Cartas Para Você
3 Slipped Away- Cato para Clove, THG
Notas iniciais
Clove!
Um dia eu fiz uma promessa. Uma promessa a uma pessoa muito especial para mim. Prometi que iria vencer, mas não por mim, e sim por você, por nós.
Não é a mesma coisa, e pensar que não vou mais ver seus sorrisos maléficos, seus sorrisos sarcásticos, ou seus raros sorrisos de felicidade, não vou mais poder tocar em seus cabelos negros e sedosos, não vou mais poder olhar em seus olhos verdes, que antes eram elétricos e brilhantes e agora estão frios e sem nenhum possível traço de vida. Quando eu olhava-os, eles me transmitiam que estava tudo bem, mesmo não estando nada bem. Nunca mais sentirei seu toque quente e macio, nem seu corpo abraçado no meu, se encaixando perfeitamente em meus braços como se seu corpo tivesse sido feito à medida para o meu, não vou mais sentir seu perfume de baunilha com limão, não vou ter mais você aqui para me acalmar de um ataque de raiva, algumas vezes por ciúmes de você, não vou mais ouvir você brigando comigo, não vou mais poder te dar sustos por trás, te jogar no ombro e sair correndo enquanto você me batia se esperneava, gritava por socorro e depois começava a gargalhar, não vou mais poder lhe pedir conselhos, não vou mais poder escutar sua voz, e o pior: não vou mais ter você ao meu lado. Isso pode soar egoísta, mas eu não ligo, pois eu sinto muito a sua falta.
Foi tudo minha culpa, eu deveria ter ido em seu lugar, ou pelo menos estar do seu lado, te protegendo, mesmo você dizendo que não precisava de proteção, pois você sabia se defender. Lembra que eu te irritava falando que você não sabia nem erguer uma espada quanto mais lutar? Eu adorava te ver irritada, você me batia e começávamos a lutar e eu deixava você ganhar às vezes só para ver em seus olhos um “viu como eu sei lutar?”, mas isso não importa eu deveria mesmo estar lá com você, mas eu falhei, fui para o outro lado procurar o 11, mas ele estava indo ao seu encontro; poderíamos ter saído juntos da maldita arena, mas eu tinha que concordar em você ir lá ao ágape e tirar a vida da garota em chamas, eu deveria ter insistido mais, mas será que você me ouviria? Teimosa do jeito que era não sei, você falou tanto que conseguiria e que queria ter essa honra, esse mérito de matar a garota em chamas e eu cedi, mas fiz você prometer dar um show ao público, e me chamar/gritar se qualquer coisa acontecesse, qualquer coisa, e você concordou, não gostou da ultima condição, mas concordou. Já estava saindo correndo, quando puxei seu braço, virei seu corpo pra mim e te abracei, beijei sua testa e sussurrei alto o suficiente para que só você ouvisse “Volta para mim pequena.”, e você sussurrou em troca “Você não vai se livrar de mim tão fácil loiro. Eu vou voltar, eu sempre volto.”. E assim eu te soltei do abraço, ficamos um tempo nos encarando, verde no azul, azul no verde, mas você desviou o olhar e saiu correndo pela floresta adentro. Eu fiquei um tempo parado no mesmo lugar, observando você sair do meu campo de visão e pela primeira vez você não brigou comigo por ter te chamado de pequena, você sempre odiou que te chamassem de baixinha ou pequena e sempre arrumava briga com a pessoa que tinha te “insultado”, mas pela primeira vez você não ficou com raiva, se tivesse ficado não teria dado um pequeno sorriso para mim antes de partir.
