Cartas Para Julieta
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Acordei bem cedo, tomei um banho, e arrumei minha mala. Afinal, não sabia quanto tempo iria ficar fora.
Depois de tudo pronto, recebi uma ligação de Claire, avisando que em cerca de 10 minutos passava em frente a minha pousada para me buscar.
E reforçando o que dizem sobre os ingleses, ela chegou pontualmente. Então a senhora saiu do carro e veio em minha direção.
–Bom dia, minha querida. –disse Claire me abraçando gentilmente.
–Bom dia Claire. –respondi com um sorriso no rosto.
Neste momento eu agradeci a Deus e a todos os santos possíveis por estar apoiada em Claire, porque juro que se não fosse por isso, eu iria parar no chão.
Brittany saiu do carro vestindo um shorts jeans que deixava a mostra suas belas e longas pernas, uma camiseta branca com um generoso decote, um óculos de sol que tapava seus lindos olhos, e para finalizar um All Star preto.
Seus longos cabelos loiros balançavam por causa do vento, e ela parecia se mover com uma delicadeza incrível, como em câmera lenta.
Ela estava tão simples, diferente do dia anterior, mas mesmo assim estava linda.
–Bom dia Brittany. –disse educadamente.
–Bom dia para quem, Santana? –respondeu arrogantemente.
–Para você. Que vai ter o privilégio de passar seu tempo comigo. –rebati.
Ela apenas revirou os olhos e pegou minha mochila e minha mala para colocar no porta-malas do carro.
–Você não precisa carregar a mala para mim, não sou uma inútil. –disse, enquanto Claire entrava no carro, alheia de tudo.
–Primeiro: Eu só estava sendo educada. Segundo: Como uma garota frágil como você vai carregar uma mala tão pesada quanto essa? Se enxerga Santana. Olha seu tamanho. –debochava Brittany.
–Como é? Só porque você é uma “Pé Grande” não quer dizer que sou baixinha. Sou baixinha apenas perto de você, que é anormal. –nessa hora ela largou a mala e me olhou com um sorriso divertido no rosto. –Além disso, eu não sou frágil. E tira logo esse seu sorrisinho cínico da cara.
Ela ainda sorria, enquanto se aproximava de mim. Estávamos realmente muito próximas. Eu conseguia sentir seu hálito quente batendo no meu rosto. Então ela se abaixou. Por um momento achei que iria me beijar, então arregalei os olhos e meu coração disparou. Porém ela apenas pegou a mochila que estava no meu braço e saiu, me deixando estagnada no lugar.
Brittany caminhou até o carro e colocou minhas coisas no porta-malas, virando-se logo em seguida, antes de entrar no carro:
–De nada, baixinha.
Revirei os olhos e sorri. Aquela garota é uma chata!
Entrei no carro, e Brittany ligou o rádio.
Estava tocando Beatles, e Claire logo começou a acompanhar a melodia de Let It Be.
Alguns segundos mais tarde, Brittany começou a acompanhar a avó, e ela tinha uma voz realmente linda.
Eu com certeza tinha um sorriso idiota na cara, de tão linda que era a cena. Avó e neta cantando juntas, e se dando super bem. A loirinha até poderia ser legal de vez em quando.
–Cante Santana! –disse Claire animada virando sua cabeça para o banco de trás, onde eu estava.
–Vó, aposto que essa daí nem conhece Beatles. –desdenhou Brittany.
–Na verdade eu conheço sim, Brittany. Mas não Claire... Eu costumava cantar na adolescência, mas já faz muito tempo. Devo estar enferrujada. –respondi.
–Deixa de bobagem querida. Cantar é bom! –argumentou Claire gentilmente.
Então começamos a cantar. E eu realmente sentia saudades de cantar em voz alta.
Brittany POV on
Desde ontem eu não conseguia parar de pensar naquela garota. Alguma coisa nela me fazia querer ficar por perto. Mas ela é tão irritante! Simplesmente não conseguimos ter uma única conversa civilizada, e agora vem essa viagem.
Não sei como vou suportá-la ao meu lado. Apesar de ser a coisa mais irritante que já conheci, e não conseguir prestar atenção em nada do que ela fala, Santana continua sendo a mulher mais linda que já botei meus olhos em toda minha vida. E para melhorar tudo, eu sou lésbica. Claro que fico reparando nos decotes que ela usa, ou o quão curto são seus shorts, deixando aquelas pernas gostosas de fora. Mas mesmo assim, continuo não a suportando.
Meu Deus... E essa voz dela? É tão rouca, e incrivelmente sexy. Pelo menos quando está cantando ela não é tão irritante.
