Cartas Para Julieta
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Mal eu havia aceitado o convite, e já estávamos dentro do carro rindo e conversando.
–Então, como foi seu trabalho? –perguntou Sam olhando para estrada enquanto dirigia.
–Tentei falar com Bobby de novo. –falei admirando a linda paisagem.
–E como foi? –perguntou ele parecendo interessado.
–Não foi, eu não falei com ele. –respondi simplesmente.
–Por quê? –perguntou ele novamente, virando seu rosto para mim.
–Eu estava assustada. –disse-lhe.
–Sério? –falou ele com um pouco de surpresa em sua voz, e eu o entendia, afinal Santana Lopez nunca ficava com medo ou assustada.
–É a hora de eu parar de checar fatos e começar a escrever. –respondi.
–É! Afinal, é sua paixão, você deveria fazer isso. –disse Sam com um sorriso meigo no rosto.
Eu sorri para ele e me aproximei para lhe dar um beijinho casto nos lábios. Sam sorriu ainda mais, e voltou a olhar para a estrada. Não demorou muito e já estávamos no famoso vinhedo que ele tanto falava sobre.
–-----------***------------
Ok, isso está sendo uma droga. Eu juro que se o cara que está nos acompanhando me falar mais alguma vez sobre como o vinho daqui é “perfetto”, eu vou dar uns tapas nele. Eu não quero saber como a porcaria do vinho está sendo feito, ou que uva eles utilizam, eu só vim para beber!
–É a uva que lhe falei, dos vinhedos da região amor. –disse Sam que parecia muito empolgado com tudo. –Lembra-se meu bebê? –perguntou ele.
–Aham... –respondi simplesmente.
Continuamos com a caminhada por aquele gigantesco parreiral de uvas por mais uns 30 minutos de pura chatice.
Quando finalmente chegamos à adega, eu recebi uma taça de vinho e a virei toda em minha boca, já que estava morrendo de sede por ter caminhado naquele maldito sol. O homem que nos acompanhava ficou me olhando com uma cara estranha, mas não liguei, eu estava com muita sede para isso.
Ficamos por lá mais uns 20 minutos. Eu apenas experimentando todos os vinhos possíveis, e eles conversando babaquices como “o perfume do vinho é de frutas frescas, de flores...” blablabla.
Também tiramos algumas fotos. Na verdade, eu tirei fotos de Sam com o cara na frente de um barril de vinho. Fantástico.
Depois de visitar o vinhedo, Sam teve a fantástica ideia de aproveitar a viagem e ver a plantação de oliva, e onde eles criavam o óleo de oliva. Pelo menos tinha um pão maravilhoso, e de graça.
Andamos, comemos, bebemos, até que finalmente voltamos para “casa”.
No caminho eu tentava falar e convencê-lo de irmos a óperas, teatros, museus, lugares históricos e turísticos, mas ele apenas concordava e dizia que veríamos isso mais tarde.
–Precisamos ver o Castelo Vecchio, o Lago de Garda e a Casa da Julieta. –eu dizia.
–Claro, claro. San, eu só vou dar uma paradinha aqui, tudo bem? –disse ele virando em uma curva e entrando em uma fazenda.
–Onde estamos? –perguntei.
–Você vai adorar! –respondeu ele com um grande sorriso.
Bem, não era exatamente o que eu esperava. Sério que ele disse que eu adoraria uma casa de queijos? Isso aqui fede. Eu não estou mais aguentando...
–Olha San... Isso aqui é lindo! É incrível! –Dizia Sam abrindo os braços e sorrindo.
Apenas acenei com a cabeça e dei um sorriso amarelo para aquele comentário dele.
O dono do lugar nos deu um pedaço do queijo para poder experimentar. Eu, claro, disfarcei e não comi. Mas Sam parecia uma diva louca e histérica depois de provar aquele negócio. Às vezes eu duvidava da sexualidade de meu noivo. Ele comeu aquilo como se fosse a melhor coisa do mundo, e gritava “isso é incrível! Isso é incrível!”... Tenha paciência, estamos falando de um queijo.
–Queria ser um pequeno ratinho vivendo em sua fábrica de queijos. – Falou Sam para o dono do lugar. Sério que ele disse isso?
Ele só faltou beijar o fabricante de queijos na boca depois de seus pulinhos histéricos. Foi muito tenso.
Após nossa pequena excursão, voltamos para Verona. Eu estava sentada na parte de fora de um café, lendo e bebendo um Cappuccino, enquanto Sam foi atender mais uma de suas ligações.
