Cartas Do Viajante

1 Capítulo Único


“Querido Sho,

A neve está caindo com força aqui em Tókio. Desde que cheguei, há alguns dias, as ruas parecem um grande cobertor branco. Neste momento estou num bar, olhando as pessoas através da janela. Falta pouco para a meia-noite... Para que eu fique mais velho...

As mães estão correndo atrás das crianças, meio em pânico. É engraçado... Há muita gente carregando compras de última hora. Sabe, o Natal é uma data peculiar; toda essa agitação, essa excitação por um dia que passa tão rápido... Apesar de todos os problemas, de toda a hipocrisia, de todas as guerras de um canto ao outro do mundo, as pessoas escolhem esse momento para revelarem uma faceta de personalidade que, na maioria do ano, não dá as caras. É triste afinal... Esse espírito de solidariedade, de bondade exacerbada, tem uma data marcada para de apresentar. Ao menos é um sinal de que ele não se extinguiu por inteiro. Há esperança... Por menor que seja.

Estou devaneando demais... Creio que, quando se está sozinho – como estou agora – a mente trabalha de um modo bizarro, mais livre quem sabe... Peço que não fique preocupado por eu estar só neste momento. Estou só, mas não solitário.

Ah, é um lugar aconchegante, este bar... Gostaria que você pudesse vê-lo agora; as luzes são indiretas, amarelas... Tudo parece ser feito em madeira rústica, como naqueles bares de beira de estrada, em filmes americanos sobre o velho oeste... É curioso o que se pode encontrar no centro de Tókio.

Contudo, vou embora assim que der meia-noite. Quero ver o céu quando o relógio atingir o ponto máximo... É uma noite especialmente bonita para se estar enclausurado. Depois voltarei para o hotel. Quero explorar a cidade amanhã, tirar fotos... Há coisas demais para se ver por aqui!

Você deve estar se perguntando quando esta aventura vai terminar não é mesmo? Bem... me desculpe Sho... Mas não posso ter certeza. Por favor, entenda... Eu preciso deste tempo, preciso descobrir tudo o que puder... Sentir tudo o que ainda não senti... Ao menos, não com você. Parece cruel, eu sei... Mas tenho de ser sincero. O mundo tem tanto a oferecer! Por que se prender a uma realidade?

Quando eu estiver pronto, quando já estiver saturado de todas as experiências, de todos os amores de estrada... quando estiver enjoado de todos os sabores e cheiros de cada lugar pelo qual passei... Eu voltarei. E, quando o fizer, estarei indo para onde quero estar... Ao seu lado. Mas não ainda...

Eu o amo... E espero que ainda seja recíproco.

Com carinho,

Aiba Masaki.”



Assim que terminou de reler a carta, ele sorriu. Verdadeiramente satisfeito, dobrou a folha cuidadosamente em três partes; em seguida, guardou-a, juntamente com a esferográfica azul, na bolsa de couro caramelo, sobre o balcão. Pediu outra dose de gim, que o bartender, de um ar muito entediado e aspecto imundo, lhe serviu pouco depois.


Enquanto brincava com o líquido no copo, inevitavelmente sua consciência se voltou ao destino de sua carta.


Sho deveria estar na companhia dos amigos, felizmente. Era um conforto para o próprio Aiba saber que ele não estaria sozinho naquela noite. Apesar de interpretar perfeitamente o papel de homem indestrutível, aprendera a reconhecer a verdadeira natureza do rapaz. Sho era essencialmente dependente, e a presença daqueles que lhe eram queridos era necessária para que seu mundo caminhasse em perfeita ordem. Se essa ordem fosse afetada, ele se desencontrava com uma facilidade quase assustadora...


Masaki não apenas afetara aquela ordem... Ele a destroçara. E não fora necessário muito mais do que uma frase aparentemente inocente para isso. A lembrança daquela noite ainda estava fresca em sua memória...


– Eu quero viajar.


