Cartas Para Hermione
6 O Trasgo e a Sabe-tudo
Notas iniciais
O ploc, ploc da chuva fora da biblioteca era tão intenso quanto às batidas do coração de Hermione naquele momento.
Três palavras. Apenas três palavras que fizeram seu coração perder três batidas e voltar a bater tão forte que teve medo de Ron escutar.
Três palavras, três simples palavrinhas que lhe tiraram não só a fala como o raciocínio.
Hermione se viu na adolescência de novo, que lia livros de romance e se perguntava “por onde anda meu príncipe, que não trata de aparecer?”. Bem ele apareceu, mas de príncipe só o sorriso, porque quase sempre se mostrava um trasgo.
Viu-se com quatorze anos novamente, insegura e sem reação ao descobrir, ou admitir para se mesma, que estava apaixonada pelo melhor amigo de cabelos ruivos e atrapalhado.
E que garota nunca sonhou em ser pedida em casamento? Que garota nunca sonhou que aquele garoto, que não há notava muito menos lhe dava bola, de repente deixasse de ser insensível, abrisse os olhos e visse que ela era a garota certa para ele?
Que lhe atirasse a primeira pedra quem nunca sonhou com isso.
Ate as mulheres mais independentes, maduras e modernas já tiveram lá seus devaneios juvenis.
Hermione podia ser diferente das outras garotas, mas também tivera seus sonhos adolescente e com toda certeza Ronald Weasley fazia parte de muitos, para não dizer quase todos, deles.
E era esse mesmo Ronald Weasley, que há tempos para ela e para muitos era o trasgo mais insensível que já tivera a infelicidades de conhecer, estava ali ajoelhado bem a sua frente com a mão estendida e tinha acabado de pronunciar as três palavrinhas dos sonhos de milhares de garotas. Estava ali com um sorriso...
Ah aquele sorriso! Para ela naquele momento ele brilhava mais que o sol e aquecia-lhe a alma. E aquelas orbitas azuis lhe davam uma sensação de aconchego que ela tanto queria ultimamente.
Por um simples momento o lado menina adolescente falou mais alto. E ela quis gritar um SIM bem grande para espantar aquele silencio da biblioteca, que pareciia furar os tímpanos, como o vazio em seu peito. Quis pular nos braços dele e dizer que sim, ela queria passar o resto da vida com ele e que esperava por isso talvez desde o dia em que se viram pela primeira vez, só ele por ser um tapado não percebia.
Mas Hermione era conhecida pela sua sensatez, e mais uma vez ela falou mais alto.
E ela quis chorar.
Chorar por culpa mais uma vez daquelas três palavrinhas.
Quis chorar porque desejava que aquele pedido fosse verdadeiro. Mas ela sabia, era inteligente demais para não saber; ele só estava tomando aquela atitude nobre porque se achava no dever de protegê-la, custasse o que custasse. E no momento o preço era alto demais a pagar.
Se ela aceitasse talvez seus problemas estivessem resolvidos. Seu pai ficaria feliz com o casamento, gostava de Ron, sua mãe nem se fala! O garoto era o xodó dela, mas ele pagaria caro por embarca nessa loucura, pagaria com sua liberdade, seu namoro com Lilá e ate sua paz.
Afinal, quem queria enganar? Estava em um buraco sem saída e não podia leva-lo junto. Não, ela não podia. Gostava demais de Ronald para fazer isso.
Se viu novamente como a adolescente de quatorze anos, que chorava triste em seu canto, tudo porque o mesmo garoto que descobriu-se apaixonada há pouco tempo, o mesmo que ansiava secretamente ser convidada para o baile da escola – aquele que era tão insensível a ponto de só repara-la como uma garota depois de um comentário de outro colega, mesmo com os anos de convivência – finalmente a convidou para o maldito baile da escola, apenas como ultima opção.
Suspirou. Ela não olhava em seus olhos, era covarde demais para isso naquele momento. Mas ele continuava ali, implacável esperando uma resposta que nem ela mesma sabia se podia dar.
Pobre Rony, sempre se via no dever de protegê-la. Se ela estava em apuros, lá estava ele para ajuda-la. De todos os amigos era o que mais se preocupava com ela, às vezes ate mais que Harry que era quase seu irmão. Ele com aquele jeito atrapalhado, aquele sorriso de canto charmoso, aquela mania de passar a mão no cabelo, de coçar o queixo e a nuca quando está nervoso, sempre esteve por perto. Nos mementos felizes e mais uma vez nos tristes, como estava agora.
Quase sorriu ao se lembrar da promessa que fizera no segundo ano do colegial, quando ela estava no hospital. Tudo por causa de uma batida sem álcool de amendoim, bebida em uma festa que ele se recusou a ir porque vinha tratando ela como um ogro e ela nem sabia o motivo.
Mas foi ele que a viu vomitar e desmaiar com falta de ar, á socorreu e depois se sentirá tão culpado pelo bolo que lhe deu que lhe fez a promessa, a tal promessa iria protegê-la sempre, feita em um sussurro enquanto achava que ela estava insciente.
