Cartas Para Julieta
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Eu estava deitada na cama dormindo tranquilamente, quando sinto alguma coisa gosmenta lambendo meu rosto. Abri os olhos assustada, mas era apenas meu noivo. Não, ele não estava me lambendo. Ele estava me beijando, mas sua boca é tão grande e molhada que é possível confundir seus lábios com sua língua. Sem comentários.
–Sam, que horas são? –perguntei me virando na cama e afundando meu rosto no travesseiro.
–São 6 horas principessa! –respondeu ele.
–Como?! –perguntei indignada.
–É princesa em italiano, minha linda! Agora levanta que nós temos muitas coisas para fazer, San! –disse ele entusiasmado levantando da cama.
Revirei os olhos e bufei. 6 horas da manhã?! Eu devo ter atirado pedra na cruz para merecer isso.
Após recitar vários palavrões em italiano que eu havia pesquisado no Google antes de termos viajado, finalmente levantei.
O clima em Verona é maravilhoso. Realmente muito agradável. E as pessoas nas ruas parecem estar felizes o tempo todo! Coisa que é extremamente rara em Nova York. Se não inexistente.
Achei que visitaríamos a cidade, mas parece que eu estava errada. Sam estava com um enorme desejo repentino de visitar as Secretárias da Julieta. Mas ao chegar lá, pude perceber o porquê.
Ele não desgrudava da mãe de Isabella por nenhum segundo! Queria aprender como fazer o tal doce que ela havia nos mandado na noite anterior, e ela parecia feliz em ter um aprendiz. Ou melhor, um escravo, já que ele fazia absolutamente tudo o que ela mandava.
–Seu Sam é muito entusiasmado. –dizia Isabella sentando-se a minha frente com uma xícara de café.
–É... Pois é... Eu sei. –respondi um pouco desanimada. –Ele parece achar que é um italiano desde que chegamos aqui. E toda a imitação do sotaque... Claro que é para ser bajulação, mas não é muito boa.
Fui interrompida por Sam chegando e sentando ao meu lado.
–Certo. Essa mulher é maravilhosa. Ela é simplesmente incrível! Acho que estou apaixonado. –falava Sam sobre a mãe de Isabella, de uma maneira completamente afobada.
–Oh, está apaixonado por ela? Fico feliz em saber. –respondi.
–Estou... –confirmava balançando a cabeça com uma cara de pidão. –Só diga não, e eu não farei. Sério, estou louco de vontade, mas por você não farei.
–Tudo bem, o quê? –perguntei, apesar de já imaginar qual seria sua resposta.
–Angelina se ofereceu para me ensinar alguns segredos hoje. De verdade! –sibilava Sam.
–Ok... Agora mesmo ou o dia todo? –perguntei um pouco chateada.
–Agora mesmo! É loucura! Ela está fazendo um Risoto all’Amarone! Acredita nisso? É uma receita que tem tipo uns 300 anos! É simplesmente fantástico! –exclamava ele com um sorriso idiota no rosto.
“Legal, passar o tempo fazendo um risoto é mais legal que passar o tempo comigo. Incrível.” –pensei.
–Isso é ótimo, mas... E o Lago Garda? Não havíamos combinado de ir visitar? –perguntei.
–É... Lago Garda... Digo... O Lago Garda está lá há uns quinhentos mil anos, sabe? Mas no momento Angelina se ofereceu para me ajudar. E quero dizer... Eu estou aqui, estamos aqui... Vamos nos divertir! –dizia Sam antes de ser interrompido por Angelina, a velha do mal.
–Você, Paul Newman, se quiser aprender tem que assistir! Vem ou não? –gritava Angelina lá da cozinha.
–Viu o que quero dizer? –dizia Sam com um sorriso débil no rosto. –Ela me chama de Paul Newman! Bem, é isso ou ver o Lago. Estou de mãos atadas, amor.
Isabella que presenciava toda a conversa se pronunciou pela primeira vez:
–Você pode nos ajudar se quiser.
–É! –exclamou Sam entusiasmado. –Com as cartas! Você lê, e eu cozinho. E mais tarde comemos. É ganhar ou ganhar! –disse ele me mandando uma piscadela e saindo da cozinha.
É, tinha que admitir... Além de ele ser charmoso, conseguia ser persuasivo.
Fiquei conversando com Isabella por mais algum tempo, até que ela decidiu ir buscar algumas cartas no muro de Julieta, e claro, a metida aqui iria junto.
–Há quanto tempo estão noivos? –perguntava ela enquanto caminhávamos pelas ruas de Verona.
–Há quase um ano. –respondi melancolicamente.
–E posso perguntar por que não usa nenhum anel de noivado? –disse calmamente sorrindo.
–Bem... Isso é culpa minha. Eu que insisti. Ele está tão ocupado, sabe? Esse lance do restaurante, e tudo o mais... Apenas achei desnecessário. –respondi.
–Ainda assim, uma garota deveria ganhar um anel. –argumentou Isabella.
Ela entrou pela estreita rua que estava a nossa frente, sumindo de minha vista. Fiquei parada por um momento apenas pensando no que Isabella tinha me dito... E bem, ela não estava errada. Mas mesmo assim, não sei se realmente queria usar um anel de noivado dado por Sam. Tudo iria parecer tão... real. E ainda não sei o porquê de não querer que isso seja real... Talvez seja apenas algo da minha cabeça.
Segui Isabella, que me recebeu com um sorriso gentil quando me juntei a ela para recolher as cartas.
Estávamos em um silêncio agradável. Era possível apenas escutar os sinos de alguma igreja ao fundo, o canto dos pássaros descansando nas árvores que rodeavam o local, e o som dos papéis sendo retirados do muro e colocados em nossa cesta.
Em algum momento, não consigo dizer especificadamente quando, fui pegar uma carta que estava presa entre tijolos do muro, e um tijolo de pedra caiu. Claro, a infraestrutura daquele lugar não era das melhores, mas nunca achei que o muro fosse começar a desmoronar.
Abaixei-me para pegar o tijolo e colocá-lo no lugar, até que algo me chamou a atenção. Onde antes havia a pedra tapando, agora existia um buraco, e neste buraco se encontrava algo parecido com um pedaço de papel. Cheguei mais perto, a fim de olhar melhor, e coloquei a mão lá dentro, pegando o pedaço sujo, esquecido e envelhecido pelo tempo. Quando abri, não consegui acreditar no que via.
Era uma carta. Uma carta para Julieta.
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