Os olhos de Sho não se ergueram do livro que ele lia com nítida concentração. Sentado numa poltrona, Aiba observava atentamente o namorado, confortavelmente esparramado no sofá do pequeno apartamento que dividiam; a claridade do poste de luz, na rua, invadia a sala através das janelas em arco.


Apesar da certeza de que o outro não compreendera a conotação de suas palavras, esperou pacientemente por sua resposta.


– Viajar... – repetiu ele, pensativo, ainda sem erguer a vista. – Para onde?


– Todo o país. Sempre cogitei essa possibilidade... Mas não passava de um pensamento vago. Agora eu sei que adiei isto demais.


E então, finalmente, Sakurai pareceu notar a sutil irregularidade no tom do caçula. Levantou e afastou o livro, descansando-o sobre uma mesinha de pernas curvas. Com passos lentos, se aproximou do louro, medindo sua expressão. Doçura... Gentileza... Simplicidade... Aqueles adjetivos não eram parte do semblante de Masaki.


– Mas... e a universidade? Vai simplesmente largar?


– Não estou abandonando. – defendeu-se calmamente. – Vou trancar a matrícula. Assim que voltar, retomarei o curso.


– Seus pais?


– Já conversei com eles. Estão de acordo... Se é o que eu preciso agora.


O moreno uniu as sobrancelhas levemente; e então manifestou sua desconfiança.


– Parece que já preparou tudo. Mas esqueceu de um detalhe.


E num arquear de lábios, que se afastava de qualquer significado fundamental de felicidade, Aiba suspirou.


– Não esqueci. Não poderia esquecer. Não precisa se preocupar com nada Sho...


– O que quer dizer?


O brilho da tensão, da espera, cobriu os olhos do moreno. Aiba hesitou. As palavras estacaram em sua língua e sua boca se apertou numa linha rígida.


Sakurai deu um passo em sua direção; postado diante do louro, acocorou-se lentamente, até que suas vistas estivessem na mesma altura. E então, com uma calma que aos poucos começava a abandoná-lo, repetiu a pergunta: – O que quer dizer Masaki?


– Você não está indo comigo Sho. Eu irei sozinho.


Ele permaneceu em silêncio. A ardência que desceu por sua garganta, como uma bebida forte demais, pareceu se demorar em seu estômago. A náusea estonteou seu cérebro; no entanto, sabia que Masaki esperava por uma reação. Afastando aquelas sensações inconvenientes, ele procurou se concentrar... Apesar de não haver motivos para isso. Não queria se concentrar... Somente necessitava obliviar aqueles últimos minutos.


A imutabilidade de Aiba, sua determinação pouco característica – e um tanto grave – o lembraram de seu foco. Ainda assim, não havia muito que questionar. Uma única indagação era suficiente.


– Por quê?


– Sho... não tenha dúvidas sobre nós. Eu o amo, mas... somos tão jovens... Às vezes me pergunto se não me precipitei quanto às minhas escolhas. Quanto a você... Há tanto que eu gostaria de fazer, de ver e descobrir... Mas são descobertas que tenho de fazer por mim mesmo. Não posso lhe dar o que você precisa. Não posso abdicar de mim tão completamente por um amor... Ao menos, não agora. E, em contrapartida, não quero machucá-lo... quero estar contigo.


– Isso é confuso – riu Sakurai, numa tentativa de amenizar o peso daquela conversa. O caçula sorriu em resposta... E ele quis ser capaz de retratar para sempre aquele sorriso em sua mente. Um vestígio de seus instintos lhe sussurrava que não o reveria tão cedo... – Mas... você tem de partir? Realmente? Não temos de continuar morando juntos... Você é livre Masaki.


A mão do louro pousou sobre a lateral de sua face. Fechou os olhos.


– Você se engana. – soou a voz na escuridão macia. Tão macia quanto o tom afável, que amenizava o abatimento de suas forças em se manter firme. – Quando nos comprometemos, a liberdade é o que nos abandona primeiro. E eu não estou seguro de que posso deixá-la ir tão cedo.


Foi uma pressão suave a dos lábios que tocaram os seus. Sem paixão. A dose de consolo foi exata e necessária. Ele ainda estava ali... Essa era a mensagem.