Ele voltou e sentou à minha frente tão alegre quanto uma criança que havia acabado de ganhar presentes novos. Sua boca já era grande, mas aquele sorriso quase estampava seu rosto inteiro. Ri com meu pensamento, afinal todos chamavam Sam de “bocudo”, e apesar de ele ter uma boca muito grande, com o tempo eu comecei a achar fofo.
–O que foi? –perguntei, já que ele parecia um Pinscher que não parava quieto no lugar.
–Acabei de falar com o Sr. Morini. Ele nos convidou para ir a uma incrível floresta a uns 120 km daqui. –respondeu Sam com um sorriso gigante. Literalmente. –E eles têm trufas maravilhosas!
–Espera. –o cortei. -120 quilômetros?
–Sim, mas não são como milhas, meu amor. –argumentou ele.
–Eu entendo a diferença, mas não entendo por que quer dirigir 120 quilômetros para ver um cogumelo. –rebati.
–Não é um cogumelo, está bem? É uma trufa! É um tartufo, é algo que você coloca em cima da massa, é muito bom... –começava Sam com seus monólogos- Mas qual é? Está aproveitando o dia, não?
–Estava tudo bem, mas agora... Honestamente eu não estou com vontade de ver um cogumelo. –disse seriamente.
–Tudo bem, eu entendo. Eu entendi... Só não chame de cogumelo. –disse ele pegando em minha mão.
Ficamos em silêncio por algum tempo, até eu o quebrar.
–Quer saber? Por que não vai até o lugar da tal trufa e eu vou ver os lugares turísticos? –perguntei com esperança, afinal seria uma boa esfriar a cabeça um pouco e fazer o que eu tinha vontade.
–Sério? –perguntou ele sem muita certeza. –Claro! É ganhar ou ganhar! –terminou ele antes que eu pudesse mudar de ideia.
Despedi-me de Sam, e fui até nosso quarto pegar meu mapa com lugares que eu queria visitar. O primeiro seria a Casa da Julieta, meu preferido.
Eu andava pelas ruas movimentadas de Verona, quando me deparo com a placa que tanto procurava: "Casa Di Giulietta". Abri um sorriso e segui em frente. Passei por um corredor de pedras, e parei apenas para observar. A cena a seguir foi extremamente emocionante, mas eu não conseguia descrever se era triste ou bonita.
Muitas mulheres estavam sentadas nos bancos ou até mesmo no chão, chorando enquanto escreviam suas cartas à Julieta. Cartas essas que contavam suas histórias de amor, seus fracassos, seus corações partidos... Todas em busca de uma resposta, uma ajuda... Uma luz no fim do túnel.
Aproximei-me mais do local. Tudo era de uma beleza incrível. A sacada de pedra, a escultura de Julieta, o enorme muro de pedra... Deixavam tudo com um ar de romantismo e nostalgia de algo que nem foi vivido por nós mesmos. E era realmente incrível.
Acabei ficando no local por mais algum tempo tentando escrever algo e não vi o tempo passar. Quando percebi, eu era uma das poucas ainda no lugar.
Até que tiro os olhos de meu caderno e vejo uma mulher recolhendo todas as cartas que foram colocadas no muro. Achei aquilo um pouco estranho, e como a boa investigadora que sou, fui atrás da mulher.
Ela andava calmamente por entre as pessoas com sua cesta cheia de cartas, enquanto eu tentava a seguir. Então ela passou por um corredor e encontrou com mais três mulheres que esperavam do lado de fora de um restaurante.
Minha curiosidade já estava nas alturas, então apressei meus passos para alcançá-las.
Passei por dentro do restaurante, e subi as mesmas escadas que elas haviam subido segundos antes. Elas não notaram minha presença quando entrei no local, pois estavam dividindo as cartas entre si.
Quando vi que elas realmente não me notariam ali, de tão alheias que estavam, bati na porta ao meu lado. Automaticamente todas me olharam, e eu disse:
–Com licença... Falam inglês? –perguntei.
Então a mulher que havia pegado as cartas levantou da mesa.
–Graças a Deus! Pegue essa cesta e... Mãos à obra!- falou ela.
–Mãos à obra? –perguntei, afinal, do que ela estava falando?
–É a tradutora da agência de empregos? –perguntou ela.
–Não, sou...
–Eu tenho esperado há duas semanas. –disse ela com um sorriso triste.
–Eu sinto muito. Meu nome é Santana, e eu te segui... E vi que colocou as cartas em uma cesta, e eu só queria saber por quê? –falei meio sem jeito.