Fui caminhando, cheguei a uma parte da arena mais escura que possuía árvores mais altas e mais grossas, aposto que se tivesse que subir nelas poderia ter visto toda a região da arena, o mato também era maior na parte que começava a ficar um pouco mais escuro, mas ia diminuindo à medida que eu me aproximava cada vez mais, tive certeza que era ali onde o garoto do 11 se escondia, mas fui parado de repente por alguém chamando meu nome, parecia um grito, mas como estava longe ele foi abafado pelo vento, não precisava ouvir de novo para saber de onde vinha, de quem era e o que estava acontecendo. Sua voz transmitia medo, angústia, surpresa, pânico. Apertei mais o passo, e a ouvi berrar mais uma vez o meu nome, sem me importar se poderia denunciar minha localização para algum tributo, berrei seu nome com todas as forças, para saber que eu estava a caminho, para você saber que eu me importava com você, para você saber que era importante para mim e não poderiam te tirar tão rápido da minha vida. Corri como nunca, como se minha vida dependesse disso, o que era verdade porque minha vida dependia do que estava ocorrendo no ágape naquele momento. Quando cheguei, vi o garoto do 11 e a garota em chamas correndo por lados opostos. Dei a volta na cornucópia e te encontrei caída, deitada no chão, com uma pedra um pouco grande, mas que cabia na minha mão, a uma pequena distancia de seu corpo. Lhe observei, sua respiração estava lenta, não encontrei nenhum machucado, nenhum sangramento, nenhum hematoma, até que eu olhei sua cabeça, um pouco acima de sua nuca estava inchada. Senti minhas pernas bambas e caí ao seu lado, a espada que antes estava em minhas mãos, agora estava caída a uma pequena distancia de mim, se alguém tivesse me atacado naquele momento estaria imune, sem arma e sem forças para um combate corpo a corpo. Peguei sua mão e a segurei, meu coração começou a bater mais forte do que já estava, e não era por causa da corrida, falei que era minha culpa você estar naquela situação, supliquei, implorei, pedi para você não me deixar e ficar ao meu lado, ficar para nós voltarmos para casa. Há essa hora meu rosto já estava cheio de lágrimas, e eu não conseguia te encarar e ficava encarando o chão.
Senti um leve aperto em minha mão, olhei para você e entendi que isso era um pedido para eu ficar calado. Vi sua boca abrir, mas primeiramente não tinha saído nada, até que você tentou mais uma vez e sua voz saiu, fraca, mas saiu. Você sussurrou “Não é culpa sua Cato, não se culpe por isso. Vença.”. Eu comecei a balançar a cabeça falando que era sim minha culpa de você estar assim, e ainda sei que é minha culpa, era minha culpa de eu estar perdendo o meu amor, quando falei isso você corou e deu um pequeno sorriso, e eu falei por fim “Eu te amo, Clove.”, você começou a chorar e sussurrou “Eu também te amo, Cato.”, eu sorri, você sorriu, nós sorrimos, me inclinei, e juntei nossos lábios, começamos um pequeno beijo, antes de separar nossos lábios você sorriu e eu sorri em troca, quando voltei para a minha posição, seus olhos não tinham mais vida, sua respiração cessou, sua pele ficou mais branca do que já era e ficou fria, mas seu pequeno sorriso não saiu do seu rosto. Não queria acreditar, e ainda não quero, que você partiu, mas o canhão que soou não me ajudou muito.
Antes de te deixar ir dei um leve beijo em sua boca, só que dessa vez não fui correspondido, sussurrei no seu ouvido, mesmo você não estando mais ali “Saiba que eu sempre vou te amar, você vai sempre ser a minha garota das facas, minha pequena, eu vou ganhar esse maldito jogos, vou vencer por você. Prometo.”.
Não queria te deixar ir, mas não tinha escolha, se não te soltasse não iriam vir buscar seu corpo, e também não queria ver o aerodeslizador. Com um último beijo em sua testa, peguei a espada que estava no chão e sai à procura de Thresh.
Quando o encontrei, o surpreendi com um soco, ele partiu pra cima de mim. Foi uma luta longa e difícil, mas acabei apunhalando seu peito com a minha espada, ele urrou de dor, tirei minha espada do seu corpo e observei o estrago, ele tinha o peito, as mãos, os braços, as pernas, o rosto, todos machucados e algumas partes sangrando. De longe vi uma pedra, corri até ela e taquei com todas as forças na sua cabeça, o canhão soou, e falei/berrei “ISSO É POR TER TIRADO A MINHA GAROTA DAS FACAS DE MIM.”. E sai de lá com a mochila do 2 e do 11. Mas voltei na metade do caminho, pois tinha percebido que o lugar que Thresh se escondia era afastado, seguro, protegia do sol, da chuva e do frio, e tinha uma caverna que protegia dos outros tributos.