– Você é tão egoísta – Sho sussurrou em seus lábios, num tom tão baixo e dolorido que, alguém abraçado a eles, não poderia escutá-los.


– Eu sou humano.


Sentiu os polegares forçarem suas pálpebras, forçando-o a encará-lo. Aiba sorria suavemente, tão sereno que sua tranqüilidade parecia atingi-lo em ondas.


Absorvendo aquela paz que se desprendia do caçula, ele se permitiu ficar ali, admirando-o enquanto sua mente trabalhava a passos lentos. E então algo surgiu naqueles pensamentos sinuosos, algo ao qual Sho se agarrou como sua fagulha de esperança para que tudo não desmoronasse...


– Vá então. Vá e conheça tudo o que puder. Veja e sinta tudo o que cruzar o seu caminho... Ame... Se apaixone, se desiluda e ame mais uma vez... Mas eu quero algo.


– Sho...


– Me mande postais. – continuou ele, ignorando a apreensão do outro. – Mande um postal de cada cidade que visitar. Escreva sobre os lugares que viu, as pessoas que conheceu... Não poupe detalhes. Eu quero saber. E, acima de tudo, não se esqueça... Eu estarei aqui, esperando sua decisão. Não importa qual for. Um caminho par para nós dois... ou não.


E assim ele fizera.


Partiu. Partiu com a certeza de que estaria deixando um bem precioso; no entanto, ao longo da estrada, passou a recolher tantos tesouros que a culpa não o acompanhou por muito tempo.


Cada destino, cada caminhada, cada tristeza ou felicidade, as grandes e as pequenas belezas, com valores diferentes, mas de pesos iguais... Tudo redigido em postais com detalhes cuidadosos. De nada ele poderia se arrepender.


E era a experiência mais espantosa do mundo. Masaki podia encontrar a luz acompanhando seus olhos em qualquer espelho pelo qual passasse. Estava encantado de um modo que jamais poderia cogitar. Cada limite ultrapassado era um presente que ele rapidamente desembrulhava. Seu fôlego se perdia e lhe era devolvido com uma excitação tão luxuriante quanto um nascimento... E ele abraçava aqueles momentos, prolongando-os o quanto possível.


Ali, naquele pequeno bar, ele considerava que era a primeira pausa em meses em que sentia-se seguro ao olhar para trás e – por que não? – contemplar o futuro. O sul seria sua próxima parada. O frio intenso, que dera as caras naquele ano, nunca era tão forte nas ilhas do sul, pensava entusiasmado.


Aiba nunca estivera tão certo de sua decisão. As mudanças, apesar de assustadoras, sempre tem muito a ensinar. A lição daquela vez era que nunca mais deveria ignorar seus instintos e, acima de tudo, seu coração. Seu coração lhe dissera para partir. Seus instintos lhe deram força para não renunciar. E não havia nostalgia. Ele somente esperava que Sho, mesmo a quilômetros de distância, também estivesse aprendendo tanto quanto ele o fazia. Não queria que sua partida fosse em vão para nenhum dos dois... Contudo, o rapaz não era uma criança. Masaki só rezava para que ele conseguisse levantar por si só enquanto estava longe.


Olhou o relógio em seu pulso. 23hrs20min. E então uma corrente de ar frígido atravessou o espaço. Foi quando o sino, pendurado no alto da porta do bar, avisou para a entrada daquele rapaz.


Além de Aiba – e do próprio bartender – somente um velho de cabelos brancos como algodão ocupava uma mesa, no canto mais afastado. No entanto, as três cabeças se viraram para a figura chamativa que adentrava, um chapéu empoleirado sobre os cabelos. Com passos firmes, o jovem caminhou até o balcão e se sentou a um banco de distância de Masaki. Enquanto retirava as luvas de veludo negro, o barman se aproximou. Pediu uma dose de conhaque, sem nem ao menos erguer a vista.