–Por quê? –repetiu ela com um sorriso.
Então ela olhou para minhas mãos, vendo meu caderno e exclamou alguma coisa.
–Você é uma escritora. –concluiu ela.
–Sim, sou escritora. –respondi depois de alguns segundos.
A mulher então falou alguma coisa para as outras em italiano, provavelmente contando que sou uma escritora, e elas me cumprimentaram.
Acenei de volta, e a mesma mulher me chamou novamente.
–Venha, eu vou lhe mostrar. –disse ela.
Caminhamos até a janela, onde ela mostrou-me algumas garotas passando na rua abaixo de nós.
–Elas vêm de todos os cantos do mundo, todo dia. –disse referindo-se as garotas.
–Mas pegar suas cartas não é como pegar moedas de uma fonte? –perguntei interessada e um pouco confusa com a situação.
–De que outra maneira poderíamos respondê-las? –disse ela simplesmente com um pequeno sorriso no rosto.
–Meu Deus, então vocês respondem a todas? –perguntei com entusiasmo.
–Sim. –respondeu ela.
–Vocês são todas Julietas? –perguntei novamente.
–As secretárias dela. –respondeu ela de maneira gentil.
Caminhamos novamente até a mesa onde as outras mulheres se encontravam escrevendo, e elas voltaram sua atenção para mim.
–Donatella está casada com o mesmo homem há 51 anos. Ela lida com problemas com maridos. –explicou ela apontando a senhora no final de mesa que me ofereceu um gentil sorriso, o qual retribui.
–Maridos são como vinho, demoram para amadurecer. –disse Donatella rindo.
–Francesca é enfermeira. Ela lida com doenças e perdas. –voltou a dizer a mulher para mim, apontando para uma ruiva na outra extremidade da mesa.
Francesca apenas sorriu e acenou.
–... E Maria... –continuou a mulher suspirando.
–Por que você sempre suspira ao dizer meu nome? –perguntou Maria calmamente.
–Ela tem 12 filhos, 29 netos e 16 bisnetos. Cuida do todo tipo de carta. –explicou a mulher, a qual eu ainda nem sequer sabia seu nome.
–E você? –perguntei interessada.
–Isabella responde as que mal da para ler. –interrompeu Francesca.
Pelo menos agora sei que seu nome é Isabella.
–As brigas, términos, corações partidos... Alguém precisa responder essas. –disse Isabella suspirando pesadamente.
Ouvimos alguns gritos vindos da cozinha do local, então Isabella logo tratou de explicar.
–Minha mãe. Gostaria de ficar para o jantar, Santana? –perguntou Isabella educadamente.
Eu não podia aceita. Apesar de ter gostado muito de ter passado um tempo ali, eu ainda não me sentia completamente à vontade com elas para um jantar. Além de que eu teria que esperar o Sam.
Agradeci o convite, mas o neguei. As mulheres não ficaram chateadas, mas a mãe de Isabella...
–Tanta gente faminta, e ela não quer comer de jeito nenhum. –gritava a mãe de Isabella. – Sabe muito bem que eu não suporto desfaçatez! –dizia para a filha.
–Mãe, isso não é um insulto. –tentava argumentar Isabella.
–Não é um insulto? Eu fiz um lindo prato. Grande o bastante para toda a cidade, e ela diz não! –berrava a senhora.
Ok, hora de dar um basta nisso. Mas educadamente claro. Não vou sair batendo na velha.
–Eu adoraria, mas eu realmente tenho que ir. –disse para ela.
–Essa é o problema dos americanos, sempre correndo! –respondeu ela.
–Mamãe, por favor! –Isabella tentava repreender a mãe.
–Tenho que encontrar meu noivo. –disse a aquela "doce" senhora.
–O noivo? –perguntou ela sorrindo. –O noivo? Porque não disse? Parabéns!
Todas na mesa me desejaram felicitações por causa da notícia e sorriam para mim.
A velha havia saído do meu lado, mas logo voltou com um embrulho em suas mãos. Seria aquilo veneno?
–Pelo menos leve uma sobremesa para você e seu noivo. –disse ela me entregando a pequena sacola.
–Obrigada! –respondi sorrindo, afinal a velha não era tão mala assim. –Boa noite a todas. Tchau! –disse saindo.
Ainda não havia escurecido, mas parece que aqui as pessoas jantam mais cedo que nos Estados Unidos. O cheirinho de comida impregnava as ruas por onde eu passava, e agora eu estava realmente ficando com fome.