Dois dias se passaram e só a do 5 morreu. Tudo estava calmo, calmo até demais, resolvi sair da caverna, não tinha visto nada, a escuridão não ajudava em nada, até que vi alguma coisa se mexendo no meio do mato, eu me aproximava lentamente, estava quase chegando quando a figura tinha saltado de trás do arbusto. Possuía uma pelagem negra e seus olhos eram verdes, estava com alguma coisa pendurada no pescoço só que não deu para ver o que era. Reconheci aquela criatura como um bestante, lembra que na escola e no centro de treinamento ensinaram para nós o que era, e que nós só poderíamos ver um na arena? Pois então eu vi um ao vivo, quer dizer nós dois vimos um ao vivo, as teleguiadas, também eram bestantes, só que esse que eu vi era bem pior.
Saí correndo em direção à cornucópia, cheguei lá e encontrei o conquistador e a garota em chamas, atrás deles vinham dois bestantes e o bestante que estava me seguindo tinha se juntado a eles, mas não eram só os três bestantes que apareceram, mas na direção oposta estavam vindo pelo menos três. Alcancei a cornucópia e subi em seu chifre, os tributos do distrito 12 me seguiram, estava em cima da cornucópia quando o bestante que estava me seguindo saltou quase me mordendo, daí eu consegui ver o que estava pendurado em seu pescoço, era uma coleira com a letra D e o número 2. Distrito 2. Na hora eu gelei, fiquei paralisado, horrorizado, andei para trás, me virei e vi Katniss, acho que era esse o nome da garota em chamas, ajudando Peeta, o conquistador, a subir na cornucópia, ele estava pendurado tentando subir enquanto, pelo menos, uns seis bestantes pulavam para tentar morder as pernas dele, Katniss não ia conseguir puxar ele por muito tempo, ela não estava com muitas forças, e as mãos deles estavam se soltando, até que se soltaram de vez e o conquistador caiu, os bestantes o rodearam e o atacaram, Katniss ficou parada por um tempo olhando Peeta ser mutilado, lembro que vi uma lágrima escorrendo pelo rosto da garota em chamas, ela se levantou logo depois que o canhão soou, se virou para mim, tirou alguma coisa do bolso, que depois reconheci como amoras cadeado, e colocou na boca, dois segundos depois, a garota em chamas explodiu.
A escuridão começou a clarear, e os bestantes saíram em direção à floresta, cornetas começaram a tocar, e anunciaram que eu tinha vencido a septuagésima quarta edição dos Jogos Vorazes. Depois fui para a Capital para ser coroado o vencedor, vim para o Distrito 2, na vila dos vitoriosos, quando cheguei aqui descobri que minha única família, minha mãe tinha sido assassinada, e o culpado foi punido com morte, então estou morando sozinho em uma casa enorme na vila dos vitoriosos. Um pouco depois da minha vitória começou a turnê do vitorioso, e por último a festa na casa/mansão do presidente Snow.
Isso aconteceu há 30 anos e eu me lembro de tudo o que aconteceu naquela arena, tenho todos os dias pesadelos com a arena, não saio mais de casa, estou parecendo aquele bêbado do Distrito 12, só que a diferença é que eu não fico bebendo sempre, só bebo na época da colheita, dos Jogos, e nos dias que eu me lembro de você, ou seja, quase todos os dias. Sempre fico pensando como seria as nossas vidas se não existissem os Jogos. Será que poderíamos estar casados e felizes, vendo nossos filhos correndo no jardim? Será que seriamos amigos? Será que nos conheceríamos? Eu não sei mais gostaria de descobrir, pena que o Distrito 3 ainda não inventou uma máquina de voltar no tempo, eu me voluntariaria para servir de cobaia, afinal não tenho nada a perder.
Queria que você estivesse aqui, queria que você não tivesse morrido, queria não ter esses pesadelos que me fazem lembrar todos os dias o que aconteceu naquela maldita arena.
Sinto muito sua falta pequena. Depois que você morreu nunca mais me envolvi com mulher nenhuma, porque eu ainda, e sempre vou amar você, pode se passar quanto tempo que for, mas meu coração sempre vai pertencer a você, garota das facas.
Te Amo Para Sempre.
Cato!
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