O louro, levemente curioso quanto aquele estranho arrogante, passou a medi-lo com mais cautela. O casaco longo que ele vestia, de couro macio, estava salpicado com flocos de neve. Quando ele, enfim, retirou o chapéu, pousando-o sobre a bancada juntamente com as luvas, pôde ver seu rosto. O cabelo escuro, na altura das orelhas, caía sobre os olhos audazes, beirando o atrevimento. Por algum motivo, que ele não soube dizer qual, pareceu-lhe que o rapaz estava preparado para um duelo, mesmo que não houvesse nenhum oponente a vista.


A pele era tão branquinha... Como se nunca houvesse conhecido o Sol. Uma delicadeza que combatia com seus modos graves.


O bartender entregou sua bebida, e ele entornou um gole. Uma careta. Um riso por parte de Aiba... E um erro, ele pensou imediatamente quando o rapaz o encarou de soslaio, percebendo sua presença pela primeira vez. As sobrancelhas marcadas se ergueram numa indagação muda e desafiadora. O louro não respondeu... Seu segundo erro.


– Algum problema? – quis saber, se endireitando na cadeira numa postura relaxada, mas que, involuntariamente, se tornava ameaçadora.


Aiba sacudiu a cabeça em negativa. – Nenhum. E... eu só...


– Esqueça. – e foi a vez do rapaz medi-lo por alguns instantes de silêncio. Então um risinho cínico. – O que está fazendo aqui criança? Deveria estar em casa.


– Criança? – indignou-se Aiba, a voz subindo algumas oitavas. – Quem diabo você pensa que é?


– Um adulto. – devolveu o outro, voltando a beber. – Diferentemente de você.


Aiba franziu o cenho, subitamente irritado com o tom insolente do rapaz. Achou melhor simplesmente ignorá-lo, começando a remexer em sua bolsa com o intuito de abafar o calor que subira até suas faces. Contudo, o outro pareceu não compreender o sinal – apesar de Aiba ponderar que ele realmente não se importava.


– Não se supõe que o Natal deveria ser passado em família?


Silêncio. E então uma movimentação.


– Você tem problemas auditivos? – E a voz soou próxima demais. Sobressaltado, não evitou o olhar surpreso ao encontrar o rosto do rapaz ao seu lado. Ele estava confortavelmente sentado no banco que o ladeava, as mãos apoiadas no assento, entre as pernas longas metidas em jeans.


E agora seu aspecto também mudara. Ele exibia um sorriso divertido, seus olhos estavam mais receptivos. Notou que havia uma pinta próxima ao canto dos lábios grossos. – Vai me responder ou vamos passar a meia-noite em silêncio de morte?


Revirou os olhos, mas o outro parecia ser mais insistente e firme do que uma montanha. – Matsumoto Jun. E você é...?


– Aiba Masaki – disse por fim, com um suspiro.


– Estamos progredindo. Isso é bom. Podemos ter uma conversa civilizada agora. Mas não antes de uma bebida. Esse frio está insuportável. – Ele estalou os dedos para chamar a atenção do bartender, que esfregava um pano sujo num prato tediosamente, deixando-o mais sujo ainda. – Mais uma dose de... seja lá o que ele estiver bebendo.


Aiba não evitou o sorriso... Gesto este que foi prontamente percebido pelo rapaz de nome Matsumoto. Uma curiosa centelha tocou os orbes escuros e atentos; por um instante ele nada disse. Continuou absorto em algo que Aiba não podia desvendar, mas que, por algum motivo, deixou-o constrangido. Virou o rosto.


– Você podia responder minha pergunta agora – propôs ele, enquanto o barman derramava a bebida no copo de Masaki.


– Não, não tenho problemas auditivos... – e, diante do suspiro impaciente de Jun, ele abafou uma risada e adicionou: –... E minha família está muito longe para que eu passe o natal com ela.


– Entendo. – assentiu ele. – Amigos?


– Também muito distantes.


– Então você não mora em Tókio?


– Não.


Matsumoto cruzou os braços e, pensativo, passou a alisar o queixo com a ponta dos dedos esguios.