Cheguei até a pousada, e ao abrir o quarto, fui recebida com um abraço gigante e beijos por todo meu rosto.
–120 quilômetros de distancia e eu ainda ganho de você na hora de chegar? –brincou ele.
–Parabéns. –ironizei.
–É isso aí. –respondeu Sam. Ele não era muito bom para entender ironias. –Então, como foi Verona? Como estava sem mim?... Vazia? Meio vazia? Completamente vazia...? –perguntou ele enquanto eu sentava na cama.
–Meio vazia. –respondi isso para não ter que dizer que foi incrível e ele ainda acabar ficando brabo. –E as secretárias da Julieta...
–Julieta? Julieta Capuleto? –perguntou ele.
–Isso! Então, tem essas mulheres que se chamam de Secretárias da Julieta, e elas escrevem cartas para quem escreve para Julieta. – eu dizia, mas Sam parecia não prestar atenção, e ficava fungando enquanto eu falava. –E essas secretárias trabalham para a cidade de Verona. E todas essas pessoas, essas mulheres de coração partido, de todos os cantos do mundo vem, escrevem cartas e deixam no...
–O que tem na sacola? –Sam me cortou antes que pudesse ao menos completar o que estava dizendo.
Olhei para o embrulho em cima da mesa feito pela mãe de Isabella. Sam não parava de olhar para ele como um cachorro quando está farejando algo. Isso é muito estranho.
–Não sei. –respondi pendendo a cabeça para o lado.
Sam pegou a sacola e eu continuei a falar.
–Então elas escrevem essas cartas, as colocam no muro do Jardim da Julieta, e as secretárias voltam com cestas e levam as cartas todos os dias! E aí elas respondem essas cartas como se fossem Julieta, para todas as cartas que possuem endereço! Esse é o trabalho delas. É inacreditável! É a paixão delas, é o que fazem todo dia! –parei com minha divagação, pois percebi que estava falando sozinha.
–Meu Deus, San! Isso é incrível! –disse Sam com um pedaço enorme da tal sobremesa da mãe de Isabella na boca. –Incrível! Ótimo! Meu Deus, você tem que experimentar! Dê uma bela mordida. –disse ele vindo até mim com o doce.
Realmente a velha sabia cozinhar, porque aquilo era muito bom. Mas Sam não precisava surtar por causa disso. Porém, conhecendo meu noivo, eu sabia que ele só estava realmente empolgado de finalmente poder abrir um restaurante apenas seu, então ele surta com tudo relacionado à comida.
Conversamos mais um pouco, e mais tarde fomos jantar fora em um lindo restaurante.
O clima era muito agradável, e o vinho do local era excelente. Voltamos para nosso quarto, e quando eu fechei a porta, Sam me abraçou por trás e beijava meu pescoço. Ele passava as mãos por toda a extensão do meu corpo e me guiava até a cama.
Chegando lá, ele se deitou e eu deitei sobre seu corpo. Beijávamos-nos lentamente, e ele apertava minha bunda por cima do vestido que eu trajava. Então eu parei o beijo, e disse que voltaria em um minuto. Eu queria tirar meu vestido e colocar uma lingerie nova que havia comprado em Nova York, mas ao voltar para o quarto, constatei que meus planos foram por água a baixo.
Sam havia dormido.
Que ótimo! Mais uma noite sem sexo. Bem, pelo menos já estou acostumada. Sam quase não me toca faz 5 meses. Desde que seu restaurante tem dado mais trabalho, ele sempre chega exausto em casa e nunca “comparece”.
E isso é uma tortura para uma latina caliente como eu.
Deitei na cama e o empurrei para o lado, já que ele praticamente ocupava a cama inteira.
Estava quase pegando no sono, quando escuto o barulho de um trator. Ou melhor dizendo, meu noivo roncando. Eu não aguentava mais! Estava frustrada sexualmente, meu querido noivo estava dormindo e roncando bêbado ao meu lado, e eu estava exausta do dia de hoje.
Empurrei o grandalhão da cama, até que ele caiu do chão. Achei que com o tombo ele fosse acordar, mas pelo contrário, ele continuou a dormir feito pedra.
Pelo menos agora eu tinha a cama só para mim. Peguei uma almofada e coloquei em cima do rosto de Sam, a fim de abafar um pouco seus chatos e altos ruídos.
Encostei-me finalmente na cama e fechei os olhos. Não sei o porquê, mas sinto que amanhã vai ser um dia bem longo...
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