Cartas Para Julieta
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Saímos de manhã cedo, e eu não conseguia ao menos olhar para Brittany.
Eu estava envergonhada. Extremamente envergonhada, e com medo.
Mas tudo vai ficar bem, pois eu tenho um novo “mantra”.
“Eu não sou lésbica”.
Acho que fiquei repetindo essa mesma frase a noite inteira, junto com “estou noiva”, e “a Brittany é hetero”.
Mas enfim...
Passamos umas duas horas dentro do carro, até chegarmos a um asilo. Isso mesmo, um asilo. E se esse realmente for o Sr. Bartolini, não vai ser uma coisa fácil para Claire. Talvez ela fique muito abalada. E o por que? Porque esse Lorenzo Bartolini que estamos visitando é cego.
Brittany e eu sentamos perto de umas árvores, enquanto observávamos Claire se afastar. Estávamos em um silêncio absoluto, e nunca olhávamos uma para a outra.
–Senhora Claire. –chamou uma enfermeira, com um senhor ao seu lado. –Esse é o Senhor Bartolini.
–Senhor Bartolini? –perguntou Claire com um sorriso. É, parece que ela é mais forte do que aparenta. –Solo Claire Pierce. Ricordati di me? [Sou Claire Pierce. Lembra-se de mim?].
–Quel volto così bello. Così familiare. [Esse rosto tão belo. Tão familiar.] –dizia o homem passando a mão esquerda no rosto de Claire. –Buon pomeriggio. [Boa tarde].
Então o homem tirou os óculos escuros, e deu um beijo no canto da boca de Claire. Ela ficou parada no lugar, então após alguns segundos, virou-se para nós e fez um sinal de negação com a cabeça. Não era ele.
Bem, menos um.
Voltamos à estrada, e pude perceber que Claire estava muito quieta, e com um sorriso um pouco triste no rosto. Talvez estivesse perdendo as esperanças.
Então apenas coloquei minha mão em seu ombro, fazendo-a se virar para o banco de trás, me enviando um sorriso agradecido, que retribui na mesma hora e com a mesma intensidade.
–Ainda não terminamos. –eu disse.
–Claro que não terminamos. –respondeu ela sorrindo mais abertamente e voltando a olhar para frente.
Olhei para frente, e meus olhos se chocaram com os de Brittany pelo espelho. Ela me enviou um sorriso, e eu juro que, se não fosse hetero, me apaixonaria naquele momento.
Viajamos até anoitecer. E como sempre, paramos em um hotel.
Eu estava em meu quarto, passando tudo o que já havia escrito da história para o computador, enquanto uma moça entrava no recinto para deixar o jantar que eu havia pedido.
–Obrigada. –respondi assim que assinei um papel, e ela saiu do quarto. Porém, antes que eu pudesse fechar a porta, uma mão a segurou.
–Olá? –disse Brittany entrando.
–Olá. –respondi voltando para meu assento em frente ao computador. Aquela aproximação não me fazia muito bem. –A Claire veio com você? –perguntei olhando para os lados.
–Não, na verdade ela foi se deitar. –disse Brittany se aproximando mais de mim. –Na verdade eu vim convidá-la para jantar... Mas... Acho que já tem sua janta. –completou apontando para a mesa posta.
–É que eu queria começar a escrever a história. –expliquei desviando do olhar dela.
–Como está indo? –perguntou ela interessada.
–Está indo muito bem. –respondi sorrindo.
–Eu estou nela? –perguntou ela novamente, com um sorriso infantil no rosto, e balançando o corpo para os lados. Super fofa.
–Talvez, por quê? –cerrei os olhos.
–Posso ler? Vamos lá, é só um pouco. –disse ela indo em direção ao notebook.
–Está brincando? –indaguei. –De jeito nenhum. –respondi fechando o aparelho.
–Como terei certeza que estou sendo devidamente retratada? –questionou ela.
–Sabe que está! Acredite-me, você está! –afirmei.
–O que isso quer dizer? –perguntou ela com a sobrancelha direita arqueada.
–Quer dizer boa noite, Brittany! –respondi empurrando-a para fora.
–Sério isso? –perguntou ela rindo. –Mesmo?
–Sim. –disse. –Boa noite.
Então ela abriu a porta e saiu do quarto ainda rindo.
–O quê? –perguntei fechando a porta.
–É só que... Essa é uma daquelas situações em que se diz o oposto que queria dizer? –perguntou ela do outro lado da porta, com a mesma já estando fechada.
–Não. –menti, após alguns segundos.
–Certo. –disse ela com certo desapontamento na voz. –Boa noite então.
–Boa noite, Brittany.
Sentei na cama e sorri. Brittany é tão fofa... Mas eu precisava me afastar um pouco. Ela estava me fazendo pensar em coisas estranhas, que eu nunca havia cogitado antes. Ela mexia muito comigo...
Voltei a escrever minha história, e fui dormir um pouco mais tarde naquela noite. E como sempre, mesmo tentando evitar, sonhei com uma tal loirinha chamada Brittany.