... É melhor prestar atenção na estrada, e esquecer os peitos, quer dizer, o lindo sorriso daquela morena irritante, petulante e baixinha.
Brittany POV off
Conversávamos animadamente, até que meu celular vibrou. Era uma mensagem do Sam.
“E aí bebê, como estão as coisas? Já está com saudade? Eu estou! Aqui é incrível, estou amando Livorno. Você iria adorar. Os negócios de vinhos são incríveis! Estou no paraíso. Beijos. –Sam”
Olhei para aquela mensagem, e pensei em como fui esquecer-me de avisar meu noivo que iria viajar. Claro, seria por um curto período de tempo, e provavelmente já estaria de volta quando ele chegar. Mas mesmo assim, ele é meu noivo.
Pensei em uma resposta, e logo digitei:
“Incrível! Claire está aqui! Ela é a mulher para quem respondi a carta de Julieta. Estamos à procura do seu Lorenzo... Mas te conto mais detalhes depois. Beijos. –San”
Não disse que estava viajando, mas também não disse que não estava. Tecnicamente eu não estava mentindo, certo? Falaria com ele depois.
Desviei meu olhar da tela do celular, e percebi que Brittany me encarava pelo espelho retrovisor. Mas quando percebeu que eu a peguei me olhando, logo desviou o olhar para a estrada.
Alguns segundos passaram-se, e meu celular vibrou novamente, com outra mensagem de Sam.
“Então divirta-se meu amor! Te ligo depois. Te amo. –Sam”
Guardei o celular, e suspirei.
Brittany dirigiu por volta de mais uma hora, até que paramos perto de uma cidade para que Claire pudesse sair do carro um pouco.
Sentamos em uma mesinha com sombra, que tinha perto de um parque.
–Quanto tempo mais ou menos passou com Lorenzo? –perguntei à Claire, a fim de quebrar o silêncio.
–Cada segundo que pudemos. –respondeu sorrindo. –Eu ia me encontrar com ele, depois da aula, na fazenda em que ele trabalhava, e sentávamos sob as árvores e comíamos pão com tomate e azeite de oliva.
–Tão romântico. –disse.
–O que tem de tão romântico em comer no chão? –perguntou Brittany confusa.
–Sério? –me virei indignada para a loira.
–No chão? Bem, ele amava terra! Ele adorava conversar comigo sobre a chuva e as fontes de água fresca... Nós andávamos por quilômetros, deitávamos na grama seca... Ainda posso me lembrar... Do cheiro do suor doce e quente dele... –dizia Claire.
–Ok vovó, acho que já entendemos. –interrompeu Brittany fazendo sinal com as mãos.
–Então deve sentir que está para encontrar sua alma gêmea perdida. –falei sorrindo.
–Sinto. –confirmou Claire.
–A alma gêmea da minha avó era meu avô. –disse Brittany irritada. –Não invalidem minha existência inteira.
–Tudo bem, me desculpe. Eu só... Isso não é o que eu quis dizer. –respondi timidamente, assistindo Brittany levantar e sair dali.
–Brittany é igualzinha ao meu marido. Sempre cética. –comentou Claire assistindo a neta se distanciar. –Meu marido sempre afirmou que o amor não passava de hormônios. Mas no fundo, ele tinha um coração tão quente e apaixonado. E Brittany é igualzinha.
Sorri para aquilo, e virei minha cabeça de modo que fitasse a garota loira andando de um lado para o outro, vislumbrando a paisagem.
–Me conte do rapaz por quem está apaixonada. –fui retirada de meus devaneios por Claire.
–Sam... –sorri sem graça.
–E então? –perguntou Claire me estudando cuidadosamente.
Levantei-me e sentei ao seu lado. Ela me olhava com curiosidade, até que finalmente disse:
–Bem, Sam é um Chef. Um ótimo Chef. Ele está abrindo um restaurante, em Nova Iorque. E é por isso que estamos aqui. –menti a ultima parte. –Estamos encontrando fornecedores de toda parte. Ele na verdade, está em Livorno em um leilão de vinhos, nesse momento.
–Bem, isso parece divertido. –falou Claire calmamente.
–Para ele, sim. –assenti.
–E seus pais gostam dele? –perguntou.
–É, meu pai gosta dele. Minha mãe nos deixou quando eu tinha 9 anos de idade. –respondi com a cabeça baixa.
–Puxa vida, querida. Sinto muito. –disse Claire.
–Tudo bem, já faz muito tempo.
Então apenas sorrimos e Claire passou seus braços ao redor de minha cintura, me abraçando protetoramente. Continuamos mais algum tempo assim, apenas apreciando a paisagem e a companhia uma da outra, até que Brittany voltou.