– Se você não mora aqui... se sua família, e nem mesmo seus amigos, moram aqui... o que você está fazendo sozinho, no centro de Tókio, em plena véspera de Natal?


Ele parecia sinceramente incrédulo, ao que Aiba apenas murmurou: – É uma longa história.


– Eu não tenho nenhum compromisso hoje. Estou sozinho, como você. Acho que temos tempo. – argumentou ele, piscando um olho. – Por que não me conta?


Ele estava certo. E, sem muitas opções, o louro viu a si mesmo explanando, resumidamente, todo o caminho que cruzara para chegar até ali. Contou sobre suas dúvidas quanto ao relacionamento com Sakurai, sobre como parecia que fizera a escolha certa no momento errado. Achou graça do modo como os olhos de Jun se alargaram quando dissera “ele” para se referir ao namorado. Porém foi ainda mais divertido como ele tentou disfarçar sua surpresa; somente pôde agradecer por isso.


Narrou-lhe sobre o pedido que Sho lhe fizera, a respeito dos postais, e como a culpa simplesmente se evanescera quando pisou na estrada. Falou também da felicidade extraordinária que estava experimentando, e de como se sentia realizado. Quando terminou, dizendo-lhe que em breve partiria para o sul, Matsumoto balançou a cabeça levemente, imerso na história que acabara de ouvir.


– Ele realmente deve amá-lo, esse tal Sakurai. – concluiu ele, com certa presunção. – Ele quer ter certeza de que você não o esqueça.


– O que quer dizer?


– A cada vez que você escreve, a cada postal que envia, ainda que seja um monólogo, você se preocupa em conversar com ele não é mesmo? Afinal, é o que fazemos numa carta. Contudo, você não pode ter uma resposta, somente imaginar. Isso quer dizer que, de um modo ou de outro, você vai voltar. Um dia, não importa quando. Você vai voltar para saber suas reações. Para saber que ele realmente recebeu suas cartas... Para ter suas respostas.


Perturbado com a lógica daquelas palavras, Aiba apanhou seu copo e tomou a bebida intocada, desviando a vista: – Você tem razão...


– Eu sempre tenho razão. – corrigiu-o Matsumoto, empinando o queixo, verdadeiramente orgulhoso de si.


Aiba bufou, sacudindo a cabeça em negativa.


– Convencido.


– Obrigado.


– É um insulto.


– Prefiro ver como uma característica.


Matsumoto exibiu um largo sorriso, cheio de um súbito bom-humor, que somente deixou Aiba mais perplexo, antes que ele exclamasse, desviando seus pensamentos da rota de ofensas para descrever o rapaz.


– Meia-noite!


O louro consultou o relógio na parede oposta a eles, onde os ponteiros estavam unidos no ponto mais alto. Um meio-sorriso ponteou seus lábios então. Bem, não poderia abraçar sua mãe ou ver o sorriso satisfeito de seu pai por ter a família unida... Não estava com seus amigos e, especialmente, não estava com Sho. Apesar disso, quando ouviu aquelas palavras, vindas daquele que até poucos minutos lhe era um completo estranho, sentiu-se menos nostálgico... Aquele conforto que, até o momento, não lhe era imprescindível, foi como um afago em seu espírito.


– Feliz natal Aiba-san. Espero que em seu próximo a escolha certa coincida com o momento certo... E a companhia certa.


Masaki fechou os olhos suavemente, ainda sorrindo. – Não sei sobre o próximo natal... Não quero saber também. – e abriu as pálpebras. – Mas sei que este está completo do jeito que está.


O rapaz o fitou desconfiado, unindo as sobrancelhas escuras: – Quer dizer que não mudaria nada? Nem mesmo para estar com o tal Sakurai?


Balançou a cabeça lentamente para então apoiar os cotovelos no balcão, o queixo descansando nas mãos. – Escolhas são o que nos fazem... Não nossas habilidades ou nossos pensamentos. Os caminhos que seguimos nem sempre nos levam aonde queremos ir... Mas temos de ser fortes para lidar com o que nos espera na jornada. Mudar algo nessa jornada é o mesmo que dizer que não somos fortes o suficiente para encará-la. Significa ser covarde. E eu não sou assim. Nunca o fui... e não o serei tão cedo.