–----***-----
Acordei cedo esta manhã, afinal, eu queria arrumar um tempo para poder adiantar minha história.
O dia estava quente, então desci até o restaurante perto da piscina para poder tomar café da manhã, e terminar de escrever.
–Bom dia. –disse Brittany sorrindo e vindo em minha direção, trajando um short curto, e uma camiseta branca larga por cima. Ela parecia ficar cada dia mais linda!
–Bom dia. –respondi levantando minha cabeça para observá-la melhor.
–Vovó quer dormir até mais tarde hoje. –comentou ela, olhando para a piscina.
–Ela está bem? –perguntei preocupada. –Ela precisa de algo?
–Não, ela está bem. Ela é forte como um touro. Al Pacino de vestido. –disse Brittany, fazendo-me abrir um sorriso amarelo com aquele último comentário. –Então, pensei em conhecermos um pouco de Siena, já que estamos aqui. –mudou de assunto.
–Boa ideia. –respondi.
–Suponho que queria continuar escrevendo, certo? –perguntou uma Brittany completamente sem graça. –Trabalho, trabalho, trabalho. –apenas assenti com a cabeça. –Característica admirável.
Apenas a encarei com um leve sorriso nos lábios, e ela disse de saída:
–Bem... Continue então.
–Brittany? –falei depois de algum tempo, observando a garota virar-se para mim. –Já que estamos aqui...
Ela sorriu e veio até mim. Fechei meu caderno, e saímos.
Caminhávamos tranquilamente pelas ruas de Siena, até que não consegui aguentar aquele silêncio.
–Detesto ter que elogiá-la, mas... O que está fazendo pela Claire é realmente muito gentil. E eu imagino que gostaria de passar suas férias em outro lugar, então... Você se ofereceu ou seus pais a obrigaram? E onde eles estão? –disse para ela.
–Gosto de pensar que estão em um bom lugar. –respondeu Brittany depois de um tempo em silêncio. –Morreram em um acidente de carro quando eu tinha 10 anos.
Paramos de caminhar, e ela me olhava tão intensamente...
–Sinto muito. –disse simplesmente. –Me perdoe...
–Não tem problema, foi há muito tempo. Mas obrigada San, eu fico agradecida. –disse ela sorrindo. –Foram tempos difíceis. A vovó perdeu seu filho, eu perdi meus pais. Receio que é por isso que não acredito em finais felizes... –ela suspirou e continuou. –Enfim, a vovó entrou em cena, acolheu uma furiosa e insolente garotinha sob suas asas e... E me levou a ser essa desagradável mulher que sou hoje.
Não disse nada, apenas sorri para ela e começamos a caminhar novamente.
–Será que seu noivo não está começando a se sentir solitário? –questionou Brittany quebrando o silêncio.
–Não. Sam está se divertindo como nunca, agora. –respondi. –E duvido que ele sequer perceba que não estou... Mas e você? Não tem um namorado?
–Bem, eu... Será que podemos sentar um pouco? –perguntou ela, e sentamos em um banco. –Olha, eu preciso te contar uma coisa... E eu realmente não ficarei braba se você nunca mais quiser falar comigo depois disso, a decisão é sua. –eu a encarei lhe encorajando, até que ela suspirou e começou a falar. –Eu não tenho namorado, porque eu não gosto de meninos. Eu sou lésbica, Santana.
WOW... Ok, agora o negócio ficou sério. Ela é lésbica. Um dos meus “mantras” já foi pro brejo. Ai meu Deus, o que eu faço?
Merda, ela está olhando para mim... Santana, diz alguma coisa, sua anta!
–Eu não tenho nenhum problema com isso Brittany, se é o que quer saber. As pessoas tem o direito de amar quem quiser. Não importa a sexualidade. –respondi com uma calma que não sei de onde tirei.
Ela sorriu e colocou sua mão sobre a minha.
–Obrigada, San.
E ele voltou. Sim, o clima tenso.
Ela me olhava de forma tão profunda que eu tinha certeza de que poderia enxergar sua alma daquela maneira. Até que alguém passou por nós, derrubando alguma coisa e fazendo barulho, e só aí saímos de nossa bolha particular.
–Mas enfim... –pigarreei e tirei minha mão de baixo da dela. –E você tem uma namorada, então? –perguntei sorrindo.
–Esta é uma história muito, muito longa. –ela respondeu sorrindo também.
–É? Porque não estou surpresa?! –disse.
–Já faz um ano desde que vi a Patrícia pela última vez. –começou ela.
–Você terminou com ela? –perguntei ironicamente.
–Está insinuando que sou do tipo que leva o fora, e não do que dá um? –questionou-me.
–Talvez. –respondi divertidamente.
–Na verdade eu que terminei com a Patrícia. Desta vez. –explicou ela. –Quer um sorvete?
–Na verdade eu quero sim. –sorri.
Passamos pelo sorveteiro e Brittany comprou sorvete de morango, que segundo ela era seu favorito, e de chocolate para mim, pelo mesmo motivo.