E mais uma vez ali estava ele, cumprindo fielmente esse papel.
– Então Hermione... Hm... Não quero te pressionar nem nada... Mas é que essa posição não é das mais confortáveis. – Tirou-a dos seus devaneios.
Ela o olhou. Ele ainda estava lá com aquele sorriso caloroso, esperando que ela dissesse algo.
Suspirou buscando coragem.
– Eu... Eu não posso. – O sorriso quente dele esfriou, assim como o seu coração.
– Como assim não pode? – levantou indignado – Vamos Hermione, sei que não sou o príncipe dos sonhos de ninguém, mas eu prometo me esforçar pra ser menos trasgo possível. – se ele soubesse que era o sonho dela, talvez o olhar de menino pidão, junto com o confuso da resposta recebida, não estaria estampado naquele mar azul. – Olha, eu prometo que não deixarei a toalha molhada em cima da cama, mamãe vive reclamando disso, acho que as mulheres em geral não gostam não é mesmo? – a charmosa e habitual coçada na nuca demonstravam o tamanho do seu nervosismo – Se quiser também não vou deixar a roupa espalhada ou jogada no chão, principalmente no banheiro. E sempre, sempre manterei meu quarto arrumado. Dobro ate minhas cuecas se você quiser! – suspirou se acalmando – Também terei modos na mesa e todas essas coisas que geralmente irritam minha mãe e que com certeza devem irritar você, afinal vocês são mulheres e...
– Ron, Escuta... Eu não posso... Não posso fazer isso com você. – desejou que as poucas palavras explicassem os muitos dos motivos do seu não.
– Comigo?! Hermione, a questão aqui não é a mim e sim você. Eu que não posso deixar você fugir assim. Não haja como se não tivesse opções, porque você tem Hermione. Você tem amigos. E eu como seu amigo tenho o dever de te proteger, como já te prometi sempre fazer isso, mas também tenho que te acolher com seus erros, mostrar que sempre ha uma luz no fim do túnel e é o que estou fazendo agora. Mantenho a minha promessa, custe o que custar. Porque isso é amizade, Mione. – Ela não aguentou ouvir aquilo dele. O quanto mais Ronald Weasley, o eterno trasgo insensível, havia crescido e amadurecido?
Correu ate ele o abraçando forte o pegando desprevenido.
– Você é o cara com o maior coração do mundo Rony. – sorriu coma cabeça em seu ombro – Ele é tão grande que por muito tempo você não soube demonstrar o tamanho dele. Não liguem pro que dizem, você não é um trasgo. Só não sabe administrar esse sentimento enorme que tem dentro de você. Obrigada por ser meu amigo Ron.
– Então... Isso é um sim? – perguntou abobalhado com o gesto e as palavras dela.
Tão rápido quanto o abraçou, ela o soltou ficando seria.
– Não Ronald! Não! Eu não vou aceitar me casar com você por causa de uma ridícula promessa de adolescente. Você se vê na obrigação de me proteger, eu agradeço de coração, mas as consequências dos meus atos eu tenho que arcar sozinha! Não posso arruinar a minha vida e a sua ao mesmo tempo.
– Não é por conta de uma promessa Hermione, é mais que isso droga! Eu sou seu amigo, amigos ajudam um ao outro, sem se importar com erros e consequências. Sem ligar se estaria se jogando em um precipício. No fim valeria a pena, mesmo que os dois estivessem no chão, sorririam porque fizeram junto, como deve ser. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, não é assim que sempre foi Hermione? Por que agora haveria de ser diferente?
– Por quê? Porque isso seria crueldade da minha parte! – abriu os braços para demonstrar o que parecia obvio – Você tem noção do quanto vai perder? – balançou a cabeça sem deixar que ele respondesse – Você não deve estar racionando direito. Se estivesse veria que tem muita coisa em cheque nesse momento, mas eu como boa amiga vou lhe dizer algumas delas. Primeiro: Lilá. Não sei que diabos você viu naquela cretina com aquele perfume tão doce que me dá enjoos a quilômetros de distancia; sem falar daquela maldita cor rosa que parece estar em cada centímetro do corpo dela e aquela voz... – fez uma discreta careta – Aquela voz parece entrar no meu cérebro e me instiga um extinto assassino tão grande, que tenho vontade de costurar a boca dela, só pra nunca mais ouvir aquela vozinha irritante pronunciando seu nome daquele jeito tão... Tão patético. – suspirou exaltada. – De qualquer forma, ela é sua namorada e eu não quero ser a bruxa má a acabar com esse “namoro” de vocês. – Estevam praticamente declarando que havia mais que amizade entre eles. O ciúme estava presente, querer o bem de um de acima de qualquer coisa e a intensidade dos olhares que trocavam era a prova final, mas a teimosia não os deixava ver o que estava bem à frente deles.