–Podemos ir? –perguntou a loira mais nova.
–Claro, querida. –disse Claire calmamente, levantando-se junto a mim.
Brittany dirigiu por mais alguns minutos, até Claire ir pedindo para que ela diminuísse a velocidade, e finalmente estacionasse.
Paramos em frente a uma grande casa, simples, mas grande. Ela se localizava em um local muito lindo. Uma fazenda, para falar a verdade.
Descemos do carro, e Claire parou.
–Como quer fazer isso? –perguntou Brittany.
–Tocando a campainha... –Claire deu de ombros.
A senhora de cabelos loiros, quase brancos, se dirigiu até a porta, parando alguns instantes antes de bater.
–E se a esposa é quem atende, e tem uma crise de ciúmes, vovó? –indagou Brittany nervosamente.
Claire apenas riu, e respondeu, fazendo-me rir logo em seguida:
–Bem, então eu ficaria lisonjeada.
Esperamos mais alguns segundos, mas ninguém nos atendia.
–O que mais me preocupa... –começou Claire. –É que ele não se lembre de mim.
–Certo. Então vamos para casa vovó, antes que tudo acabe em lágrimas. –Brittany tentava persuadir Claire.
Eu olhei para ela a reprimindo, enquanto Claire ainda analisava a porta.
–Vamos embora, não tem ninguém! –continuou Brittany.
–Vou olhar nos fundos. –eu disse já saindo.
–Fizemos o que podíamos. –sussurrou Brittany segurando em meu braço. –Não tem por que prolongar o desapontamento dela.
Eu ia responder, mas fomos interrompidos por um homem um pouco baixo, com um enorme chapéu na cabeça, e um charuto na boca, saindo pela porta.
–Sim? –perguntou ele.
–Buongiorno [Bom dia]. –disse Claire.
–Buongiorno. –respondeu o homem sorrindo para ela.
–Lorenzo Bartolini? –perguntou Claire.
–Sim, sou eu. –respondeu o homem, agora em inglês, percebendo que éramos estrangeiros.
–Boa tarde. –se meteu Brittany apertando a mão do homem. –Sou Brittany Pierce, e esta é minha avó, Claire. E esta é Santana.
–Oi! –disse quando o homem acenou para mim.
Então ficamos em um silêncio incômodo por alguns segundos, até Claire dizer sorrindo:
–Sou Claire, você se lembra?
O homem a fitou por longos instantes, e não disse nada.
–Não é ele. –disse Claire virando-se para nós.
–Tem certeza? –questionei.
–Não são os olhos dele. –Claire respondeu.
–Mi dispiace, mi solo sbagliato. [Me desculpe, me enganei]. –disse Claire para o homem.
–Vamos ter certeza. –falou Brittany impacientemente. –O senhor se lembra do que fazia no verão de 1957?
–O verão de 1957... –disse ele rindo. –Nunca esquecerei. Conhecia a garota mais linda, com longos cabelos loiros. –Claire já estava sorrindo quando ele disse aquilo, porém ele continuou a falar. –Nos casamos naquele ano.
Então Claire começou a gargalhar, saindo junto a mim e deixando Brittany ali sozinha com o homem.
–Eu amaldiçoo aquela mulher! –continuou o homem gritando. –Amaldiçoo os dentes dela, os olhos dela, o bigode dela! Mas porque você está perguntando? Porque trazem a tona memórias tão terríveis?
Então Brittany correu para longe daquele homem louco, deixando-o gritando sozinho, enquanto estávamos rindo dentro do carro.
–Bem, isso ocorreu bem. –ironizou a loira entrando no veículo. –Não pode dizer que não tentou, vovó. Sinto muito, mesmo.
–De verdade, mesmo? –questionei irônicamente.
–Se eu soubesse o que significa sua pergunta, tentaria responder. –rebateu a loira azeda.
–Ele não pode ser o único Lorenzo Bertolini em toda Toscana. –disse à Claire.
Então olhamos para fora da janela do carro, e lá estava o homem nos mandando um sinal obsceno com o dedo e gritando:
–Vão se foder, todas vocês!
–Ele é o único por aqui. –debochou Brittany enquanto ríamos da reação do homem.
–Eu não vim até aqui para desistir agora. –disse Claire firmemente, fazendo-me sorrir.
–Vovó, o que quer fazer? Sair batendo em todas as portas, perguntando se “O Lorenzo está”? –desdenhou Brittany.
Claire me olhou neste momento, e eu respondi por ela:
–Quantos pode haver?
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