Havia algumas mesas ali perto com cadeiras, então sentamos para podermos descansar.
–Então... Vai me dar uma chance? –a olhei confusa. –De ler alguma história sua?
–Tudo bem, você venceu. –respondi tirando o pequeno caderno de dentro da minha bolsa, e entregando-o para a loira a minha frente.
Ela já estava lendo há um tempo, e nem sequer desviava a atenção para outra coisa.
–Ok, chega. –eu disse tentando pegar o caderno de suas mãos, mas sem sucesso. –Está bem, já chega. –repeti, só que conseguindo tirar o caderno de suas mãos.
–Santana! –resmungou Brittany.
–Chega. –respondi sorrindo.
Ela sorriu de volta, e disse baixinho, como se contasse um segredo:
–Sua escrita é realmente muito boa!
–Obrigada... –respondi timidamente.
–Não! É... É realmente muito boa! –dizia ela empolgadamente se apoiando na mesa, e ao mesmo tempo se aproximando mais de mim.
–Por que está tão surpresa? –perguntei indignada.
–Por que nunca mostrou seu trabalho para ninguém? –questionou ela lambendo seu sorvete.
–Nunca senti como se estivesse pronta. –respondi.
–Por quê?
–Acho que sou perfeccionista. –dei de ombros.
–Sabe que essa é outra maneira de dizer “sou uma covarde”? –disse fazendo-me sorrir. –Ouça, você não tem nada a temer. Você não é uma verificadora de fatos, é uma escritora!
Acho que quando ela disse aquilo eu iria explodir de tanta alegria. Oh meu Deus, ela gostou do que eu escrevo!
Então não tenho ideia do que deu em mim, eu apenas peguei meu sorvete e o esfreguei no rosto da loira a minha frente, deixando-a toda lambuzada. A cara de indignação dela foi tão engraçada, que eu tive um ataque de risos.
–O que foi isso? –perguntou ela rindo.
–Não sou covarde. –disse, vendo ela nem ligar para o sorvete em seu rosto, e continuando a comer o seu.
–E eu não sou uma dama! –exclamou ela passando seu sorvete por todo meu rosto.
Ficamos rindo por mais alguns minutos, e fazendo uma pequena guerra de sorvetes, quando eu finalmente parei e disse:
–Devíamos voltar para a Claire.
–Sim, ainda há muitos Lorenzos. –respondeu levantando-se, mas sem antes jogar mais um pouco de sorvete em meu rosto. –Vamos lá, baixinha.
–Ah, não! Tudo, menos baixinha. –disse pegando a mão que ela havia me oferecido para me levantar. –Até porque eu não sou baixinha.
–Você é sim. Bem baixinha. –afirmou Brittany.
O caminho de volta ao hotel estava sendo muito divertido. Não sei porque, mas nossas mãos não se desgrudaram por um único minutos desde que saímos da praça, e nós ríamos de tudo como duas adolescentes.
–Então... Você sabe quase tudo sobre mim. Me conta um pouco sobre você? Tipo... Quantos anos você tem? É formada em quê? Essas coisas. –perguntei enquanto passávamos por uma rua um pouco estreita, fazendo com que nossos corpos ficassem mais juntos.
–Olá, meu nome é Brittany Susan Pierce. Tenho 26 anos, sou formada em Direito na Faculdade de Cambridge, estou solteira, tenho 1,73m de altura, loira, olhos azuis, sou de origem Inglesa, e gosto de gatos. Mais alguma coisa? –debochou ela.
–Você gosta de gatos? –ri.
–Claro que sim! Eles são tão fofinhos... –respondeu ela. –Quando era criança, eu tinha um gato chamado Lord Tubbington. Mas ele era velho e muito gordo, então morreu quando eu tinha 14 anos. A parte mais triste foi enterrá-lo. Ele era um dos poucos amigos que eu tinha.
–Sinto muito pelo seu gato...
–Está tudo bem, San. Mas então, quantos anos você tem? –perguntou Brittany.
–Tenho 25. –respondi simplesmente.
–E deixe-me adivinhar... Tem 1,30m de altura? –gargalhou Brittany.
–EI! Para sua informação, eu tenho 1,68! –respondi e ela me encarou com uma cara divertida e a sobrancelha arqueada. –Tudo bem, eu tenho 1,65m...
–Sabe que sua altura não importa não é, você é linda. Para falar a verdade, a garota mais linda que eu já conheci em toda minha vida... E a melhor escritora! –disse Brittany um pouco timidamente, colocando as mãos no bolso.
–Obrigada Britt. –respondi desviando o olhar. –Bem, chegamos. Eu vou pegar minhas coisas, e você chama a Claire.
Entramos no hotel, e eu estava subindo as escadas, quando Brittany me chamou.
–Obrigada pela companhia. Eu realmente gostei de sair com você, San.
–Eu também gostei Britt.
Então ela abriu o sorriso que eu mais gostava. Aquele que não atingia apenas seus lábios, mas também seu olhar. Era seu sorriso mais sincero. O mais apaixonante.
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