sua cama, em suas melhores roupas, sem médicos, sem remédios na veia. Tinha olhado em seus olhos, visto sua alma e com um simples 'te amo' levou parte do coração de Jessica com ela.E o vazio... o vazio doía. Apertou os olhos e puxou o envelope azul, sua cor favorita, do bolso. As letras estavam embaçadas, sua própria mão estava turva, tudo ao redor tremia, mas mesmo com lagrimas nos olhos, mesmo que não conseguisse distiguir mais nada ao redor, sempre reconheceria as palavras, em qualquer lugar, a qualquer momento. Era o mantra delas, afinal. As palavras que disseram em seu casamento.Sempre em nossos coraçõesJéssica apertou a carta , olhou para cima, em algum lugar, para ela,para sua Amy e chorou.
Notas finais
Então, devo continuar?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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