A quietude contemplativa que os envolveu somente foi quebrada quando uma movimentação no ar acordou Masaki para o sumiço de Matsumoto. Ele girou a cabeça, procurando pelo rapaz, quando o viu no extremo canto do bar reclinado sobre uma curiosa máquina, enorme e envelhecida, como tudo no recinto.


– Matsumoto-san... o que está fazendo? – questionou, quando ele passou a apertar alguns botões pretos e brilhantes como besouros. A estranha máquina emitiu um ruído rouco, como se estivesse voltando à vida após séculos em desuso. Aiba não se surpreenderia se ela explodisse a qualquer segundo.


– Quase pronto e... voilà mon petit. – disse ele, voltando-se para Aiba, satisfeito, ao passo que o louro ergueu uma sobrancelha, sem compreender uma palavra.


Um segundo mais tarde, uma música de um ritmo dançante, americana – e definitivamente antiga, ultimou Masaki – encheu o bar num volume mais alto que os outros dois presentes podiam suportar... O velho, resmungando impropérios sobre os jovens mal-educados do século XXI, levantou-se e desapareceu porta afora. O bartender, farto de clientes desaforados e intrometidos àquela hora da noite, sumiu para além da porta nos fundos do salão.

You can dance

Ev'ry dance with the guy

Who gives you the eye

Let him hold you tight

Você pode dançar

Todas as danças com o cara

Aquele que está te encarando

Deixe-o te abraçar bem forte

– É natal. Temos de trocar presentes... E eu quero lhe dar algo para se lembrar de mim quando estiver com o tal Sakurai. – Explicou ele, andando até Aiba e tomando sua mão, que pendia pela beirada do balcão. E, rindo do modo afetado como ele se referia à Sho, acompanhou-o, apertando aquela mão morna, firme, mas sem deixar de ser gentil em nenhum segundo. – Contudo, não tenho nada aqui além de mim mesmo... Então... uma dança.

You can smile

Ev'ry smile for the man

Who holds your hand

'Neath the pale moonlight.

Você pode sorrir

Todos os sorrisos para o cara

Que segura sua mão

Sob o pálido luar

Estavam no centro do espaço com cheiro de madeira; Matsumoto se achegou, sem esperar sua permissão, e circundou sua cintura; a mão se espalmou na base das costas do louro, trazendo-o para o conforto de seu peito. Masaki sentiu a respiração dele se confundindo com a sua, seu coração pulsando com uma vergonhosa intensidade. O cheiro de seu perfume... Tão vivo e acentuado como a personalidade. Seu olhar... aquele olhar atrevido, sacana, que o hipnotizava a seguir os movimentos de seu corpo quando começaram a se mover.

But don't forget who's taking you home

And in whose arms you're gonna be

So darlin’

save the last dance for me

Mas não esqueça quem vai te levar para casa

E nos braços de quem você estará

Então amor

Guarde a última dança para mim

Os dedos se entrelaçavam, as coxas se tocavam, eles balançavam... Masaki gargalhou alto quando ele ergueu sua mão e passou a girá-lo com relativa velocidade ao redor do espaço; Jun apenas sorria, contagiado pelo som daquela felicidade simples em brincar como uma criança num parquinho. Aquele rapaz chamado Aiba era mesmo admirável... Foi quando ele percebeu o desprezo que tinha por datas comemorativas se estilhaçar, como uma porcelana antiga e frágil, na luz das faces coradas do louro.

Baby

don't you know I love you so?

Can't you feel it when we touch?

I will never ever let you go

I love you oh so much.

Baby

Você não sabe que eu te amo tanto?

Não consegue sentir quando nos tocamos?

