Cartas Para As Estrelas
10 Carta 10 - Luto
Notas iniciais
“And I tread a troubled track
My odds are stacked, I'll go back to black
We only said goodbye with words
I died a hundred times”
*x*x*x*x*
Eike ouvia a conversa de Kiara e Layla da cozinha. Elas falavam alto, e realmente não se importava com isso.
— Ela nem veio me cumprimentar, afinal. — Murmurou, para si mesmo, num tom de graça. Afinal, ele conhecia muito bem Kiara, e sabia que a mesma considerava a afilhada quase que como uma filha.
Eike voltou para seu quarto, fechando a porta em seguida. Encarou a escrivaninha que havia lá, e então, sentou-se na cadeira bem a frente dela. Em cima da mesa havia uma caixa fina, onde estavam guardadas diversas folhas de papel de carta e envelopes que, a cerca de 20 anos, esperavam para serem usados. Na gaveta, trancada com uma chave que se encontrava ao lado da pequena caixa com papéis, havia uma outra, onde ele guardava o instrumento usado para realizar o seu maior — e mais fatal — erro.
Ele soltou um suspiro. Fazia alguns anos em que voltara a fazer aquilo. A recaída veio logo depois que Layla foi para a faculdade. Afinal, assim ele já não tinha mais ninguém para ocupar a sua mente, e atirá-la para longe das memórias da Estela.
“Não volte a fazê-lo. Por favor. Se não por mim, por Ela. Pela sua Luz, a sua Estrela. Não era assim que a chamava?”
A conversa com sua doce Noite de a alguns minutos ainda ecoava em sua cabeça.
“Tente desabafar de outras formas. Não daquele jeito. Você adora escrever, e ela adorava receber cartas. Escreva, para ela. Mesmo que ela nunca mais possa lê-las. Eu posso ler por ela, se quiser. Mas acho que seria melhor não.”
Ele fez isso no primeiro ano. Por que mesmo havia parado? Não se lembrava.
Encarou a chave da gaveta, e em seguida a caixa com os papéis de carta. Soltou um suspiro. Ele faria por ele, pela filha e, principalmente, pela sua amada Estrela.
*x*x*x*x*
Guarulhos, 11 de Setembro de 2014
Olá minha Estrelinha… Acho que deveria fazer isso mais vezes. Talvez assim eu pare de fazer aquilo.
Mas sabe… É muito difícil para mim. Já se foram 20 anos. 20 anos em que você se foi, e levou meu coração junto. Sei que já era para eu ter superado, mas nesse caminho conturbado que trilho, sem você ao meu lado, eu sempre volto para o luto.
Eu tenho muitas chances de superar isso, sei bem disso, elas estão se empilhando cada vez mais. Mas eu simplesmente as deixo de lado, as deixo passarem. Por quê? Bem, nem eu sei direito.
Talvez por que eu sinta que assim eu me afastaria mais de você. Eu definitivamente não quero isso.
Muitos só dizem adeus com palavras. Algum momento eles se reencontram, querendo, ou não. Mas você me disse “adeus”, sem pronunciar qualquer palavra, sem realizar qualquer gesto.
Aliás, foi com um gesto sim. Você fechou os seus olhos, para entrar num sono profundo. Num sono do qual você nunca mais irá acordar. E mesmo que eu me torne um príncipe encantado, e vá a um castelo cercado de espinhos, não terei como te acordar.
“Isso realmente foi cruel da sua parte” — Era o que eu gostaria de dizer. Mas não posso. Você não teve culpa. Ninguém teve culpa. E isso é o pior de tudo.
Eu morri centenas de vezes.
Morri cada vez que vi você naquele estado.
Morri cada vez que me lembrei daquela visão.
Morri cada vez que percebia que não podia te salvar.
Aquilo foi muito repentino… E extremamente doloroso. Mas será que um dia, poderemos nos reencontrar?
Eike
*x*x*x*x*
Ele dobrou a folha com cuidado, e então a guardou dentro do envelope, e o fechou. Deixaria em cima da mesa por enquanto, por que ainda havia duas pessoas que estavam lendo as cartas da Estela.
Na frente do envelope, assim como já havia feito outras vezes, escreveu:
“Para as Estrelas”
Mesmo que, muito provavelmente, elas nunca a receberiam.
Fale com o autor