– Segundo – continuou ignorando o sorrisinho dele – Nós não vamos brincar de casinha Rony. Você vai perder sua liberdade, não vai poder sair todo final de semana com aquela sua moto, sabe se lá pra onde! Vai ter uma rotina chata e cansativa. Sem contar que terá que me aguentar de TPM por mais ou menos oito meses. Você surtaria antes disso. – suspirou seria novamente – Você tem uma vida toda pela frente, não posso fazer você jogar tudo pro ar e te arrastar pro altar.
– Na verdade achei que estava tentando fazer isso, não? – tentou fazer graça, como sempre fazia pra aliviar a tensão. Se o clima não estivesse tão pesado talvez ela ate riria – E a Lilá... Bem como você já a descreveu por mim, não sobrou muito o que falar. Eu realmente detesto aquele maldito apelido, argh! Aquela coisa asquerosa! Eu estava mesmo tentando arrumar um motivo pra me livrar dela há tempos, que motivo seria melhor do que eu estar noivo de outra? – ele podia ter amadurecido, mas nem tanto. Ainda sobrará bastante do garoto Weasley no homem a sua frente. Talvez por isso fosse tão especial.
– Isso é serio Ronald. Muito serio. Nenhum de nós dois tem dependência financeira, como poderíamos construir uma vida a dois sem termos um emprego e nem uma casa? A não ser que você ache que nós nos casaríamos, mas continuaríamos dormindo na casa dos nossos pais. – debochou no auge do desespero para mostrar a encrenca que ele queria se enfiar.
– Claro que não! Eu já queria sair de casa antes disso. Eu poderia arrumar um emprego, um estagio é muito comum quando se esta na faculdade. Mesmo que eu esteja na metade da minha, acho que consigo um estagio de arquitetura com um salário razoável. – explicou – Sobre a casa... Bem, quando eu e meus irmãos éramos mais novos, meu pai fez uma poupança para cada um de nós para garantir nossos estudos. Como são Gui e Carlinhos que financiam os meus, eu poderia dar entrada em um pequeno apartamento com o dinheiro.
Ele estava realmente decidido em fazê-la com que aceitasse o pedido, e ela estava ficando sem argumentos para continuar negando aquele plano que tinha tudo pra dar errado.
– Mas... Mas... Você vai ter que acordar cedo, eu sei que você odeia acorda cedo. – argumentou – Vai ficar estressado com o trabalho. Vai perder a sua paz com os choros e tudo mais. Vai ter que trocar fraldas, acordar de madrugada para fazer mamadeiras...
– Uma hora eu teria que amadurecer não é mesmo? E eu não me importo com o barulho, eu moro na toca Hermione, barulho e agitação são o que não faltam lá. – sorriu – Eu vou ter certa falta de jeito no começo com o bebê, mas creio que a criança não sofrerá muitos danos psicológicos. Vamos, você não tem nem mais argumentos. Custa aceitar o meu pedido e acabarmos com tudo isso?
Suspirou.
Eles eram amigos, tinham lá suas diferenças e brigas, mas eram amigos. Então por que não aceitar?
Ela o alertara com todos os argumentos possíveis para o tamanho do problema que ele estaria ganhando, mas mesmo assim ele parecia irredutível em ajuda-la. Poderiam ficar casados por um tempo, ate ela se estabilizar e depois seguirem com suas vidas como antes.
Seria como passar um tempo na casa de um amigo, o problema era ele ser mais que um amigo, mas talvez ela conseguisse viver uma rotina de dia a dia com esse pequeno detalhe. E apesar dos pesares ele parecia ser sua única “luz no fim do túnel”.
“Aceite Hermione!” – seu coração dizia. – “você não pode usa-lo dessa maneira!” – o cérebro avisava.
Bem, ela não estava enganando ninguém, ele sabia muito bem no que estava se metendo, não é mesmo?
E como poucas vezes acontecia, Hermione decidiu ignorar o cérebro e ouvir apenas seu coração apertado no peito.
– O bichento vai morar com a gente. – disse olhando para o chão com um pequeno sorriso nos lábios, esperando que ele entendesse o seu sim entre linhas.
Rony abriu um dos seus sorrisos quentes como as tardes de verão londrino.
– Tudo bem, a bola de pelos vem conosco. – respondeu antes de lhe abraçar fortamente e afanar seu cabelo – Prometo não tentar envenena-lo ou qualquer outra coisa que possa mata-lo. – seguiu abraçando-a, agora pelos ombros, e seguiram para saída da gigantesca biblioteca.
Hermione sentia o coração mais leve, como se enfim a vida sorrisse para ela e lhe desse uma chance de ser feliz.
Tudo graças ao Ronald, sempre ele.
– Sabe que eu falei serio sobre o lance de me aturar de TPM por oito meses, não é? – ele arqueou a sobrancelha de forma irônica para ela.
– Hermione eu te aturo por... Quantos anos mesmo? – fingiu pensar – Ah sim, por dez anos e não surtei. Relaxa, isso vai ser fichinha.
– Idiota. – tentou parecer brava, mas simplesmente não conseguia parar de sorrir.
– Eu também te amo sabe tudo. – beijou-lhe o topo da cabeça.
Fale com o autor