Eu nunca te deixarei partir

Oh, eu te amo tanto

As mãos de Masaki se prenderam na nuca do moreno, sentindo o seu quadril se mover conforme aquela cadência tão suave, tão cheia de beleza... Ele não compreendia as palavras, entretanto não era um empecilho para que ele a absorvesse... Aiba também não compreendia o semblante de Matsumoto, compenetrado, como se seus orbes fossem câmeras e ele filmasse aquela cena tão ridiculamente sonhadora com um cuidado especial. Também não compreendia o que sentia, a leveza de seu coração, acompanhando o movimento de seus pés, guiados por Jun. Mas nada disso era preciso.


Ele sentia. Sentia tão nitidamente que poderia estar cego, surdo ou mudo... Parecia-lhe que sua própria pele absorvia as sensações, antes de carregá-las até sua corrente sanguínea, despejando aquele bem-estar diretamente em sua mente narcotizada...

Now listen: You can dance

Go and carry on

'Till the night is gone

And it's time to go

Agora ouça: você pode dançar

Vá e continue

Até a noite acabar

E chegar a hora de partir

Uma aura vermelha... abafada e tão doce... Poderia mantê-la para sempre, pensou Jun. E então, como se alguma entidade superior estivesse rindo de seus pensamentos, Masaki parou. Nada disse por alguns instantes; meramente o observava. Fazia questão de manter o contato, suas mãos unidas no alto, próximas aos ombros.


– Obrigado – agradeceu enfim. – Pela dança e… por estar aqui.


– Que bom que gostou do presente.


– Mas... se eu puder pedir mais alguma coisa... – falou, vacilante, mordendo os lábios e fitando o chão.


– Eu estou de bom humor. Peça antes que eu mude de idéia. – brincou ele, com um sorriso torto charmoso.


O louro esboçou um riso. Sempre modesto, pensou divertido.


– Hoje... também é meu aniversário.

If he asks

If you're all alone

Can he take you home

You must tell him no.

Se ele te perguntar

Se você está só

E se pode te levar para casa

Você deve dizer não.

O rosto de Jun se tingiu de incredulidade. Ele piscou, e então sua cabeça se inclinou levemente para o lado, como se estivesse percebendo algum ruído naquela direção.


– Quer dizer que você sempre ganha presentes duplicados? – Rematou ele, uma ruga se fincando no espaço entre as sobrancelhas.


– Hai... – concordou Aiba. Novamente o silêncio. Jun estava começando a ficar impaciente com aqueles silêncios. E então sua impaciência perdeu lugar para a curiosidade... Percebeu o rubor que começava a dar mostras nas bochechas lisas e claras.


A constatação não demorou a surgir em seu próprio rosto acalorado.

'Cause don't forget who's taking you home

And in whose arms you're gonna be

So darlin'

save the last dance for me.

Pois não esqueça quem vai te levar para casa

E nos braços de quem você estará

Então amor

guarde a última dança para mim

O sorriso torto voltou a tomar seu devido lugar quando Matsumoto beijou o rapaz. Masaki não se deu ao trabalho de medir o tempo... Somente apreciou a boca macia se unir a sua, descobrindo a preciosa intimidade que só os amantes experimentam... Até mesmo os amantes de horizonte.


Ambos sabiam que aquele seria o único beijo. O primeiro. O último... Quando atravessassem a porta a poucos metros de onde estavam, voltariam para suas realidades, para suas vidas separadas. Mas ali, naquele mundo, isolado e cheio de calor, que haviam erigido em pouco menos de uma hora... Seria eterno.


Ainda em seus lábios, como Sho havia feito há tantos meses, porém num tom profundamente exultante, Matsumoto sussurrou as últimas palavras que Aiba ouviria daquela boca...


– Feliz aniversário...



Notas finais
1. Música - Ben E. King, "Save The Last Dance For Me", 1960 *vocês podem ouvir aqui: http://www.youtube.com/watch?v=7GufdDsAGoE ^-^*
2. A tradução que achei estava meio tosca, então eu fiz uma por conta... desculpem se tiver algum erro. o.o
3. Espero que tenham gostado... era pra ser uma multi, mas achei interessante a ideia de converter pra oneshot =^-^=
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!